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Uma conersão

Embora sob um outro ponto de vista, não será menor o interesse oferecido pela evocação seguinte.
Um senhor, que designaremos pelo nome de Georges, farmacêutico numa cidade do Sul, há muito havia perdido o pai, objeto de toda a sua ternura e de profunda veneração. O velho Georges aliava a uma instrução muito vasta todas as qualidades que marcam o homem de bem, posto professasse ideias materialistas. A este respeito o filho partilhava das mesmas ideias, se não ultrapassava as do pai; duvidava de tudo: de Deus, da alma, da vida futura. O espiritismo não se adaptava a tais pensamentos. A leitura do Livro dos Espíritos, entretanto, provocou-lhe uma certa reação, corroborada por uma conversa direta que tivemos com ele. Dizia: “Se meu pai pudesse me responder, eu não duvidaria mais”. Foi, então, que se fez a evocação seguinte, na qual encontramos diversos ensinamentos:

1. Em nome de Deus, Todo Poderoso, Espírito de meu pai, eu lhe peço que se manifeste. O senhor está junto de mim?
—Sim.
2. Porque o senhor não se manifesta diretamente a mim, quando tanto nos amamos?
—Mais tarde.
2. Poderemos nos encontrar um dia?
—Sim, breve.
3. Amar-nos-emos com nesta vida?
—Mais.
4. Em que meio o senhor se acha?
—Sou feliz.
5. O senhor reencarnou ou está errante?
—Errante por pouco tempo.
6. Que sensação experimentou ao deixar o envoltório corporal?
—De perturbação.
7. Quanto tempo durou a perturbação?
—Pouco para mim, muito para você.
8. Pode avaliar a sua duração, de acordo com o nosso modo de contar?
—Dez anos para você, dez minutos para mim.
9. Mas eu não o perdi há tanto tempo. Não há somente quatro meses?
—Se você, como vivo, estivesse em meu lugar, teria sentido aquele tempo.
10. Crê, agora, em um Deus justo e bom?
—Sim.
11. Quando vivo na Terra também acreditava?
—Eu tinha a presciência mas não acreditava.
12. Deus é Todo Poderoso?
—Não subi até Ele, para avaliar o seu poder: só Ele conhece os limites de seu poder, porque só Ele é seu igual.
13. Ele se ocupa com os homens?
—Sim.
14. Seremos punidos ou recompensados conforme nossos atos?
—Se você fizer o mal, sofrerá.
15. Serei recompensado se fizer o bem?
—Avançará em seu caminho.
16. Estou no bom caminho?
—Faça o bem e verá.
17. Creio ser bom; mas seria melhor se um dia o pudesse encontrar, como recompensa.
—Que este pensamento o sustente e o encoraje.
18. Meu filho será como seu avô?
—Desenvolva suas virtudes e extirpe seus vícios.
19. Isto é tão maravilhoso que chego a não crer que nos comunicamos neste momento.
—De onde lhe vem a dúvida?
20. É que, partilhando de suas opiniões filosóficas, fui levado a atribuir tudo à matéria.
—Você vê de noite aquilo que vê de dia?
21. Meu pai, então eu me acho na noite?
—Sim.
22.Que é que o senhor vê de mais maravilhoso?
—Explique-se melhor.
23. Encontrou minha mãe, minha irmã e Ana, a boa Ana?
—Eu as revi.
24. O senhor volta a vê-las quando quiser?
—Sim.
25. É penoso ou agradável que me comunique com o senhor?
—É uma felicidade para mim, se eu lhe puder fazer o bem.
26. Voltando para casa, que poderia fazer para me comunicar com o senhor, já que lhe dá prazer? Serviria para que me conduzisse melhor e me ajudaria a educar os meus filhos?
—Cada vez que um movimento o levar ao bem eu ali estarei; inspirá-lo-ei.
27. Calo-me com receio de o importunar.
—Fale ainda, se quiser.
28. Já que o permite, farei mais algumas perguntas. De que afecção o senhor morreu?
—Minha prova havia chegado a termo.
29. O senhor contraiu o abscesso pulmonar que se manifestou?
—Pouco importa; o corpo nada é; o Espírito é tudo.
30. Qual a natureza da doença que me desperta, tão frequentemente, durante a noite?
—Sabê-lo-á mais tarde.
31. Considero minha afecção grave e queria ainda viver para os meus filhos.
—Ela não o é. O coração do homem é uma máquina de vida; deixe a Natureza agir.
32. Sob que forma o senhor aqui se acha?
—Sob a aparência de minha forma corpórea.
33. Encontra-se num determinado lugar?
—Sim; por detrás de Ermance (a médium).
34. Poderia tornar-se visível?
—Não vale a pena. Vocês teriam medo.
35. O senhor nos vê a todos aqui presentes?
—Sim.
36. Quer dizer alguma coisa a cada um de nós?
—Em que sentido me faz esta pergunta?
37. Do ponto de vista moral.
—De outra vez; por hoje basta.

Atualmente o sr. Georges não só deixou de ser materialista, mas é um dos adeptos mais fervorosos e mais dedicados do Espiritismo, o que faz duplamente feliz, pela confiança que agora tem no futuro e pelo prazer que experimenta em praticar o bem.
Esta evocação, inicialmente muito simples, não é menos notável em muitos aspectos. O caráter do velho Georges reflete-se nas respostas breves e sentenciosas, que estavam em seus hábitos: falava pouco, jamais dizia uma palavra inútil; mas já não é o céptico que fala; reconhece seu erro; seu Espírito é mais livre, mais clarividente, e retrata a unidade e o poder de Deus por estas palavras admiráveis:
“Só Ele é seu igual”.
Ele, que em vida tudo atribuía à matéria,, diz agora: “O corpo nada é; o Espírito é tudo”; e esta outra frase sublime: “Você vê de noite aquilo que vê de dia”? Para o observador atento, tudo tem um alcance; e é assim que, a cada passo, encontra a confirmação das grandes verdades ensinadas pelos Espíritos.

