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Espiritualidade

A escola / The school

Espírito Demétrio Nunes Ribeiro do livro Falando à Terra. Página recebida por Chico Xavier, em 1951.

Muita caridade se pratica realmente na Terra, como lançamento de alicerces à nossa felicidade futura.
Há quem levante valiosos monumentos de pedra para acolher os famintos da estrada, saciando-lhes a fome e vestindo-lhes o corpo.
Quantas vezes temos vertido lágrimas ao pé do enfermo abandonado à própria sorte? Em quantas ocasiões a indignação nos assoma à boca, diante do sofrimento de uma criancinha desprezada?
Em razão disto, comumente, a prece de gratidão emerge para nossa alegria, quando contemplamos as casas de amor fraterno, erguidas pela beneficência, nas grandes e nas pequenas cidades, oferecendo uma pausa ou um ponto final à dura miséria.
Perante o moribundo sem família, que haja encontrado um teto, ou diante do menino infeliz, que se regozija com o seio materno que lhe faltava, faz-se em nossa alma o grande e intraduzível silêncio do júbilo, que se não exterioriza em palavras.
O infortúnio do próximo é sempre a nossa infelicidade provável.
A dor é, como o incêndio, suscetível de transferir-se da habitação do vizinho para a nossa casa.
Atentos em semelhante realidade, somos constrangidos a reconhecer que qualquer espécie de benemerência exalta o gênero humano e santifica-o, por fazer-nos mais confiantes na virtude e mais seguros de nossa vitória final no bem.
O Criador como que se revela sempre mais sábio, mais vivo e mais abundante de graças nos mínimos acontecimentos em que a bondade da criatura se manifesta.
Seja amparando o velho mirrado, seja insuflando coragem ao triste, ou abrigando o órfão, ou pensando as feridas de um corpo em chaga, o coração que ajuda é invariavelmente um foco de luz cujo brilho se irradia em ascensão para os mais altos céus.
Mas uma caridade existe, mais extensa e menos visível, mais corajosa e menos exercida, que nos pede concurso decisivo para a melhoria substancial da paisagem humana.
É a caridade daquele que ensina.
A Terra de todos os séculos sofre a flagelação de dois grandes males. Um deles é a miséria. O outro, e o maior, é a ignorância.
É a ignorância a magia negra de todos os infortúnios. Ao seu grosso tacão de trevas, o rico esconde o ouro destinado à prosperidade, e o pobre se envenena com o desespero, eliminando as possibilidades resultantes do trabalho.
Pela ignorância, os homens se julgam senhores absolutos do latifúndio terrestre, que lhes não pertence, arruinando-se em guerras de extermínio; o bom se faz ameaçado pela crueldade esmagadora, o mau se torna pior; a evolução de alguns estaciona com o manifesto atraso de muitos, e a vida, que é sempre magnífico patrimônio de recursos para a sublimação, se vê assediada pela discórdia e pela ira, pela ociosidade e pela indigência.
Na rede da ignorância, o homem complica todos os problemas do seu destino, por ela contribui para as aflições alheias e com ela se arroja aos abismos da dor e se entrega às surpresas do tempo.
Por este motivo, se o orfanato ou o asilo são casas abençoadas do agasalho e do pão, a escola será, em todos os seus graus, um templo da luz divina.
O pão mantém a carne perecedoura.
A luz santifica o espírito eterno.
Não bastará disciplinar as maneiras do homem adulto, como quem submete animais inteligentes.
