Manifestações Físicas Espontâneas

RUÍDOS, BARULHOS E PERTURBAÇÕES – LANÇAMENTO DE OBJETOS – O FENÔMENO DE TRANSPORTE
82. O fenômeno de que tratamos são provocados. Mas acontece às vezes que ocorrem de maneira espontânea. Não intervém então a vontade dos participantes, e longe disso, pois se tornam quase sempre muito importunos. O que exclui, além disso, a suposição de serem efeitos de uma imaginação superexcitada pelas ideias espíritas é que ocorrem entre pessoas que nunca ouviram falar a respeito e quando menos elas podiam esperar. Esses fenômenos, cuja manifestação se poderia considerar como de prática espírita natural, são muito importantes porque excluem as suspeitas de conivência. Recomendamos, por isso, às pessoas que se ocupam de fenômenos espíritas, coletarem todos os fatos desse gênero de que tiverem conhecimento, mas sobretudo constatarem cuidadosamente a sua realidade através de minucioso estudo das circunstâncias, para se assegurarem de não se tratar de simples ilusão ou mistificação.
Nota: – Esse mesmo processo está sendo empregado na Parapsicologia atual. Veja-se a respeito a coleta de casos espontâneos efetuada pela Professora Louise Rhine e apresentada em seu livro Os canais ocultos da mente. (N. do T.)
83. De todas as manifestações espíritas, as mais simples e frequentes são os ruídos e as pancadas. Mas é sobretudo nesses casos que devemos temer a ilusão, pois há muitas causas naturais que podem produzi-las: o vento que assobia ou sacode um objeto, algo que a gente mesmo está movendo sem perceber, um efeito acústico, um animal oculto, um inseto e assim por diante, e até mesmo brincadeiras de mau gosto. Os ruídos espíritas têm, aliás, características inconfundíveis, com intensidade e timbre muito variados. São facilmente reconhecíveis e não podem ser confundidos com os estalidos da madeira, o crepitar do fogo ou o tique-taque de um relógio. São golpes secos, às vezes surdos, fracos e leves, de outras vezes claros, distintos, até mesmo barulhentos, que mudam de lugar e se repetem sem nenhuma regularidade mecânica. De todos os meios de controle, o mais eficaz e que não deixa nenhuma dúvida quanto à origem é submetê-los à nossa vontade. Se eles se fizeram ouvir do lado que indicarmos, se responderem ao nosso pensamento dando o número que pedimos, aumentando ou diminuindo sua intensidade, não podemos negar a presença de uma causa inteligente. Mas a falta de resposta nem sempre prova o contrário.
84. Admitindo, porém, depois de minuciosa constatação, que os ruídos ou qualquer outro efeito são manifestações reais, seria racional que nos amedrontássemos? Seguramente não. Porque em caso algum oferecerão o menor perigo. Só podem ser afetadas de maneira prejudicial as pessoas que acreditam tratar-se do Diabo, como as crianças que temem o lobisomem ou o bicho-papão. Essas manifestações, em certas circunstâncias, aumentam e adquirem persistência desagradável. É necessária uma explicação a respeito, pois é natural que então se queira afastá-las.
85. Já dissemos que as manifestações físicas têm por finalidade chamar a nossa atenção para alguma coisa e convencer-nos da presença de um poder superior ao homem. Dissemos também que os Espíritos elevados não se ocupam dessas manifestações, servindo-se dos inferiores para produzi-las, como nos servimos de criados para serviços grosseiros, e por isso com a finalidade que acima indicamos. Atingida essa finalidade, cessa a manifestação, que não é necessária. Um ou dois exemplos tornarão a questão mais compreensível.
