Teoria da Projeção

1. De todas as teorias relativas à origem da Terra, a que alcançou mais credibilidade
nestes últimos tempos foi a de Buffon, (Georges Louis Leclerc de Buffon, 1707–1788, naturalista francês.) seja pela posição que ele desfrutava no mundo científico, seja porque nada mais se sabia além do que ele disse naquela época.
Vendo que todos os planetas se movem na mesma direção, do ocidente para o oriente, e no mesmo plano, percorrendo órbitas cuja inclinação não passa de 7 graus e meio, Buffon concluiu, dessa uniformidade, que eles devem ter sido postos em movimento pela mesma causa.
Em sua opinião, sendo o Sol uma massa incandescente em fusão, um cometa se teria chocado com ele e, raspando-lhe a superfície, destacou uma porção que, projetada no espaço pela violência do choque, se dividiu em vários fragmentos. Esses fragmentos formaram os planetas, que continuaram a mover-se circularmente, pela combinação das forças centrífuga e centrípeta, no sentido dado pela direção do choque primitivo, isto é, no plano da eclíptica.
Os planetas seriam assim partes da substância incandescente do Sol e, por conseguinte, também teriam sido incandescentes em sua origem.
Levaram para se resfriar e consolidar um tempo proporcional aos seus volumes respectivos e, quando a temperatura o permitiu, a vida apareceu na sua superfície.
Em virtude da diminuição gradual do calor central, a Terra chegaria, ao fim de certo tempo, a um estado de resfriamento completo; a massa líquida se congelaria inteiramente e o ar, cada vez mais condensado, acabaria por desaparecer. A diminuição da temperatura, tornando impossível a vida, acarretaria o decréscimo e, depois, o desaparecimento de todos os seres organizados. O resfriamento, tendo começado pelos polos, ganharia pouco a pouco todas as regiões, até mesmo a linha do equador.
Tal é, segundo Buffon, o estado atual da Lua que, menor do que a Terra, seria hoje um mundo extinto, do qual a vida se acha excluída para sempre. O próprio Sol viria a ter, um dia, a mesma sorte. De acordo com os seus cálculos, a Terra teria gasto cerca de 74.000 anos para chegar à sua temperatura atual e dentro de 93.000 anos veria o termo da existência da natureza organizada.
2. A teoria de Buffon, contraditada pelas novas descobertas da Ciência, está hoje abandonada, pelas seguintes razões:
1º. Durante muito tempo acreditou-se que os cometas eram corpos sólidos, cujo encontro com um planeta podia ocasionar a destruição deste. Nessa hipótese, a suposição de Buffon nada tinha de improvável.
Sabe-se agora, porém, que os cometas são formados de uma matéria gasosa que, embora condensada, é bastante rarefeita para que se possam perceber estrelas de grandeza média através de seus núcleos. Nesse estado, oferecendo menos resistência que o Sol, é impossível que num choque violento com este, eles sejam capazes de arremessar ao longe qualquer porção da massa solar.
N. E: A Ciência atualmente define os cometas como blocos de gelo e rocha com alguns quilômetros de extensão; quando um cometa se aproxima do Sol, o gelo superficial se evapora, formando uma “bola” de vapor que adquire a forma de longa cauda. Hoje sabemos que os cometas não são tão inofensivos quando se chocam com planetas, mas o choque com o Sol não causaria qualquer dano a essa estrela.
2º. A natureza incandescente do Sol é também uma hipótese que nada, até o presente, confirma, e que as observações, ao contrário, parecem desmentir. Se bem ainda não haja certeza quanto à sua natureza, os poderosos meios de observação de que hoje dispõe a Ciência têm permitido que ele seja melhor estudado. Hoje a Ciência admite, de modo geral, que o Sol é um globo composto de matéria sólida, cercada de uma atmosfera luminosa, ou fotosfera, que não se acha em contato com a sua superfície.
Nota de Allan Kardec: Completa dissertação, à altura da ciência moderna, sobre a natureza do Sol e dos cometas se encontra na obra Estudos e leituras sobre a astronomia, de Camilo Flammarion. Livraria Gauthier-Villard, 55, quai des Augustins, Paris.
3º. Ao tempo de Buffon, somente se conheciam os seis planetas de que os Antigos: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno. Descobriram-se depois outros em grande número, três dos quais, principalmente, Juno, Ceres e Palas, têm suas órbitas inclinadas de 13, 10 e 34 graus, o que não concorda com a hipótese de um movimento único de projeção.
N. T: Na verdade são planetoides, isto é, pequenos corpos celestes que gravitam em torno do Sol. Juno, Ceres e Palas, bem como centenas de outros planetoides, estão localizados entre as órbitas dos planetas Júpiter e Marte.
4º. Após a descoberta da lei da diminuição do calor, por Fourier, reconheceram-se completamente errôneos os cálculos de Buffon sobre o resfriamento da Terra. Na verdade, o nosso planeta não precisou apenas de 74.000 anos para chegar à sua temperatura atual, mas de milhões de anos.
N. E: Estima-se que a Terra tenha iniciado seu processo de formação há 4.600 milhões de anos. O processo de solidificação da crosta teria ocorrido nos primeiros 500 milhões de anos.
5º. Buffon só levou em conta o calor central da Terra, sem considerar o dos raios solares. Ora, é sabido hoje, mediante dados científicos de rigorosa precisão, baseados na experiência que, em virtude da espessura da crosta terrestre, o calor interno do globo não contribui, há muito tempo, senão em parcela insignificante, para a temperatura da superfície exterior.
As variações que essa temperatura sofre são periódicas e devidas à ação preponderante do calor solar. (Cap. VII, item 25.) Sendo permanente o efeito dessa causa, enquanto o do calor central é nulo, ou quase nulo, a diminuição deste não pode trazer sensíveis modificações à superfície da Terra. Para que a Terra se tornasse inabitável pelo resfriamento geral, seria preciso que o Sol se extinguisse.
Nota de Allan Kardec: Para mais esclarecimentos sobre este assunto e sobre a lei da diminuição do calor, veja-se a obra: Cartas sobre as revoluções do globo, pelo Dr. Bertrand, ex-aluno da Escola Politécnica de Paris, carta II. Esta obra, à altura da Ciência moderna, escrita com simplicidade e sem espírito de sistema, encerra um estudo geológico de grande interesse.

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