Caráter da Revelação Espírita

1. Pode-se considerar o Espiritismo como uma revelação? Neste caso, qual o seu caráter? Em que se funda a sua autenticidade? A quem e de que maneira ela foi feita? A Doutrina Espírita é uma revelação, no sentido teológico da palavra, isto é, o produto do ensino oculto vindo do Alto? É absoluta ou suscetível de modificações? Trazendo aos homens a verdade integral, a revelação não teria por efeito impedi-los de fazer uso das suas faculdades, pois que lhes pouparia o trabalho da investigação? Qual a autoridade do ensino dos Espíritos, se eles não são infalíveis nem superiores à humanidade? Qual a utilidade da moral que pregam, visto que essa moral não é diferente da moral cristã, já conhecida? Quais as verdades novas que eles nos trazem? O homem precisará de uma revelação? E não poderá achar em si mesmo e em sua consciência tudo quanto lhe é necessário para se conduzir na vida? Tais as questões que devemos considerar.
2. Definamos primeiro o sentido da palavra revelação. Revelar vem do latim “revelāre”, cuja raiz “vēlum”, véu, significa literalmente sair de sob o véu e, figuradamente, descobrir, dar a conhecer uma coisa secreta ou desconhecida.
Em sua acepção vulgar mais genérica, diz-se de toda coisa ignorada que é divulgada, de qualquer ideia nova que nos põe ao corrente do que não sabíamos.
Deste ponto de vista, todas as ciências que nos fazem conhecer os mistérios da natureza são revelações e se pode dizer que há para a humanidade uma revelação incessante. A Astronomia revelou o mundo astral, que não conhecíamos; a Geologia revelou a formação da Terra; a Química, a lei das afinidades; a Fisiologia, as funções do organismo etc. Copérnico, Galileu, Newton, Laplace, Lavoisier, foram reveladores.
Observação: Nicolau Copérnico (1473-1543), astrônomo polonês. Sua obra Das Revoluções dos Mundos Celestes, publicada alguns dias antes de sua morte, demonstrou o duplo movimento dos planetas, em torno de si mesmos e em torno do Sol, teoria chamada “Sistema de Copérnico”.
Galileu Galilei (1564-1642): matemático, físico e astrônomo italiano. Adotou o sistema proposto por Copérnico e proclamou que o centro do mundo planetário era o Sol e não a Terra, e que a Terra girava em torno do Sol, assim como os outros planetas que refletem a luz solar.
Isaac Newton (1642-1727), matemático, astrônomo e filósofo inglês. Descobriu em 1687 as leis da atração universal.
Pierre-Simon Laplace (1749-1827), astrônomo, matemático e físico francês. Criou o sistema cosmogônico, fez numerosos trabalhos sobre o movimento dos planetas no sistema solar, movimento das marés, etc.
Antoine-Laurent de Lavoisier (1743-1794), químico francês, um dos criadores da Química moderna. Fez parte da comissão encarregada de estabelecer o sistema métrico. 
N. E.
3. A característica essencial de qualquer revelação tem que ser a verdade.
Revelar um segredo é tornar conhecido um fato; se é falso, já não é um fato e, por conseguinte, não existe revelação. Toda revelação desmentida pelos fatos deixa de o ser, caso seja atribuída a Deus. E, visto que não podemos conceber Deus mentindo, nem se enganando, ela não pode emanar dele; logo, deve ser considerada produto de concepção humana.
4. Qual o papel do professor diante dos seus discípulos, senão o de um revelador? O professor lhes ensina o que eles não sabem, o que não teriam tempo nem possibilidade de descobrir por si mesmos, porque a Ciência é obra coletiva dos séculos e de uma infinidade de homens que trazem, cada qual, o seu contingente de observações aproveitáveis àqueles que vêm depois. O ensino é, portanto, na realidade, a revelação de certas verdades, científicas ou morais, físicas ou metafísicas, feitas por homens que as conhecem a outros que as ignoram e que, se assim não fosse, as teriam ignorado sempre.
5. Mas o professor não ensina senão o que aprendeu: é um revelador de segunda ordem; o homem de gênio ensina o que descobriu por si mesmo: é o revelador primitivo; traz a luz que pouco a pouco se vulgariza. Que seria da humanidade sem a revelação dos homens de gênio que aparecem de tempos em tempos?