86. Há muitos anos, quando iniciava meus estudos de Espiritismo, trabalhando uma noite nesse assunto, ouvi golpes que soaram ao meu redor durante quatro horas seguidas. Era a primeira vez que isso me acontecia. Verifiquei que não tinham nenhuma causa acidental, mas no momento não pude saber nada mais. Nessa época eu me encontrava sempre com um excelente médium escrevente. Logo no dia seguinte perguntei ao Espírito que se comunicava por ele qual era a causa dos golpes. Respondeu-me: – Era o teu Espírito Familiar que queria falar-te. – E o que queria dizer-me? – Resposta: – Podes perguntara ele mesmo, que está aqui.
Interroguei-o e ele se deu a conhecer por um nome alegórico. (Soube, depois, por outros Espíritos, que ele pertence a uma ordem muito elevada e que desempenhou na Terra um papel importante). Indicou erros no meu trabalho, apontando as linhas em que eu os encontraria, deu-me úteis e sábios conselhos e acrescentou que estaria sempre comigo e me atenderia quando eu quisesse interrogá-lo. Desde então, realmente, esse Espírito jamais me deixou.
Nota: – Tratava-se do Espírito da Verdade, como se vê pelo relato mais extenso deste fato que o leitor pode encontrar em Obras Póstumas, segunda parte, comunicação de 25 de março de 1856, sob o título de Meu Guia Espiritual. Importante assinalar a afirmação de Kardec de que esse Espírito jamais o abandonou, o que põe por terra a teoria errônea que se lançou no meio espírita, segundo a qual esse Espírito deixou a Terra depois de escrito O Livro dos Espíritos. Pelo contrário toda a Codificação e todos os trabalhos de Kardec foram por ele orientados. (N. Do T.)
Deu-me numerosas provas de grande superioridade e sua intervenção benévola e eficaz socorreu-me tanto nos problemas da vida material quanto nos metafísicos. Mas desde essa primeira conversa os golpes cessaram. O que desejava ele, com efeito? Estabelecer comunicação regular comigo, e para isso precisava me avisar. Dado o aviso, explica a sua razão e estabelecidas as relações regulares, os golpes não eram mais necessários. Não se toca mais o tambor para acordar os soldados, quando eles já se levantaram.
Caso quase semelhante ocorreu com um de nossos amigos. Há tempos que no seu quarto ressoavam barulhos diversos, que já se tornavam cansativos. Tendo a oportunidade de interrogar o Espírito de seu pai por um médium escrevente, soube o que dele queriam, atendeu o pedido e não ouviu mais os barulhos. Assinalemos que as pessoas que dispõem de meio regular e fácil de comunicação com os Espíritos, como se compreende, estão muito menos sujeitas a manifestações desse gênero.
87. As manifestações espontâneas nem sempre se limitam a ruídos e batidas. Degeneram às vezes em verdadeira barulheira e em perturbações. Móveis e objetos são revirados, projéteis diversos são atirados de fora, portas e janelas são abertas e fechadas por mãos invisíveis, vidraças se quebram e tudo isso não pode ser levado à conta de ilusão.
Toda essa desordem é muitas vezes real, mas algumas vezes é apenas aparente. Ouve-se gritaria num cômodo ao lado, barulho de louça que cai e se despedaça, de achas de lenha rolando no assoalho. Corre-se para ver e encontra-se tudo tranquilo e em ordem. Mas a gente se retira, porém, e o tumulto recomeça.
