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Espiritualidade

O elogio do operário / The worker’s praise

Página psicografada por Chico Xavier, 1º de maio de 1937.

Às portas do Céu bateram, um dia, um Político, um Soldado e um Operário. Mas, Gabriel, o anjo que na ocasião velava pela tranquilidade do Paraíso, não quis atender-lhes às rogativas, sem previamente consultar o Senhor sobre aquelas três criaturas recém-chegadas da Terra.
Depois de inquiri-las quanto às suas atividades na superfície do mundo, procurou o Mestre, a quem falou humildemente:
—Senhor, um Político, um Soldado e um Operário, vindos da Terra longínqua, desejam receber vossas divinas graças, ansiosos de gozar das felicidades terrestres.
—Gabriel – disse o Salvador – que habilitações trazem do mundo essas almas, para viverem na paz da Casa de Deus? Bem sabes que cada homem edifica, com a sua vida, o seu inferno, ou o seu paraíso… Mas, vamos ao que nos interessa: que fez o Político lá na Terra?
O anjo, bem impressionado com a figura do diplomata, que impetrara os seus bons ofícios, exclamou com algum entusiasmo:
Trata-se de um homem de elevado nível cultural. Suas informações revelaram-me um espírito de gosto refinado no trato da Civilização e das leis. Foi um preclaro estadista, cuja existência decorreu nos bastidores da administração pública e nos torneios eleitorais, onde consumiu todas as suas energias. Em troca de seus labores, os homens lhe tributaram as mais subidas honras nas suas exéquias. Seu cadáver embalsamado, num ataúde de vidro, percorreu duzentas léguas para ficar guardado nos mármores preciosos do Panteão Nacional.
—Mas… – objetou entristecido o Mestre – esse homem teria cumprido as leis que ditava para os outros? Teria observado a prática do bem, a única condição para entrar no Paraíso, absorvido, como se achava, na enganosa volúpia das grandezas terrenas?
—A luta política, Senhor, tomava-lhe todo o tempo – respondeu solícito o anjo -; os tratados jurídicos, as tabelas orçamentárias, as fontes históricas, as questões diplomáticas, os compêndios de ciências sociais, não davam lugar a que ele se integrasse no conhecimento da vossa palavra…
—Entretanto, o meu Evangelho deveria ser a bússola de quantos se colocam na direção da humanidade…
E, como se intimamente lastimasse a situação do infeliz, o Mestre rematou:
—Aqui não há lugar para ele. Não se conquistam as venturas celestes com a riqueza de teorias da Terra. Dir-lhe-ás que retorne ao mundo, a fim de voltar mais tarde ao Paraíso, pela porta do Bem, da Caridade e do Amor.
E o Soldado, que serviços apresenta em favor de sua pretensão?
—Esse – replicou Gabriel – foi um herói na terra em que nasceu. Seus atos de valor e de bravura deram causa a que fosse promovido pelos superiores hierárquicos à posição de chefe das forças militares em operações, na última guerra. Tem o peito coberto de medalhas e de insígnias valiosas, das ordens patrióticas e das legiões de honra; seu nome é lembrado no mundo com
carinhoso respeito. Aos seus funerais compareceram representações de vários países do mundo e inúmeras coletividades acompanharam-lhe as cinzas ilustres, que, envolvidas na bandeira da sua pátria, foram guardadas num majestoso monumento de soberbo carrara.
—Infelizmente – exclamou amargurado o Senhor – o Céu está fechado para os homens dessa natureza. É inacreditável que sejam glorificados no orbe terrestre aqueles que matam a pretexto de patriotismo. Nunca pus no verbo dos meus enviados, no Planeta, outra lei que não fosse aquela do – “amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a vós mesmos”. Nunca houve uma determinação divina para que os homens se separassem entre pátrias e bandeiras.
De sul a norte, do oriente ao ocidente, todos os Espíritos encarnados são filhos de Deus, e qualquer deles pode ser meu discípulo. Os homens que semeiam a ruína e a destruição não podem participar da tranquilidade do Paraíso.
E o Operário, que fatos lhe justificam a presença nas portas do Céu?
—Esse – elucidou Gabriel – quase nada tem a contar dos seus amargurados dias terrestres. Os sopros frios da adversidade, em toda a existência, perseguiram-no através das estradas do destino, e a fé em vossa complacência e misericórdia lhe foi sempre a única âncora de salvação, no oceano de lágrimas por onde passava o barco miserável da sua vida. Trabalhou com o esforço poderoso das máquinas e foi colaborador desconhecido do bem-estar dos afortunados da Terra. Nunca recebeu compensação digna do seu trabalho, e consumiu-se no holocausto à coletividade e à família… Entretanto, Senhor, ninguém conheceu as tempestades de lágrimas de seu coração afetuoso e sensível, nem as dificuldades dolorosas dos seus dias atormentados, no mundo. Viveu com a fé, morreu com a esperança e o seu corpo foi recolhido pela caridade de mãos piedosas e compassivas que o abrigaram na sepultura anônima dos desgraçados…
—O Céu pertence a esse herói, Gabriel – disse o Mestre alegremente. – Suas esperanças colocadas no meu amor são sementes benditas que frutificarão na percentagem de mil por um.
Se os homens o ignoram, o Céu deve conhecer os seus heroísmos obscuros e os seus sacrifícios nobilitantes. Enquanto o Político organizava leis que não cumpria, ele se imolava no desempenho dos deveres santificadores. Enquanto o Soldado destruía irmãos, seus braços faziam o milagre do progresso e do bem-estar da Humanidade. Enquanto os despojos dos primeiros foram encerrados nos mármores frios e imponentes das falsas homenagens da Terra, seu corpo de lutador se dissolveu no solo, acentuando os perfumes da Natureza e enriquecendo o grão que alimenta as aves alegres, na mesma harmonia eterna e doce que regeu os sentimentos do seu coração e os atos de seu Espírito. Esse, Gabriel, faz parte dos heróis do Céu, que a Terra nunca quis conhecer.
E, enquanto o Político e o soldado voltavam ao caminho das reencarnações dolorosas da Terra, o Operário de Deus se cobria com as claridades do Infinito, buscando outras possibilidades de trabalho para o seu amor e para o se devotamento.

