Paulo em Cesareia

Em Cesareia o governador recebeu a expedição com enorme espanto.
Depois do primeiro interrogatório, o preposto máximo do Império, na província, sentenciou:
– Atento à origem judaica do acusado, nada posso julgar sem ouvir o órgão competente, de Jerusalém. E mandou que o Sinédrio se fizesse representar na sede do Governo, com a maior urgência.
O próprio Caifás fizera questão de chefiar o conjunto de autoridades do Sinédrio e do Templo. Os velhos rabinos, conhecendo o poder da lógica e a formosura da palavra do ex-doutor de Tarso, fizeram-se acompanhar de Tértulo, uma das mais notáveis mentalidades que operavam no colendo sodalício.
Improvisado o tribunal para decidir o feito, o orador do Sinédrio teve a prioridade da palavra, usando-a em tremendas acusações contra o indiciado réu, desenhando a cores negras todas as atividades do Cristianismo, e terminando por pedir ao governador a entrega do acusado aos seus irmãos de raça, a fim de ser por eles devidamente julgado.
Concedido ao ex-rabino o ensejo de explicar-se, Paulo começou a falar com grande serenidade. Félix lhe observou logo os elevados dotes intelectuais, os primores dialéticos e ouvia-lhe a argumentação com invulgar interesse.
O governador teve grande embaraço para pronunciar o veredicto. De um lado, os anciões de Israel em atitude quase colérica, reclamando direitos de raça; do outro, contemplava o Apóstolo do Evangelho, calmo, imperturbável, senhor espiritual do assunto, a esclarecer todos os pontos obscuros do processo singular, com a sua palavra elegante e refletida.
Reconhecendo o extremo valor daquele homem franzino e envelhecido, o governador Félix modificou, a suas primeiras impressões e encerrou os trabalhos nestes termos:
– Senhores, reconheço que o processo é mais grave do que julguei a primeira vista. Neste caso, resolvo adiar a sentença definitiva, até que o tribuno Cláudio Lísias seja convenientemente ouvido. Debalde o sumo sacerdote solicitou a continuação dos trabalhos. O mandatário de Roma não modificou o ponto de vista.
O governador já havia comentado, entre amigos mais íntimos, a privilegiada inteligência do prisioneiro, e, daí a dias, sua jovem esposa Drusila manifestava-lhe o desejo de conhecer e ouvir o Apóstolo.
Perante destacadas figuras da corte provincial, o valoroso Apóstolo dos gentios fez brilhante panegírico do Evangelho, ressaltando a inolvidável exemplificação do Cristo e dos deveres do proselitismo que repontava de todos os recantos do mundo. A maioria dos ouvintes escutava-o com evidentes mostras de interesse; mas, quando ele começou a falar da ressurreição e dos deveres do homem em face das responsabilidades no mundo espiritual, o governador fez-se pálido e interrompeu a pregação.
– Por hoje basta, disse com autoridade. Meus familiares poderão ouvir-vos, de outra feita, se lhes aprouver, pois quanto a mim não creio na existência de Deus.
Paulo de Tarso recebeu a observação com serenidade e respondeu:
– Agradeço a delicadeza da vossa declaração, e, todavia, senhor governador, ouso encarecer-vos a necessidade de ponderar o assunto, porque, quando um homem afirma não aceitar a paternidade do Todo-Poderoso, é que, em regra, se receia do julgamento de Deus. Félix lançou-lhe um olhar raivoso e retirou-se com os seus, prometendo a si próprio deixar o prisioneiro entregue à sua sorte.
À vista disso, embora respeitado pela franqueza e lealdade, Paulo houve de amargar dois anos de reclusão em Cesareia, tempo esse aproveitado em relações constantes com as suas igrejas bem-amadas. Inumeráveis mensagens iam e vinham, trazendo consultas e levando pareceres e instruções.
Uma ordem imperial transferiu Félix para outra província.
O novo governador, Pórcio Festo, chegou a Cesareia em meio de ruidosas manifestações populares. Jerusalém não queria esquivar-se às homenagens políticas, e, tão logo assumira o poder, o ilustre patrício foi visitar a grande cidade dos rabinos.
Pórcio Festo, com a serenidade que lhe marcava as atitudes políticas, procurou conhecer, imediatamente, a situação do prisioneiro. Reviu o processo, meticulosamente, inteirando-se dos títulos de cidadania romana do acusado, de acordo com a legislação em vigor. E notando a insistência dos rabinos que denotavam enorme ansiedade pela solução do assunto, convocou uma reunião para novo exame das declarações do acusado, no intuito de satisfazer a política regional de Jerusalém.
O tribunal de Cesareia atraía grande multidão, ansiosa de conhecer o novo julgamento.
Abertos os trabalhos da assembléia singular, o governador interrogou o acusado com energia cheia de nobreza.
