Em minha carta precedente, mui venerada imperatriz, eu vos prometi enviar a carta de um defunto ao seu amigo da Terra. Ela poderá vos fazer compreender melhor e captar minhas ideias sobre o estado de um cristão após a morte de seu corpo. Tomo a liberdade de juntá-la a esta. Julgai-a do ponto de vista que vos indiquei e dirigi vossa atenção antes para o assunto principal do que para alguns detalhes particulares que o cercam, embora eu tenha razões para supor que estes últimos também encerrem alguma coisa de verdadeiro.
Para a compreensão das matérias que vos exporei na continuação sob essa forma, creio necessário fazer-vos notar que tenho quase certeza de que, malgrado a existência de uma lei geral, idêntica e imutável, de castigo e de felicidade suprema, cada Espírito, segundo o seu caráter individual, não somente moral e religioso, mas mesmo pessoal e oficial, terá sofrimentos a suportar após a sua morte terrestre e gozará de felicidades que não serão apropriadas senão a ele mesmo. A lei geral individualizar-se-á para cada indivíduo em particular, isto é, em cada um produzirá um efeito diferente e pessoal, da mesma forma que um raio de luz, atravessando um vidro colorido, convexo ou côncavo, dele tira, em parte, sua cor e sua direção. Eu queria, pois, que fosse aceito positivamente; que, embora todos os Espíritos bem-aventurados, menos felizes ou sofredores se encontrem sob a mesma lei muito simples de semelhança ou dessemelhança com o mais perfeito amor, deve-se presumir que o caráter substancial, pessoal, individual de cada Espírito constitua para ele um estado de sofrimento ou de felicidade essencialmente diferente do estado de sofrimento ou de felicidade de um outro Espírito. Cada um sofre de uma maneira que difere do sofrimento de um outro, e sente prazeres que um outro não seria capaz de sentir. A cada um dos mundos material e imaterial, Deus e o Cristo se apresentam sob uma forma particular, sob a qual não aparecem a ninguém, exceto a ele. Cada um tem seu ponto de vista que não pertence senão a si próprio. A cada Espírito Deus fala uma língua só por ele compreendida. A cada um se comunica em particular e lhe concede prazeres que só ele está em estado de experimentar e conter.
Esta ideia, que considero uma verdade, serve de base a todas as comunicações seguintes, dadas por Espíritos desencarnados aos seus amigos da Terra.
Sentir-me-ia feliz se soubesse que compreendestes como cada homem, pela formação de seu caráter individual e pelo aperfeiçoamento de sua individualidade, pode preparar, para si mesmo, prazeres particulares e uma felicidade apropriada só para si.
Como nada se esquece tão depressa, e nada é menos procurado pelos homens que essa felicidade apropriada a cada indivíduo, embora todos têm todas as possibilidades de obtê-la e aproveitá-la, tomo a liberdade, sábia e venerada imperatriz, de vos rogar com instância que vos digneis analisar com atenção esta ideia que, certamente, não podeis encarar como inútil para a vossa própria edificação e vossa elevação para Deus: Deus colocou-se a si mesmo e colocou o Universo no coração de cada homem.
Todo homem é um espelho particular do Universo e de seu Criador. Envidemos, pois, todos os nossos esforços, mui venerada imperatriz, para mantermos esse espelho tão puro quanto possível, a fim de que Deus aí possa ver a si mesmo e sua mil vezes bela Criação, refletidos para sua inteira satisfação.
João Gaspar Lavater.
Zurique, 14 de setembro de 1798.
Publicada na Revista Espírita de 1868.
Carta de um defunto ao seu amigo da terra
(Sobre o estado dos Espíritos desencarnados)
Enfim, meu bem-amado, me é possível satisfazer, conquanto apenas em parte, meu desejo e o teu, e de te comunicar alguma coisa concernente ao meu estado atual. Desta vez não te posso dar senão pouquíssimos detalhes. No futuro, tudo dependerá do uso que fizeres de minhas comunicações.
