Estudo sobre o Espírito de Jacques Latour

Não se pode desconhecer a profundeza e a alta significação de algumas das frases encerradas nessa comunicação. Além disso, ela oferece um dos aspectos do mundo dos Espíritos em castigo, pairando ainda assim sobre ele a misericórdia divina. A alegoria mitológica das Eumênides não é tão ridícula como parece, e os demônios, carrascos oficiais do mundo invisível, que as substituem perante as modernas crenças, são menos racionais com seus chifres e seus pés de cabra, do que essas vítimas que servem elas próprias ao castigo do culpado.
Admitindo-se a identidade desse Espírito, talvez se estranhe tão pronta mudança no seu estado moral. É o caso da ponderação já feita de que pode um Espírito brutalmente mau ter em si melhores predicados do que o dominado pelo orgulho ou pela hipocrisia. Esta mudança para sentimentos mais benéficos indica uma natureza mais selvagem que perversa, à qual apenas faltava boa direção. Comparando esta linguagem com a de outro Espírito, adiante mencionada sob a epígrafe: castigo pela luz, é fácil concluir qual dos dois seja mais adiantado moralmente, apesar da disparidade de instrução e hierarquia social, obedecendo um ao natural instinto de ferocidade, a uma espécie de superexcitação, ao passo que o outro empresta à perpetração dos seus crimes a calma e sangue-frio inerentes às lentas e obstinadas combinações, afrontando ainda depois de morto o castigo, por orgulho. Este sofre e não o confessa, ao passo que aquele prontamente se submete. Também por aí podemos prever qual deles sofrerá por mais ou por menos tempo.
Diz o Espírito de Latour: “Eu sofro por causa desse arrependimento, que me demonstra a extensão dos meus crimes”. Aí está um pensamento profundo. O Espírito só compreende a gravidade dos seus malefícios depois que se arrepende. O arrependimento acarreta o pesar, o remorso, o sentimento doloroso, que é a transição do mal para o bem, da doença moral para a saúde moral. É para se furtarem a isso que os Espíritos perversos se revoltam contra a voz da consciência, como doentes que repelem o remédio que os há de curar. E assim procuram iludir-se, aturdir-se e persistir no mal. Latour chegou a esse período em que se extingue o endurecimento, acabando por ceder, entra-lhe o remorso pelo coração, o arrependimento o assedia e, compreendendo o mal que fez, vê a sua degradação e sofre por ela. Eis porque ele diz: “Sofro por causa desse arrependimento”. Na precedente encarnação, ele devia ter sido pior que na última, visto que, se se tivesse arrependido como agora, melhor lhe teria sido a vida subsequente. As resoluções, por ele ora tomadas, influirão sobre sua vida terrestre no futuro; e a encarnação que teve nem por ser criminosa deixou de assinalar-lhe uma etapa de progresso. E é muito provável que antes de a iniciar ele fosse na erraticidade um desses muitos Espíritos rebeldes, obstinados no mal.
A muitas pessoas ocorre perguntar qual seja o proveito dessa anterioridade de existência, uma vez que dela nos não lembramos e nem temos ideia daquilo que fomos nem daquilo que fizemos. Esta questão está sumariamente liquidada pela razão de que a lembrança seria inútil, visto como de todo apagado o mal cometido, sem que dele nos reste um traço no coração, também com ele não nos devemos preocupar. Quanto aos vícios de que porventura não estejamos inteiramente despojados, nós o conhecemos pelas nossas tendências atuais e para elas devemos voltar todas as atenções. Basta saber o que somos, sem que seja necessário saber o que fomos.
Se considerarmos as dificuldades que há na existência para a reabilitação do Espírito, por maior que seja o seu arrependimento, as reprovações de que se torna objeto, devemos louvar a Deus por ter cerrado esse véu sobre o passado. Condenado a tempo ou absolvido que fosse, os antecedentes de Latour o tornariam um enjeitado da sociedade. Apesar do seu arrependimento, quem o acolheria com intimidade? Entretanto, as intenções que ora patenteia como Espírito, nos dão a esperança de que venha a ser na próxima encarnação um homem honesto e estimado. Suponhamos que soubessem que esse homem honesto fora Latour e a reprovação continuaria a persegui-lo. Esse véu sobre o passado é que lhe franqueia a porta da reabilitação, porque pode sem receio e sem pejo ombrear-se com os mais honestos. Quantos há que desejariam poder apagar da memória de outrem certas fases da própria vida?