Paulo de Tarso, entretanto, respondeu a todas as arguições com a serenidade que lhe era peculiar. Não obstante a manifesta animosidade dos judeus, declarou que em nada os havia ofendido e não se recordava de qualquer ato de sua vida no qual houvesse atacado o templo de Jerusalém ou as Leis de César.
Festo percebeu que tratava com um espírito culto e eminente, e que não seria tão fácil entregá-lo ao Sinédrio, conforme julgara a princípio.
Formulando novas conjecturas e com imensa surpresa para os representantes confiados do Sinédrio, Pórcio Festo perguntou ao prisioneiro se consentia em voltar a Jerusalém, a fim de lá ser julgado, perante ele próprio, pelo tribunal da sua raça. Paulo de Tarso, compreendendo a cilada dos israelitas, replicou tranquilamente, enchendo a assembléia de assombro:
– Senhor governador, estou diante do tribunal de César, a fim de ser definitivamente julgado. Há mais de dois anos espero a decisão de um processo que não posso compreender. Como sabeis, a ninguém ofendi. Minha prisão derivou, tão só, das intrigas religiosas de Jerusalém. Desafio, neste particular, o conceito dos mais exigentes. Se eu pratiquei algum ato indigno, peço, eu mesmo, a sentença de morte. Convocado a novo julgamento, acreditei tivésseis a coragem necessária para romper com as aspirações inferiores do Sinédrio, fazendo justiça à vossa longanimidade de administrador consciencioso e reto. Continuo confiando na vossa autoridade, na vossa imparcialidade, extremes de favor, que ninguém poderá exigir dos vossos encargos honrosos e delicados. Examinai detidamente as acusações que me retém no cárcere de Cesareia! Verificareis que nenhum poder provincial poderá entregar-me à tirania de Jerusalém! Reconhecendo essa valiosa circunstância e invocando meus títulos, embora creia sinceramente em vossas deliberações sábias e justas, apelo, desde já, para César!…
A atitude inesperada do Apóstolo dos gentios provocou geral espanto. Pórcio Festo, muito pálido, engolfou-se em sérias cogitações. De sua cátedra de juiz, ensinara, generosamente, o caminho da vida a muitos acusados e malfeitores; entretanto, naquela hora inolvidável de sua existência, encontrava um réu que lhe falava ao coração. A resposta de Paulo valia um programa de justiça e de ordem. Os doutores da Lei antiga insistiram pela adoção de medidas mais enérgicas. Entretanto, o governador cerrou ouvidos às intrigas de Jerusalém, afirmando que de modo algum podia transigir no cumprimento do dever. Desculpou-se, desapontado, com os velhos políticos do Sinédrio e do Templo, que o fixavam com olhos rancorosos e pronunciou as célebres palavras:
– Apelaste para César? Irás a César!
Estava resolvido o problema e Paulo de Tarso poderia partir com a primeira leva de sentenciados, para Roma.
Escusado dizer que recebeu a notícia com serenidade. Depois de um entendimento com Lucas, pediu que a igreja de Jerusalém fosse avisada, bem como a de Sídon, onde o navio, certo, haveria de receber carga e passageiros. Todos os amigos de Cesareia foram mobilizados no serviço das comovedoras mensagens que o ex-rabino dirigiu às amadas igrejas, menos Timóteo, Lucas e Aristarco, que se propunham acompanhá-lo à capital do Império.
Os dias correram céleres, até que chegou o momento em que o centurião Júlio com a sua escolta foi buscar os prisioneiros para a viagem tormentosa.
O navio em que viajavam o Apóstolo e os companheiros, no dia imediato, tocou em Sídon. A embarcação, freqüentemente, deixava divisar paisagens gratíssimas ao olhar do Apóstolo. Depois de costear a Fenícia, surgiram os contornos da Ilha de Chipre – cariciosas recordações. Nas proximidades de Panfília, exultou de íntima alegria pelo dever cumprido, e assim chegou ao porto de Mira, na Lícia. Foi aí que Júlio resolveu tomar passagem numa embarcação Alexandrina, que se dirigia para a Itália. Desse modo, a viagem continuou, mas com perspectivas desfavoráveis. O navio levava excesso de carga. Além de grande quantidade de trigo, tinha a bordo duzentos e setenta e seis pessoas. Aproximava-se o período difícil para os trabalhos da navegação. Os ventos sopravam de rijo, contrariando a rota. Depois de longos dias, ainda vagavam na região de Cnido. Vencendo dificuldades extremas, conseguiram tocar em alguns pontos de Creta.
Observando os obstáculos da jornada e obedecendo à própria intuição, o Apóstolo, confiando na amizade de Júlio, chamou-o em particular, e sugeriu o inverneio em Kaloi-Limenes. O chefe da coorte tomou o alvitre em consideração e apresentou-o ao comandante e ao piloto, os quais o houveram por descabível.

