Sobre as existências passadas e futuras

290. Perguntas sobre as existências passadas e futuras.
15. Os Espíritos podem revelar-nos as existências passadas?
– Deus, às vezes, permite que elas sejam reveladas, dependendo do objetivo. Se for para a vossa edificação e instrução as revelações serão verdadeiras e, nesse caso, quase sempre feitas espontaneamente e de maneira inteiramente imprevistas. Mas nunca Deus as permite para satisfazer à vã curiosidade.
(10) Note-se a razão do esquecimento do passado, certas lembranças de vidas anteriores seriam grandemente prejudiciais a reabilitação do Espírito na encarnação atual. (N. do T)
– Porque certos Espíritos nunca se recusam a fazer essas revelações?
– São Espíritos brincalhões que se divertem a vossa custa. Em geral deveis considerar falsas ou, pelo menos, suspeitas as revelações dessa natureza que não tiverem um fim eminentemente sério e útil. Os Espíritos zombeteiros se divertem lisonjeando a vaidade das pessoas com a revelação de pretensos antecedentes. Há médiuns e crentes que aceitam por legítimo o que lhes dizem a respeito, sem notarem que o estado atual do seu Espírito em nada justifica a posição que pretendem haver ocupado. Vaidadezinha com que os Espíritos zombeteiros se divertem, como o fazem os homens. Seria mais lógico e mais de acordo com a evolução dos seres que eles tivessem subido em vez de descer, o que aliás lhes seria mais honroso. Para se aceitar essas revelações seria necessário que fossem feitas espontaneamente, por diversos médiuns desconhecidos entre si e também daquele que primeiro a fez. Então haveria razão evidente para crer-se.
– Se não podemos conhecer a nossa individualidade anterior, dá-se o mesmo com o gênero de existência que tivemos, com a posição social que ocupamos e as qualidades e defeitos que predominaram em nós?
– Não, isso pode ser revelado, porque pode servir para vos melhorar. Mas, independente disso, estudando o vosso presente podeis deduzir, por vós mesmos, o vosso passado. (Ver O Livro dos Espíritos: Esquecimento do passado, n° 392).
(11) Muitas revelações têm sido publicadas, em livros e folhetos, sobre encarnações anteriores de pessoas vivas na atualidade. Certos médiuns se deixaram envaidecer com revelações desse tipo, que em nada condizem com sua situação presente, desviando-se do cumprimento humilde de sua missão mediúnica. Além disso, essas atitudes acarretam o descrédito da doutrina e lançam o ridículo sobre o princípio da reencarnação. (N. do T.)
16. Podemos ter alguma revelação sobre nossas existências futuras?
– Não. Tudo o que alguns Espíritos vos disserem a respeito será simples traquinagem. E isso se compreende: vossa futura existência não pode ser percebida antes, pois ela será o que ireis determinar por vós mesmos segundo a vossa conduta na Terra e as resoluções posteriores como Espírito. Quanto menos tiverdes de expiar, mais feliz ela será. Mas saber onde e como será essa existência, ainda uma vez: isso é impossível. Salvo no caso especial e raro dos Espíritos que só estão na Terra para cumprir missão importante, porque então o seu roteiro é de alguma forma traçado com antecedência.
(12) A percepção do futuro tem os seus limites, como todas as coisas. Esse o perigo das profecias audaciosas e também a razão da forma simbólica da maioria delas. O problema do fatalismo e da liberdade se esclarece ao refletirmos sobre essa resposta. (N. do T.)
291. Perguntas sobre interesses morais e materiais.
17. Podemos pedir conselhos aos Espíritos?
– Sim, não há dúvida. Os Espíritos bons jamais se recusam a ajudar os que os invocam cheios de confiança, principalmente quando se trata de assuntos da alma. Mas repelem os hipócritas, aqueles que fingem buscar a luz e se comprazem nas trevas.
