Novamente em Damasco

Damasco AntigaA jornada se fez sem incidentes. Entretanto, em sua nova soledade, o moço tarsense reconhecia que forças invisíveis proviam-lhe a mente de grandiosas e consoladoras inspirações. Dentro da noite cheia de estrelas, tinha a impressão de ouvir uma voz carinhosa e sábia, a traduzir-se por apelos de infinito amor e de infinita esperança. Desde o instante em que se desligara da companhia amorável de Áquila e sua mulher, quando se sentiu absolutamente só para os grandes empreendimentos do seu novo destino, encontrou energias interiores até então imprevistas, por desconhecidas.
Não podia definir aquele estado espiritual, mas o caso é que dali por diante, sob a direção de Jesus, Estevão conservava-se a seu lado como companheiro fiel.
Aquelas exortações, aquelas vozes brandas e amigas que o assistiram em todo o curso apostolar, e atribuídas diretamente ao Salvador, provinham do generoso mártir do “Caminho”, que o seguiu espiritualmente durante trinta anos, renovando-lhe constantemente as forças para execução das tarefas redentoras do Evangelho. Jesus quis, destarte, que a primeira vítima das perseguições de Jerusalém ficasse para sempre irmanada ao primeiro algoz dos prosélitos de sua doutrina de vida e redenção.
Ao invés dos sentimentos de remorso e perplexidade em face do passado culposo; da saudade e desalento que, às vezes, lhe ameaçavam o coração, sentia, agora, radiosas promessas no espírito renovado, sem poder explicar a sagrada origem de tão profundas esperanças. Não obstante as singulares alterações fisionômicas que a vida, o regime e o clima do deserto lhe produziram, entrou em Damasco, com alegria sincera na alma agora devotada, absolutamente, ao serviço de Jesus.
Com júbilo indefinível abraçou o velho Ananias, pondo-o ao corrente de suas edificações espirituais.
No segundo sábado de sua permanência na cidade, o vigoroso pregador compareceu à sinagoga. Ninguém reconheceu o rabino de Tarso na sua túnica rafada, na epiderme tostada de sol, no rosto descarnado, no brilho mais vivo dos olhos profundos.
Terminada a leitura e a exposição regulamentares, franqueada a palavra aos sinceros estudiosos da religião, eis que o desconhecido galga a tribuna dos mestres de Israel, falando primeiramente do caráter sagrado da Lei de Moisés, mas, quando começou a falar do Messias Nazareno comparando sua vida, feitos e ensinamentos, com os textos que o anunciavam nas sagradas escrituras, a assembléia rompe em furiosa gritaria.
Os chefes do serviço religioso, por sua vez, reconheceram o antigo companheiro, agora considerado trânsfuga da Lei, a que se deviam impor castigos rude e cruéis. Saulo de Tarso só não foi preso porque exigiu que a autoridade apresentasse o mandado de prisão, que, havia dois anos chegar de Jerusalém, mas ninguém podia prever aquela eventualidade.
Aconselhado por Ananias, Saulo deixou a cidade, a noite, passando pelos muros da que cercavam, dentro de um cesto de vime.
Em Jerusalém aguardavam-no outras surpresas não menos dolorosas.
Resolveu procurar Alexandre, parente de Caifás e seu companheiro de atividades no Sinédrio e no Templo, tendo sido recebido com alegria, mas não foi compreendido pelo amigo que o despediu dizendo que estaria às suas ordens para uma retificação definitiva de atitudes, a qualquer tempo.
Procurou a pensão mais modesta de uma das zonas mais pobres da cidade. Em seguida a frugal refeição e antes que caíssem as sombras cariciosas da tarde, encaminhou-se esperançado para o velho casarão reformado, onde Simão Pedro e companheiros desenvolviam toda a atividade em prol da causa de Jesus. Os apóstolos, porém, não o receberam, pedindo que ele voltasse depois, porque eles tinham ocupações mais urgentes.
Após uma reunião convocada para resolver o assunto, Pedro decidiu convidar Barnabé para visitar pessoalmente o doutor de Tarso, em nome da casa. O diácono de Chipre destacava-se por sua grande bondade. Sua expressão carinhosa e humilde, seu espírito conciliador, contribuíam, na igreja, para a solução pacífica de todos os assuntos.
