Caráter da Revelação Espírita 3

52. Além disso, convém notar que em parte alguma o ensino espírita foi dado de maneira completa. Ele diz respeito a tão grande número de observações, a assuntos tão diferentes, exigindo conhecimentos e aptidões mediúnicas especiais, que seria impossível se acharem reunidas num mesmo ponto todas as condições necessárias. Tendo o ensino que ser coletivo e não individual, os Espíritos dividiram o trabalho, disseminando os assuntos de estudo e observação como, em algumas fábricas, a confecção de cada parte de um mesmo objeto é repartida por diversos operários.
A revelação fez-se assim, parcialmente, em diversos lugares e por uma multidão de intermediários, e é dessa maneira que ela prossegue ainda, pois nem tudo foi revelado. Cada centro encontra em outros centros o complemento do que obtém, e foi o conjunto, a coordenação de todos os ensinos parciais que constituíram a Doutrina Espírita.
Era, pois, necessário agrupar os fatos esparsos para se lhes verificar a correlação, reunir os documentos diversos, as instruções dadas pelos Espíritos sobre todos os pontos e sobre todos os assuntos, a fim de compará-las, analisá-las, estudar as suas analogias e diferenças. Vindo as comunicações de Espíritos de todas as ordens, mais ou menos esclarecidos, era preciso apreciar o grau de confiança que a razão permitia conceder-lhes, distinguir as ideias sistemáticas individuais ou isoladas das que tinham a sanção do ensino geral dos Espíritos; as utopias das ideias práticas; afastar as que eram notoriamente desmentidas pelos dados da ciência positiva e da lógica, utilizar igualmente os erros, as informações fornecidas pelos Espíritos, mesmo os da mais baixa categoria, para conhecimento do estado do mundo invisível e formar com isso um todo homogêneo. Era preciso, em suma, um centro de elaboração, independente de qualquer ideia preconcebida, de todo prejuízo de seita, resolvido a aceitar a verdade tornada evidente, embora contrária às opiniões pessoais. Este centro se formou por si mesmo, pela força das coisas e sem desígnio premeditado.
Observação: O Livro dos Espíritos, a primeira obra que levou o Espiritismo a ser considerado de um ponto de vista filosófico, pela dedução das consequências morais dos fatos; que considerou todas as partes da doutrina, tocando nas questões mais importantes que ela suscita, foi, desde o seu aparecimento, o ponto para onde convergiram espontaneamente os trabalhos individuais. É notório que da publicação desse livro data a era do Espiritismo filosófico, até então conservado no domínio das experiências curiosas. Se esse livro conquistou as simpatias da maioria é que exprimia os sentimentos dela, correspondia às suas aspirações e encerrava também a confirmação e a explicação racional do que cada um obtinha em particular. Se estivesse em desacordo com o ensino geral dos Espíritos, teria caído no descrédito e no esquecimento. Ora, qual foi aquele ponto de convergência? Decerto não foi o homem, que nada vale por si mesmo, que morre e desaparece; mas, a ideia, que não fenece quando emana de uma fonte superior ao homem.
Essa espontânea concentração de forças dispersas deu lugar a uma amplíssima correspondência, monumento único no mundo, quadro vivo da verdadeira história do Espiritismo moderno, onde se refletem ao mesmo tempo os trabalhos parciais, os sentimentos múltiplos que a doutrina fez nascer, os resultados morais, as dedicações, os desfalecimentos; arquivos preciosos para a posteridade, que poderá julgar os homens e as coisas através de documentos autênticos. Em presença desses testemunhos inexpugnáveis, a que se reduzirão, com o tempo, todas as falsas alegações da inveja e do ciúme?…

53. De todas essas coisas resultou dupla corrente de ideias: umas se dirigindo das extremidades para o centro; as outras se encaminhando do centro para a periferia. Desse modo a Doutrina caminhou rapidamente para a unidade, apesar da diversidade das fontes de onde emanou; os sistemas diversos ruíram pouco a pouco, devido ao isolamento em que ficaram, diante do ascendente da opinião da maioria, por não encontrar repercussão simpática. Desde então, uma comunhão de pensamentos se estabeleceu entre os diversos centros parciais. Falando a mesma linguagem, eles se entendem e estimam, de um extremo a outro do mundo.
Sentindo-se mais fortes, os espíritas lutaram com mais coragem, caminharam com passo mais firme, desde que não mais se viram isolados, desde que sentiram um ponto de apoio, um laço a prendê-los à grande família. Os fenômenos que presenciavam já não lhes pareciam singulares, anormais, contraditórios, desde que puderam conjugá-los a leis gerais de harmonia, perceber num piscar de olhos toda a obra e descobrir um fim grandioso e humanitário em todo o conjunto.
Observação: Significativo testemunho, tão notável quão tocante, dessa comunhão de ideias que se estabeleceu entre os espíritas, pela conformidade de suas crenças, são os pedidos de preces que nos chegam dos mais distantes países, desde o Peru até as extremidades da Ásia, feitos por pessoas de religiões e nacionalidades diversas e as quais nunca vimos. Não é isso um prelúdio da grande unificação que se prepara? Não é a prova de que por toda parte o Espiritismo lança raízes fortes?
Digno de nota é que, de todos os grupos que se têm formado com a intenção premeditada de abrir cisão, proclamando princípios divergentes, do mesmo modo que de todos quantos, apoiando-se em razões de amor-próprio ou outras quaisquer, para não parecer que se submetem à lei comum, se consideraram fortes bastante para caminhar sozinhos, possuidores de luzes suficientes para prescindirem de conselhos, nenhum chegou a construir uma ideia que fosse preponderante e viável. Todos se extinguiram ou vegetaram na sombra. Nem de outro modo poderia ser, dado que, para se exaltarem, em vez de se esforçarem por proporcionar maior soma de satisfações, rejeitavam princípios da doutrina, precisamente o que de mais atraente há nela, o que de mais consolador ela contém e de mais racional. Se houvessem compreendido a força dos elementos morais que lhe constituíram a unidade, não se teriam embalado com ilusões quiméricas. Ao contrário, tomando como se fosse o Universo o pequeno círculo que constituíam, não viram nos adeptos mais do que uma camarilha facilmente derrubável por outra camarilha. Era equivocar-se de modo singular, no tocante aos caracteres essenciais da doutrina e semelhante erro só decepções podia acarretar. Em lugar de romperem a unidade, quebraram o único laço que lhes podia dar força e vida. (Veja-se: Revista Espírita, abril de 1866, págs. 106 e 111: “O Espiritismo sem os Espíritos: o Espiritismo independente”.)

