Formação Primeira dos Seres Vivos

1. Houve um tempo em que não existiam animais; logo, eles tiveram começo. Cada espécie foi aparecendo à medida que o globo adquiria as condições à sua existência. Isto é positivo. Como se formaram os primeiros indivíduos de cada espécie? Compreende-se que, existindo um primeiro casal, os indivíduos se tenham multiplicado. Mas de onde saiu esse primeiro casal? É um desses mistérios que dizem respeito ao princípio das coisas e sobre os quais apenas se podem formular hipóteses. Se a Ciência ainda não é capaz de resolver completamente o problema pode, ao menos, encaminhá-lo para a solução.
2. A primeira questão que se apresenta é esta: cada espécie animal saiu de um casal primitivo ou de vários casais criados ou, se o preferirem, germinados simultaneamente em diversos lugares? Esta última suposição é a mais provável, e pode-se mesmo dizer que ressalta da observação.
Com efeito, o estudo das camadas geológicas atesta a presença das mesmas espécies, em terrenos de idêntica formação, e em proporções enormes, em pontos do globo muito afastados uns dos outros. Essa multiplicação tão generalizada e, de certo modo, contemporânea, teria sido impossível com um único tipo primitivo.
N. E.: Segundo Charles Darwin (1809–1882), naturalista britânico, autor de “Sobre a Origem das Espécies” por meio da seleção natural (1859), as espécies teriam evoluído pelo processo de seleção natural, ou seja, os indivíduos mais aptos a sobreviver em um determinado ambiente, apresentam mais probabilidade de gerar uma prole que herde suas características genéticas, que por sua vez sofrem imperceptíveis mutações genéticas de geração em geração. Ao longo de séculos, o acúmulo de pequenas mutações genéticas acaba resultando em grandes modificações e aperfeiçoamentos se compararmos com a primeira geração daquela espécie, podendo surgir até novas espécies, bem diversas da primeira.
A teoria mais aceita atualmente é, então, a de que todas as espécies do planeta estão de alguma forma interligadas, das mais simples às mais complexas.

Por outro lado, a vida de um indivíduo, sobretudo de um indivíduo nascente, está sujeita a tantas vicissitudes que toda uma criação poderia ficar comprometida, sem a pluralidade dos tipos, o que implicaria uma imprevidência inadmissível por parte do Criador supremo. Aliás, se num ponto um tipo pôde formar-se, em muitos outros pontos ele se poderia formar igualmente, por efeito da mesma causa.
Tudo, pois, concorre para provar que houve criação simultânea e múltipla dos primeiros casais de cada espécie animal e vegetal.
3. A formação dos primeiros seres vivos pode deduzir-se, por analogia, da mesma lei em virtude da qual se formaram e formam todos os dias os corpos inorgânicos. À medida que se aprofunda o estudo das leis da natureza, as engrenagens que, à primeira vista, pareciam tão complicadas se vão simplificando e confundindo na grande lei de unidade que preside a toda a obra da Criação. Isso se entenderá melhor quando estiver compreendida a formação dos corpos inorgânicos, que é o seu degrau primário.
4. A Química considera elementares certo número de substâncias, tais como o oxigênio, o hidrogênio, o azoto, o carbono, o cloro, o iodo, o flúor, o enxofre, o fósforo e todos os metais. Ao se combinarem, eles formam os corpos compostos: os óxidos, os ácidos, os álcalis, os sais e as inúmeras variedades que resultam da combinação destes.
A combinação de dois corpos para formar um terceiro exige especial concurso de circunstâncias, seja um determinado grau de calor, de sequidão ou de umidade, seja o movimento ou o repouso, seja uma corrente elétrica etc. Se essas condições não existirem, a combinação não se verificará.
