Escolher mal o meu momento sempre foi uma das minhas contínuas inabilidades; e vir neste dia, em meio a esta numerosa reunião de Espíritos e de encarnados, é realmente um ato de audácia, de que só a minha timidez pode ser capaz. Mas vejo em vós tanta bondade, doçura e amenidade; sinto tão bem que em cada um de vós posso encontrar um coração amante, compassivo, e sendo a indulgência a menor das qualidades que animam os vossos corações, a despeito de minha audácia, não me perturbo e conservo toda a presença de espírito que por vezes me falta, em circunstâncias menos importantes.
Mas, perguntareis, que vem então fazer, com sua verbosidade insinuante, esse desconhecido que, em vez e lugar de instrutor, vem monopolizar um médium útil? Quanto ao presente tendes razão; por isso me apresso em dar a conhecer meu desígnio, para não me apropriar por muito tempo de um lugar que usurpo.
Numa passagem do discurso hoje pronunciado por vosso presidente, uma reflexão vibrou-me ao ouvido, como só uma verdade pode vibrar e, confundido na multidão de Espíritos atentos, de súbito pus-me a descoberto. Ainda fui severamente julgado por uma imensidade de Espíritos que, baseando-se em suas recordações e na reputação de uma apreciação tida em outros tempos, subitamente reconheceram em mim o misantropo selvagem, o urso da civilização, o austero crítico das instituições em desacordo com seu próprio raciocínio. Ai! como um erro faz sofrer e há quanto tempo dura o malfeito às massas pela tola pretensão de um orgulhoso da humildade, de um louco do sentimento!
Sim, tendes razão: o isolamento em matéria religiosa e social não pode engendrar senão o egoísmo e, sem que muitas vezes dele se dê conta, o homem torna-se misantropo, deixando que seu egoísmo o domine. O recolhimento, produzido pelo efeito do silêncio grandioso da Natureza falando à alma, é útil, mas a sua utilidade não pode produzir seus frutos senão quando o ser que ouve a Natureza falar à sua alma, relata aos homens a verdade de sua moral; mas, se aquele que sente, em face da criação, sua alma levantar voo para as regiões de uma era pura e virtuosa, não se serve de suas sensações, ao despertar, no meio das instituições de sua época, senão para censurar os abusos que a sua natureza sensitiva lhe exagera, porque ela sofre com isto, se ele não encontra, para corrigir os erros dos humanos, senão fel e ressentimento, sem lhes mostrar docemente o verdadeiro caminho, tal qual o descobriu na própria Natureza, oh! então, infeliz dele, se só se servir de sua inteligência para açoitar, em vez de pensar as feridas da sociedade!
Sim, tendes razão: viver só no meio da Natureza é ser egoísta e ladrão, porque o homem foi criado para a sociabilidade; e isto é tão verdadeiro que eu, o selvagem, o misantropo, o indomável eremita, venho aplaudir esta passagem do discurso aqui pronunciado: O isolamento social e religioso conduz ao egoísmo.
Uni-vos, pois, nos esforços e nos pensamentos; sobretudo amai. Sede bons, doces, humanos; dai à amizade o sentimento da fraternidade; pregai pelo exemplo dos vossos atos, os salutares efeitos de vossas crenças filosóficas; sede espíritas de fato, e não apenas de nome, e logo os loucos do meu gênero, os utopistas do bem não mais terão necessidade de queixar-se dos defeitos de uma legislação sob a qual devem viver, porque o Espiritismo, compreendido e sobretudo praticado, reformará tudo, em benefício dos homens.
Espírito J. J. Rousseau, médium Senhor Morin.
Revista Espírita, dezembro de 1868.