Van Durst

Pouco tempo após a sua morte um médium perguntou ao seu guia Espiritual se poderia evocá-lo e lhe foi respondido:
— Esse Espírito sai lentamente da sua perturbação. Ele poderia atender desde já, mas a sua comunicação lhe custaria muito. Peco-vos esperar ainda quatro dias e ele vos responderá. Daqui até lá ele ficará sabendo das vossas boas intenções a seu respeito e vos atenderá reconhecido e como bom amigo.
Quatro dias mais tarde o Espírito ditou o seguinte:
Meu amigo, minha vida pesou muito pouco na balança da eternidade. Apesar disso, estou bem longe de ser infeliz. Estou na condição humilde, mas relativamente feliz daquele que praticou poucos males sem, entretanto, visar à perfeição. Se há criaturas felizes numa região inferior, pois bem: eu sou uma delas. Lamento apenas uma coisa, que é não ter conhecido o que hoje sabeis, porque minha perturbação teria sido mais rápida e menos penosa.
Com efeito, ela foi grande. Viver e não viver, ver o corpo e sentir-se fortemente ligado a ele, sem poder utilizá-lo. Ver aqueles que amamos e sentir apagar-se o pensamento que nos ligava. Isso é terrível! Oh, que momento cruel! Que momento é esse, quando o aturdimento vos toma em suas garras e vos estrangula! E logo a seguir, as trevas. Sentir e um momento depois estar aniquilado.
Quer-se ter a consciência de si mesmo, e não se consegue recobrá-la. Não se é mais, e entretanto se sente que é. Estamos numa perturbação profunda. E depois, transcorrido um tempo inavaliável, tempo de angústias sufocadas, porque não temos a possibilidade de as compreender, após esse tempo que parece interminável, renascer lentamente para a nova existência, acordar num mundo novo!
Nada de corpo material, nada de vida terrena: a vida imortal! Nada de homens carnais, mas formas leves de Espíritos que deslizam de todos os lados, circulando ao vosso redor sem que os possais ver a todos, porque é no infinito que eles flutuam! Ter o espaço diante de nós e poder percorrê-lo à vontade. Comunicarmos pelo pensamento com tudo o que nos cerca. Amigo, que vida inteiramente nova! Que vida brilhante! Que vida de venturas! Salve, oh! salve eternidade que me acolheste em teu seio! Adeus, oh! Terra que me retinhas por tanto tempo afastado da minha verdadeira natureza espiritual! Não, eu nada mais quereria de ti, porque és a terra do exílio e a maior das tuas felicidades nada é mais para mim!
Mas se eu soubesse o que sabeis, quanto mais fácil me seria esta iniciação na outra vida, e quanto mais agradável! Eu já saberia antes de morrer o que tive de aprender mais tarde, no momento da separação, e minha alma então se libertaria mais facilmente. Estais no caminho, mas jamais, por mais que puderdes fazer, jamais tereis feito muito! Dizei isso ao meu filho, mas dizei-o tantas vezes que ele creia e se esclareça, porque então ao chegar aqui não ficaremos separados.
Adeus a todos vós, meus amigos, adeus. Eu vos espero e durante o tempo em que permanecerdes na Terra virei sempre me instruir junto a vós, porque ainda não sei tanto como sabeis. Mas aprenderei logo, pois aqui não tenho mais as dificuldades que aí me embaraçavam e a velhice que me diminuía as forças. Aqui se vive amplamente e se avança porque os horizontes se alargam tão belos aos nossos olhos que nos sentimos ansiosos de franqueá-los. Adeus, eu vos deixo, adeus.
Van Durst

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