Logo, porém, que se fizeram ao mar alto, rumo a Fênix, um furacão imprevisto caiu de súbito. De nada valeram providências improvisadas. Decorridos catorze dias de cerração e tormenta, o barco alexandrino atingiu a Ilha de Malta. Os presos que sabiam nadar atiraram-se à água corajosamente; os demais se agarravam ao botes improvisados, buscando a praia.
Os naturais da Ilha, bem como os poucos romanos que lá residiam a serviço da administração, acolheram os náufragos com simpatia; mas por numerosos, não havia acomodação para todos. Frio intenso enregelava os mais resistentes. Paulo, todavia, dando mostras do seu valor e experiência em afrontar intempéries, tratou de dar o exemplo aos mais abatidos, para que se fizesse fogo, sem demora. Grandes fogueiras foram acesas rapidamente , mas, quando o Apóstolo atirava um feixe de ramos secos à labareda crepitante, uma víbora cravou-lhe nas mãos os dentes venenosos. O ex-rabino susteve-a no ar com gesto sereno, até que ela caísse nas chamas, com estupefação geral.

Paulo picado pela víbora

Lucas e Timóteo aproximaram-se aflitos. O chefe da coorte e alguns amigos estavam desolados. É que os naturais da Ilha, observando o fato, davam alarme, asseverando que o réptil era dos mais venenosos da região, e que as vítimas não sobreviviam mais do que horas.
Os indígenas, impressionados, afastavam-se discretamente. Outros, assustadiços, afirmavam:
– Este homem deve ser um grande criminoso, pois, salvando-se das ondas bravias, veio encontrar aqui o castigo dos deuses. Não eram poucos os que aguardavam a morte do Apóstolo; ele, no entanto, aquecendo-se como lhe era possível, observava a expressão fisionômica de cada um e orava com fervor. Diante do prognóstico dos nativos da Ilha, Timóteo aproximou-se, mais intimamente, e buscou cientificá-lo do que diziam a seu respeito.
O ex-rabino sorriu e murmurou:
– Não te impressiones. As opiniões do vulgo são muito inconsistentes, disso tenho experiência própria. Estejamos atentos aos nossos deveres, porque a ignorância sempre está pronta a transitar da maldição ao elogio e vice-versa. É bem possível que daqui a algumas horas me considerem um deus. Com efeito, quando viram que ele não acusara nem mesmo a mais leve impressão de dor, os indígenas passaram a observá-lo com entidade sobrenatural. Já que se mantivera indene ao veneno da víbora, não poderia ser um homem comum, antes algum enviado do Olimpo, a que todos deveriam obedecer.
Há esse tempo, o mais alto funcionário de Malta, Públio Apiano, chegara ao local e ordenava as primeiras providências, para socorrer os náufragos. O preposto imperial reservou os melhores cômodos da própria moradia para o comandante do navio e o centurião Júlio. O chefe da coorte, no entanto, se sentido, agora, extremamente ligado ao Apóstolo dos gentios, solicitou ao generoso romano o acolhesse com a deferência a que fazia jus, ao mesmo tempo em que elogiava as suas virtudes heróicas.
Ciente da elevada condição espiritual do convertido de Damasco e ouvindo os fatos maravilhosos, que lhe atribuíam no capítulo das curas, falou, comovidamente, ao centurião:
– Lembrança preciosa a vossa, mesmo porque, tenho aqui meu pai enfermo e desejaria experimentar as virtudes desse santo varão do povo de Israel! Convidado por Júlio, Paulo aquiesceu desassombrado, e, assim compareceu em casa de Públio.
Levado à presença do ancião enfermo, impôs-lhe a mão calosa e enrugada, em prece comovedora e ardente. O velhinho que ardia e se consumia, em febre letal, experimentou imediato alívio e rendeu graças aos deuses de sua crença. Tomado de surpresa, Públio Apiano viu-o levantar-se procurando a destra do benfeitor para um ósculo santo.
O ex-rabino, no entanto, valeu-se da situação, e, ali mesmo, exaltou o Divino Mestre, pregando as verdades eternas e esclarecendo que todos os bens provinham do seu coração misericordioso e justo e não de criaturas pobres e frágeis, quanto ele. Com a complacência de Júlio, o ex-rabino e os seus companheiros obtiveram um velho salão do administrador, onde os serviços evangélicos funcionaram regularmente, durante os meses do inverno rigoroso. Quando voltou a época da navegação, Paulo já havia criado em toda a Ilha, uma vasta família cristã, cheia de paz e nobres realizações para o futuro.

Paulo em Roma

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