88. Essas manifestações não são raras nem novas. São poucas as crônicas locais que não incluem alguma estória desse gênero. O medo, sem dúvida, frequentemente exagerou esses fatos, dando-lhes proporções enormemente ridículas em sua transmissão oral. Com a ajuda das superstições, as casas em que se verificaram foram consideradas como assombradas pelo Diabo. Daí todos os contos maravilhosos ou terríveis de fantasmas. A trapaça, por sua vez, não perdeu a ocasião de explorar a credulidade, quase sempre em proveito pessoal. Compreende-se ainda a impressão que fatos dessa espécie, mesmo reduzidos à realidade, podem produzir em caracteres fracos e predispostos pela educação às ideias supersticiosas. O meio mais seguro de prevenir os inconvenientes que possam acarretar, pois não se pode impedi-los, é dar a conhecer a verdade. As coisas mais simples tornam-se assustadoras quando ignoramos as causas. Havendo familiaridade com os Espíritos, e os que recebem suas comunicações não mais acreditando que se trata de demônios, o medo desaparecerá. Nota: – Esta afirmação de Kardec é plenamente sancionada pela Psicologia atual. Bastaria o caso do tabu sexual, cujos inconvenientes só podemos evitar pela educação nesse sentido, para provar a verdade dessa asserção. O desconhecimento do problema mediúnico, a negação sistemática da ação dos Espíritos, a ignorância do assunto, enfim, são os responsáveis pelo tabu espírita, criador de neuroses e perturbações mentais. Ao lado das superstições, que agravam as consequências das manifestações inevitáveis, temos ainda o preconceito cultural, o falso saber de pessoas que se julgam orgulhosamente detentores como diz Kardec, de todas as leis naturais. A divulgação teórica e prática do Espiritista única maneira possível de evitar todos esses inconvenientes, familiarizando as criaturas com esse aspecto inegável da realidade. Inútil e prejudicial toda tentativa de negar ou escamoteá-los através de explicações imaginárias. (N. do T.)
Muitos fatos autênticos desse gênero podem ser lidos na Revista Espírita. Entre outros, o do Espírito batedor de Bergzabern, cujas estripulias duraram mais de oito anos (Números de maio, junho e julho de 1858); o de Dibbelsdorf (agosto de 1858); o do Padeiro das Grandes Vendas, próximo a Dieppe (março de 1860); o da Rua de Noyers, em Paris (agosto de 1860); o do Espírito de Castelnaudary, sob o título de História de Um Danado (fevereiro de 1860); o do fabricante de São Petersburgo (abril de 1860), e assim por diante.
Nota: – Nesta citação de Kardec, como em outras tantas deste livro e das demais obras de Codificação, vê-se a importância da Revista Espírita para o estudo sério e aprofundado do Espiritismo. Realmente, a Revista, na coleção redigida por Kardec, é fonte de fatos e de esclarecimentos doutrinários indispensáveis ao estudioso. (N. do T.)
89. Essas manifestações frequentemente assumem o caráter de verdadeira perseguição. Conhecemos seis irmãs que moravam juntas e que, durante muitos anos, encontravam de manhã suas roupas esparramadas, às vezes escondidas no teto, rasgadas e cortadas em pedaços, apesar das precauções que tomavam, guardando-as a chave. Tem acontecido muitas vezes que pessoas deitadas, mas perfeitamente acordadas, viram sacudiras cortinas, arrancarem-lhes violentamente as cobertas e os travesseiros foram erguidos no ar e às vezes, até mesmo, atirados fora do leito. Esses fatos são mais frequentes do que se pensa, mas a maioria das vítimas não os contam por medo do ridículo. Soubemos que tentaram curar algumas pessoas, por entenderem que se tratava de alucinações, submetendo-as ao tratamento dos alienados, o que as deixou realmente loucas. A Medicina não pode compreender esses fatos, porque só admite causas materiais, do que resultaram negligências funestas. A História relatará, um dia, certos tratamentos do século XIX como hoje se relatam certos processos da Idade Média.
Nota: – Os casos de obsessão, de possessão e de simples perturbação por Espíritos, quando tratados como loucura, geralmente se agravam. A rede de Hospitais Espíritas hoje existentes no Brasil, com mais de vinte só no Estado de São Paulo, constitui a mais evidente prova disso. Nesses hospitais têm sido curados numerosos casos dados por incuráveis no tratamento comum. Leia-se Novos Rumos à Medicina, do Dr. Ignácio Ferreira, do Hospital Espírita de Uberaba, e no campo da experiência estrangeira, Trinta Anos Entre os Mortos, do prof. dr. KarI Wickland, da Faculdade de Medicina de Chicago, Estados Unidos. (N. do T.)
