Os Demônios Segundo a Igreja

7 — Segundo a Igreja, Satã, o chefe ou o rei dos demônios, não é uma personificação alegórica do mal, mas sim um ser real, fazendo exclusivamente o mal, ao passo que Deus faz exclusivamente o bem. Vamos a ele tal como nos é dado.
Satã é de toda eternidade, como Deus, ou posterior a Deus? Se ele é de toda eternidade, ele é incriado, e por conseguinte igual a Deus. Deus então não é mais único; há o Deus do bem e o Deus do mal.
É ele posterior? Então é uma criatura de Deus. Visto que não faz senão o mal, que é incapaz de fazer o bem e de se arrepender, Deus criou um ser votado ao mal para sempre. Se o mal não é obra de Deus, mas a de uma de suas criaturas predestinadas a fazê-lo, Deus é sempre seu primeiro autor, e então ele não é infinitamente bom. O mesmo acontece com todos os seres maus chamados demônios.
8 — Durante muito tempo, foi essa a crença sobre esse ponto. Hoje, diz-se:
Nota de Kardec – As citações seguintes são extraídas da pastoral de Monsenhor Cardeal Gousset, cardeal arcebispo de Reims, para a quaresma de 1865. Em razão do mérito pessoal e da posição do autor, pode-se considerá-las como a última expressão da Igreja sobre a doutrina dos demônios.
“Deus, que é a bondade e a santidade por essência, não os criara maus e malfazejos. Sua mão paterna, que gosta de espalhar sobre todas as suas obras um reflexo de suas perfeições infinitas, cumulara-os dos dons mais magníficos. Às qualidades sobre-eminentes de sua natureza, ela acrescentara a generosidade de sua graça; ela os fizera em tudo semelhantes aos Espíritos sublimes que estão na glória e na felicidade; repartidos em todas as suas ordens e misturados em todas as suas fileiras, eles tinham o mesmo fim e os mesmos destinos; seu chefe foi o mais belo arcanjo. Eles poderiam ter, também, merecido ser confirmados para sempre na justiça e admitidos a gozar eternamente da bem-aventurança dos céus. Este último favor teria sido o auge de todos os outros favores de que eram objeto, mas ele devia ser o preço de sua docilidade, e eles se tornaram indignos dele; perderam-no por uma revolta audaciosa e insensata.”
“Qual foi o obstáculo à sua perseverança? Que verdade eles ignoraram? Que ato de fé e de adoração recusaram a Deus? A Igreja e os anais da história santa não o dizem de uma maneira positiva, mas parece certo que eles não aquiesceram nem à mediação do Filho de Deus para eles mesmos, nem à exaltação da natureza humana em Jesus Cristo.
“O Verbo divino, pelo qual todas as coisas foram feitas, é também o único mediador e salvador, no céu e na terra. O fim sobrenatural não foi dado aos anjos e aos homens a não ser em previsão de sua encarnação e de seus méritos, pois não há nenhuma proporção entre as obras dos Espíritos mais eminentes e essa recompensa, que não é senão o próprio Deus; nenhuma criatura poderia ter aí chegado sem essa intervenção maravilhosa e sublime de caridade. Ora, para preencher a distância infinita que separa a essência divina das obras de suas mãos, era preciso que ele reunisse em sua pessoa os dois extremos, e que associasse à sua divindade a natureza do anjo ou a do homem; e ele fez a escolha da natureza humana”.
“Esse desígnio, concebido desde a eternidade, foi manifestado aos anjos antes de seu cumprimento; O Homem-deus foi-lhes mostrado no futuro como Aquele que devia confirmá-los em graça e introduzi-los na glória, com a condição de que eles o adorariam na terra durante sua missão, e no céu pelos séculos dos séculos. Revelação inesperada, visão deslumbrante para os corações generosos e reconhecidos, mas mistério profundo, opressivo para os Espíritos soberbos”!
