O apelo de Tiago

Novamente em Corinto, o ex-rabino ratificou as suas epístolas, reorganizou amorosamente os quadros de serviço de igreja e, no círculo dos mais íntimos, não falava de outra coisa senão do grandioso projeto de visitar Roma. Nesse meio tempo, readquiriu as energias latentes do organismo debilitado.
Silas e Lucas disseram estar prontos e resolvidos a compartilhar dos trabalhos e alegrias da missão de Roma. Paulo mostrou-se conformado e satisfeito. Bastavam-lhe Silas e Lucas, habituados aos seus métodos de propaganda e com os mais belos títulos de trabalho e dedicação à causa de Jesus.
Tudo corria às mil maravilhas, o plano combinado auspiciava grandes esperanças, quando, no dia imediato, surgia em Corinto, um portador de Jerusalém, com uma carta confidencial de Tiago, para o ex-rabino.
À medida que ia lendo, mais pálido se fazia. O filho de Alfeu comunicava ao ex-doutor da Lei os dolorosos acontecimentos que se desenrolavam em Jerusalém. Tiago avisava que a igreja sofria nova e violentíssima perseguição do Sinédrio. Pedro fora banido da cidade. Grande número de confrades eram alvos de novas perseguições. Dentro de suas atitudes conciliatórias, conseguira aplacar os ânimos mais exaltados, mas o Sinédrio alegava a necessidade de um entendimento com Paulo, a fim de conceder tréguas. Tiago relatava os acontecimentos com grande serenidade e rogava a Paulo de Tarso não abandonasse a igreja naquela hora de lutas acerbas. Ele, Tiago, estava envelhecido e cansado. Sem a colaboração de Pedro, temia sucumbir. Pedia, então, ao convertido de Damasco fosse a Jerusalém, afrontasse as perseguições por amor a Jesus, para que os doutores do Sinédrio e do Templo ficassem suficientemente esclarecidos.
Terminada a leitura, Paulo convidou o portador para descansar, informando-o de que levaria a resposta em breves dias.
Grandemente apreensivo, adormeceu naquela noite, depois de pensamentos torturantes e exaustivos. Sonhou, porém, que se encontrava em longa e clara estrada tonalizada de maravilhosos clarões opalinos. Não dera muitos passos, quando foi abraçado por duas entidades carinhosas e amigas. Eram Jeziel e Abigail, que o enlaçavam com indizível carinho. Extasiado, não pode murmurar uma palavra. Abigail agradeceu-lhe a ternura das lembranças comovidas, em Corinto, falou-lhe dos júbilos do seu coração e rematou com alegria:
– Não te inquietes, Paulo. É preciso ir a Jerusalém para o testemunho imprescindível. No íntimo, o Apóstolo reconsiderava o plano de excursão a Roma, no seu nobre intuito de ensinar as verdades cristãs na sede do Império. Bastou pensá-lo, para que a voz querida se fizesse ouvir novamente, em timbre familiar:
– Tranqüiliza-te, porque irás a Roma cumprir um sublime dever; não, porém, como queres, mas de acordo com os desígnios do Altíssimo… E logo, esboçando angelical sorriso:
– Depois, então, será a nossa união eterna em Jesus Cristo, para a divina tarefa do amor e da verdade à luz do Evangelho. Aquelas palavras caíram-lhe na alma com a força de uma profunda revelação. O Apóstolo dos gentios não saberia explicar o que se passou no âmago do seu Espírito. Sentia, simultaneamente, dor e prazer, preocupação e esperança. Acordou em sobressalto e concluiu, desde logo, que deveria preparar-se para os derradeiros testemunhos.
No dia seguinte, convocou uma reunião dos amigos e companheiros de Corinto e expôs o plano de passar em Jerusalém antes de seguir para Roma. Explicou que ficaria mais algumas semanas em Corinto, no entanto, pretendia fazer a viagem por etapas, no intuito de visitar as comunidades cristãs, pois tinha a intuição de sua partida breve para Roma, e de que não mais veria as igrejas amadas, em corpo mortal…
Decorridos três meses de permanência em Corinto, novas perseguições dos judeus foram desfechadas contra a instituição. A sinagoga principal da Acaia havia recebido secretas notificações de Jerusalém. Nada menos que a eliminação do Apóstolo, a qualquer preço. Paulo percebeu a insídia e despediu-se prudentemente dos coríntios, partindo em companhia de Lucas e Silas, a pé, para visitar as igrejas de Macedônia.
Por toda a parte pregou a palavra do Evangelho, convencido de que era a última vez que fixava aquelas paisagens.
Chegando a Filipes, cuja comunidade fraternal lhe falava mais intimamente ao coração, sua palavra suscitou torrentes de lágrimas.