Admitimos perfeitamente que alguns casos são obra da malícia ou da malvadez, mas quando se averiguou suficientemente que não são produzidos por ninguém, temos de convir que são, para uns, obra do Diabo, e para nós dos Espíritos. Mas de que Espíritos?
90. Os Espíritos superiores, como os homens sérios entre nós, não gostam de fazer travessuras. Muitas vezes interpelamos esses Espíritos sobre o motivo de perturbarem o sossego alheio. A maioria quer apenas divertir-se. São Espíritos antes levianos do que maus. Riem dos sustos que pregam e do trabalho que dão para descobrir a causa do tumulto. Muitas vezes apegam-se a uma pessoa e se divertem a incomodá-la por toda parte. De outras vezes se apegam a um lugar por simples capricho. Algumas vezes também se trata de uma vingança, como veremos. Em certos casos sua intenção é a mais louvável: querem chamar a atenção e estabelecer comunicação, seja para transmitir à pessoa um aviso útil, seja para fazer um pedido. Vimo-los muitas vezes pedir preces, o cumprimento de um voto que em vida não puderam realizar, e outros quererem, para o seu próprio sossego, reparar uma maldade praticada em vida. Em geral, é um erro amedrontar-se com a sua presença que pode ser importuna mas não perigosa.
Compreende-se o desejo de livrar-se deles, mas para isso geralmente se faz o contrário do que se deve. Quando se trata de Espíritos que se divertem, quanto mais se levá-los a sério, mais persistirão, como as crianças traquinas que impacientam as pessoas e assustam os medrosos. Se, pelo contrário, as pessoas também rirem com as suas peças, acabarão por se cansar e as deixarão em paz. Conhecemos alguém que em vez de se irritar os excitava, os desafiava a fazer isto ou aquilo, de maneira que em alguns dias se afastaram. Mas como dissemos, há os que agem por motivos menos frívolos. Por isso é sempre útil saber o que eles desejam. Se pedem alguma coisa, é certo que cessarão suas visitas quando forem satisfeitos. O melhor meio de informação é evocá-los através de um bom médium escrevente. Pelas suas respostas, logo se verá quem são e se poderá agir convenientemente. Se for um Espírito infeliz, a caridade manda tratá-lo com as atenções que merece; se um brincalhão, podemos tratá-lo sem rodeios; se um malvado, devemos pedir a Deus que o melhore. Em todos os casos a prece só pode dar bons resultados. Mas a solenidade das fórmulas de exorcismo lhes provoca o riso: não lhe dão nenhuma importância. Se se puder entrar em comunicação com eles, é preciso desconfiar dos qualificativos burlescos ou assustadores que algumas vezes se dão, para se divertirem com a credulidade dos ouvintes.
Voltaremos a tratar deste assunto com mais detalhes, bem como das causas que frequentemente tornam as preces ineficazes, nos capítulos: Lugares Assombrados (IX) e Da Obsessão (XXIII).
91. Embora produzidos por Espíritos inferiores, esses fenômenos são frequentemente provocados por Espíritos de ordem mais elevada, com o objetivo de demonstrar a existência dos seres incorpóreos, dotados de poderes superiores aos humanos. A repercussão que alcançam, o próprio horror que chegam a causar, despertam a atenção para o assunto e acabam por abrir os olhos dos mais incrédulos. Estes acham mais simples considerar os fenômenos como efeitos da imaginação, explicação muito cômoda e que dispensa a busca de outras. Mas quando os objetos são revirados ou atirados à cabeça das pessoas, só uma imaginação muito complacente poderia estar em jogo para que os fatos não sejam reais. Se coisa acontece, tem forçosamente uma causa, e se uma fria e serena observação demonstra que esse efeito independe da vontade humana e de toda causa material, e que além disso apresenta sinais evidentes de inteligência e vontade próprias, o que é o seu traço mais característico, somos forçados a atribuí-la a uma inteligência oculta. Mas que seres misteriosos são esses? É o que os estudos espíritas nos revelam de maneira dificilmente contestável, graças aos meios que nos proporcionam de nos comunicarmos com eles.
