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O fim do mundo em 1911

O fim do mundo em 1911, tal é o título de uma pequena brochura in-18, de 58 páginas, espalhada em Lyon com profusão e que se acha naquela cidade na livraria Josserand, place Bellecour, no 3. Às considerações tiradas da concordância do estado atual das coisas com os sinais precursores anunciados no Evangelho, o autor acrescenta, conforme uma outra profecia, um cálculo cabalístico que fixa o fim do mundo para o ano 1911, nem mais, nem menos. De sorte que, entre os vivos de hoje, mais de um será testemunha dessa grande catástrofe. Ora, aqui não se trata de uma figura; é o fim bem real, o aniquilamento da Terra, a dispersão de seus elementos e a destruição completa de seus habitantes. É lamentável que a maneira por que se realizará este acontecimento não seja indicada, mas também é preciso deixar alguma coisa sem avisar.

Será precedido pelo reino do Anticristo. Segundo os mesmos cálculos, que não foram feitos por Jacques Arago, esse personagem nasceu em 1855 e deve viver 55 anos e meio; e como sua morte deve marcar o fim dos tempos, isto nos leva justo a 1911, a menos que tenha havido algum erro de cálculo, como para 1840.

Com efeito, a gente se lembra de que o fim do mundo também tinha sido predito para o ano de 1840; acreditavam com tanta certeza, que tinha sido pregado nas igrejas, e o vimos anunciado em certos catecismos de Paris às crianças da primeira comunhão, o que não deixou de impressionar deploravelmente alguns cérebros jovens. Como o melhor meio de salvar sua alma sempre foi dar dinheiro, despojar-se dos bens deste mundo, que são uma causa de perdição, foram feitas coletas e doações com este objetivo. Mas o Espírito do mal se insinua por toda parte neste século de racionalistas e impele aos piores pensamentos; ouvimos, com os próprios ouvidos, alunos de catecismo fazendo esta reflexão:
Se, diziam eles, o fim do mundo chega no próximo ano, como nos asseguram, será tanto para os padres quanto para os outros; então para que lhes servirá o dinheiro que pedem?”
Na verdade não há mais crianças, mas meninos terríveis…

Por uma singular coincidência, no mesmo dia, 24 de fevereiro, em que nos chegou essa brochura, que nos foi enviada por um de nossos correspondentes de Lyon, e no momento que líamos estes últimos parágrafos, recebemos das cercanias de Boulogne-sur-Mer uma carta, da qual extraímos as seguintes passagens:

É do fundo de um vale obscuro do Boulonais que vos chegam estas poucas palavras, reflexos de uma existência sofredora; porque o Espiritismo penetra por toda parte, para espalhar a luz e as consolações. Pessoalmente, quanto alívio não lhe devo, bem como a vós, senhor, que sois o seu dispensador!

Nascido de pais muito pobres, carregados de oito filhos, dos quais sou o mais velho, ai! até agora não ganhei o meu pão, embora tenha 29 anos, pela debilidade de minha constituição. Juntai a isto uma propensão inata ao orgulho, à vaidade, à violência, etc., e julgai o que tive de suportar de males, na minha miserável condição, antes que o Espiritismo tivesse vindo explicar-me o enigma de meu destino. Cheguei a tal ponto que resolvi suicidar-me.

Para este fim, para acalmar as minhas apreensões e as censuras de minha consciência, eu me tinha dito, na minha fé de católico: Ferir-me-ei com um golpe que, embora mortal, não me fará morrer instantaneamente e me deixará dispor de alguns instantes de vida, suficientes para que eu tenha a possibilidade de me confessar, comungar e manifestar o meu arrependimento; numa palavra, de me pôr em condições de me assegurar uma vida ditosa no outro mundo, escapando aos males deste.

Meu raciocínio era muito absurdo, não acha, senhor? E, contudo, não era consequente com o dogma que nos afirma que todo pecado, todo crime mesmo, é apagado pela simples confissão feita a um sacerdote que dá a absolvição?

Agora, graças ao conhecimento do Espiritismo, semelhantes ideias estão para sempre banidas do meu pensamento; entretanto, quanta imperfeição ainda me resta a despojar!

Assim, o Espiritismo impediu um ato, um crime que teria sido cometido, não na ausência de toda fé, mas antes, diz a pessoa, pela consequência mesma de sua fé católica. Neste caso, qual foi a mais poderosa para impedir o mal? Esse rapaz será danado por ter seguido o impulso do Espiritismo, obra do demônio, segundo o autor da brochura, ou teria sido salvo, suicidando-se, por ter recebido, antes de morrer, a absolvição de um sacerdote? Que o autor da brochura, com a mão na consciência, responda a esta pergunta.

Tendo sido lidos os fragmentos acima na Sociedade de Paris, o nosso antigo colega Jobard veio dar, espontaneamente, sobre o assunto, a comunicação seguinte, por um médium em sonambulismo espiritual:

(Sociedade de Paris, 28 de fevereiro – Médium: Senhor Morin)

Eu passava, quando o eco me trouxe a vibração de uma imensa gargalhada. Prestei atenção e, tendo reconhecido o ruído do riso dos encarnados e dos desencarnados, me disse: Sem dúvida a coisa é interessante; vamos ver!… E eu não acreditava, senhores, ter o prazer de vir passar a noite junto de vós. Contudo, estou feliz por isto, crede-o bem, porque sei toda a simpatia que conservastes por vosso antigo colega.