Mas quem são esses homens de gênio? E por que são homens de gênio? De onde vieram? Que é feito deles? Notemos que a maioria deles traz, ao nascer, faculdades transcendentes e alguns conhecimentos inatos, que com pouco trabalho desenvolvem. Pertencem realmente à humanidade, pois nascem, vivem e morrem como nós. Onde, pois, adquiriram esses conhecimentos que não puderam aprender durante a vida? Dir-se-á, como os materialistas, que o acaso lhes deu a matéria cerebral em maior quantidade e de melhor qualidade? Neste caso, não teriam mais mérito que um legume maior e mais saboroso do que outro.
Dir-se-á, como certos espiritualistas, que Deus lhes deu uma alma mais favorecida que a do comum dos mortais? Suposição igualmente ilógica, pois que qualificaria Deus de parcial. A única solução racional do problema está na preexistência da alma e na pluralidade das existências. O homem de gênio é um Espírito que, tendo vivido mais tempo, adquiriu e progrediu mais do que aqueles que estão menos adiantados. Ao encarnar, traz o que sabe e, como sabe muito mais do que os outros e não precisa aprender, é chamado homem de gênio. Mas seu saber é fruto de um trabalho anterior e não resultado de um privilégio. Antes de renascer, já era Espírito adiantado; reencarna para fazer que outros aproveitem do seu saber ou para adquirir mais do que possui.
Os homens progridem incontestavelmente por si mesmos e pelos esforços da sua inteligência. Mas, entregues às próprias forças, só muito lentamente progrediriam, se não fossem auxiliados por outros mais adiantados, como o estudante o é pelos professores. Todos os povos tiveram homens de gênio, que surgiram em diversas épocas para impulsioná-los e tirá-los da inércia.
6. Desde que se admite a solicitude de Deus para com as suas criaturas, por que não se há de admitir que Espíritos capazes — por sua energia e superioridade de conhecimento, — de fazer que a humanidade avance, encarnem pela vontade de Deus, a fim de ativarem o progresso em determinado sentido? Por que não admitir que eles recebam missões, como um embaixador as recebe do seu soberano? É este o papel dos grandes gênios.
Que vêm eles fazer senão ensinar aos homens verdades que estes ignoram e ainda ignorariam durante largos períodos, a fim de lhes dar um ponto de apoio mediante o qual possam elevar-se mais rapidamente? Esses gênios, que aparecem através dos séculos como estrelas brilhantes, deixando longo traço luminoso sobre a humanidade, são missionários ou, se o quiserem, messias. As coisas novas que ensinam aos homens, quer na ordem física, quer na filosófica, são revelações. Se Deus suscita reveladores para as verdades científicas, pode, com mais forte razão, suscitá-los para as verdades morais, que constituem elementos essenciais do progresso. Tais são os filósofos cujas ideias atravessam os séculos.
7. No sentido especial da fé religiosa, a revelação se diz mais particularmente das coisas espirituais que o homem não pode descobrir por si mesmo, nem com o auxílio dos sentidos; e esse conhecimento lhe é dado por Deus ou por seus mensageiros, quer por meio da palavra direta, quer pela inspiração. Neste caso, a revelação é sempre feita a homens predispostos, designados sob o nome de profetas ou messias, isto é, enviados ou missionários, incumbidos de transmiti-la aos homens. Considerada sob esse ponto de vista, a revelação implica a passividade absoluta e é aceita sem controle, sem exame, nem discussão.
8. Todas as religiões tiveram seus reveladores, e estes, embora estivessem longe de conhecer toda a verdade, tinham uma razão de ser providencial, porque eram apropriados ao tempo e ao meio em que viviam, ao caráter particular dos povos a quem falavam e aos quais eram relativamente superiores. Apesar dos erros das suas doutrinas, não deixaram de agitar os espíritos e, por isso mesmo, de semear os germes do progresso, que mais tarde haviam de desabrochar, ou se desabrochariam um dia à luz brilhante do Cristianismo. É, pois, injusto lançar anátema contra eles em nome da ortodoxia, porque dia virá em que todas essas crenças, tão diversas na forma, mas que repousam realmente sobre um mesmo princípio fundamental: Deus e a imortalidade da alma se fundirão numa grande e vasta unidade, tão logo a razão triunfe dos preconceitos.