“Este fim sobrenatural, esse peso imenso de glória que lhes era proposto não seria portanto unicamente a recompensa de seus méritos pessoais! Jamais poderiam atribuir a si mesmos os títulos e a possessão! Um mediador entre eles e Deus, que injúria feita à sua dignidade! A preferência gratuita concedida à natureza humana, que injustiça! Que prejuízo a seus direitos! Essa humanidade, que lhes é tão inferior, vê-lo-ão um dia, deificada por sua união com o Verbo, e sentada à direita de Deus, num trono resplandecente? Consentirão em lhe oferecer eternamente suas homenagens e suas adorações”?
“Lúcifer e a terça parte dos anjos sucumbiram a esses pensamentos de orgulho e de ciúme. São Miguel, e com ele a maioria exclamara: Quem é semelhante a Deus? Ele é o senhor de seus dons e o soberano Senhor de todas as coisas. Glória a Deus e ao Cordeiro que será imolado pela salvação do mundo! Mas o chefe dos rebeldes, esquecendo-se de que devia a seu Criador sua nobreza e suas prerrogativas, escutou apenas sua temeridade, e disse: ‘Sou eu que subirei ao céu; estabelecerei minha morada acima dos astros; sentar-me-ei na montanha da aliança, nos flancos do Aquilão; dominarei as nuvens mais altas, e serei semelhante ao Altíssimo.’ Os que partilhavam seus sentimentos acolheram suas palavras com um murmúrio de aprovação; e eles se encontravam em todas as ordens da hierarquia; mas sua multidão não os colocou ao abrigo do castigo.”
9 — Essa doutrina provoca numerosas objeções:
1ª. Se Satã e os demônios eram anjos, é que eram perfeitos; como, sendo perfeitos, puderam falir, desconhecendo dessa maneira a autoridade de Deus em cuja presença se encontravam? Poder-se-ia ainda conceber que, se tivessem chegado a esta eminência de maneira gradual, após haver passado pelos planos da imperfeição, pudessem ter sofrido uma queda dolorosa. Mas o que torna o problema mais incompreensível é que são apresentados como tendo sido criados perfeitos.
(37) – Essa doutrina monstruosa foi dada por Moisés quando disse (Gênese, Cap. VI, v. 6,7): “Ele se arrependeu de haver criado o homem na Terra. E, tocado de dor até o mais fundo do coração, disse: exterminarei da Terra o homem que criei, exterminarei tudo, desde o homem até os animais, desde os que rastejam no solo até os pássaros do céu, porque eu me arrependo de os haver feito.” Um Deus que se arrepende daquilo que fez não é perfeito nem infalível: portanto, não é Deus. Essas são, não obstante, as palavras que a Igreja proclama como verdades sagradas. Por outro lado, não se percebe, de maneira alguma, o que havia de comum entre os animais e a perversidade dos homens, para merecerem aqueles a sua exterminação. (N. de Kardec).
A consequência dessa teoria é a seguinte: Deus quis fazê-los seres perfeitos, desde que os cumulou de todos os dons, mas se enganou. Assim, segundo a Igreja, Deus não é infalível.
(38) – A revolução teológica atualmente em curso dá pouca importância ao problema dos anjos, preocupada quase exclusivamente com o homem. No Catecismo Holandês, que apresenta a fé para adultos, a distinção entre os anjos e os homens permanece a mesma do tempo de Kardec. Definindo-os, diz o Catecismo: “São mensageiros ou virtudes que provêm de Deus, espíritos servidores (Hebreus 1,14) frequentemente apresentados na Bíblia em forma humana. Dão forma à bondade de Deus e constituem as grandes virtudes boas que colaboram conosco nesta criação. Seria a existência deles hipótese pertencente à concepção do mundo que reina na Sagrada Escritura? Ou faz esta existência parte integrante da revelação de Deus?” — Como se vê, os anjos são um mistério. (N. do T.)
2ª. Desde que nem a Igreja nem os anais da História Sagrada explicam a causa da revolta dos anjos contra Deus, que somente parece certo que foi a recusa de reconhecer a missão futura do Cristo, que valor pode ter o quadro tão preciso e detalhado da cena que então se passou? Em que fonte encontrou ela as expressões tão precisas que reproduziu, como tendo sido pronunciadas na ocasião e até mesmo os simples murmúrios? De duas, uma: ou a cena é verdadeira ou não é. Se é verdadeira, não há nenhuma incerteza. Então, porque a Igreja não decidiu a questão? Se a Igreja e a História se calam, a causa apenas parece certa, tudo não passa de suposição e a descrição da cena é simples obra de imaginação.
(39) – Encontra-se em Isaías, cap. XVI, v. 11 e seguintes:
“Teu orgulho foi precipitado nos infernos, teu corpo morto tombou na Terra, tua cama será a podridão e tua vestimenta será de vermes. Como tombaste do céu, Lúcifer, tu que parecias tão brilhante como o sol ao meio-dia? Como foste lançado sobre a Terra, tu que golpeavas e ferias as nações, que dizias no teu coração: eu subirei ao céu e estabelecerei meu trono sobre os astros de Deus, e me assentarei sobre a montanha da Aliança, nos flancos do Aquilão, me colocarei sobre as nuvens mais elevadas e serei semelhante ao Altíssimo? — E, no entanto, foste precipitado desta glória para o inferno, até os mais fundos dos abismos. — Os que puderem ver-te, aproximando-se de ti, depois de te encararem, dirão: é este o homem que atemorizou a Terra, que encheu de terror os reinos e transformou o mundo num deserto, destruiu as cidades e prendeu em cadeias os que fez prisioneiros?”
Essas palavras do profeta não se referem à revolta dos anjos, mas aludiam ao orgulho e à queda do rei de Babilônia que mantinha os judeus no cativeiro, como o provam os últimos versículos. O Rei de Babilônia é designado, por alegoria, sob o nome de Lúcifer, mas não se faz nenhuma referência à cena acima descrita. Essas palavras são do Rei, que as dizia no seu coração e se colocava, pelo seu orgulho, acima de Deus, cujo povo retinha cativo. A predição da libertação dos judeus, da ruína de Babilônia e da derrota dos assírios é, aliás, o objeto exclusivo desse capítulo.
(N. de Kardec).
(40) – Tratando de Satanás, diz o Catecismo Holandês simplesmente que ele pode ser considerado da mesma maneira que os anjos” …mas em direção oposta: ele é a força reacionária. Não em pé de igualdade, não tão original nem tão poderoso quanto Deus, como bem nos revela expressamente a Escritura. É ele a malícia tremenda que vemos agir eficazmente na Humanidade. Ultrapassa de tão longe a malícia individual que nos perguntamos: qual é a força que está agindo aqui? Uma força meramente humana?” — Como se vê, a posição teológica dos nossos dias continua ambígua em referência ao problema dos anjos e demônios. A Igreja ainda não conseguiu escapar da dualidade mazdeista, considerando Deus como sendo ao mesmo tempo o Poder Supremo e a sua própria oposição. A crítica de Kardec, portanto, continua válida. — (O Novo Catecismo, Editora Herder, São Paulo, 1969, com parecer para o Nihil Obstai e Imprimatur, do Cardeal Arcebispo, por Mons. Dr. Roberto Mascarenhas Roxo. O parecer lembra que o Concílio Vaticano reafirmou a tese do IV Concílio de Latrão e esclarece: A fé não define a natureza “filosófica” desses seres. Afirma-os “espíritos”, isto é, de natureza diversa, do homem enquanto simultaneamente espiritual e material. (N. do T.)
3ª. As palavras atribuídas a Lúcifer revelam uma ignorância que nos assustamos de ver num arcanjo que, por sua própria natureza e pelo grau que havia alcançado, não devia participar, no tocante à organização do Universo, dos erros e dos preconceitos que os homens professaram até o momento em que a Ciência veio esclarecê-los. Como poderia ele dizer:
“Estabelecerei a minha morada acima dos astros, dominarei as nuvens mais elevadas”? É sempre a antiga crença que tem a Terra como centro do Universo, o céu de nuvens que se estende até as estrelas, a região limita da das estrelas formando a cúpula que a Astronomia nos mostra aberta ao espaço infinito, onde as estrelas se espalham.
Como sabemos hoje as nuvens não se encontram além de duas léguas acima da Terra, para dizer que dominaria as nuvens mais elevadas, referindo-se às montanhas, era necessário que as cenas se passassem na face da Terra e que nesta, portanto, estivesse a morada dos anjos. Se essa morada estiver nas regiões superiores, estaria claro que devia situar-se muito além das nuvens. Atribuir aos anjos uma linguagem tomada de empréstimo à ignorância dos homens seria declarar que estes, hoje, sabem mais do que os anjos. A Igreja sempre cometeu o erro de não levar em consideração os progressos da ciência.
10 — A resposta à primeira objeção se encontra na passagem seguinte:
A Escritura e a Tradição designam o Céu como o lugar em que os anjos foram colocados no momento da sua criação. Mas esse não é o céu dos céus, o céu da visão beatífica, onde Deus se mostra aos seus eleitos face a face e onde esses eleitos o contemplam sem dificuldades e sem esforços, porque lá não existem mais perigos nem possibilidades de pecar; a tentação e a fraqueza são ali desconhecidas; a justiça, a alegria e a paz reinam com segurança absoluta; a santidade e a glória são imperecíveis. Era portanto outra região celeste, uma esfera luminosa e afortunada em que essas nobres criaturas, largamente favorecidas pelas comunicações divinas, deviam recebê-las e aceitá-las pela humildade da fé, antes de serem admitidas à condição de verem claramente a realidade na própria essência de Deus.
Disto resulta que os anjos falidos pertencem a uma categoria menos elevada, menos perfeita, de maneira que ainda não haviam atingido a região suprema em que a falta é impossível.
Seja, mas então há uma contradição manifesta porque está dito no texto que: “Deus os havia criado em tudo semelhantes aos Espíritos sublimes; que, distribuídos em todas as ordens e misturados a todos os graus, eles tinham o mesmo objetivo e a mesma destinação; que o seu chefe era o mais belo dos arcanjos”. Se eles foram feitos em tudo semelhantes aos outros, não podiam ter uma natureza inferior, e se estavam misturados a todos os graus, não podiam estar num lugar especial. A objeção, portanto, subsiste em toda a sua inteireza.
11 — Há ainda outra que é, inegavelmente, a mais grave e a mais séria.
Está escrito: “Esse plano (a mediação de Cristo) concebido desde toda a eternidade, foi revelado aos anjos muito tempo antes da sua realização.” Deus sabia, portanto, desde toda a eternidade, que os anjos, tanto quanto os homens, tinham necessidade dessa mediação. Sabia, ou não sabia que certos anjos falhariam, que a sua queda acarretaria para eles a condenação eterna e sem esperança de retorno; que eles seriam destinados a tentar os homens e que estes, os que se deixassem seduzir, teriam a mesma sorte.
Se Deus sabia tudo isso, então criou os anjos, em conhecimento de causa, para a perda irrevogável e para pôr a perder a maior parte do gênero humano. Por mais que se faça, é impossível conciliar a sua criação, em face de semelhante previsão, com a sua soberana bondade. Se, por outro lado, ele nada sabia, não era onisciente nem Todo-poderoso. Num e noutro caso, temos a negação de atributos sem a plenitude dos quais Deus não seria Deus.
12 — Se admitirmos a falibilidade dos anjos, semelhante à dos homens, a punição é uma consequência natural e justa da falta cometida, desde que se admita, ao mesmo tempo, a possibilidade do resgate para o retorno ao bem, à reintegração na graça após o arrependimento e a expiação. Não haveria nada que então desmentisse a bondade de Deus. Deus sabia que eles faliriam e seriam punidos, mas sabia também que o castigo temporário seria um meio de fazê-los compreender a própria falta e portanto reverteria em seu benefício.
Assim se cumpririam estas palavras do profeta Ezequiel: “Deus não quer a morte do pecador, mas a sua salvação.” (Ver cap. VII, n° 20). O que seria a negação da bondade de Deus é a inutilidade do arrependimento e a impossibilidade do retorno ao bem. Nessa hipótese é rigorosamente exato dizer-se que: “Esses anjos, desde a sua criação, pois que Deus não o podia ignorar, foram destinados ao mal pela eternidade e predestinados a se transformarem em demônios para arrastar os homens ao mal”.
13 — Vejamos agora qual é a sorte destes anjos e o que eles fazem:
Mal eclodira a revolta na linguagem dos Espíritos, quer dizer, nos impulsos dos seus pensamentos, foram eles banidos irrevogavelmente da cidade celeste e precipitados no abismo.
Por essas palavras entendemos que eles foram relegados a um lugar de suplícios onde tivessem de sofrer a penalidade do fogo, conforme o que diz o texto do Evangelho, que procede das próprias palavras do Salvador: “Ide, malditos, ao fogo eterno que foi preparado para o demônio e seus anjos.”
São Pedro diz expressamente: “Que Deus os enviou às cadeias e às torturas do inferno; mas nem todos ficam ali perpetuamente; somente no fim do mundo é que serão encerrados para sempre com os condenados. Atualmente Deus ainda permite que eles ocupem um lugar na criação a que pertencem, ordem das coisas à qual se liga a sua existência, nas relações enfim que eles devem ter com os homens e das quais abusam da maneira mais perniciosa. Enquanto uns permanecem na sua morada tenebrosa, servindo de instrumento à justiça divina, contra as almas infortunadas que seduziram, numerosos outros, formando legiões infinitas e invisíveis, sob a conduta de seus chefes, moram nas camadas inferiores da nossa atmosfera e percorrem todas as partes do globo. Estão infiltrados em tudo que se passa neste mundo e na maioria das vezes desempenham o papel mais ativo”.
No que concerne às palavras do Cristo sobre o suplício do fogo eterno, ver o capítulo IV, intitulado O Inferno.
14 — Segundo esta doutrina, uma parte dos demônios fica somente no inferno enquanto a outra erra em liberdade, intrometendo-se em tudo que se passa neste mundo, divertindo-se em praticar o mal, e isso até o fim do mundo, cuja data indeterminada não chegará provavelmente tão cedo. Mas porque essa diversidade? São estes menos culpados? Seguramente não.
A menos que se revezem nos seus papéis, o que parece resultar desta passagem: “Enquanto uns permanecem na sua morada tenebrosa e servem de instrumento à justiça divina contra as almas infortunadas que seduziram”.
Suas funções consistem, pois, em atormentar as almas que seduziram. Assim, não estão encarregados de punir as que são culpadas de faltas livre e involuntariamente cometidas, mas aquelas que caíram pelas suas próprias provocações. São, ao mesmo tempo, a causa da falta e o instrumento do castigo. E, coisa que a justiça humana por mais imperfeita não admitiria, a vítima que sucumbe por fraqueza, na ocasião preparada para isso, é punida tão severamente como o agente provocador que empregou contra ela a artimanha e a astúcia. A punição é até mais severa, porque ela vai ao inferno ao deixar a Terra, para dali nunca mais sair, sofrendo sem trégua nem perdão pela eternidade, enquanto aquele que foi a causa da sua queda goza de uma dilação de prazo, em liberdade até o fim do mundo! A justiça de Deus não seria então mais perfeita que a dos homens?
15 — Isso não é tudo. “Deus permite que eles ocupem ainda um lugar na criação, nas relações que devem ter com os homens e das quais abusam da maneira mais perniciosa.” Deus poderia ignorar que eles iam abusar da liberdade que lhes concedia?
Então porque a concedeu? Foi pois em conhecimento de causa que deixou as suas criaturas à mercê dos demônios, sabendo, em virtude da sua infinita presciência, que elas sucumbiriam e teriam a mesma sorte dos tentadores. Não tinham elas a sua própria fraqueza, sem a necessidade de que fossem excitadas ao mal por um inimigo tanto mais perigoso, quanto invisível? Ainda se o castigo fosse apenas temporário e o culpado pudesse salvar-se pela reparação! Mas não: ele é condenado pela eternidade. Seu arrependimento, seu retorno ao bem, suas lamentações, tudo é sem valor.
Os demônios são assim agentes provocadores predestinados a recrutar almas para o inferno, e isso com a permissão de Deus, que sabia, ao criar essas almas, a sorte que lhes estava reservada. Que se diria, aqui na Terra, de um juiz que usasse semelhantes meios para encher as prisões? Estranha ideia que nos dão da Divindade, de um Deus cujos atributos essenciais são a soberana justiça e a soberana bondade!
E é em nome de Jesus Cristo, daquele que só pregou o amor, a caridade e o perdão, que se ensinam semelhantes doutrinas! Houve um tempo em que esses absurdos passavam despercebidos. Não podiam ser compreendidos, não chocavam os sentimentos. O homem, arcado ao jugo do despotismo, submetia a sua razão de maneira cega, ou melhor, abdicava da razão. Mas hoje a hora da emancipação já soou. Ele compreende a justiça e deseja tê-la durante a sua vida e após a sua morte. Eis porque ele clama: isso não é assim, não pode ser assim ou Deus não é Deus!
16 — O castigo segue por toda a parte esses seres decaídos e malvistos, que levam sempre consigo o seu próprio inferno: eles não têm paz nem repouso; as próprias doçuras da esperança foram transformadas para eles em amarguras. A esperança lhes é odiosa. A mão de Deus os feriu no ato mesmo do pecado e a sua vontade se obstinou no mal. Tornados perversos, não querem mais deixar de sê-lo e o são para sempre.
Após o pecado eles são o que o homem é depois da morte. A reabilitação dos que caíram é pois impossível. Sua perda é sem reparação e eles perseveram no seu orgulho face a face com Deus, no seu ódio contra Cristo, na sua inveja da humanidade. Não tendo podido conquistar a glória do céu, pelo excesso de suas ambições, procuram estabelecer o seu império na Terra e dela afastar o reino de Deus. O Verbo feito carne cumpriu, apesar deles, os seus desígnios para a salvação e a glória da humanidade. Empregam, pois, todos os seus meios para levar à perdição às almas resgatadas. A astúcia e a importunação, a mentira e a sedução são utilizadas para as conduzir ao mal e à ruína completa.
Com tais inimigos, a vida do homem, desde o berço até o túmulo, não pode ser, desgraçadamente, senão uma luta perpétua, porque eles são poderosos e infatigáveis.
Esses inimigos, com efeito, são os mesmos que, depois de introduzirem o mal no mundo, cobriram a Terra com as trevas espessas do erro e do vício. São os que, durante muitos séculos, fizeram adorar-se como deuses reinando como senhores sobre os povos da Antiguidade. São, enfim os que ainda exercem o seu império tirânico sobre as religiões idólatras, fomentando a desordem e o escândalo até mesmo no seio das sociedades cristãs.
Para se compreender todos os recursos de que eles dispõem para o serviço da sua maldade, basta notar que eles nada perderam das prodigiosas faculdades, que são o apanágio da natureza angélica. Sem dúvida, o futuro e sobretudo a ordem sobrenatural tem mistérios que Deus se reserva e que eles não podem descobrir. Mas a sua inteligência é muito superior à nossa, porque eles percebem num simples olhar os efeitos ainda nas suas causas, e as causas nos seus efeitos. Essa penetração lhes permite anunciar com antecedência acontecimentos que escapam às nossas conjeturas. A diversidade e a distância dos lugares desaparecem diante da sua agilidade. Mais rápidos que o raio, mais instantâneos que os pensamentos, eles se encontram quase ao mesmo tempo sobre diversos pontos do globo e podem descrever de longe os acontecimentos que testemunham na mesma hora em que eles se verificam.
As leis gerais pelas quais Deus rege e governa o universo não estão ao seu sabor: eles não podem interrogá-las, nem portanto predizer ou operar verdadeiros milagres, mas possuem a arte de imitar e falsificar as obras divinas dentro de certos limites. Sabem quais os fenômenos que resultam da combinação dos elementos e predizem com segurança os resultados de combinações naturais como os das combinações que podem fazer por si mesmos. Daí esses oráculos numerosos, os vaticínios extraordinários de que os livros sagrados e profanos nos guardaram a lembrança e que serviram de base e de alimento para todas as superstições.
A sua substância simples e imaterial escapa aos nossos olhos. Eles estão ao nosso lado sem que os percebamos; tocam a nossa alma sem tocar os nossos ouvidos; cremos obedecer ao nosso próprio pensamento, quando estamos sofrendo as suas tentações e a sua funesta influência. Ao contrário disso, as nossas disposições são conhecidas por eles, através das impressões que nos fazem sentir, o que lhes permite nos atacarem, em geral pelo nosso lado mais fraco. Para nos seduzirem com mais segurança costumam apresentar-nos ideias e sugestões de acordo com as nossas tendências. Modificam a sua atitude segundo as circunstâncias e de acordo com os traços característicos de cada temperamento. Mas as suas armas favoritas são a mentira e a hipocrisia.
17 — O castigo, dizem, os segue por toda parte. Não têm mais nem paz nem repouso. Isso não destrói a observação referente ao descanso dos que não estão no inferno, descanso tanto menos justificado, quanto, estando de fora praticam ainda muito maior mal. Sem dúvida, eles não são felizes como os anjos bons, mas seria contada a liberdade de que gozam? Se eles não têm a felicidade moral que a virtude proporciona, são entretanto menos infelizes que os seus cúmplices que se acham nas chamas. Além disso o malvado sempre desfruta uma espécie de prazer ao praticar o mal com toda a liberdade. Pergunte-se a um criminoso se para ele tanto faz estar na prisão ou percorrer os campos cometendo os seus crimes à vontade. A situação é exatamente a mesma?
O remorso, dizem, o persegue sem tréguas nem piedade. Mas se esquecem de que o remorso é precursor imediato do arrependimento, quando já não é o próprio arrependimento.
Dizem: “Tornando-se perversos, eles não querem mais deixar esse caminho e o seguem para sempre.” Mas então, se eles não querem deixar de ser perversos, é que não sofrem remorsos. Se tivessem o menor pesar, cessariam de praticar o mal e clamariam pelo perdão. Assim, o remorso não é um castigo para eles.
18 — “Eles estão após o pecado como o homem após a morte. A reabilitação dos que caíram é pois impossível.” De onde vem essa impossibilidade? Não se compreende que decorra da semelhança de situação com a do homem após a morte, proposição que, aliás, não é bastante clara. Essa impossibilidade virá da sua própria vontade ou da vontade de Deus? Se for da sua vontade, denota extrema perversidade, um endurecimento absoluto no mal. Nesse caso, não se compreende que seres tão essencialmente maus tenham jamais podido estar entre os anjos virtuosos e que, durante o tempo infinito que passaram entre eles, não tenham deixado perceber nenhum sinal de sua maldade natural. Se for da vontade de Deus, ainda menos se compreende que lhes possa ser dado, como castigo, a impossibilidade de voltar ao bem, após a prática da primeira falta. O Evangelho não ensina nada semelhante.
19 —“Sua perda, acrescenta, é desde então irremediável e eles perseveram no seu orgulho face a face com Deus.” De que lhes serviria não perseverar desde que todo o arrependimento é inútil? Se tivessem a esperança de uma reabilitação, a qualquer preço que fosse, o bem poderia ser alguma coisa para eles, enquanto dessa maneira não é nada. Se perseveram no mal é porque a porta da esperança foi fechada para eles. E porque Deus a fechou? Para se vingar da ofensa que lhe fizeram ao faltarem com a submissão. Assim, para vingar o seu ressentimento contra alguns culpados, Deus prefere vê-los, não somente sofrer, mas continuarem a praticar o mal em lugar do bem, induzindo ao mal e lançando à perdição eterna todas as criaturas do gênero humano, quando bastaria um simples ato de clemência para evitar tamanho desastre, um desastre já predeterminado desde toda a eternidade?
Seria, por acaso, esse ato de clemência uma graça pura e simples, que pudesse reverter em encorajamento ao mal? Não, mas um perdão condicional, subordinado a um futuro e sincero retorno ao bem. Em lugar de uma palavra de esperança e misericórdia, fizeram Deus dizer: pereça toda a raça humana, ante a minha vingança! E admiram-se que com uma tal doutrina haja incrédulos e ateus! Foi assim que Jesus nos apresentou o seu Pai? Ele que nos fez do esquecimento e do perdão das ofensas uma lei expressa, que nos ensinou a pagar o mal com o bem, que colocou o amor pelos inimigos no primeiro lugar entre s virtudes que devem nos conduzir ao céu, quereria então que os homens fossem mais justos, melhores, mais compassivos que o próprio Deus?

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Senda de paz

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