Qual a doutrina que melhor se concilia com a bondade e justiça de Deus? Por outro lado esta doutrina não é uma teoria, porém o resultado de observações. Por certo não foram os Espíritos que a imaginaram, porém eles viram e observaram as situações diferentes que muitos Espíritos apresentam e daí o procurarem explicá-las, originando-se então a doutrina. Aceitaram-na, pois, como resultante dos fatos, e ainda por lhes parecer mais raciona] que todas as emitidas até hoje relativamente ao futuro da alma.
Não se pode negar a estas comunicações um grande fundo moral. O Espírito poderia ter sido auxiliado nesses raciocínios e, sobretudo, na escolha das suas expressões, por outros mais adiantados; mas a verdade é que estes apenas influem na forma e não na essência e nunca fazem com que o Espírito inferior esteja em contradição consigo mesmo. Assim é que em Latour poderiam ter feito poesia com a forma do arrependimento, mas não lhe insinuaram contra sua vontade, porque o Espírito tem o seu livre-arbítrio. Em Latour lobrigaram o germe dos bons sentimentos e por isso o auxiliaram na expressão contribuindo assim para desenvolvê-lo, ao mesmo tempo que em seu favor imploravam comiseração.
Que há de mais digno, mais moralizador, capaz de impressionar mais vivamente do que o espetáculo deste grande criminoso que se exproba a si mesmo o desespero e os remorsos? Desse criminoso que, perseguido pelo incessante olhar das vítimas e torturado, eleva a Deus o pensamento implorando misericórdia? Não será isso um exemplo salutar para os culpados? Se bem que simples e desprovidos de fantasmagóricas encenações, compreende-se a natureza dessa angústia, porque elas, apesar de terríveis, são racionais.
Poder-se-ia talvez estranhar tão grande transformação num homem como Latour, mas por que havia de ser inacessível ao arrependimento? Por que não possuir também ele a sua corda sensível? O pecador seria, pois, votado ao mal eternamente? Não lhe chegaria, por fim, um momento em que a luz se lhe fizesse n’alma? Era justamente essa hora que chegara para Latour; e ali está precisamente o lado moral dos seus ditados; é a compreensão que ele tem do seu estado, são os seus pesares, os seus planos de reparação, que tornam essas mensagens eminentemente instrutivas. Que haveria de extraordinário se Latour confessasse um arrependimento sincero antes da morte, se dissesse antes da morte o que veio dizer depois? Não há, quanto a isso, numerosos exemplos?
Uma regeneração antes da morte passaria, aos olhos da maioria dos seus iguais, por fraqueza; mas essa voz de além-túmulo é seguramente a revelação daquilo mesmo que os aguarda. Ele está em absoluto com a verdade, quando afirma ser o seu exemplo mais eficaz que a perspectiva das chamas do inferno, e até do cadafalso. Por que não lhes ministrar esses sentimentos no cárcere? Eles nos levariam a reflexões, do que aliás já temos alguns exemplos. Mas como crer nas palavras de um morto, quando ninguém acredita que para além da morte não esteja tudo acabado? Entretanto dia virá em que esta verdade há de ser reconhecida: os mortos podem vir instruir os vivos.
Outras muitas instruções importantes podem ser tiradas dessas comunicações; assim a confirmação deste princípio de eterna justiça, pelo qual ao culpado não basta o arrependimento apenas, sendo este o primeiro passo para a reabilitação que atrai a divina misericórdia. O arrependimento é o prelúdio do perdão, o alívio dos sofrimentos, mas porque Deus não absolve incondicionalmente, se torna mistér a expiação e principalmente a reparação. Assim o entende Latour e para tanto se predispõe. Se compararmos este criminoso àquele de Castelnaudary, veremos ainda uma diferença nos castigos. Naquele o arrependimento foi tardio e, consequentemente, mais longa a pena. Além disso, essa pena era quase material, enquanto para Latour o era antes moral, porque, como acima dissemos, havia grande diferença intelectual entre eles.
Ao outro impunha-se coisa com que os sentidos obliterados pudessem ser feridos; mas é preciso notar que as penas morais não serão menos pungentes para todo aquele que esteja em condições de compreendê-las. Podemos inferir a assertiva dos clamores do próprio Latour, os quais não são de cólera, porém antes a expressão dos remorsos, de perto seguidos de arrependimento e desejo de reparação, visando o progresso.

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