Assim, aproximei-me e os ruídos da Terra me chegaram mais distintos: O fim do mundo! Exclamavam; o fim do mundo!…
Oh! meu Deus, me disse eu, se é o fim do mundo, em que se vão tornar?… A voz de vosso presidente e meu amigo, chegando até mim, compreendi que vos lia algumas passagens de uma brochura na qual se anuncia o fim do mundo como muito próximo. O assunto interessou-me; escutei atentamente e, após ter refletido maduramente, venho, como o autor da brochura, dizer-vos: Sim, senhores, o fim do mundo está próximo!… Oh! Não vos assusteis, senhoras, porque é preciso estar bem perto para o tocar; e quando o tocardes o vereis.

Esperando, se me permitis, vou dar-vos minha apreciação sobre esta palavra, espantalho dos cérebros fracos e, também, dos Espíritos fracos; porque, sabei-o, se o temor do fim do mundo aterroriza os seres pusilânimes do vosso mundo, fere igualmente de terror os seres atrasados da erraticidade. Todos os que não estão desmaterializados, isto é, que, embora Espíritos, vivem mais materialmente que espiritualmente, se apavoram à ideia do fim do mundo, porque compreendem, por esta palavra, a destruição da matéria. Não vos admireis, pois, de que essa ideia emocione certos Espíritos, que não saberiam em que se tornar, se a Terra não existisse mais, porquanto a Terra ainda é o seu mundo, o seu ponto de apoio.

Por mim, me disse: Sim, o fim do mundo está próximo; está aí, eu o vejo, o toco… está próximo para os que, mau grado seu, trabalham para precipitar o seu advento!… Sim, o fim do mundo está próximo; mas, o fim de que mundo?

Será o fim do mundo da superstição, do despotismo, dos abusos mantidos pela ignorância, pela malevolência e pela hipocrisia; será o fim do mundo egoísta e orgulhoso, do pauperismo, de tudo o que é vil e rebaixa o homem; numa palavra, de todos os sentimentos baixos e cúpidos, que são o triste apanágio do vosso mundo.

Esse fim do mundo, essa grande catástrofe que todas as religiões concordam em prever, é o que elas entendem? Ao contrário, não se deve ver a realização dos altos destinos da Humanidade? E se refletirmos em tudo o que se passa em torno de nós, esses sinais precursores não serão o sinal do começo de um outro mundo, isto é, de um outro mundo moral, em vez do da destruição do mundo material?

Sim, senhores, um período de depuração terrestre termina neste momento; um outro vai começar… Tudo concorre para o fim do velho mundo, e os que se esforçam por sustentá-lo trabalham energicamente, sem o querer, para a sua destruição. Sim, o fim do mundo está próximo para eles; pressentem-no e se apavoram, crede bem, mais que do fim do mundo terrestre, porque é o fim de sua dominação, de sua preponderância, a que se apegam mais do que a qualquer outra coisa; e isto não será, em relação a eles, a vingança de Deus, pois Deus não se vinga, mas a justa recompensa de seus atos.

Como vós, os Espíritos são filhos de suas obras; se são bons, é porque trabalharam para o ser; se são maus, não é porque tenham trabalhado para o ser, mas porque não trabalharam para se tornarem bons.

Amigos, o fim do mundo está próximo e vos convido vivamente a tomar boa nota desta previsão; ele está tanto mais próximo quanto já se trabalha para o reconstruir. A sábia previdência d’Aquele a quem nada escapa, quer que tudo se construa, antes que tudo seja destruído; e quando o edifício novo for concluído, quando a cumeeira estiver coberta, então é que desabará o antigo; cairá por si mesmo, de sorte que entre o mundo novo e o velho não haverá solução de continuidade.

É assim que se deve entender o fim do mundo, que já pressagiam tantos sinais precursores. E quais serão os poderosos obreiros para esta grande transformação? Sois vós, senhoras; sois vós senhoritas, com o auxílio da dupla alavanca da instrução e do Espiritismo. Na mulher na qual o Espiritismo penetrou, há mais que uma mulher, há um trabalhador espiritual; nesse estado, tudo trabalhando por ela, a mulher trabalha ainda muito mais que o homem na edificação do monumento, porque, quando ela conhecer todos os recursos do Espiritismo e dele souber servir-se, a maior parte da obra por ela estará feita. Amamentando o corpo de seu filho, também poderá alimentar o seu espírito; e que melhor ferreiro do que o filho de um ferreiro, aprendiz de seu pai? Assim o menino sugará, ao crescer, o leite da espiritualidade, e quando tiverdes espíritas, filhos de espíritas e pais de espíritas, o fim do mundo, tal qual o compreendemos, não estará realizado? Depois disto, admirai-vos de que o Espiritismo seja um espantalho para tudo o que se prende ao velho mundo, e do encarniçamento com que procuram sufocá-lo em seu berço?

Espírito Jobard.
Revista Espírita de Abril de 1868.

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