Aliás, os estudos espíritas nos ensinam também a distinguir o que há de real, de falso ou de exagerado nos fenômenos que examinamos. Quando um efeito estranho se produz: um ruído, um movimento, ou mesmo uma aparição, o primeiro pensamento que devemos ter é o de que a sua causa é natural, porque é a mais provável. Devemos então procurar essa causa com o maior cuidado, não admitindo a intervenção dos espíritos senão quando bem averiguada. Esse o meio de evitarmos a ilusão. Aquele, por exemplo, que recebesse uma bofetada ou bordoada nas costas, sem estar perto de ninguém, como já se tem visto, não poderia duvidar da presença de um ser invisível. (Nota: – Veja-se a História de um Danado, no volume III da Revista Espírita. Um homem, sozinho em casa, recebe uma bofetada do Espírito que mais tarde é identificado. É a casos como esse que Kardec se refere, nos quais a intervenção do Espírito não pode ser posta em dúvida. (N. do T.)
Devemos acautelar-nos contra os relatos que podem ser considerados muito ou pouco exagerados, e também contra as nossas próprias impressões, para não atribuirmos origem oculta a tudo quanto não pudermos explicar. Há muitas causas simples e naturais que podem produzir efeitos estranhos à primeira vista, e seria evidentemente supersticioso ver Espíritos por toda a parte, ocupados em derrubar móveis, quebrar louças, provocar todos esses distúrbios domésticos que é mais razoável atribuirmos ao descuido.
92. A explicação do movimento dos corpos inertes aplica-se naturalmente a todos os efeitos de que acabamos de tratar. Os ruídos, embora mais fortes que os golpes na mesa, têm a mesma causa; o lançamento ou deslocação de objetos são produzidos pela mesma força que levanta objetos. Há mesmo uma circunstância que serve de apoio a essa teoria. Poderíamos perguntar onde se encontra o médium, nesses casos. Os Espíritos explicaram que há sempre alguém cujas forças são usadas à sua revelia. As manifestações espontâneas raramente ocorrem em lugares isolados. É quase sempre em casas habitadas que elas se verificam, em virtude da presença de certas pessoas que exercem sem querer a sua influência. Trata-se de verdadeiros médiuns que ignoram as suas faculdades e por isso os chamamos de médiuns naturais. Estão para os outros médiuns na condição dos sonâmbulos naturais para os sonâmbulos magnéticos, e são como eles dignos de observação.
93. A intervenção voluntária ou involuntária de pessoa dotada de aptidão especial parece necessária, na maioria dos casos, para a produção desses fenômenos, embora haja aqueles em que o Espírito parece agir sozinho. Mas ainda nesses casos ele poderia tirar o fluido animalizado de uma pessoa distante. Isso explica porque os Espíritos que nos cercam incessantemente não produzem perturbações a cada instante. É necessário primeiro que o Espírito queira, que tenha um objetivo, um motivo para fazê-lo. A seguir, que encontre, precisamente no lugar em que pretende agir, uma pessoa apta a ajudá-lo, coincidência que só raramente ocorre. Se essa pessoa aparece inesperadamente, ele a aproveita. Mas apesar das circunstâncias favoráveis, ele poderia ainda ser impedido por uma vontade superior que não lhe permitisse agir como quer. Pode também só lhe ser permitido agir dentro de certos limites, nos casos em que essas manifestações sejam consideradas úteis, seja para servirem com meio de convicção ou de experiência para a pessoa que as suporta.
94. Citaremos a respeito a conversação suscitada pelos fatos verificados em junho de 1860 na rua Des Noyers, em Paris. Os pormenores se encontram na Revista Espírita de agosto de 1860.
1. (A São Luís) Terias a bondade de nos dizer se os fatos que dizem ter ocorrido na rua Des Noyers são reais? Quanto à sua possibilidade não temos dúvidas.