Humberto de Campos (Irmão X), do livro Cronicas de Além-túmulo.

Page psychographed by Chico Xavier, May 1, 1937.

One day, at the doors of Heaven, a Politician, a Soldier and a Worker knocked. But Gabriel, the angel who at the time was watching over the tranquility of Paradise, did not want to respond to their requests without first consulting the Lord about those three creatures who had just arrived from Earth.
After inquiring about their activities on the world’s surface, he sought out the Master, to whom he humbly spoke:
—Sir, a Politician, a Soldier and a Worker, coming from a faraway Earth, wish to receive your divine graces, eager to enjoy earthly happiness.
—Gabriel – said the Savior – what qualifications do these souls bring from the world, to live in the peace of the House of God? You know very well that each man builds, with his life, his hell, or his paradise… But, let’s get to what interests us: what did the Politician do there on Earth?
The angel, very impressed with the figure of the diplomat, who had impeached his good offices, exclaimed with some enthusiasm:
He is a man of high cultural level. Information from him revealed to me a spirit of refined taste in dealing with Civilization and laws. He was a distinguished statesman, whose existence took place behind the scenes of public administration and in electoral tournaments, where he consumed all his energies. In exchange for his labors, men paid him the highest honors at his funeral. His embalmed corpse, in a glass coffin, traveled two hundred leagues to be kept in the precious marble of the National Pantheon.
—But… – objected the Master sadly – would that man have complied with the laws he dictated to others? Would he have observed the practice of good, the only condition for entering Paradise, absorbed, as he thought, in the deceptive voluptuousness of earthly greatness?
—The political struggle, Sir, took up all his time – the angel replied solicitously; legal treaties, budget tables, historical sources, diplomatic issues, social science compendiums, did not allow it to be integrated into the knowledge of your word…
—However, my Gospel should be the compass of those who place themselves in the direction of humanity…
And, as if he intimately regretted the situation of the unfortunate man, the Master concluded:
“There is no place for him here. Heavenly bliss is not achieved with the richness of theories on Earth. You will tell him to return to the world, in order to return later to Paradise, through the door of Good, Charity and Love.
And the Soldier, what services does he present in favor of his claim?
“That,” replied Gabriel, “was a hero in the land where he was born.” His acts of valor and bravery caused him to be promoted by hierarchical superiors to the position of head of the military forces in operations, in the last war. His chest is covered with medals and valuable insignia of patriotic orders and legions of honour; his name is remembered in the world with loving respect. Representatives from various countries around the world attended his funeral and countless collectivities accompanied his illustrious ashes, which, wrapped in the flag of their homeland, were kept in a majestic monument of superb carrara.
—Unfortunately – exclaimed the Lord bitterly – Heaven is closed to men of that nature. It is unbelievable that those who kill under the pretext of patriotism are glorified in the terrestrial orb. I never put in the verb of my envoys, on the Planet, any other law than that of – “love God above all things and your neighbor as yourself”. There was never a divine determination for men to be separated between homelands and flags.
From south to north, from east to west, all incarnated spirits are children of God, and any of them can be my disciple. Men who sow ruin and destruction cannot share in the tranquility of Paradise.
And the Worker, what facts justify his presence at the gates of Heaven?
—That one — explained Gabriel — has almost nothing to tell of his bitter terrestrial days. The cold breaths of adversity, throughout existence, pursued him along the roads of destiny, and faith in your complacency and mercy was always his only anchor of salvation, in the ocean of tears through which the miserable boat of his life passed. . He worked with the mighty effort of machines and was an unknown contributor to the welfare of Earth’s fortunate ones. He never received compensation worthy of his work, and consumed himself in the holocaust to the community and family… However, Lord, no one knew the storms of tears from your affectionate and sensitive heart, nor the painful difficulties of your tormented days, in the world. He lived with faith, died with hope and his body was collected by the charity of pious and compassionate hands that sheltered him in the anonymous tomb of the unfortunate…
“Heaven belongs to that hero, Gabriel,” said the Master cheerfully. – Your hopes placed in my love are blessed seeds that will bear fruit in the percentage of a thousand for one.
If men ignore him, Heaven must know his obscure heroisms and his ennobling sacrifices. While the Politician organized laws that he did not comply with, he immolated himself in the performance of sanctifying duties. While the Soldier destroyed brothers, his arms performed the miracle of progress and the well-being of Humanity. While the remains of the former were enclosed in the cold and imposing marble of Earth’s false tributes, his fighter’s body dissolved in the soil, accentuating the perfumes of Nature and enriching the grain that feeds the happy birds, in the same eternal and sweet harmony that ruled the feelings of your heart and the acts of your Spirit. This one, Gabriel, is one of the heroes of Heaven that Earth never wanted to know.
And, while the Politician and the soldier returned to the path of painful reincarnations on Earth, the Worker of God covered himself with the brightness of the Infinite, seeking other possibilities of work for his love and for his devotion.

Humberto de Campos (Brother X), from the book Chronicles from Beyond the Tomb.

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