5. Quando há combinação, os corpos componentes perdem suas propriedades, enquanto o composto que deles resulta adquire outras, diferentes das primeiras. É assim, por exemplo, que o oxigênio e o hidrogênio, que são dois gases invisíveis, quimicamente combinados formam a água, que é líquida, sólida ou vaporosa, conforme a temperatura. Na água não existe mais, a bem-dizer, nem oxigênio, nem hidrogênio, mas um corpo novo. Decomposta essa água, os dois gases, tornados livres, recobram suas propriedades, não havendo mais água. A mesma quantidade de água pode ser assim, alternativamente, decomposta e recomposta ao infinito.
6. A composição e a decomposição dos corpos se operam em virtude do grau de afinidade que os princípios elementares guardam entre si.
N. E.: Eletronegatividade é a maior ou menor tendência de um átomo para receber elétrons e formar um íon negativo.
A formação da água, por exemplo, resulta da afinidade recíproca que existe entre o oxigênio e o hidrogênio; mas, se se puser em contato com a água um corpo que tenha com o oxigênio mais afinidade do que a que este tem com o hidrogênio, a água se decompõe; o oxigênio é absorvido, o hidrogênio torna-se livre e já não haverá água.
7. Os corpos compostos se formam sempre em proporções definidas, isto é, pela combinação de uma quantidade determinada de princípios constituintes. Assim, para formar a água, são necessárias uma parte de oxigênio e duas de hidrogênio. Se duas partes de oxigênio forem combinadas com duas de hidrogênio, em vez de água teremos o dióxido de hidrogênio, líquido corrosivo, formado, no entanto, dos mesmos elementos que entram na composição da água, mas em outra proporção.
8. Tal é, em poucas palavras, a lei que preside à formação de todos os corpos da natureza. A inumerável variedade desses corpos resulta de pequeníssimo número de princípios elementares combinados em proporções diferentes.
Assim, o oxigênio, combinado em certas proporções com o carbono, o enxofre, o fósforo, forma os ácidos carbônico, sulfúrico, fosfórico; o oxigênio e o ferro formam o óxido de ferro ou ferrugem; o oxigênio e o chumbo, ambos inofensivos, dão origem aos óxidos de chumbo, tais como o litargírio, o alvaiade, o mínio, que são venenosos. O oxigênio, com os metais chamados cálcio, sódio, potássio, forma a cal, a soda, a potassa. A cal, unida ao ácido carbônico, forma os carbonatos de cal ou pedras calcárias, tais como o mármore, a cré, a pedra de construção, as estalactites das grutas; unida ao ácido sulfúrico, forma o sulfato de cal ou gesso e o alabastro; ao ácido fosfórico, forma o fosfato de cálcio, base sólida dos ossos; o cloro e o hidrogênio formam o ácido clorídrico ou hidroclórico; o cloro e o sódio formam o cloreto de sódio ou sal marinho.
9. Todas essas combinações e milhares de outras se obtêm artificialmente, em pequena escala, nos laboratórios de química; elas se operam espontaneamente e em grande escala no grande laboratório da natureza.
Em sua origem, a Terra não continha essas matérias em combinação, mas apenas os seus princípios constituintes volatilizados. Quando as terras calcárias e outras, tornadas pedrosas com o tempo, se depositaram na sua superfície, aquelas matérias não existiam inteiramente formadas; porém, se encontravam no ar, em estado gasoso, todas as substâncias primitivas. Precipitadas por efeito do resfriamento, essas substâncias, sob o império de circunstâncias favoráveis, se combinaram, segundo o grau de suas afinidades moleculares. Foi então que se formaram as diversas variedades de carbonatos, de sulfatos etc., a princípio em dissolução nas águas, depois na superfície do solo.
Suponhamos que, por uma causa qualquer, a Terra voltasse ao estado primitivo de incandescência, tudo se decomporia; os elementos se separariam; todas as substâncias fusíveis se fundiriam; todas as que são volatilizáveis, se volatilizariam. Depois, outro resfriamento determinaria nova precipitação e de novo se formariam as antigas combinações.