– Sim, esses fatos são verdadeiros, mas a imaginação do povo os exagerou, seja por medo ou por ironia. Entretanto, repito, são verdadeiros. Foram manifestações de um Espírito que se diverte um pouco com os moradores.
2. Há alguém, na casa, que dê motivo a essas manifestações?
– Elas são sempre provocadas pela presença de uma pessoa detestada. O Espírito perturbador se aborrece com o habitante do lugar em que ele se encontra quer pregar-lhe algumas peças ou fazê-lo mudar-se.
3. Perguntamos se há, entre os moradores, alguém que seja a causa os fenômenos, em virtude de mediunidade espontânea e involuntária?
– Isso é necessário, pois sem isso o fato não poderia se dar. Um Espírito mora num lugar de sua predileção. Enquanto ali não aparece uma pessoa de que se possa servir, fica sem ação. Quando essa pessoa aparece, então ele se diverte quanto pode.
4. A presença dessa pessoa no próprio lugar é indispensável?
– É o mais comum e foi o que aconteceu no caso citado. Por isso disse que sem isso o fato não teria ocorrido. Mas não quis generalizar. Há casos em que a presença no local não é necessária.
5. Sendo esses Espíritos de ordem inferior, a aptidão para lhes servir de auxiliar é uma indicação desfavorável para a pessoa? Indica uma simpatia de sua parte para com os seres dessa natureza?
– Não precisamente, porque essa aptidão decorre de uma disposição física. Mas indica quase sempre uma tendência material que seria preferível não possuir, pois quanto mais elevada moralmente, mais a pessoa atrai os bons Espíritos, que necessariamente afastam os maus.
6. Onde o Espírito vai buscar os objetos que atira?
– Esses objetos são quase sempre encontrados no próprio lugar ou na vizinhança. Uma força que sai do Espírito os lança no espaço e os faz cair onde ele quer.
7. Desde que as manifestações espontâneas são muitas vezes permitidas e até mesmo provocadas com o fim de convencer, parece-nos que se alguns incrédulos fossem o seu alvo seriam forçados a render-se à evidência. Eles às vezes se queixam de não haver testemunhado fatos concludentes. Não dependeria dos Espíritos dar-lhes alguma prova sensível?
– Os ateus e os materialistas não testemunham a cada instante os efeitos do poder de Deus e do pensamento? Mas isso não os impede de negar a Deus e a Alma. Os milagres de Jesus converteram todos os seus contemporâneos? Os Fariseus que lhe diziam: “Mestre, fazei-nos ver algum prodígio”, não se pareciam com esses que hoje vos pedem para ver manifestações? Se não se deixam convencer pelas maravilhas da Criação, não seriam mais tocados pelo aparecimento de um Espírito, mesmo da maneira mais evidente, pois o seu orgulho os transforma em animais empacados. Não lhes faltariam ocasiões de ver, se eles as procurassem de boa fé. É por isso que Deus não julga conveniente fazer por eles mais do que não faz nem mesmo para aqueles que sinceramente buscam instruir-se, porque Ele só recompensa os homens de boa vontade. Essa incredulidade não impedirá que se cumpra a vontade de Deus. Já vistes que ela não impediu a expansão da doutrina. Não vos inquieteis, pois, com a sua oposição, que é para a doutrina como a sombra numa pintura: dá-lhe maior relevo. Que mérito teriam eles se fossem convencidos à força? Deus lhes deixa a responsabilidade da teimosia, e essa responsabilidade é mais pesada do que pensais. Felizes os que creem sem ter visto, disse Jesus, porque eles não duvidam do poder de Deus.
8. Achas conveniente evocar esse Espírito para lhe pedirmos algumas explicações?
– Evoca-o se o quiseres, mas é um Espírito inferior, que só dará respostas de pouca significação.
95. Conversação com o Espírito perturbador da rua Des Noyers:
1. Evocação.
– Por que me chamaste? Queres, acaso, umas pedradas? Então é que se veria um belo corre-corre, apesar do teu ar de bravura!
