Teoria da Incrustação

4. Falamos desta teoria apenas para não deixar de mencioná-la. Embora nada tenha de científica, conseguiu, não obstante, certa repercussão nos últimos tempos e seduziu algumas pessoas. Acha-se resumida na carta seguinte:
“Deus, segundo a Bíblia, criou o mundo em seis dias, 4.000 anos antes da Era Cristã. Esta tese é contestada pelos geólogos, firmados no estudo dos fósseis e dos milhares de caracteres incontestáveis de vetustez que fazem remontar a origem da Terra a milhões de anos. Entretanto, a Escritura disse a verdade e os geólogos também. E foi um simples camponês que os pôs de acordo, informando que o nosso planeta não é mais do que um planeta incrustativo, muito moderno, composto de materiais antiquíssimos.
Nota de Allan Kardec: Michel de Figagnères (Var), autor de Chave da vida.
“Após o arrebatamento do planeta desconhecido, que chegara à maturidade, ou de harmonia com o que existiu no lugar que hoje ocupamos, a alma da Terra recebeu ordem de reunir seus satélites para formar nosso globo atual, segundo as regras do progresso em tudo e por tudo. Somente quatro desses astros concordaram com a associação que lhes era proposta.
Apenas a Lua persistiu na sua autonomia, visto que também os globos têm o seu livre-arbítrio. Para proceder a essa fusão, a alma da Terra dirigiu aos satélites um raio magnético, que pôs em estado cataléptico todo o mobiliário vegetal, animal e hominal que eles possuíam e que trouxeram para a comunidade. A operação teve por únicas testemunhas a alma da Terra e os grandes mensageiros celestes que a ajudaram nessa grande obra, abrindo aqueles globos para lhes dar entranhas comuns. Praticada a soldadura, as águas se escoaram para os vazios que a ausência da Lua deixara. As atmosferas se confundiram e começou o despertar ou a ressurreição dos germens que estavam em catalepsia. O homem foi o último a ser tirado do estado de hipnotismo e se viu cercado da luxuriante vegetação do paraíso terrestre e dos animais que pastavam em paz ao seu derredor. Tudo isto se podia fazer em seis dias, com obreiros tão poderosos como os que Deus encarregara da tarefa. O planeta Ásia trouxe a raça amarela, a de civilização mais antiga; o África, a raça negra; o Europa, a raça branca, e América, a raça vermelha.
“Assim, certos animais, de que apenas os despojos são encontrados, nunca teriam vivido na Terra atual, mas teriam sido transportados de outros mundos extintos pela velhice. Os fósseis que se encontram em climas sob os quais não teriam podido existir neste mundo viviam, sem dúvida, em zonas muito diferentes nos globos onde nasceram. Na Terra, tais despojos se encontram nos polos, ao passo que os animais viviam no equador dos globos a que pertenciam.”
5. Esta teoria tem contra si os dados mais positivos da ciência experimental, além de deixar intacta a própria questão que ela pretende resolver, a questão da origem. Diz, é certo, como a Terra se teria formado, mas não diz como se formaram os quatro mundos que se reuniram para constituí-la.
Se as coisas se houvessem passado assim, como se explicaria a inexistência absoluta de quaisquer vestígios daquelas imensas soldaduras, não obstante terem ido até as entranhas do globo? Cada um daqueles mundos, o Ásia, o África, o Europa e América, que se pretende haverem trazido os materiais que lhes eram próprios, teria uma geologia particular, diferente da dos demais, o que não é exato. Ao contrário, vê-se, primeiramente, que o núcleo granítico é uniforme, de composição homogênea em todas as partes do globo, sem solução de continuidade.
Depois, as camadas geológicas se apresentam com a mesma formação, idênticas quanto à constituição, superpostas, em toda parte, na mesma ordem, contínuas, sem interrupção, de um lado a outro dos mares, da Europa à Ásia, à África, à América, e reciprocamente. Essas camadas que dão testemunho das transformações do globo atestam que tais transformações se operaram em toda a sua superfície e não apenas numa porção desta; mostram os períodos de aparecimento, existência e desaparecimento das mesmas espécies animais e vegetais, nas diferentes partes do mundo; mostram a fauna e a flora desses períodos recuados a marcharem simultaneamente por toda parte, sob a influência de uma temperatura uniforme, e a mudar de caráter por toda parte à medida que a temperatura se modifica. Semelhante estado de coisas não se concilia com a formação da Terra pela associação de muitos mundos diferentes.
Além disso, é de perguntar-se o que teria sido feito do mar, que ocupa o vazio deixado pela Lua, se esta não se houvesse recusado a reunir-se às suas irmãs. O que aconteceria à Terra atual se um dia a Lua tivesse a veleidade de vir tomar o seu lugar, expulsando deste o mar?
6. Esse sistema seduziu algumas pessoas, porque parecia explicar a presença das diferentes raças de homens na Terra e a localização delas.
Mas, considerando-se que essas raças puderam proliferar em mundos distintos, por que não seriam capazes de desenvolver-se em pontos diversos do mesmo globo? É querer resolver uma dificuldade por meio de outra dificuldade maior. Efetivamente, quaisquer que fossem a rapidez e a destreza com que a operação se praticasse, aquela junção não se teria podido realizar sem violentos abalos. Quanto mais rápida ela fosse, tanto mais desastrosos haviam de ser os cataclismos. Parece, pois, impossível que seres simplesmente mergulhados em sono cataléptico hajam podido resistir-lhes, para, em seguida, despertarem tranquilamente. Se fossem apenas germens, em que consistiriam? Como é que seres inteiramente formados se reduziriam ao estado de germens? Restaria sempre a questão de saber-se como esses germens novamente se desenvolveram. Ainda aí, teríamos a Terra a formar-se por processo miraculoso, processo, porém, menos poético e menos grandioso do que o da Gênese bíblica, ao passo que as leis naturais dão, da sua formação, uma explicação muito mais completa e, sobretudo, muito mais racional, deduzida da observação.
Nota de Allan Kardec: Quando tal sistema se liga a toda uma cosmogonia, é de perguntar-se sobre que base racional pode o resto assentar. A concordância que, por meio desse sistema, se pretende estabelecer entre a Gênese bíblica e a Ciência é inteiramente ilusória, pois que a própria Ciência o contradiz. O autor da carta acima, homem de grande saber, seduzido, um instante, por essa teoria, logo lhe descobriu os lados vulneráveis e não tardou a combatê-la com as armas da Ciência.
N. E: Ver Nota Explicativa, p. 361.

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