10. Estas considerações provam quanto a Química era necessária para a compreensão da Gênese. Antes de se conhecerem as leis da afinidade molecular, era impossível compreender-se a formação da Terra. Esta ciência lançou grande luz sobre a questão, como o fizeram a Astronomia e a Geologia, sob outros pontos de vista.
11. Na formação dos corpos sólidos, um dos mais notáveis fenômenos é o da cristalização, que consiste na forma regular que assumem certas substâncias, ao passarem do estado líquido ou gasoso para o estado sólido. Essa forma, que varia de acordo com a natureza da substância, é geralmente a de sólidos geométricos, tais como o prisma, o romboide, o cubo, a pirâmide. Todos conhecem os cristais de açúcar cândi; os cristais-de-rocha, ou sílica cristalizada, são prismas de seis faces que terminam em pirâmide igualmente hexagonal. O diamante é carbono puro, ou carvão cristalizado. Os desenhos que no inverno se produzem sobre as vidraças são devidos à cristalização do vapor de água durante a congelação, sob a forma de agulhas prismáticas.
A disposição regular dos cristais corresponde à forma particular das moléculas de cada corpo. Essas partículas, infinitamente pequenas para nós, mas que não deixam por isso de ocupar um certo espaço, solicitadas umas para as outras pela atração molecular, se arrumam e se justapõem segundo o exigem suas formas, de modo a tomar cada uma o seu lugar em torno do núcleo ou primeiro centro de atração e a constituir um conjunto simétrico.
A cristalização só se opera em certas circunstâncias favoráveis, fora das quais ela não pode dar-se. O grau da temperatura e o repouso absoluto são condições essenciais. Compreende-se que um calor muito forte, mantendo afastadas as moléculas, não lhes permitiria que se condensassem, e que a agitação, impossibilitando-lhes um arranjo simétrico, não lhes deixaria formar senão uma massa confusa e irregular e, portanto, nada de cristalização propriamente dita.
12. A lei que preside à formação dos minerais conduz naturalmente à formação dos corpos orgânicos. A análise química mostra que todas as substâncias vegetais e animais são compostas dos mesmos elementos que os corpos inorgânicos. Desses elementos, os que desempenham papel mais importante são o oxigênio, o hidrogênio, o azoto e o carbono.
Os outros entram acessoriamente. Como no reino mineral, a diferença de proporções na combinação desses elementos produz todas as variedades de substâncias orgânicas e suas diversas propriedades, tais como: os músculos, os ossos, o sangue, a bile, os nervos, a matéria cerebral, a gordura, nos animais; a seiva, o lenho, as folhas, os frutos, as essências, os óleos, as resinas, etc., nos vegetais.
N. E.: Os tecidos orgânicos que formam os músculos, os ossos, o sangue, o caule etc., são constituídos por células, seres vivos microscópicos que desempenham funções especializadas, necessárias ao funcionamento de cada órgão do ser a que pertencem.
Assim, na formação dos animais e das plantas, não entra nenhum corpo especial que também não se encontre no reino mineral.
Nota de Allan Kardec: O quadro abaixo, da análise de algumas substâncias, mostra a diferença de propriedades que resulta tão só da variação na proporção em que entram os elementos constituintes.
Sobre 100 partes, temos:

CARBONO HIDROGÊNIO OXIGÊNIO AZOTO
AÇÚCAR DE CANA 42.470 6.900 50.630
AÇÚCAR DE UVA 36.710 6.780 56.510
ÁLCOOL 51.980 13.700 34.320
AZEITE DE OLIVEIRA 77.210 13.360 9.430
ÓLEO DE NOZES 79.774 10.570 9.122 0,534
GORDURA 78.996 11.700 9.304
FIBRINA 53.360 7.021 19685 19.924

13. Alguns exemplos comuns darão a compreender as transformações que se operam no reino orgânico, pela só modificação dos elementos constitutivos.