A domesticação reclama apenas um braço firme, uma vergasta e uma voz autoritária, que não hesitem na aplicação da força corretiva.
Bom é corrigir. Melhor, porém, é educar.
A retificação rude, não raro, produz o temor destrutivo. O aperfeiçoamento suave e persuasivo gera sempre o amor edificante.
A ignorância necessita de muito esforço e sacrifício para deixar suas presas.
Quem se consagre ao mistér de auxiliar deve dispor-se a sofrer.
O exemplo é a força mais contagiosa do mundo. Por esta razão, quem conserve hábitos dignos, quem se devote ao dever bem cumprido, quem fale ou escreva para o bem, combate a ignorância na posição de soldado legítimo do progresso.
Semelhantes benefícios, no entanto, precisam da sagrada iniciação com o ato de alfabetizar.
Ensinar a ler e elevar o padrão mental de quem lê constituem obras veneráveis de caridade.
Descerremos a espessa cortina de sombras que retém o espírito – ninfa divina – no casulo da inércia.
Os que trabalham em favor das garantias públicas, se quiserem alcançar, efetivamente, as realizações a que se propõem, não podem esquecer, em tempo algum, a instrução e a educação.
É por elas e com elas que as nações sobrevivem no turbilhão dos acontecimentos que agitam os séculos. À claridade que despendem, extinguem-se os pruridos de hegemonia que desencadeiam os conflitos civis e internacionais, fenece a agressão, desaparece o ódio, apaga-se o incêndio da revolta.
Depois da morte, reconhecemos que todas as atividades do homem, por mais nobres, terão sido vãs, ou, mesmo, se anulam, caso não se hajam empenhado contra o obscurantismo intelectual, próprio ou alheio.
Pela conquista do ouro, quase sempre acordamos velhos monstros do egoísmo que jazem adormecidos dentro da alma.
Pela ascensão ao poder político, não raro, a massa enlouquece no delírio da vaidade.
Pelo abuso nos prazeres físicos, frequentemente o homem se equipara ao bruto.
Sem a escola, somente liberamos os instintos inferiores da personalidade ou da multidão, quando pretendemos libertar-lhes a consciência.
Educando e educando-se, o espírito penetra a essência da vida, compreende a lei do uso e elege o equilíbrio por norma de suas menores manifestações.
Grande é a tarefa do pão, que gera o reconhecimento e a simpatia; entretanto, muito maior é o ministério do abecedário, que opera o divino milagre da luz, estabelecendo a comunhão magnética entre a inteligência do aprendiz de hoje e a mente do instrutor que viveu há milênios.
Cultura e, sobretudo, esclarecimento, são armas pacíficas contra a discórdia.
Abramos escolas e o canhão se recolherá ao museu.
Se cada criatura que sabe ler alfabetizasse uma só das outras que desconhecem a sublime função do livro, a regeneração do mundo concretizar-se-ia em breve tempo.
Jesus desempenhou o mais alto apostolado da Terra sem uma cátedra de academia, mas não se projetou nos séculos sem as letras sagradas do Evangelho.
É preciso ler para saber pensar e compreender.
Por esta razão expressiva, o Cristo, que consolou almas-aflitas e curou corpos doentes, que patrocinou a causa dos sofredores e construiu caminhos para a salvação das almas nos continentes infinitos da vida, não se afirmou como sendo restaurador ou médico, advogado ou engenheiro, mas aceitou o título de Mestre e nele se firmou, por universal consagração.
Fortaleçamos a escola, pois.

