O Jovem Saulo

Estamos na velha Jerusalém, numa clara manhã do ano 35. Chegando à cidade, depois de uma semana de viagem exaustiva, Sadoc aguardava o amigo Saulo para o abraço afetuoso da sua amizade de muitos anos.
Dentro em breve, um carro minúsculo, semelhante as bigas romanas, estacava a porta, tirado por dois soberbos cavalos brancos. Num minuto, as nossas personagens se abraçaram efusivamente, transbordantes de alegria e juventude.
O jovem Saulo apresentava toda a vivacidade de um homem solteiro, bordejando os seus 30 anos.
Na fisionomia cheia de virilidade e máscula beleza, os traços israelitas fixavam-se particularmente nos olhos profundos e percucientes, próprios dos temperamentos apaixonados e indomáveis, ricos de agudeza e resolução.
–Quando chegaste? perguntou Sadoc, bem humorado, ao visitante.
–Estou em Jerusalém desde ontem de manhã… A palestra ia animada, quando, em dado instante, o moço de Tarso inquiriu o amigo sobre os motivos que o traziam a Jerusalém.
–Vim certificar-me da cura de meu tio Filodemus, que ficou curado da velha cegueira, mediante processos misteriosos. E, como se trouxesse o cérebro cheio de interrogações de toda sorte, para as quais não encontrava resposta nos próprios conhecimentos, acentuou:
–Já ouviste falar nos homens do “Caminho”?
–Ah! Andromico falou-me a respeito deles, há muito tempo. Não se trata de uns pobres galileus maltrapilhos e ignorantes que se refugiam nos bairros desprezíveis?
–Isso, justamente. E contou que um homem chamado Estêvão, portador de virtudes sobrenaturais, no dizer do povo, havia devolvido a vista ao tio, com assombro geral de muita gente.
–Como é isso? perguntou Saulo admirado. Desde que Andromico me referiu o assunto pela primeira vez, tenho ouvido comentários a respeito desses homens e cheguei mesmo a trocar idéias com Gamaliel, no intuito de reprimir essas atividades perniciosas; entretanto, o mestre, com a tolerância que o caracteriza, me fez ver que essa gente vem auxiliando a numerosas pessoas sem recursos.
–Sim, atalhou o outro, mas ouço dizer que as pregações de Estêvão estão arrebatando muitos estudiosos a novos princípios que, de algum modo, infirmam a Lei de Moisés.
Ambos trocaram impressões íntimas, sobre a nova doutrina, pontuando de ironia o comentário de muitos fatos piedosos que empolgavam a atenção do povo simples de Jerusalém.
Ao finalizar a conversa, Sadoc acentuou:
–Não me conformo em ver os nossos princípios aviltados e proponho-me a cooperar contigo, embora esteja em Damasco, para estabelecermos a imprescindível repressão a tais atividades. Com as prerrogativas de futuro rabino, em destaque no Templo, poderás encabeçar uma ação decisiva contra esses mistificadores e falsos taumaturgos.
–Sem dúvida, respondeu Saulo. E prontifico-me a executar todas as providências que o caso requer. Até agora, a atitude do Sinédrio tem sido da máxima tolerância, mas farei que todos os companheiros mudem de opinião e procedam como lhes compete, em face dessas investidas que estão a desafiar severa punição. E, quase solene, concluía:
–Quais os dias de pregação desse tal Estêvão?
–Os sábados.
–Pois bem; depois de amanhã iremos juntos apreciar os sandeus. Caso verifique o caráter inofensivo dos seus ensinamentos, haverá que os deixar em paz com a sua logomania, ao lado das mazelas do próximo, mas, caso contrário, pagarão muito caro a audácia de ofender nossos códigos religiosos, na própria metrópole de judaísmo…
Tiago, Pedro e João surpreenderam-se singularmente com a presença do jovem doutor da Lei, que se popularizara na cidade pela sua oratória veemente e pelo acurado conhecimento das escrituras. Os generosos galileus ofereceram-lhe o banco mais confortável.
Saulo ouvia as palavras de Estêvão, altamente surpreendido, mas verificou a diferença entre a Lei e o Evangelho anunciado por aqueles homens estranhos, que a sua mentalidade não podia compreender.
O orador preparava-se para retomar a palavra, momentaneamente interrompida e aguardada com expectativa de júbilo geral, quando o jovem doutor se levantou, e, com ousadia, passou a discutir com ele. Porém Estêvão não se intimidou diante do opositor tão importante, e, assim, a discussão continuou acalorada, até que o jovem orador decidiu encerrar a arenga, mas Saulo exigia a sua continuação, dizendo que sua autoridade era insultada, e que iria recorrer ao Sinédrio para julgar os seguidores de Jesus e puni-los…
Passados alguns dias, tomavam-se em Jerusalém providências para que Estêvão fosse levado ao Sinédrio e ali interrogado sobre a finalidade colimada com as prédicas do “Caminho”. Dada a intercessão conciliatória de Gamaliel, o feito se resumiria a uma discussão em que o pregador das novas interpretações definisse perante o mais alto tribunal da raça os seus pontos de vista, a fim de que os sacerdotes, como juízes e defensores da lei, expusessem a verdade nos devidos termos.
O convite para a requesta chegou à igreja humilde, mas Estêvão se esquivou alegando que não seria razoável disputar, em obediência aos preceitos do Mestre. Saulo, a seu turno, não poderia obrigar o antagonista a corresponder ao desafio, mesmo porque, o Sinédrio só poderia empregar meios compulsórios no caso de uma denúncia pública, depois da instauração de um processo em que o denunciado fosse reconhecido como blasfemo e caluniador.
Ante a reiterada escusa de Estêvão, o doutor de Tarso exasperou-se. E, depois de irritar a maioria dos companheiros contra o adversário, arquitetou vasto plano, de modo a forçá-lo à polêmica desejada, na qual buscaria humilhá-lo diante de todos os maiorais do judaísmo dominador.
Depois de uma das sessões comuns do tribunal, Saulo pediu a um de seus amigos serviçais que fizesse a denúncia contra Estêvão…