Chegados a casa, Prócoro lhes abriu a porta, mas, desta vez, não ficaria a esperar indefinidamente. Barnabé tomou-lhe a mão, afetuoso, e dirigiram-se para o vasto salão, onde Pedro e Timon os esperavam.
Em breves momentos, vencendo o constrangimento do primeiro contacto com os amigos pessoais do Mestre, depois de tão longa ausência, o moço tarsense atendendo-lhes ao pedido, relatava a jornada de Damasco com todos os pormenores do grande acontecimento. Terminada a narrativa, o ex-doutor da Lei estava cansado e abatido.
Desejando consolidar a confiança dos ouvintes, arrancou das dobras de túnica um rolo de pergaminhos e, apresentando-o ao ex-pescador de Cafarnaum, explicou que Gamaliel lhe dera, pouco antes de morrer, a cópia das anotações de Levi, concernentes à vida e feitos do Salvador, as quais ele tinha em grande conta porque as recebeu na primeira visita que fez aos apóstolos.
Simão Pedro, evocando gratas recordações, tomou os pergaminhos com vivo interesse. Saulo verificava que o presente de Gamaliel tivera a finalidade prevista pelo generoso doador. Desde esse instante os olhos do antigo pescador fixaram-se nele com mais confiança.
Sentindo-se mais a vontade, Saulo passou a falar de seus planos de trabalho para o futuro, mas sentia-se combalido e doente, porque o esforço da última viagem, sem recursos de qualquer natureza, agravara-lhe a saúde, estava febril, o corpo dolorido, a alma exausta.
Pedro esclareceu que suas necessidades já haviam sido providas, em parte. Que ele havia recomendado que Barnabé pagasse as despesas da hospedaria, e, quanto ao mais, convidava-o a repousar com eles o tempo que julgasse necessário.
Em voz reticenciosa, revelando acanhamento, Saulo respondeu que ficaria com eles enquanto necessitasse de tratamento e, caso fosse possível, desejaria ocupar o mesmo leito em que Estevão foi recolhido, generosamente, na casa.
Logo que entrou a convalescer, já plenamente identificado com a afeição de Pedro, pediu-lhe conselhos sobre os planos que tinha em mente, encarecendo a maior franqueza, por mais duras que lhe fossem as circunstâncias.
-De minha parte, disse o Apóstolo ponderadamente, não me parece razoável permaneceres em Jerusalém, por enquanto, neste período de renovação. Para falar com sinceridade, há que considerar teu novo esta d’alma como planta preciosa que começa a germinar. É necessário dar liberdade ao germe divino da fé. Na hipótese de tua permanecia aqui, encontrarias, diariamente, de um lado os sacerdotes intransigentes em guerra conta o teu coração; e de outro, as pessoas incompreensíveis, que falam nas extremas dificuldades de perdão, embora conheçam, de sobra, as lições do Mestre nesse sentido. Não deves ignorar que a perseguição aos simpatizantes do “Caminho” deixou traços muito profundos na alma popular. O rapaz ouviu as advertências ralado de angústia, sem protestar. O Apóstolo tinha razão. Em toda a cidade encontraria críticas soezes e destruidoras.
-Voltarei a Tarso, disse com humildade, é possível que meu velho pai compreenda a situação e ajude meus passos.
Sei que Jesus abençoará meus esforços. Se é preciso recomeçar a existência, recomeçá-la-ei no lar de onde provim…
Simão contemplou-o com ternura, admirado daquela transformação espiritual.
-Pretendes voltar a Cilícia? – perguntou Pedro com inflexão paternal.
-Já não tenho mais aonde ir – respondeu com resignado sorriso. -Pois bem, partirás para Cesaréia. Temos ali amigos sinceros que te poderão auxiliar.
O programa de Pedro foi rigorosamente cumprido. À noite, quando Jerusalém se envolvia em grande silêncio, um cavaleiro humilde transpunha as portas da cidade, na direção dos caminhos que conduziam ao grande porto palestinense.

O tecelão

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