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Espiritualidade

Robinson Crusoé Espírita

Lê-se na página 161 (edição ilustrada por Granville):

“Esses pensamentos me inspiraram uma tristeza que durou bastante, mas, enfim, tomaram outra direção; senti quanto devia de reconhecimento ao céu, que me impedira de entregar-me a um perigo, cuja existência eu ignorava. O caso fez nascer em mim uma reflexão, que já me tinha vindo algumas vezes, desde que havia reconhecido quanto, em todos os perigos da vida, a Providência mostra sua bondade por disposições cuja finalidade não compreendemos. Com efeito, muitas vezes saímos dos maiores perigos por vias maravilhosas; muitas vezes um impulso secreto nos faz decidir, de repente, num momento de grave incerteza, a tomar tal caminho e não outro, que nos teria conduzido à nossa perda.

“Tomei como lei jamais resistir a essas vozes misteriosas, que nos convidam a tomar tal partido, a fazer ou não fazer tal coisa, embora nenhuma razão apoie esse impulso secreto. Eu poderia citar mais de um exemplo, onde o acatamento a semelhantes avisos teve pleno sucesso, sobretudo na última parte de minha estada nessa ilha infeliz, sem contar muitas outras ocasiões que me devem ter escapado e às quais eu teria prestado atenção, se desde logo meus olhos se tivessem aberto sobre este ponto. Mas nunca é tarde demais para ser prudente, e aconselho a todos os homens refletidos, cuja existência, como a minha, estivesse submetida a acidentes extraordinários, mesmo às vicissitudes mais comuns, a jamais negligenciarem esses avisos íntimos da Providência, seja qual for a inteligência invisível que no-los transmite.”

Na página 284:

“Muitas vezes tinha ouvido pessoas muito sensatas dizerem que tudo o que se conta dos fantasmas e das aparições se explica pela força da imaginação; que jamais um Espírito apareceu a quem quer que fosse; mas que, pensando assiduamente nos que perdemos, eles se tornam de tal modo presentes ao pensamento que, em certas circunstâncias, julgamos vê-los, falar-lhes, ouvir suas respostas, e que tudo isto não passa de uma ilusão, uma sombra, uma lembrança.

“Por mim, não posso dizer se atualmente existem aparições verdadeiras, espectros, pessoas mortas que vêm errar pelo mundo, ou se as histórias que contam sobre tais fatos se fundam apenas em visões de cérebros doentes, de imaginações exaltadas e desordenadas; mas sei que a minha chegou a tal ponto de excitação, lançou-me em tal excesso de vapores fantásticos – não importa que nome lhe queiram dar – que por vezes julgava estar em minha ilha, em meu velho castelo nos confins da mata; via meu Espanhol, o pai de Sexta-feira e os marinheiros condenados que eu tinha deixado nessas paragens; julgava mesmo conversar com eles, e embora bem desperto, olhava-os fixamente, como se estivessem em minha frente. Isto aconteceu muitas vezes para me amedrontar. Uma vez, em meu sonho, o primeiro Espanhol e o velho selvagem me contaram, em termos tão naturais e tão enérgicos as maldades dos três marinheiros piratas, o que de fato surpreendia. Disseram-me como esses homens perversos tinham tentado assassinar os espanhóis, e como em seguida tinham queimado todas as suas provisões, com a intenção de os fazer morrer de fome. E este fato, que então eu não podia saber, e que era verdadeiro, foi-me mostrado tão claramente por minha imaginação, que fiquei convencido de sua realidade. Acreditei-o mesmo na continuação desse sonho. Escutei as queixas do Espanhol com profunda emoção; fiz vir os três culpados diante de mim e os condenei à forca. Ver-se-á, em seu lugar, o que havia de exato no sonho. Mas como tais fatos me foram revelados? Por que secreta comunicação dos Espíritos invisíveis me tinham eles trazido? É o que não posso explicar. Nem tudo era literalmente certo; mas os pontos principais eram conforme a realidade, e a conduta infame desses três celerados endurecidos tinha ido além do que se podia supor. Meu sonho, a esse respeito, tinha muita semelhança com os fatos. Além disso, quando me achei na ilha, quis puni-los muito severamente; e se os tivesse mandado enforcar, eu teria sido justificado pelas leis divinas e humanas.”

Na página 289:

“Nada demonstra mais claramente a realidade de uma vida futura e de um mundo invisível que o concurso de causas secundárias com certas ideias que formamos interiormente, sem ter recebido nem dado a seu respeito nenhuma comunicação humana.”

Revista Espírita, Março de 1867.

A continuar.

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