18. Os Espíritos podem aconselhar sobre questões de interesse particular?
– Algumas vezes, conforme o caso. Depende também dos Espíritos interpelados. Os conselhos referentes à vida particular são dados com mais exatidão pelos Espíritos familiares, os que mais se ligam às pessoas e se interessam pelo que lhes concerne. O Espírito familiar é o amigo, o confidente de vossos mais secretos pensamentos. Mas frequentemente o cansais com perguntas tão estúpidas que ele se afasta. Por outro lado seria absurdo interpelar sobre problemas íntimos a Espíritos estranhos, da mesma maneira que propô-los ao primeiro indivíduo que encontrásseis pela frente. É bom não esquecer que a banalidade das perguntas é incompatível com a superioridade dos Espíritos. Necessário também considerar as qualidades do Espírito familiar, que pode ser bom ou mau, segundo os motivos de simpatia que o ligam à pessoa. O Espírito familiar de um homem mau é um mau Espírito, cujos conselhos podem ser perniciosos. Mas ele se afasta e cede o lugar a um Espírito melhor se o homem melhora. O semelhante atrai o semelhante.
(13) Nosso livre-arbítrio cria o nosso determinismo. Se persistirmos no mau caminho determinaremos um mau futuro em más companhias. Se escolhermos o bem e lutarmos contra as nossas más tendências, melhorando-nos, determinaremos a mudança imediata da nossa situação e um futuro melhor, na companhia de Espíritos bons que se afinarão com as nossas decisões. Tudo depende primeiramente de nós. (N. do T.)
19. Os Espíritos familiares podem ajudar nos interesses materiais por meio de revelações?
– Podem. E o fazem algumas vezes, segundo as circunstâncias, mas os Espíritos bons jamais se prestam a servir à cupidez. Os maus fazem brilhar mil miragens aos vossos olhos para vos excitar e mistificar, levando-vos à decepção. Sabei também que se a vossa prova é sofrer esta ou aquela vicissitude, os Espíritos protetores podem vos ajudar a suportá-la com resignação, às vezes amenizá-la, mas no interesse do vosso próprio futuro não podem afastá-la. É assim que um bom pai não concede ao filho tudo o que este deseja.
OBSERVAÇÃO – Nossos Espíritos protetores podem, em muitas circunstâncias, indicar-nos o melhor caminho, sem entretanto nos levarem a ele. Do contrário perderíamos toda iniciativa e nada mais faríamos sem recorrer a eles, isso em prejuízo do nosso aperfeiçoamento. Para progredir o homem tem sempre necessidade de adquirir experiências a sua própria custa. É por isso que os Espíritos sábios, sempre prontos a nos aconselhar, entregam-nos às nossas próprias forças, como um instrutor hábil faz com seus alunos. Nas circunstâncias ordinárias da vida nos aconselham pela inspiração e nos deixam assim todo mérito do bem, como toda a responsabilidade pelas más escolhas.
Seria abusar da condescendência dos Espíritos familiares e não compreender a sua missão interrogá-los a todo instante sobre as questões mais corriqueiras, como o fazem certos médiuns. Há os que por um sim ou um não tomam o lápis e pedem conselhos para as mais simples decisões. Essa mania revela estreiteza de ideia e ao mesmo tempo a presunção de ter sempre um Espírito serviçal às ordens, sem nada mais a fazer do que se ocupar de nós e de nossos pequeninos interesses. Além disso, equivale a aniquilar seu próprio julgamento e reduzir-se a um papel passivo, sem nenhum proveito no presente e com prejuízo certo para o progresso futuro. Se há infantilidade em interrogar os Espíritos sobre questões fúteis, também é infantil, de parte dos Espíritos, ocuparem-se espontaneamente do que podemos chamar de rotina caseira. Esses Espíritos podem ser bons, mas seguramente estão ainda muito terrenos.