Infelizmente, as religiões têm sido, em todos os tempos, instrumentos de dominação; o papel de profeta sempre tentou as ambições secundárias e tem-se visto surgir uma multidão de pretensos reveladores ou messias que, valendo-se do prestígio deste nome, exploram a credulidade em proveito do seu orgulho, da sua ganância ou da sua indolência, achando mais cômodo viver à custa dos iludidos. A religião cristã não pôde evitar esses parasitas. A tal propósito, chamamos toda a atenção para o capítulo XXI de O evangelho segundo o espiritismo – Haverá falsos cristos e falsos profetas.
9. Haverá revelações diretas de Deus aos homens? É uma questão que não ousaríamos resolver, nem afirmativamente nem negativamente, de maneira absoluta. O fato não é radicalmente impossível, porém, nada nos dá dele prova certa. O que parece certo é que os Espíritos mais próximos de Deus pela perfeição se impregnam do seu pensamento e podem transmiti-lo. Quanto aos reveladores encarnados, segundo a ordem hierárquica a que pertencem e ao grau de saber a que chegaram, esses podem tirar de seus próprios conhecimentos as instruções que ministram, ou recebê-las de Espíritos mais elevados, mesmo dos mensageiros diretos de Deus, os quais, falando em nome deste, têm sido às vezes tomados pelo próprio Deus.
As comunicações deste gênero nada têm de estranho para quem conhece os fenômenos espíritas e a maneira pela qual se estabelecem as relações entre os encarnados e os desencarnados. As instruções podem ser transmitidas por diversos meios: pela inspiração pura e simples, pela audição da palavra, pela vidência dos Espíritos instrutores, nas visões e aparições, quer em sonho, quer em estado de vigília, como se vê tantas vezes na Bíblia e nos livros sagrados de todos os povos. É, pois, rigorosamente exato dizer-se que a maioria dos reveladores são médiuns inspirados, audientes ou videntes, o que não significa que todos os médiuns sejam reveladores nem, ainda menos, intermediários diretos da Divindade ou dos seus mensageiros.
10. Só os Espíritos puros recebem a palavra de Deus com a missão de transmiti-la; mas sabe-se hoje que nem todos os Espíritos são perfeitos e que existem muitos que se apresentam sob falsas aparências, o que levou João a dizer: “Não acrediteis em todos os Espíritos; vede antes se os Espíritos são de Deus.” (1ª Epístola, 4:1).
Pode, pois, haver revelações sérias e verdadeiras, como há revelações apócrifas e mentirosas. O caráter essencial da revelação divina é o da eterna verdade. Toda revelação eivada de erros ou sujeita a modificações não pode emanar de Deus. É assim que a lei do Decálogo tem todos os caracteres de sua origem, enquanto as outras leis mosaicas, essencialmente transitórias, muitas vezes em contradição com a lei do Sinai, são obra pessoal e política do legislador hebreu. Com o abrandamento dos costumes do povo, essas leis por si mesmas caíram em desuso, ao passo que o Decálogo ficou sempre de pé, como farol da humanidade. O Cristo fez dele a base do seu edifício, abolindo as outras leis. Se estas fossem obra de Deus, seriam conservadas intactas. O Cristo e Moisés foram os dois grandes reveladores que mudaram a face do mundo e nisso está a prova da sua missão divina. Uma obra puramente humana não teria tal poder.
11. Importante revelação se opera na época atual: a que nos mostra a possibilidade de nos comunicarmos com os seres do mundo espiritual.
Não é novo, sem dúvida, esse conhecimento; mas ficara até agora, de certo modo, como letra morta, isto é, sem proveito para a humanidade. A ignorância das leis que regem essas relações estava abafada sob a superstição; o homem era incapaz de tirar daí qualquer dedução salutar. Estava reservado à nossa época desembaraçá-las dos acessórios ridículos, compreender-lhes o alcance e fazer surgir delas a luz destinada a clarear o caminho do futuro.
12. O Espiritismo, dando-nos a conhecer o mundo invisível que nos cerca e no meio do qual vivíamos sem o suspeitarmos, assim como as leis que o regem, suas relações com o mundo visível, a natureza e o estado dos seres que o habitam e, por conseguinte, o destino do homem após a morte, é uma verdadeira revelação, na acepção científica da palavra.