2. Mesmo que nos desses pedradas, isso não nos assustaria. Pedimos até, se puderes, que nos dês algumas.
– Aqui talvez eu não pudesse. Tendes um guardião que vela bem por vós.
3. Na rua Des Noyers havia alguém que te servia de auxiliar nas peças que pregavas aos moradores?
– Certamente. Encontrei um bom instrumento. E não havia nenhum Espírito douto, sábio e prudente para me impedir. Porque eu sou alegre e gosto, às vezes, de me divertir.
4. Quem te serviu de instrumento?
– Uma criada.
5. Ela te auxiliava sem saber?
– Oh, sim! Pobre moça! Era a mais assustada.
6. Tinhas algum propósito hostil?
– Eu? Eu não tinha nada contra ninguém. Mas os homens que de tudo se apossam torcerão a coisa em seu proveito.
7. Que queres dizer? Não te compreendemos.
– Eu procurava me divertir, mas vós estudareis a coisa e tereis mais um fato para provar que nós existimos.
8. Dizes que não tinhas propósito hostil, mas quebrastes todas as vidraças do apartamento, causando um prejuízo real.
– Isso é um detalhe.
9. Onde encontraste os objetos que atiravas?
– São muito comuns. Achei-os no pátio e nos jardins vizinhos.
10. Achaste todos ou fabricaste alguns? (Ver o Cap. VIII).
– Eu não criei nada, nada compus.
11. Se não os encontrasses, terias podido fabricá-los?
– Teria sido mais difícil. Mas, em último caso, a gente mistura matérias e faz qualquer coisa.
12. Agora, conta-nos como os atiraste.
– Ah, isso é mais difícil de dizer! Servi-me da natureza elétrica daquela moça, ligada à minha, que é menos material. Assim pudemos, os dois, transportar aqueles diversos materiais.
13. Penso que concordarás em nos dar algumas informações sobre atua pessoa. Diga-nos primeiro se morreste há muito tempo.
– Faz muito tempo, há bem uns cinquenta anos.
14. Que foste em vida?
– Não era grande coisa. Catava bugigangas neste bairro e às vezes me atiravam injúrias porque eu gostava muito do licor vermelho do bom velho Noé. Eu também queria pô-los a correr.
15. Por ti mesmo e de tua plena vontade que respondeste às nossas perguntas?
– Eu tinha um instrutor.
16. Quem é esse instrutor?
– Vosso bom rei Luís.
Nota: – Este pergunta foi feita por causa da natureza de algumas respostas que pareciam além da capacidade do Espírito, tanto pelas ideias quanto pela forma da linguagem. Nada demais que ele tenha sido ajudado por um Espírito mais esclarecido, que queria aproveitar a ocasião para nos instruir. Esse é o fato comum. Mas uma particularidade notável deste caso é que a influência do outro Espírito se fez presente na própria escrita. Nas respostas em que ele interferiu a escrita é mais regular e corrente; nas do trapeiro é angulosa, grossa, irregular, muitas vezes pouco legível, revelando um caráter muito diverso. (Nota-se o rigor das observações de Kardec nessas experiências, que provam irrefutavelmente a comunicabilidade dos espíritos. (N. do T.)
17. Que fazes agora? Cuidas do futuro?
– Ainda não. Ando errante. Pensam tão pouco em mim na Terra, que ninguém ora por mim: assim não tenho ajuda e não trabalho.
Nota: – Veremos logo quanto se pode contribuir para o progresso e o alívio dos Espíritos inferiores, através da prece e dos conselhos.
18. Qual era teu nome em vida?
– Jeannet.
19. Muito bem, Jeannet, faremos preces por ti. Diga-nos se a evocação te deu prazer ou te contrariou.
– Antes prazer, porque sois boa gente, alegres viventes, embora um pouco severos. Pouco importa: me escutastes e estou contente.
Jeannet

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Senda de paz

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