A notícia estourou na igreja do “Caminho”, produzindo efeitos singulares e dolorosos, mas, Estêvão, com Simão Pedro e João, mantinha absolutamente sereno, recebendo com bom ânimo a ordem de responder corajosamente ao libelo. Estêvão comparecia como um homem chamado a defender-se das acusações a ele imputadas, não como prisioneiro comum obrigado a acertar contas com a justiça.
A sessão começou com todas as cerimônias regimentais. Ao iniciar os trabalhos, o sumo sacerdote anunciou a escolha de Saulo, consoante seu próprio desejo, para interpelar o denunciado e averiguar a extensão de sua culpa no aviltamento dos princípios sagrados da raça. Recebendo o convite para funcionar como juiz do feito, o jovem tarsense esboçou um sorriso triunfante.
Depois de ler a peça acusatória, Saulo interrogou Estêvão entre ríspido e altivo:
– Como vedes, sois acusado de blasfemo, caluniador e feiticeiro, perante as autoridades mais representativas. No entanto, antes de qualquer decisão, o tribunal deseja conhecer vossa origem para determinar os direitos que vos assistem neste momento. Sois, porventura, de família israelita? Ante a resposta afirmativa do interpelado, o doutor da Lei surpreendeu-se, ligeiramente, de maneira imperceptível para a assembléia, e continuou com o interrogatório.
As respostas de Estêvão eram sempre concisas, reveladoras de raciocínios lógicos, irretorquíveis; o doutor de Tarso notou que o antagonista contava com a simpatia e admiração de muitos na assembléia, que, ante o sopro daquela sublime inspiração, parecia imóvel, incapaz de se definir.
Muitos israelitas supunham ver em Estêvão o ressurgimento de um dos primitivos profetas da raça. Mas os fariseus, como se quebrassem a misteriosa força que os emudecia, romperam em algazarra ensurdecedora, gesticulando a esmo, proferindo impropérios, no propósito de atenuar a forte impressão causada pelos surtos eloqüentes e calorosos do orador, e gritavam:
–Apedrejemos o imundo! Matemos a calúnia! Anátema ao caminho de Satanás.
Nesse comenos, Saulo levantou-se rubro de cólera, caminhou para o acusado, e caiu-lhe de punhos fechados no rosto, sem que Estêvão tentasse a menor reação.
A serenidade de Estêvão perturbou-o ainda mais. Sem dúvida, estava diante de uma energia ignorada.
Esboçando um sorriso de zombaria, advertiu altaneiro:
–Não reages, covarde? Tua escola é também a da indignidade?
O pregador cristão, apesar dos olhos molhados, respondeu com firmeza:
–A paz difere da violência, tanto quanto a força do Cristo diverge da vossa.
Voltando-se para observar a aprovação dos seus partidários, que se contavam por maioria, Saulo dirigiu-se ao sumo sacerdote e impetrou uma sentença cruel. Tremia-lhe a voz pelo esforço físico despendido.
–Analisando a peça condenatória, acrescentou ufano, e, considerados os graves insultos aqui bolçados, como juiz da causa rogo seja o réu lapidado. A autoridade superior recebeu o alvitre e procurou submetê-lo à votação no reduzido círculo dos colegas mais eminentes. Foi aí que Gamaliel, depois de palestrar em voz baixa com os colegas de elevada investidura, levantou-se no inquieto cenáculo e ponderou nobremente:
–Tendo voto neste tribunal e não desejando precipitar a solução de um problema de consciência, proponho que se estude mais ponderadamente a sentença pedida, retendo-se o acusado em calabouço até que se esclareça a sua responsabilidade perante a justiça. A nova proposta foi plenamente aprovada.
Com a sua profunda experiência dos homens, Gamaliel compreendeu que era indispensável conceder alguma coisa.
Encerrou-se, assim, a memorável sessão. Numerosos companheiros acercaram-se do moço judeu, felicitando-o pela palavra vibrante, ciosa da hegemonia de Moisés. O ex-discípulo de Gamaliel recebia a saudação dos amigos e murmurava:
–Conto com todos, lutaremos até ao fim.
Saulo de Tarso, nas características de sua impulsividade, deixou empolgar-se pela idéia de vingança, impressionado com o desassombro de Estêvão em face da sua autoridade e da sua fama. A seu ver, o pregador do Evangelho infligira-lhe humilhações públicas, que impunham reparações equivalentes.
No fundo, seu ressentimento era apanágio de uma juventude generosa e sincera; entretanto, a vaidade ferida, o orgulho racial, o instinto de domínio, toldavam-lhe a retina espiritual.
No âmago das suas reflexões, odiava agora aquele Cristo crucificado, porque detestava a Estêvão, considerado, então, como perigoso inimigo. Não poderia tolerar qualquer expressão daquela doutrina, aparentemente simples, mas que vinha abalar o fundamento dos princípios estabelecidos.
Perseguiria inflexivelmente o “Caminho”, na pessoa de quantos lhe estivessem associados. Certo deveria contar com as admoestações conciliatórias de um Gamaliel e de outros raros espíritos, que, ao seu ver se deixariam embair pela filosofia de bondade que os galileus haviam suscitado com as novas escrituras, mas estava convencido de que a maioria farisaica, em função política, ficaria a seu lado, animando-o na empresa começada.
Atento à autorização concedida pelos mais altos poderes políticos da província, Caifás propôs fosse o zeloso doutor de Tarso nomeado chefe e promotor de todas as providências atinentes e indispensáveis à guarda e defesa da Lei. Competia-lhe, então, promover todos os recursos que julgasse convenientes e úteis, reservadas ao Sinédrio as últimas decisões, máxime, as de natureza mais grave.
Satisfeito com a autorização e poderes que lhe foram concedidos, o moço tarsense informou aos amigos que no final da semana trataria de prisão da gentalha do “Caminho”.
Foi pela manhã de um dia muito claro, que o futuro rabino, cercado de alguns companheiros e soldados, bateu à porta da casa humilde fazendo grande alarde dos fins de sua visita insidiosa.
Simão Pedro foi o primeiro a ser preso; em seguida foi João, que estava ao lado da enfermaria e recebeu voz de prisão. Mais alguns passos e encontrou Filipe, que se deixou algemar sem um protesto. Tiago foi poupado porque foi encontrado ajoelhado, tendo diante dos olhos um rolo de pergaminhos em que se encontrava a lei de Moisés.