No suco de uva não há vinho, nem álcool, mas simplesmente água e açúcar. Quando o suco fica maduro e são propícias as condições, produz-se nele um trabalho íntimo a que se dá o nome de fermentação. Por esse trabalho, uma parte do açúcar se decompõe; o oxigênio, o hidrogênio e o carbono se separam e se combinam nas proporções necessárias a produzir o álcool, de sorte que, ao se beber suco de uva, não se bebe realmente álcool, pois que este ainda não existe. Ele se forma das partes constituintes da água e do açúcar, sem que haja, em suma, uma molécula a mais ou a menos.
No pão e nos legumes que se comem, não há certamente carne, nem sangue, nem osso, nem bílis, nem matéria cerebral; entretanto, esses mesmos alimentos, decompondo-se e se recompondo pelo trabalho da digestão, produzem aquelas diferentes substâncias tão só pela transmutação de seus elementos constitutivos.
Na semente de uma árvore, não há madeiras, folhas, flores, frutos e seria erro pueril acreditar-se que a árvore inteira, sob forma microscópica, ali se encontra. Quase não há, sequer, na semente, oxigênio, hidrogênio e carbono na quantidade necessária para formar uma folha de árvore. A semente contém um germe que desabrocha quando encontra condições favoráveis.
N. E.: Na semente, como em todos os ovos que presidem à formação dos seres vivos, encontram-se presentes os genes que contêm o código genético com as informações necessárias à formação da planta.
Esse germe se desenvolve em virtude dos sucos que haure da terra e dos gases que aspira do ar. Tais sucos, que não são lenho, nem folhas, nem flores, nem frutos, ao se infiltrarem na planta, formam-lhe a seiva, como nos animais formam o sangue. Levada pela circulação a todas as partes do vegetal, a seiva, conforme o órgão a que vai ter e onde sofre uma elaboração especial, se transforma em lenho, folhas, frutos, como o sangue se transforma em carne, ossos, bílis etc. Contudo, são sempre os mesmos elementos: oxigênio, hidrogênio, azoto e carbono, diversamente combinados.
14. As diferentes combinações dos elementos, para a formação das substâncias minerais, vegetais e animais, não podem, pois, operar-se, a não ser nos meios e em circunstâncias propícias; fora dessas circunstâncias, os princípios elementares estão numa forma de inércia. Mas desde que as circunstâncias se tornam favoráveis, começa um trabalho de elaboração; as moléculas entram em movimento, agitam-se, atraem-se, aproximam-se e se separam em virtude da lei das afinidades e, por suas múltiplas combinações, compõem a infinita variedade das substâncias. Se essas condições desaparecerem, o trabalho cessa subitamente, para recomeçar quando elas de novo se apresentarem. É assim que a vegetação se ativa, enfraquece, para e prossegue, sob a ação do calor, da luz, da umidade, do frio ou da seca; que esta planta prospera, num clima ou num terreno, e se estiola ou perece em outros.
15. O que se passa diariamente sob os nossos olhos pode colocar-nos na pista do que se passou na origem dos tempos, visto que as leis da natureza são invariáveis.
Uma vez que os elementos constitutivos dos seres orgânicos e inorgânicos são os mesmos; que os vemos incessantemente, em dadas circunstâncias, a formar pedras, plantas e frutos, podemos concluir daí que os corpos dos primeiros seres vivos se formaram, como as primeiras pedras, pela reunião das moléculas elementares, em virtude da lei de afinidade, à medida que as condições da vitalidade do globo foram propícias a esta ou àquela espécie.
A semelhança de forma e de cores, na reprodução dos indivíduos de cada espécie, pode comparar-se à semelhança de forma de cada espécie de cristal. Ao se justaporem sob a ação da mesma lei, as moléculas produzem conjunto análogo.
N. E.: Hoje sabemos que os processos de reprodução de qualquer ser vivo dependem das informações contidas nos genes dos ascendentes do ser que está sendo gerado. Cada indivíduo, com as características e funções de seus órgãos, está relacionado com o ambiente em que vive, o que torna melhor adaptado e garante a sobrevivência da sua espécie.

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