13. Por sua natureza, a revelação espírita tem duplo caráter: participa ao mesmo tempo da revelação divina e da revelação científica. Participa da primeira porque foi providencial o seu aparecimento e não o resultado da iniciativa, nem de um desejo premeditado do homem; porque os pontos fundamentais da Doutrina provêm do ensino que deram os Espíritos encarregados por Deus de esclarecer os homens sobre coisas que eles ignoravam, que não podiam aprender por si mesmos e que lhes importa conhecer, já que hoje estão aptos a compreendê-las. Participa da segunda por não ser esse ensino privilégio de indivíduo algum, mas ministrado a todos do mesmo modo; por não serem os que o transmitem e os que o recebem seres passivos, dispensados do trabalho da observação e da pesquisa; por não renunciarem ao raciocínio e ao livre-arbítrio; porque não lhes é interdito o exame, mas, ao contrário, recomendado; enfim, porque a Doutrina não foi ditada completa, nem imposta à crença cega porque é deduzida, pelo trabalho do homem, da observação dos fatos que os Espíritos lhe põem sob os olhos e das instruções que lhe dão, instruções que ele estuda, comenta, compara, a fim de tirar ele próprio as consequências e aplicações.
Em suma, o que caracteriza a revelação espírita é o fato de ser divina a sua origem e da iniciativa dos Espíritos, sendo a sua elaboração fruto do trabalho do homem.
14. Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exatamente da mesma maneira que as ciências positivas, isto é, aplicando o método experimental. Quando fatos novos se apresentam, que não podem ser explicados pelas leis conhecidas, o Espiritismo os observa, compara, analisa e, remontando dos efeitos às causas, chega à lei que os preside; depois, lhes deduz as consequências e busca as aplicações úteis. Não estabeleceu nenhuma teoria preconcebida; assim, não estabeleceu como hipótese a existência e a intervenção dos Espíritos, nem o perispírito, nem a reencarnação, nem qualquer dos princípios da Doutrina. Concluiu pela existência dos Espíritos quando essa existência ressaltou evidente da observação dos fatos, procedendo de igual maneira quanto aos outros princípios. Não foram os fatos que vieram depois confirmar a teoria: a teoria é que veio subsequentemente explicar e resumir os fatos. É, pois, rigorosamente exato dizer-se que o Espiritismo é uma ciência de observação e não produto da imaginação.
As ciências só fizeram progressos importantes depois que seus estudos se basearam sobre o método experimental; até então acreditou-se que esse método também só era aplicável à matéria, quando também se aplica às coisas metafísicas.
15. Citemos um exemplo: Passa-se no mundo dos Espíritos um fato muito singular, de que seguramente ninguém havia suspeitado: o de haver Espíritos que não se consideram mortos. Pois bem! Os Espíritos superiores, que conhecem perfeitamente esse fato, não vieram dizer previamente: “Há Espíritos que julgam viver ainda a vida terrestre, que conservaram seus gostos, costumes e instintos.” Em vez disso, provocaram a manifestação de Espíritos desta categoria para que os observássemos. Tendo-se visto Espíritos incertos quanto ao seu estado, ou afirmando ainda serem deste mundo, julgando-se aplicados às suas ocupações habituais, deduziu-se a regra. A multiplicidade de fatos análogos provou que o fato não era excepcional, mas uma das fases da vida do Espírito; pode-se então estudar todas as variedades e as causas de tão singular ilusão, reconhecer que tal situação é, sobretudo, própria de Espíritos pouco adiantados moralmente e peculiar a certos gêneros de morte; que é temporária podendo, todavia, durar dias, meses e anos. Foi assim que a teoria nasceu da observação. Deu-se a mesma coisa com relação a todos os outros princípios da Doutrina Espírita.
16. Assim como a Ciência propriamente dita tem por objeto o estudo das leis do princípio material, o objeto especial do Espiritismo é o conhecimento das leis do princípio espiritual. Ora, como este último princípio é uma das forças da natureza, a reagir incessantemente sobre o princípio material e reciprocamente, segue-se que o conhecimento de um não pode estar completo sem o conhecimento do outro. O Espiritismo e a Ciência se completam reciprocamente; a Ciência sem o Espiritismo se acha na impossibilidade de explicar certos fenômenos só pelas leis da matéria; ao Espiritismo, sem a Ciência, faltariam apoio e comprovação. O estudo das leis da matéria tinha que preceder o da espiritualidade, porque a matéria é que primeiro fere os sentidos. Se o Espiritismo tivesse vindo antes das descobertas científicas, teria malogrado, como tudo quanto surge antes do tempo.
17. Todas as ciências se encadeiam e se sucedem numa ordem racional; nascem umas das outras à medida que encontram um ponto de apoio nas ideias e conhecimentos anteriores. A Astronomia, uma das primeiras cultivadas, conservou os erros da infância até o momento em que a Física veio revelar a lei das forças dos agentes naturais; a Química, nada podendo sem a Física, teve de acompanhá-la de perto para depois marcharem ambas de acordo, amparando-se uma à outra. A Anatomia, a Fisiologia, a Zoologia, a Botânica, a Mineralogia só se tornaram ciências sérias com o auxílio das luzes que lhes trouxeram a Física e a Química. À Geologia, nascida ontem, sem a Astronomia, a Física, a Química e todas as outras ciências, teriam faltado elementos de vitalidade; ela só podia vir depois daquelas.
18. A ciência moderna refutou os quatro elementos primitivos (1) dos antigos e, de observação em observação, chegou à concepção de um só elemento gerador de todas as transformações da matéria; mas a matéria, por si só, é inerte, não tem vida nem pensamento; é preciso a sua união com o princípio espiritual. O Espiritismo não descobriu nem inventou este princípio, mas foi o primeiro a demonstrá-lo, por meio de provas irrecusáveis; estudou-o, analisou-o e tornou-lhe evidente a ação. Ao elemento material, juntou ele o elemento espiritual. Elemento material e elemento espiritual, eis os dois princípios, as duas forças vivas da natureza. Pela união indissolúvel deles, facilmente se explica uma imensidão de fatos até então inexplicáveis.
(1) – A palavra elemento não é empregada aqui no sentido de corpo simples, elementar, de moléculas primitivas, mas no de parte constitutiva de um todo. Neste sentido, pode dizer-se que o elemento espiritual tem parte ativa na economia do Universo, como se diz que o elemento civil e o elemento militar figuram no cálculo de uma população; que o elemento religioso entra na educação; ou que na Argélia existem o elemento árabe e o elemento europeu.
Tendo por objeto o estudo de um dos elementos constitutivos do universo, o Espiritismo toca forçosamente na maior parte das ciências; só podia, portanto, vir depois da elaboração delas; nasceu pela força das coisas, pela impossibilidade de o homem explicar todas as coisas apenas com o auxílio das leis da matéria.
19. Acusam o Espiritismo de parentesco com a magia e a feitiçaria esquecendo, porém, que a Astronomia tem por irmã mais velha a Astrologia judiciária, ainda não muito distante de nós; que a Química é filha da Alquimia, com a qual nenhum homem sensato ousaria ocupar-se hoje.
Ninguém nega, entretanto, que na Astrologia e na Alquimia estivesse o germe das verdades de que saíram as ciências atuais. Apesar das suas fórmulas ridículas, a Alquimia encaminhou a descoberta dos corpos simples e da lei das afinidades. A Astrologia se apoiava na posição e no movimento dos astros que ela estudara; mas, ignorando as verdadeiras leis que regem o mecanismo do universo, os astros eram, para o vulgo, seres misteriosos aos quais a superstição atribuía uma influência moral e um senso revelador.
Quando Galileu, Newton e Kepler tornaram conhecidas essas leis, quando o telescópio rasgou o véu e mergulhou nas profundezas do espaço um olhar que algumas criaturas acharam indiscreto, os planetas apareceram como simples mundos semelhantes ao nosso, e todo o castelo do maravilhoso desmoronou.
O mesmo se dá com o Espiritismo, relativamente à magia e à feitiçaria, que se apoiavam também na manifestação dos Espíritos, como a Astrologia no movimento dos astros; mas, na ignorância das leis que regem o mundo espiritual, elas misturavam, a essas relações, práticas e crenças ridículas, as quais o moderno Espiritismo, fruto da experiência e da observação, nada tem a ver. Certamente, a distância que separa o Espiritismo da magia e da feitiçaria é maior do que a que existe entre a Astronomia e a
Astrologia, a Química e a Alquimia. Querer confundi-las é dar provas de que nada se sabe a respeito delas.
20. O simples fato de o homem poder comunicar-se com os seres do mundo espiritual traz consequências incalculáveis da mais alta gravidade; é todo um mundo novo que se nos revela e que tem tanto mais importância, quanto a ele hão de voltar todos os homens, sem exceção. O conhecimento de tal fato não pode deixar de acarretar, generalizando-se, profunda modificação nos costumes, caráter, hábitos, assim como nas crenças que tão grande influência exerceram sobre as relações sociais. É uma revolução completa a operar-se nas ideias, revolução tanto maior e mais poderosa por não se circunscrever a um povo, nem a uma casta, visto atingir simultaneamente, pelo coração, todas as classes, todas as nacionalidades, todos os cultos. Razão há, pois, para que o Espiritismo seja considerado a terceira das grandes revelações. Vejamos em que essas revelações diferem e qual o laço que as liga entre si.
21. Moisés, como profeta, revelou aos homens a existência de um Deus único, soberano Senhor e Criador de todas as coisas; promulgou a lei do Sinai e lançou as bases da verdadeira fé. Como homem, foi o legislador do povo pelo qual essa primitiva fé, depurando-se, havia de espalhar-se por sobre a Terra.
22. O Cristo, tomando da antiga lei o que é eterno e divino, e rejeitando o que era transitório, puramente disciplinar e de concepção humana, acrescentou a revelação da vida futura, de que Moisés não falara, assim como a revelação das penas e recompensas que aguardam o homem depois da morte. (Veja-se a Revista espírita de março e de setembro de 1861).
23. A parte mais importante da revelação do Cristo, no sentido de fonte primeira, de pedra angular de toda a sua doutrina é o ponto de vista inteiramente novo sob o qual Ele considera a Divindade. Esta já não é o Deus terrível, ciumento, vingativo, de Moisés; o Deus cruel e implacável que rega a terra com o sangue humano, que ordena o massacre e o extermínio dos povos, sem excetuar as mulheres, as crianças e os velhos, e que castiga aqueles que poupam as vítimas; já não é o Deus injusto, que pune um povo inteiro pela falta do seu chefe, que se vinga do culpado na pessoa do inocente, que fere os filhos pelas faltas dos pais; mas um Deus clemente, soberanamente justo e bom, cheio de mansidão e misericórdia, que perdoa ao pecador arrependido e dá a cada um segundo as suas obras. Já não é o Deus de um único povo privilegiado, o Deus dos exércitos, presidindo aos combates para sustentar a sua própria causa contra o deus dos outros povos, mas o pai comum do gênero humano, que estende a sua proteção por sobre todos os seus filhos e os chama todos a si; já não é o Deus que recompensa e pune só pelos bens da Terra, que faz consistir a glória e a felicidade na escravidão dos povos rivais e na multiplicidade da progenitura, mas sim um Deus que diz aos homens: “A vossa verdadeira pátria não é neste mundo, mas no reino celestial, lá onde os humildes de coração serão elevados e os orgulhosos serão humilhados.” Já não é o Deus que faz da vingança uma virtude e ordena se retribua olho por olho, dente por dente; mas o Deus de misericórdia, que diz: “Perdoai as ofensas, se quiserdes ser perdoados; fazei o bem em troca do mal; não façais a outrem o que não quereis que vos façam.” Já não é o Deus mesquinho e meticuloso, que impõe, sob as mais rigorosas penas, o modo como quer ser adorado, que se ofende com a inobservância de uma fórmula; mas o Deus grande, que vê o pensamento e não se honra com a forma. Enfim, já não é o Deus que quer ser temido, mas o Deus que quer ser amado.
24. Sendo Deus o eixo de todas as crenças religiosas e o objetivo de todos os cultos, o caráter de todas as religiões é conforme a ideia que elas têm de Deus. As religiões que fazem de Deus um ser vingativo e cruel julgam honrá-lo com atos de crueldade, com fogueiras e torturas; as que têm um Deus parcial e cioso são intolerantes e mais ou menos meticulosas na forma, por acreditarem-no mais ou menos contaminado das fraquezas e bagatelas humanas.

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