Gamaliel

Dentro de uma semana, após as prisões efetuadas na igreja modesta, realizava-se a memorável sessão em que Pedro, João e Filipe deveriam se julgados.
Viu-se, então, que Gamaliel se detinha com o sumo sacerdote em conversação íntima, que durou alguns minutos e despertava grande curiosidade entre os colegas. Em seguida, o venerando doutor da Lei chamou o ex-discípulo para um entendimento particular, antes de iniciarem os trabalhos.
Os colegas perceberam que o rabino tolerante e generoso ia advogar a causa dos continuadores do Nazareno.
–Qual a sentença a ser proposta para os prisioneiros? interrogou o velhinho com bondoso interesse, logo que se viram distanciados dos grupos rumorosos.
–Sendo eles galileus, disse Saulo enfático da sua autoridade, não lhes será conferido o direito da palavra no recinto, de maneira que já deliberei a punição que lhes cabe. Vou propor a morte dos três, com a de Estêvão, pelo apedrejamento.
–Que dizes? exclamou Gamaliel, surpreso.
–Não vejo outro recurso, disse o moço tarsense, precisamos extirpar pela raiz os males que começam.
–Entretanto, Saulo, replicou o velho mestre com profunda bondade, devo invocar o ascendente que tenho em tua formação espiritual, para defender estes homens da pena de morte. O moço caprichoso fez-se lívido. Não se habituara a transigir nos seus conceitos e decisões. Sua vontade era sempre tirânica e inflexível. Mas, Gamaliel fora de todos os tempos o seu melhor amigo. Aquelas mãos rugosas lhe haviam ministrado os exemplos mais santos. Delas recebera vasto potencial de socorro em todos os dias da vida. Compreendeu que defrontava um obstáculo poderoso na consecução integral de seus desejos.
O venerando rabino percebeu a sua perplexidade e insistiu:
–Não precisarás refletir muito tempo. O sumo sacerdote está ciente de que eu pediria tua clemência para os prisioneiros.

A lapidação de Estevão

–Mas… e a minha autoridade? interrogou o rapaz com orgulho.
–Toda autoridade é de Deus. Nós somos simples instrumentos, meu filho. Ninguém se diminuirá por ser bom e tolerante. Quanto à providência mais digna cabível no caso é conceder liberdade a todos eles.
–Todos? perguntou Saulo num gesto de grande admiração.
–Como não? confirmou o venerável doutor da Lei. Pedro é um homem generoso, Filipe é um pai de família extremamente dedicado ao cumprimento de seus deveres, João é um moço simples, Estêvão consagrou-se aos pobres.
–Sim, sim, interrompeu o moço tarsense. Concordo com a libertação dos três primeiros, mas Estêvão deverá sofrer a sentença decisiva. Já propus, publicamente, a lapidação, e não vejo motivos para transigir.

A conversão

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