DEMÉTRIO NUNES RIBEIRO (1931) — Distinto escritor e político brasileiro. Professor, jornalista e engenheiro. Ardoroso propagandista dos ideais republicanos, chegando a fazer parte do governo provisório da República.

Spirit Demétrio Nunes Ribeiro from the book Falando à Terra. Page received by Chico Xavier, in 1951.

Much charity is actually practiced on Earth, as the laying of foundations for our future happiness.
There are those who build valuable stone monuments to welcome the hungry on the road, satisfying their hunger and clothing their bodies.
How many times have we shed tears at the foot of the sick man abandoned to his fate? On how many occasions does indignation come to our lips, faced with the suffering of a neglected little child?
For this reason, commonly, the prayer of gratitude emerges to our joy, when we contemplate the houses of fraternal love, erected by charity, in large and small cities, offering a break or an end to the harsh misery.
Before the dying man without a family, who has found a roof over his head, or before the unhappy boy, who rejoices in the mother’s breast that he was missing, there is in our soul the great and untranslatable silence of jubilation, which is not expressed in words.
The misfortune of others is always our probable misfortune.
Pain is, like fire, likely to transfer itself from the neighbor’s dwelling to our own.
Attentive to such a reality, we are constrained to recognize that any kind of benevolence exalts the human race and sanctifies it, by making us more confident in virtue and more sure of our final victory in goodness.
The Creator, as it were, always reveals himself to be wiser, more alive and more abundant in graces in the smallest events in which the goodness of the creature is manifested.
Whether supporting the withered old man, or giving courage to the sad, or sheltering the orphan, or caring for the wounds of a wounded body, the heart that helps is invariably a focus of light whose brightness radiates upward to the highest heavens.
But there is a charity, more extensive and less visible, more courageous and less exercised, which asks us to decisively contribute to the substantial improvement of the human landscape.
It is the charity of the one who teaches.
The Earth of all centuries suffers the scourge of two great evils. One of them is misery. The other, and the greatest, is ignorance.
Ignorance is the black magic of all misfortunes. At its thick heel of darkness, the rich hide the gold destined for prosperity, and the poor poison themselves with despair, eliminating the possibilities resulting from work.
Through ignorance, men consider themselves absolute masters of the terrestrial land, which does not belong to them, ruining themselves in wars of extermination; the good is threatened by overwhelming cruelty, the bad becomes worse; the evolution of some stops with the manifest backwardness of many, and life, which is always a magnificent patrimony of resources for sublimation, finds itself besieged by discord and anger, by idleness and indigence.
In the network of ignorance, man complicates all the problems of his destiny, through it he contributes to the afflictions of others and with it he throws himself into the abyss of pain and surrenders to the surprises of time.
For this reason, if the orphanage or asylum are blessed houses of clothing and bread, the school will be, in all its degrees, a temple of divine light.
Bread keeps the flesh from perishing.
Light sanctifies the eternal spirit.
It will not suffice to discipline the manners of an adult man, as one who subjects intelligent animals.
Domestication only requires a firm arm, a cane and an authoritative voice that does not hesitate to apply corrective force.
It’s good to fix. Better, however, is to educate.
Rude rectification often produces destructive fear. Smooth, persuasive improvement always breeds uplifting love.
Ignorance needs a lot of effort and sacrifice to leave its fangs.
Whoever devotes himself to the mister of helping must be willing to suffer.
Example is the most contagious force in the world. For this reason, whoever preserves dignified habits, who devotes himself to a well-fulfilled duty, who speaks or writes for good, fights ignorance in the position of legitimate soldier of progress.
Similar benefits, however, need the sacred initiation with the act of literacy.
Teaching to read and raising the mental standard of the reader are venerable works of charity.
We will descend the thick curtain of shadows that keep the spirit – divine nymph – in the cocoon of inertia.
Those who work in favor of public guarantees, if they want to effectively achieve the achievements they propose, cannot forget, at any time, instruction and education.
It is through them and with them that nations survive in the turmoil of events that shake the centuries. With the light they provide, the itching of hegemony that triggers civil and international conflicts is extinguished, aggression withers, hatred disappears, the fire of revolt is extinguished.
After death, we recognize that all man’s activities, however noble, will have been in vain, or even nullified, if they have not committed themselves against intellectual obscurantism, one’s own or others.
By conquering gold, we almost always wake up old monsters of selfishness that lie asleep within the soul.
Due to the ascension to political power, not infrequently, the mass goes mad in the delirium of vanity.
By the abuse of physical pleasures, man often equates himself with the brute.
Without the school, we only liberate the inferior instincts of the personality or of the crowd, when we intend to liberate their conscience.
Educating and educating itself, the spirit penetrates the essence of life, understands the law of use and chooses the balance as a rule of its smallest manifestations.
Great is the task of bread, which generates recognition and sympathy; however, much greater is the ministry of the alphabet, which operates the divine miracle of light, establishing the magnetic communion between the intelligence of today’s apprentice and the mind of the instructor who lived millennia ago.
Culture and, above all, enlightenment, are peaceful weapons against discord.
Let’s open schools and the cannon will retire to the museum. If each creature that knows how to read literate one of the others who are unaware of the sublime function of the book, the regeneration of the world would materialize in a short time.
Jesus performed the highest apostolate on Earth without an academy chair, but he did not project himself in the centuries without the sacred letters of the Gospel.
You have to read to know how to think and understand.
For this expressive reason, the Christ, who consoled afflicted souls and healed sick bodies, who sponsored the cause of the sufferers and built paths for the salvation of souls in the infinite continents of life, did not claim to be a restorer or a doctor, a lawyer or an engineer, but he accepted the title of Master and established himself in it, by universal consecration.
Let’s strengthen the school, then.

DEMÉTRIO NUNES RIBEIRO (1931) — Distinguished Brazilian writer and politician. Professor, journalist and engineer. An ardent propagandist of republican ideals, he became part of the provisional government of the Republic.

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