Allan Kardec, Revista Espírita, janeiro de 1858

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O Julgamento Final

Jesus virá sobre as nuvens para julgar os vivos e os mortos. Sim, Deus o enviará, como o envia todos os dias, para dar essa justiça soberana nas planícies imensas do éter.
Ah! Quando São Tiago foi precipitado do alto da torre do templo de Jerusalém, pelos pontífices e pelos fariseus, por ter anunciado, ao povo reunido, essa verdade ensinada pelo Cristo e seus apóstolos, lembrai-vos de que, a essa palavra do justo, a multidão se prosterna exclamando:
Glória a Jesus, filho de Deus, no mais alto dos Céus!
Ele virá sobre as nuvens em terrível reunião plenária: não é para vos dizer, ó Espíritas, que ele venha perpetuamente receber as almas daqueles que entram na erraticidade? Passai à minha direita, diz às suas ovelhas o pastor, vós que bem agistes segundo as vistas de meu Pai, passai à minha direita e subi até ele; quanto a vós que vos deixastes dominar pelas paixões da Terra passai à minha esquerda, estais condenados.
Sim, estais condenados a recomeçar o caminho percorrido, numa nova existência terrestre, até que estejais saciados de matérias e de iniquidades, e que, enfim, tenhais expulsado o impuro que vos domina. Sim, estais condenados; ide e retornai, pois, ao inferno da vida humana, enquanto que vossos irmãos da mão direita vão se lançar para as esferas superiores, de onde as paixões da Terra estão excluídas, até o dia em que entrarão no reino de meu Pai para uma maior purificação.
Sim, Jesus virá julgar os vivos e os mortos; os vivos: os justos, os de sua direita; os mortos: os impuros, os de sua esquerda; e quando as asas empurrarem os justos, a matéria se apoderará ainda dos impuros; e isto, até que estes saiam vencedores dos combates contra a impureza, e se despojem, enfim, para sempre, de suas crisálidas humanas.
Ó Espíritas! Vedes que vossa doutrina é a única que consola, a única que dá a esperança, e não condenando a uma condenação eterna os infelizes que se comportaram mal durante alguns minutos da eternidade; a única, enfim, que prediz o fim verdadeiro da Terra pela elevação gradual dos Espíritos.
Progredi, pois, despojando o velho homem, para entrar na região dos Espíritos amados por Deus.
Erasto, Paris 1861

Revista Espírita, fevereiro de 1868

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Aborto não realizado

A gravidez veio na hora indesejada, lembrava-se Laura. Veio na hora errada e ainda trazia riscos de várias ordens. A saúde debilitada, problemas familiares, o desemprego…
Seu primeiro impulso foi o aborto. Tomou uns chás que, em vez de “resolver”, a debilitaram ainda mais.
Recuperada, buscou uma dessas pessoas que arrancam, ainda no ventre, o chamado problema das mães que não desejam levar adiante a gestação.
Naquele dia, a parteira havia adoecido e faltara.
Laura voltou para casa preocupada, mil situações lhe passavam pela mente.
À noite, deitou-se e custou a adormecer, mas foi vencida pelo sono. No sonho viu um belo jovem pedindo-lhe algo que, na manhã seguinte não soube definir.
Durante todo o dia não conseguiu tirar aquela imagem da mente, de sorte que esqueceu a gravidez.
Na noite seguinte voltou a sonhar com o mesmo jovem, só que acordou com a agradável sensação de tão doce quanto agradável “obrigado”.
Era como se ainda visse seus lábios pronunciando palavras de agradecimento, enquanto de seu coração irradiava uma paz indefinível.
Desistiu do aborto. Enfrentou tudo, superou todos os riscos e saiu vitoriosa…
Hoje, passados 23 anos do episódio, ela ouve consternada seu belo e jovem filho pronunciar, do púlpito da solenidade de sua formatura, ante uma extasiada multidão:
…agradeço, sobretudo à minha mãe, que me alimentou o corpo e o espírito, dando-me não só comida, mas carinho, companhia, amor e, principalmente, vida.
E, olhando-a nos olhos, o filho pronunciou, num tom inconfundível:
– Obrigado!
Ela não teve dúvidas. Foi o mesmo obrigado, doce e agradável de um sonho, há 23 anos…

A mulher que nega o ventre ao filho que Deus lhe confia, nega-se a si mesma a oportunidade de ouvir a cantiga alegre da criança indefesa a rogar-lhe carinho e proteção.
Perde a oportunidade de dar à luz um espírito sedento de evolução, rogando-lhe uma chance de reencarnar, para juntos superarem dificuldades e estreitarem laços de amizade e afeto.
Se você mulher, está passando pela mesma situação de Laura, mire-se no seu exemplo e permita-se ser mãe.
Permita-se sentir, daqui há alguns meses, o agradecimento no olhar do pequenino que lhe roga o calor do colo e uma chance de viver.
Conceda-se a alegria, de daqui há alguns anos ornamentar o pescoço com a joia mais valiosa da face da terra: os bracinhos frágeis da criança, num abraço carinhoso a lhe dizer: obrigado mamãe, por ter me permitido nascer e crescer, e fazer parte desse mundo negado a tantos filhos de Deus.

Equipe de Redação do Momento Espírita, com base em História publicada no Jornal “Caridade” de maio e junho de 1997 pág. 3.