Dando por terminada a tarefa nas zonas de Filipes, Paulo e os companheiros navegaram com destino a Tróade. Nesta cidade, o Apóstolo fez, com inexcedível êxito, a derradeira pregação, na sétima noite de sua chegada, verificando-se o célebre incidente com o jovem Êutico, que caiu da janela do terceiro andar do prédio em que se realizavam as práticas evangélicas, sendo imediatamente socorrido pelo ex-rabino, que o colheu semimorto e devolveu-lhe a vida em nome de Jesus.
Adquirindo, em seguida, um barco muito ordinário, Paulo e os discípulos prosseguiram a viagem para Jerusalém, distribuindo consolações e socorros espirituais às comunidades humildes e obscuras. Em todas as praias eram gestos comovedores, adeuses amargurados. Em Éfeso, porém, a cena foi muito mais triste, porque o Apóstolo solicitara o comparecimento dos anciães e amigos, para falar-lhes particularmente ao coração. Não desejava desembarcar, no intuito de prevenir novos conflitos que lhe retardassem a marcha; mas, em testemunho de amor e reconhecimento, a comunidade em peso lhe foi ao encontro, sensibilizando-lhe a alma afetuosa.
A própria Maria, avançada em anos, acorrera de longe em companhia de João e outros discípulos, para levar uma palavra de amor ao paladino intimorato do Evangelho de seu Filho. Os anciães receberam-no com ardorosas demonstrações de amizade, as crianças ofereciam-lhe merendas e flores.
Extremamente comovido, Paulo de Tarso prelecionou em despedida, e, quando afirmou o pressentimento de que não mais voltaria ali em corpo mortal, houve grandes explosões de amargura entre os efésios.
Como que tocados pela grandeza espiritual daquele momento, quase todos se ajoelharam no tapete branco da praia e pediram a Deus protegesse o devotado batalhador do Cristo. Recebendo tão belas manifestações de carinho, o ex-rabino abraçou, um por um, de olhos molhados. A maioria se atirava em seus braços amorosos, soluçando, beijando-lhe as mãos calosas e rudes. Abraçando, por último, a Mãe Santíssima, Paulo tomou-lhe a destra e nela depôs um beijo de ternura filial.
A viagem continuou com as mesmas características. Rodes, Pátara, Tiro, Ptolemáida, e, finalmente, Cesaréia. Nesta cidade, hospedaram-se na casa de Filipe, que ali fixara residência desde muito tempo. O velho companheiro de lutas informou Paulo dos fatos mínimos de Jerusalém, onde muito esperava do seu esforço pessoal para continuação da igreja. Muito velhinho, o generoso Galileu falou da paisagem espiritual da cidade dos rabinos, sem disfarçar os receios que a situação lhe causava.
Não somente isso constrangeu os missionários. Agabo, já conhecido de Paulo em Antioquia, viera da Judéia, e, em transe mediúnico, na primeira reunião íntima, em casa Filipe, formulou os mais dolorosos vaticínios. As perspectivas eram tão sombrias que o próprio Lucas chorou. Os amigos rogaram a Paulo de Tarso que não partisse. Seria preferível a liberdade e a vida a benefício da causa.
Ele, porém, sempre disposto e resoluto, referiu-se ao Evangelho, comentou a passagem em que o Mestre profetizava os martírios que o aguardavam na cruz e concluía arrebatadamente:
– Porque chorarmos, magoando o coração? Os seguidores do Cristo devem estar prontos para tudo. Por mim, estou disposto a dar testemunho, ainda que tenha de morrer em Jerusalém, pelo nome do Senhor Jesus!… A impressão dos vaticínios de Agabo ainda não havia desaparecido, quando a casa de Filipe recebeu nova surpresa, no dia imediato. Um mensageiro de Tiago, de nome Mnason explicou ao ex-rabino o motivo de sua presença, advertindo-o dos perigos que arrostaria em Jerusalém, onde o ódio sectarista esfervilhava e atingia as mais atrozes perseguições. Dadas a exaltação e a vigilância do judaísmo, Paulo não deveria procurar imediatamente a igreja, mas, hospedar-se em casa dele, mensageiro, onde Tiago iria falar-lhe em particular, e assim resolveriam o que melhor conviesse aos sagrados interesses do Cristianismo.
Angustiosas sombras pairavam no espírito dos companheiros do grande Apóstolo, quando a caravana deslocou-se de Cesaréia para a capital do judaísmo. Como sempre, Paulo de Tarso anunciou a Boa Nova nos burgos mais humildes.

Testemunho em Jerusalém

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