20. Se uma pessoa deixa, ao morrer seus negócios embrulhados, pode-se pedir ao seu Espírito que ajude a desembaraçá-los e pode-se ainda interrogá-lo sobre os haveres reais que deixou, caso não se saiba o total e seja isso do interesse da Justiça?
– Esqueceis que a morte é uma libertação das preocupações terrenas. Julgais então que o Espírito, feliz com a sua liberdade, virá de boa vontade retomar a cadeia e ocupar-se de coisas que não mais lhe concernem, para satisfazer o cupidez dos herdeiros, talvez contentes com a sua morte, da qual esperam tirar proveito? Falais de justiça, mas a justiça está na decepção da ganância dos herdeiros; é o começo das punições que Deus reserva para sua avidez dos bens terrenos. Além disso, os embaraços deixados às vezes pela morte de uma pessoa fazem parte das provas da vida e nenhum Espírito tem o poder de afastá-los, pois pertencem aos decretos de Deus.
OBSERVAÇÃO – Essa resposta desapontará certamente os que imaginam que os Espíritos nada têm de melhor a fazer do que servir-nos de auxiliadores clarividentes para guiar-nos, não em direção ao céu, mas na própria Terra. Outra consideração vem apoiar essa resposta. Se um homem deixou em vida os seus negócios atrapalhados por desleixo, não é verossímil que depois da morte tome mais cuidados, deve sentir-se feliz de estar livre das preocupações que lhe causavam. Aliás, por menos elevado que seja, lhes dará menos importância como Espírito do que como homem. Quanto aos haveres não sabidos que possa ter deixado, não há nenhuma razão para se interessar por herdeiros ávidos, que provavelmente nem pensariam nele se não esperassem algum lucro. E se ainda estiver imbuído de paixões humanas poderá mesmo sentir um prazer malicioso com o seu desapontamento.
Se, no interesse da justiça e das pessoas que estima, um Espírito julgar útil fazer dessas revelações, as fará espontaneamente, sem necessidade de que o interessado seja médium ou recorra a um médium. Ele o levará ao conhecimento do assunto por meio de circunstâncias inesperadas, mas nunca em virtude de pedidos que lhe façam, pois os pedidos não podem mudar a natureza das provas que se têm de sofrer. Seriam antes capazes de agravá-las, pois quase sempre revelam cupidez e demonstram ao Espírito que só se pensa nele por interesse, (Ver n° 295).
292. Perguntas sobre a situação dos Espíritos.
21. Podemos solicitar esclarecimentos aos Espíritos sobre a sua situação no mundo espiritual?
– Sim, e eles respondem de boa vontade quando o pedido é ditado pela simpatia e pelo desejo de ser útil, e não pela curiosidade.
22. Os Espíritos podem explicar a natureza dos seus sofrimentos ou da sua felicidade?
– Perfeitamente, e essas revelações representam para vós um grande ensinamento, pois vos iniciam no conhecimento da natureza das penas e recompensas futuras. Ao destruir as ideias falsas sobre o assunto, elas tendem a vos reavivar a fé e a confiança na bondade Deus. Os Espíritos bons se sentem felizes ao vos relatar a felicidade dos eleitos. Os maus podem ser constrangidos a descrever os seus sofrimentos, para provocar neles mesmos o arrependimento. Às vezes encontram nisso uma espécie de alívio: é o infeliz que se lamenta esperando a compaixão.
Não vos esqueçais de que o fim essencial e exclusivo do Espiritismo é a vossa melhora. É para atingi-lo que os Espíritos têm a permissão de vos iniciar na vida futura, oferecendo-vos exemplos que podereis aproveitar. Quanto mais vos identificardes com o mundo que vos espera menos sofrereis com esse em que estais. Esse é, em suma, o objetivo atual da revelação.
(14) O grifo é nosso. Algumas traduções não trazem essa frase final. Para algumas pessoas parece absurdo que o fim atual da revelação seja apenas a nossa melhora pessoal. Mas basta refletir que sem melhorar o homem não se pode melhorar o mundo, para se compreender que a frase está certa. A finalidade do Espiritismo é a nossa transformação moral. (N. do T.)