Sei que o desejo que experimentas, de ter noções sobre mim, como em geral sobre o estado de todos os Espíritos desencarnados, é muito grande, mas não ultrapassa o meu de te ensinar o que é possível revelar. O poder de amar daquele que amou no mundo material, aumenta inexprimivelmente, quando se torna cidadão do mundo imaterial. Com o amor aumenta também o desejo de se comunicar aos que conheceu, aquilo que ele pode, o que lhe é permitido transmitir.
Devo começar por te explicar, meu bem-amado, a ti que amo cada vez mais, como me é possível te escrever, sem, ao mesmo tempo, poder tocar o papel e conduzir a pena, e como posso falar a ti numa língua inteiramente terrestre e humana que, em meu estado habitual, não compreendo.
Só esta indicação deve te servir de traço de luz, para poder compreender como deves encarar o nosso estado presente.
Imagina meu estado atual, diferente do anterior, mais ou menos como o estado da borboleta, adejando no ar, difere de seu estado de crisálida. Sou justamente essa crisálida transfigurada e emancipada, já tendo sofrido duas metamorfoses. Exatamente como a borboleta volita em redor das flores, nós voejamos muitas vezes em torno das cabeças dos bons, mas nem sempre. Uma luz, invisível para vós mortais, visível apenas para bem poucos de vós, irradia ou brilha docemente em redor da cabeça de todo homem bom, amante e religioso. A ideia da auréola com que cercam a cabeça dos santos, é essencialmente verdadeira e racional. Simpatizando esta luz com a nossa — todo ser bem-aventurado não o é senão pela luz — o atrai para ela, conforme o grau de sua claridade, que corresponde à nossa. Nenhum Espírito impuro ousa e pode aproximar-se dessa santa luz. Repousando-nos nessa luz, acima da cabeça do homem bom e piedoso, podemos ler incontinenti em seu espírito. Vemo-lo tal qual ele é em realidade. Cada raio que dele sai é para nós uma palavra, por vezes todo um discurso; respondemos aos seus pensamentos. Ele ignora que somos nós que respondemos. Nele excitamos ideias que, sem nossa ação, ele jamais teria estado em condição de as conceber, embora a disposição e a aptidão para as receber sejam inatas em sua alma.
O homem digno de receber a luz torna-se, assim, um órgão útil e muito proveitoso para o Espírito simpático, que deseja lhe comunicar suas luzes.
Encontrei um Espírito, ou antes, um homem acessível à luz, do qual pude aproximar-me, e é por seu órgão que te falo. Sem sua intermediação, ter-me-ia sido impossível entreter-me contigo humanamente, verbalmente, palpavelmente, numa palavra, escrever-te.
Desta maneira, pois, recebes uma carta anônima da parte de um homem que não conheces, mas que nutre em si uma forte tendência para as matérias ocultas e espirituais. Plano acima dele; posto-me sobre ele, mais ou menos como o mais divino de todos os Espíritos se postou sobre o mais divino de todos os homens, após o seu batismo; suscito-lhe ideias; ele as transmite sob a minha intuição, sob minha direção, por efeito de minha irradiação. Por um leve toque, faço vibrarem as cordas de sua alma de maneira conforme à minha e à sua individualidade. Ele escreve o que desejo fazê-lo escrever; escrevo por seu intermédio; minhas ideias tornam-se as suas. Ele se sente feliz escrevendo. Torna-se mais livre, mais animado, mais rico em ideias. Parece-lhe que vive e plana num elemento mais alegre, mais claro. Marcha lentamente, como um amigo conduzido pela mão de um amigo, e é desta maneira que de mim recebes uma carta. Aquele que escreve supõe-se livre e o é realmente. Não sofre nenhuma violência; é livre como o são dois amigos que, embora andando de braço dado, se conduzem mutuamente.
Tu deves sentir que meu Espírito se acha em relação direta com o teu; concebes o que te digo; escutas os meus mais íntimos pensamentos. É bastante por esta vez. O dia em que ditei esta carta chama-se entre vós 15 de setembro de 1798.
Publicado na Revista Espírita de Abril de 1868.