Victor Leblufe

Moço, prático do porto do Havre, falecido aos 20 anos de idade. Morava com a mãe, mercadora, a quem prodigalizava os mais ternos e afetuosos cuidados, sustentando-a com o produto do seu rude trabalho. Nunca o viram frequentar tabernas nem entregar-se aos tão frequentes excessos da profissão, por não querer desviar a menor partícula de salário do fim piedoso que lhe destinava.
Todo o seu lazer consagrava-o à genitora para poupá-la de fadigas. Atingido havia muito por enfermidade da qual, sabia, havia de morrer, ocultava-lhe os sofrimentos para não a inquietar e para que ela não quisesse privá-lo do serviço. Na idade das paixões, eram precisos a esse moço um grande cabedal de qualidades morais e poderosa força de vontade para resistir às perniciosas tentações do meio em que vivia. Possuído de sincera piedade, a sua morte foi edificante.
Na véspera da morte, exigiu da mãe que fosse repousar, dizendo-lhe ter, também ele, necessidade de dormir.
Ela teve naquele ínterim uma visão; achava-se, disse, em grande escuridão, quando viu um ponto luminoso que crescia pouco a pouco, até que o quarto ficou iluminado por brilhante claridade, da qual se destacava radiante a figura do filho, elevando-se ao Espaço infinito. Compreendeu que o seu fim estava próximo e, com efeito, no dia seguinte, aquela alma bem formada havia deixado a Terra, murmurando uma prece.
Uma família espírita, conhecedora da conduta correta dele, interessando-se pela mãe que ficara sozinha, teve a ideia de o evocar pouco tempo após a morte; mas ele se manifestou espontaneamente e deu a seguinte comunicação:
“Desejais saber como estou agora; feliz, felicíssimo! Devem ser levados em conta os sofrimentos e angústias, que são a origem das bênçãos e da felicidade de além-túmulo. A felicidade! Ah! não compreendeis o que significa essa palavra. As venturas terrenas das que experimentamos ao regressar para Jesus, com a consciência pura, com a confiança do servo cumpridor do seu dever, que espera cheio de alegria a aprovação d’Aquele que é tudo.
Ah! meus amigos, a vida é penosa e difícil, quando se não tem em vista a finalidade dela; mas eu vos digo, em verdade, que quando vierdes para junto de nós, se seguirdes a lei de Deus, sereis recompensados além, mas muito além, dos sofrimentos e dos méritos que porventura julgardes ter adquirido para a outra vida. Sede bons e caritativos, dessa caridade tão desconhecida entre os homens, e que se chama benevolência. Socorrei os vossos semelhantes, fazendo por outrem mais que por vós mesmos, uma vez que ignorais a miséria alheia e conheceis a vossa.
Socorrei minha mãe, pobre mãe, único pesar que me vem da Terra. Ela deve passar por outras provas e preciso é que chegue ao céu. Adeus, vou vê-la.”
Victor.

O Guia do médium: – Nem sempre os sofrimentos amargados na Terra constituem uma expiação. Os Espíritos que, cumprindo a vontade do Senhor, baixam à Terra, como este, são felizes em provar males que para outros seriam uma expiação. O sono os revigora perante o Todo-poderoso, dando-lhes a força de tudo suportarem para sua maior glória. A missão deste Espírito, em sua última existência, não era de aparato, mas por mais obscura que fosse nem por isso tinha menos mérito, visto como não podia ser estimulado pelo orgulho. Ele tinha, antes de tudo, um dever de gratidão a cumprir para com aquela que lhe foi a genitora; depois, deveria demonstrar que nos piores ambientes podem encontrar-se almas puras, de nobres e elevados sentimentos, capazes de resistir às tentações. Isso é uma prova de que as qualidades morais têm causas anteriores e um exemplo assim não terá sido estéril.

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