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Espiritualidade

Um homem do mundo

Que Sidônio Gonçalves era homem inteligente não havia como negar. Cuidava de todos os interesses da vida terrena com invulgar mestria. Sua capacidade inventiva, na zona do ganho financeiro, era invejável. De longe, cercava negócios lucrativos. Identificava os fatores de ordem econômica, usando tão grande tirocínio que as suas contas eram sempre as de multiplicar.

E dava prazer vê-lo, nas conversações evangélicas, junto aos colegas de trabalho espiritista. Revelava surpreendente espontaneidade nos conceitos felizes. Não chegava a comprometer-se na tribuna. Mas fazia profissão de fé na palestra brilhante e macia.

Os amigos espirituais, observando-lhe a acuidade intelectual, tudo faziam por chamá-lo ao desbravamento de caminhos para a esfera mais alta, mobilizando recursos indiretos.

Sidônio era homem admirável no jogo das aquisições transitórias. Que não faria se aplicasse a mente às propriedades eternas do espírito?

Em razão disso, congregaram-se parentes próximos e remotos, no “outro mundo”, a fim de lhe soerguerem o padrão íntimo.

Crivaram-no de mensagens consoladoras e elevadas. Fizeram-lhe nas mãos, por intermédio de valiosos amigos, centenas de livros notáveis e avisos santificantes. Devia ser bom e útil, valendo-se da vida terrena para iluminar-se.

Sidônio, porém, fosse nos salões ou nas ruas, esquivava-se, gentilmente, ao serviço, comentando:
—Quem sou, meus amigos? Sou um homem do mundo, atolado em negócios materiais.
Não estou preparado em face da sementeira divina.
Os benfeitores do Além, contudo, não repousavam. Gonçalves era chamado ao Reino do Senhor, através de mil modos. Da linha de conhecimento a que chegara, entretanto, descia sempre, incapaz do impulso de elevação.

Se era convidado a visitar doentes, sua resposta era clara:
—Quem sou eu? Nada tenho para dar. Além disso, sinto-me inabilitado para socorrer enfermos. Tenho os nervos em pandarecos.
Quando algum companheiro, inspirado pelos Espíritos benevolentes, vinha rogar-lhe o concurso na direção de algum centro de caridade, replicava, de pronto:
—Eu? Que pensam de mim? Sou indigno de tal responsabilidade. Minha presença complicaria as questões, em invés de resolvê-las.

De outras vezes, irmãos de luta, nas mesmas circunstâncias, solicitavam-lhe o empréstimo do nome para o serviço de beneficência cristã, mas Sidônio respondia, implacável:
—Nada disto! Quem sou eu? Não tenho valor algum e a opinião pública jamais me perdoaria.
Substituam-me, porque, de fato, não sirvo…

Continuava frequentando as reuniões evangélicas e prosseguiam os apóstolos da espiritualidade acenando-lhe ao coração.

Sugeriram-lhe, certo dia, o desenvolvimento mediúnico, em benefício dos infortunados. O escolhido, no entanto, repeliu com firmeza:
—Que péssima lembrança! — exclamou melindrado — tenho de viver muitos séculos, antes de tal cometimento. Sou um homem do mundo, inibido de partilhar de ministério como esse…
As entidades amigas tentaram, então, situar-lhe o concurso num lactário. Quando algumas senhoras, orientadas por trabalhadores desencarnados, lhe trouxeram o plano, Gonçalves explodiu:
—Eu? Tratar de órfãos abandonados? Que ideia infeliz! Procurem outra pessoa…
E esfregando as mãos, espantadiço, acentuava o estribilho:
—Sou um homem do mundo…
Os círculos superiores buscaram, então, localizar-lhe o serviço num asilo de velhos, para que a sua mente, através da assistência fraternal, conseguisse algum acesso a regiões de pensamentos mais nobres. Sidônio necessitava acender a própria luz.

As possibilidades que detinha estavam prestes a extinguir. A existência curta na Terra já lhe impunha o entardecer. O interessado na bênção, contudo, recusou-a. Registrando o apelo que se lhe dirigia à cooperação, anunciou sem tergiversar:
—Absolutamente! Não aceito a incumbência!
E redizia:
—Quem sou eu?…
Por fim, os Missionários de Cima recordaram-lhe a oportunidade de amparar alguns loucos, relegados ao hospício. O colaborador retardatário poderia fazer muito ainda.
Ajudaria companheiros devotados ao bem e salvaria vários doentes. Todavia, em face do novo convite, esperneou, negou e fugiu.

Veio, porém, a hora da partida e Gonçalves, realmente, experimentou o coração vazio e angustiado. Nada mais fizera que algemar-se aos interesses efêmeros e, sem o veículo de carne, não sabia como utilizar a enormidade do tempo, além-túmulo.

Via-se aflito, sem equilíbrio e sem luz.

Depois de longas e difíceis peregrinações pelas vias da incompreensão e do sofrimento, foi recebido por dedicado mensageiro celeste, que lhe atendeu as rogativas, tocadas de pranto.

Sidônio ajoelhou-se.

A frente do sublime missionário e envolvido em seu magnetismo inundado de amor, os olhos se lhe abriam… Era o retorno à claridade bendita.

Mãos estendidas e trêmulas, interpelou o emissário, que não se mostrava disposto a ouvi-lo, por muito tempo, em virtude das obrigações que o reclamavam a outros lugares:
—Mensageiro do Céu — implorou comovedoramente –, valei-me por quem sois! Sempre guardei muita fé na Providência Divina, procurei as reuniões edificantes em que os Espíritos Bons nos ajudavam, fui um crente e deixei o corpo grosseiro, esperando a admissão nas Esferas Felizes.

Ante o embaixador silencioso, repetia, inquieto:
—Não me conheceis, porventura? Será possível seja eu agora desfavorecido pelos protetores aos quais recorri?
O preposto de Jesus, estampando indisfarçável tristeza na fisionomia calma, falou:
—Conheço-o bem. Todas as vezes que lhe enviávamos um apelo de serviço, sua mente
dava-se pressa em perguntar pela própria identidade.
—Sim, sim… — gaguejou Sidônio, extremamente desapontado — mas refere-se – efetivamente a mim? Sabeis, acaso, meu nome?
—Como não? — esclareceu a entidade angélica — você é um homem do mundo… quando modificar a sua direção, transferindo sua alma de residência, procure-nos… Estaremos prontos a atender…
Desviou-se o emissário seguindo outra rota e, tornando à sombra, Gonçalves, de coração apresso, passou a recordar…

Irmão X, do livro Luz Acima psicografado por Chico Xavier, em 1947.

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