23. Evocando-se uma pessoa cujo destino é ignorado, pode-se saber dela mesma se ainda está viva?
– Sim, se a incerteza quanto à sua morte não for uma necessidade ou uma prova para os que têm interesse em sabê-lo.
– Se tiver morrido poderá relatar as circunstâncias da sua morte, de maneira a se poder verificá-la?
– Se der alguma importância a isso, poderá fazê-lo. Se não, pouco se incomodará.
OBSERVAÇÃO – A experiência prova que, nesses casos, o Espírito não é absolutamente tocado pelo nosso interesse quanto às circunstâncias de sua morte. Se quiser revelá-las o fará por si mesmo, seja por via mediúnica ou por meio de visões e aparições, podendo dar então as indicações mais precisas. Caso contrário, um Espírito mistificador pode perfeitamente tomar-lhe o lugar e divertir-se indicando pesquisas inúteis.
Acontece sempre que o desaparecimento de uma pessoa, cuja morte não pode ser oficialmente constatada, cria embaraços aos negócios de família. Somente em casos raros e excepcionais temos visto os Espíritos indicarem as pistas verdadeiras, quando interrogados. Se quisessem fazê-lo não há dúvida que o poderiam, mas quase sempre isso não lhes é permitido, se esses embaraços constituem provas para aqueles que desejam afastá-los.
É, pois, enganar-se com uma esperança quimérica tentar por esse meio a obtenção de heranças, das quais a única coisa positiva é o dinheiro que se gasta com esse fim. Não faltam Espíritos dispostos a alimentar essas esperanças, sem nenhum escrúpulo de levar os interessados a pesquisas das quais serão felizes se saírem apenas com um pouco de ridículo.
293. Perguntas sobre a saúde.
24. Os Espíritos podem aconselhar sobre a saúde?
– A saúde é condição necessária para o trabalho que devemos executar na Terra, e por isso os Espíritos se ocupam dela de boa vontade. Mas como há ignorantes e sábios entre eles, nesse caso como em outros não convém dirigir-se ao primeiro que se manifeste.
25. Dirigindo-nos ao Espírito de uma celebridade médica seria mais certo obtermos um bom conselho?
– As celebridades médicas não são infalíveis e têm muitas vezes opiniões sistemáticas, que nem sempre são justas e das quais a morte não as livra de repente. A Ciência terrena é bem pouco ao pé da Ciência celeste. Somente os Espíritos superiores possuem esta última.
Sem terem nomes conhecidos de vós, podem eles saber muito mais, sobre todas as coisas, do que os vossos sábios. A Ciência não é suficiente para tornar os Espíritos superiores e ficaríeis muito espantados com o lugar que certos sábios ocupam entre nós. O Espírito de um sábio pode, pois, não saber nada mais do que quando estava na Terra, se não progrediu como Espírito.
26. O sábio, como Espírito reconhece os seus erros científicos?
– Se atingiu um grau bastante elevado para se desembaraçar da sua vaidade e compreender que o seu desenvolvimento não é completo, os reconhece e os confessa sem se envergonhar. Mas se não estiver suficientemente desmaterializado pode conservar alguns dos preconceitos de que se achava imbuído na Terra.
27. Um médico, evocando os seus clientes mortos, poderia deles obter esclarecimentos sobre a causa de suas mortes, as faltas que poderia ter cometido no seu tratamento e aumentar assim a sua experiência?
– Pode. E isso lhe seria muito útil, sobretudo se ele se fizesse assistir por Espíritos esclarecidos que supririam as faltas de conhecimento de alguns doentes. Mas para isso seria necessário fazer esses estudos de maneira séria, assídua, com fim humanitário e não como meio de adquirir saber e fortuna sem trabalho.

Topo
Índice
Início

Senda de paz

%d blogueiros gostam disto: