O Doutor Demeure

Demeure era um médico homeopata muito considerado em Albi. O seu caráter e o seu saber lhe haviam conquistado a estima e a veneração dos seus concidadãos. Sua bondade e sua caridade eram inesgotáveis. Malgrado sua avançada idade, não sentia fadiga quando se tratava de dispensar os seus cuidados a pobres doentes.
O pagamento de suas visitas era o que menos lhe importava. Ele se considerava menos incomodado pelos infelizes do que pelos clientes que sabia poderem pagá-lo. E isso porque, dizia ele, estes últimos podiam sempre, na falta dele, procurar outro médico.
Aos infelizes ele não somente dava receitas e remédios sem cobrar, mas frequentemente acrescentava o necessário para suprir às suas necessidades materiais, o que às vezes é o mais eficaz dos medicamentos. Podemos dizer que era o Cura D’Ars da Medicina.
(54) – Jean Baptiste Marie Vianney (1786-1859) foi cura em Ars durante 41 anos, tornando-se famoso pelas suas curas mediúnicas e seu cuidado com os pobres. Canonizado pela Igreja em 1931. Ver sua comunicação no cap. VIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo. (N. do T.
Demeure havia abraçado com ardor a doutrina espírita, na qual encontrara a chave dos mais graves problemas que havia inutilmente procurado na ciência e na filosofia. Seu Espírito profundo e investigador compreendeu imediatamente todo o alcance da doutrina de que se tornou um dos mais zelosos propagadores. Relações da mais viva e mútua simpatia estabeleceram-se entre nós por meio da correspondência.
Soubemos da sua morte a 30 de janeiro. Nosso primeiro pensamento foi o de obtermos uma conversação com ele. Eis a comunicação que nos deu no mesmo dia:
Eis-me aqui. Prometi a mim mesmo, quando vivo, que ao morrer viria, se me fosse possível, apertar a mão do meu querido mestre e amigo, o Sr. Allan Kardec.
A morte deixou a minha alma nesse pesado sono que chamamos letargia, mas o meu pensamento velava. Sacudi esse torpor funesto que prolonga a perturbação de após morte e me despertei, fazendo de um salto a travessia.
Como sou feliz! Não estou mais enfermo nem velho. Meu corpo era apenas uma vestimenta necessária. Sou jovem e belo, dessa eterna beleza juvenil dos Espíritos, em que as rugas jamais assinalam o rosto e os cabelos não embranquecem com o passar do tempo. Estou leve como o pássaro que atravessa em rápido voo o horizonte de vosso céu nebuloso. E admiro, contemplo, bendigo e me inclino, átomo que sou, ante a grandeza, a sabedoria e a ciência de nosso Criador, ante as maravilhas que me cercam.
Estou feliz, estou na glória! Oh! Quem poderá jamais traduzir as esplêndidas belezas da terra dos eleitos! Os céus, os mundos, os sóis e seu papel no grande concurso da harmonia universal? Pois bem, eu tentarei, oh! Meu mestre; vou fazer o estudo e virei depositar aos vossos pés a homenagem dos meus trabalhos de Espírito, que desde já vos dedico. Até breve.
Demeure.

As duas comunicações seguintes, dadas a 1 e 2 de fevereiro, são relativas a doenças que nos haviam então acometido. Embora sejam pessoais, reproduzimo-las porque elas provam que o Sr. Demeure continua tão bom como Espírito quanto o era como homem.
“Meu bom amigo, tenha confiança em nós e bastante coragem. Essa crise, embora fatigante e dolorosa, não será longa. Com os tratamentos prescritos poderás logo, segundo desejas, completar a obra que é o principal objetivo da tua existência. Sou eu quem estou sempre aqui, ao teu lado, com o Espírito da Verdade, que me permite falar em seu nome, como o último dos teus amigos que chegou ao mundo dos Espíritos. Eles me fazem as honras da recepção”.
“Caro mestre, como sou feliz de haver morrido a tempo de estar com eles neste momento! Se eu tivesse morrido mais cedo, talvez tivesse podido evitar essa crise que não previa. Era tão recente a minha desencarnação que não pude ocupar-me de outras coisas além do problema espiritual. Mas agora velarei por ti, caro mestre. Sou o teu irmão e amigo que se sente feliz de ser Espírito para estar ao teu lado cuidando da tua doença. Conheces o provérbio: ajuda-te e o céu te ajudará. Ajuda, pois, os bons Espíritos nos seus cuidados contigo, seguindo rigorosamente as suas prescrições”.
“Está muito quente aqui. Esse carvão é fatigante. Enquanto estás doente, não acendas mais o carvão. Ele aumenta a tua opressão. Os gazes que desprende são deletérios”.
Teu amigo, Demeure.

Sou eu, Demeure, o amigo do Senhor Kardec. Venho dizer-lhe que estava junto dele quando lhe sobreveio o acidente que poderia ter sido funesto sem a intervenção eficaz para a qual tive a felicidade de contribuir. Segundo as minhas observações e as informações colhidas em boa fonte, parece-me que, quanto mais cedo se der a sua desencarnação, mais cedo poderá se dar também a reencarnação que lhe permitirá acabar a sua obra.
Entretanto, é necessário que ele dê, antes de partir, a derradeira mão nas obras que devem completar a teoria doutrinária de que foi iniciador. E será culpável de suicídio se contribuir, por excesso de trabalho, para o aniquilamento do seu organismo que o ameaça de uma partida súbita para o nosso mundo. Não se deve temer dizer-lhe toda a verdade, para que tome as suas providências e siga à risca as nossas prescrições,
Demeure

“A seguinte comunicação foi obtida em Montalban, a 26 de janeiro, no dia seguinte ao da sua morte, no círculo dos amigos Espíritas que ele possuía nessa cidade:
Antônio Demeure. Eu não estou morto para vós, meus bons amigos, mas somente para aqueles que não conhecem, como vós, esta santa doutrina que reúne os que se amaram na Terra, tendo os mesmos pensamentos e os mesmos sentimentos de amor e caridade.
Estou feliz, mais feliz do que podeis supor, porque gozo de uma lucidez rara entre os Espíritos tão recentemente libertos da matéria. Tende coragem meus bons amigos. Estarei sempre junto a vós e não deixarei de vos instruir sobre tantas coisas que ignoramos quando estamos ligados à nossa pobre matéria, que oculta-nos tantas magnificências e impede tantas alegrias. Pedi pelos que estão privados dessa felicidade, pois não sabem o mal que fazem a si mesmos.
Não me demorarei hoje por mais tempo, mas quero dizer-vos que não me sinto inteiramente estranho a este mundo dos invisíveis, pois me parece que sempre o habitei. Sou feliz, porque vejo daqui os meus amigos e posso comunicar-me com eles sempre que o desejar.
Não choreis, meus amigos. Isso me faria lamentar de vos haver conhecido. Deixai passar o tempo e Deus vos trará a este plano onde todos nos devemos reunir. Boa noite. Que Deus vos console. Eu estou convosco.”
Demeure.

Outra carta de Montalban contém o relato seguinte:
Havíamos ocultado à senhora G., médium vidente e sonâmbula muito lúcida, a morte do senhor Demeure, para poupar a sua extrema sensibilidade. O bom doutor, compreendendo, sem dúvida, as nossas intenções, evitara de se manifestar a ela.
A 10 de fevereiro último estávamos reunidos a convite dos nossos guias que diziam querer aliviar a senhora G. de uma luxação que a fazia sofrer cruelmente desde a véspera. Nada havíamos percebido e estávamos longe de pensar na surpresa que eles nos reservavam. Logo que essa senhora entrou em sonambulismo, começou a soltar gritos lancinantes, mostrando o próprio pé.
Eis o que se passava:
A senhora G. via um Espírito curvado para a sua perna, e cujo rosto permanecia oculto, fazendo fricções e massagens, e de vez em quando produzindo uma tração longitudinal, absolutamente como o faria qualquer médico. Essa operação era tão dolorosa que a paciente vociferava e gesticulava desordenadamente. Mas isso passou logo. Dentro de dez minutos toda a luxação havia desaparecido, com a sua inflamação e o pé havia voltado à aparência normal. A senhora G. estava curada.
Entretanto o Espírito continuava desconhecido da médium e insistia em não lhe mostrar o rosto. Tinha mesmo o ar de querer fugir, quando a nossa doente, que alguns minutos antes não podia dar um passo, se lançou de um salto no meio do quarto para apertar a mão do seu médico espiritual. Ainda dessa vez o Espírito desviava o rosto deixando apenas a sua mão nas mãos da médium. Nesse momento a senhora G. deu um grito e caiu desfalecida no soalho. Acabara de reconhecer o doutor Demeure no Espírito curador.
Durante a síncope ela recebia os cuidados atenciosos de muitos Espíritos simpáticos. Voltando, por fim, à lucidez sonambúlica conversou com os Espíritos, trocando com eles calorosos apertos de mão, notadamente com o Espírito do médico, que respondia às suas provas de afeição envolvendo-a em fluidos reparadores.
Esta cena não é surpreendente e dramática, dando-nos a impressão de ver todos os personagens desempenhando o seu papel na própria vida humana? Não constitui mais uma prova, entre tantas, de que os Espíritos são seres bastante reais, dotados de corpos e agindo como se estivessem na Terra? Ficamos felizes de reencontrar o nosso amigo espiritualizado, com seu excelente coração e sua mesma delicada solicitude. Ele havia sido, durante a vida, o médico da médium. Conhecia sua extrema sensibilidade e a havia tratado como sua própria filha. Essa prova de identidade concedida aos que o Espírito amava não é surpreendente e ao mesmo tempo suficiente para nos fazer encarar a vida futura sob o seu aspecto mais consolador?
Observação: A situação do doutor Demeure, como Espírito, é exatamente a que podíamos prever pela sua vida tão digna e utilmente empregada. Mas outro fato, não menos instrutivo, ressalta dessas comunicações. É a atividade que ele desenvolve quase imediatamente após a sua morte, para ser útil. Por sua elevada inteligência e suas qualidades morais ele pertence à ordem dos Espíritos mais adiantados. Ele é feliz, mas a sua felicidade não se faz de inação.
Alguns dias antes ele cuidava dos doentes como médico. Apenas libertado, apressa-se em cuidar deles como Espírito. Que adianta, então, ir para o outro mundo, dirão algumas pessoas, se ali não se pode repousar? A isso também lhes perguntaremos primeiro, se o fato de não termos mais preocupações, nem necessidades, nem estarmos sujeitos às enfermidades da vida humana, de nos tornarmos livres e podermos, sem cansaço, percorrer o espaço com a rapidez do pensamento, indo ver os nossos amigos a qualquer momento e a qualquer distância em que eles se encontrem, se tudo isso nada representa? Depois acrescentaremos: quando estiverdes no outro mundo nada vos forçará a fazer o que quer que seja; sereis perfeitamente livres de permanecer numa ociosidade beatífica quanto quiserdes; mas logo vos cansareis desse repouso egoísta e sereis os primeiros a pedir alguma ocupação. Então vos será respondido: se vos enjoais de nada fazer, procurai por vós mesmos fazer alguma coisa. As ocasiões de ser útil não faltam no mundo dos Espíritos, como não faltam entre os homens. É assim que a atividade espiritual não representa um constrangimento, mas uma necessidade, uma satisfação para os Espíritos que procuram as ocupações segundo os seus gostos e as suas aptidões, preferindo aquelas que podem ajudá-los mais no seu desenvolvimento.

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