Mas, como se há de saber se um princípio é ensinado por toda parte, ou se apenas exprime uma opinião pessoal? Não estando os grupos independentes em condições de saber o que se diz alhures, necessário se fazia que um centro reunisse todas as instruções, para proceder a uma espécie de apuro das vozes e transmitir a todos a opinião da maioria.
Observação: Esse o objeto das nossas publicações, que se podem considerar o resultado de um trabalho de apuro. Nelas, todas as opiniões são discutidas, mas as questões somente são apresentadas em forma de princípios, depois de haverem recebido a consagração de todas as comprovações, as quais, só elas, lhes podem imprimir força de lei e permitir afirmações. Eis por que não preconizamos levianamente nenhuma teoria e é nisso exatamente que a doutrina, decorrendo do ensino geral, não representa produto de um sistema preconcebido. É também donde tira a sua força e o que lhe garante o futuro.
54. Não existe nenhuma ciência que haja saído prontinha do cérebro humano. Todas, sem exceção de nenhuma, são fruto de observações sucessivas, apoiadas em observações precedentes, como sobre um ponto conhecido para chegar ao desconhecido.
Foi assim que os Espíritos procederam com relação ao Espiritismo, razão por que é gradativo o ensino que ministraram, pois eles não abordam as questões senão à medida que os princípios sobre os quais hajam de apoiar-se estejam suficientemente elaborados e bastante amadurecida a opinião para assimilá-los. É mesmo de notar-se que, de todas as vezes que os centros particulares quiseram tratar de questões prematuras, não obtiveram mais do que respostas contraditórias, nada concludentes. Quando, ao contrário, chega o momento oportuno, o ensino se generaliza e se unifica na quase universalidade dos centros.
Há, todavia, capital diferença entre a marcha do Espiritismo e a das ciências: a de que estas não atingiram o ponto em que chegaram senão após longos intervalos, ao passo que bastaram alguns anos ao Espiritismo, quando não a galgar o ponto culminante, pelo menos a recolher uma soma de observações bem grande para formar uma doutrina. Resulta esse fato da inumerável multidão de Espíritos que, por vontade de Deus, se manifestaram simultaneamente, trazendo cada um o contingente de seus conhecimentos. Resultou daí que todas as partes da Doutrina, em vez de serem elaboradas sucessivamente durante vários séculos, o foram quase ao mesmo tempo, em alguns anos apenas, e que bastou reuni-las para que estruturassem um todo.
Quis Deus que fosse assim, primeiro para que o edifício chegasse mais rapidamente ao fim; em seguida para que se pudesse, por meio da comparação, ter um controle, a bem dizer imediato e permanente, da universalidade do ensino, pois nenhuma de suas partes tem valor nem autoridade, a não ser pela sua conexão com o conjunto, devendo todas harmonizar-se, achando cada uma o devido lugar e vindo cada qual no seu tempo.
Não confiando a um único Espírito o encargo de promulgar a Doutrina, quis Deus, também, que tanto o menor quanto o maior, tanto entre os Espíritos quanto entre os homens, trouxesse sua pedra para o edifício, a fim de estabelecer entre eles um laço de solidariedade cooperativa, que faltou a todas as doutrinas oriundas de um tronco único. Por outro lado, dispondo todo Espírito, como todo homem, apenas de limitada soma de conhecimentos, não estavam aptos, individualmente, a tratar ex-professo das inúmeras questões que o Espiritismo envolve. É por isso também que a Doutrina, em cumprimento aos desígnios do Criador, não podia ser obra nem de um só Espírito nem de um só médium. Tinha que sair da coletividade dos trabalhos, comprovados uns pelos outros.
Observação: Veja-se em O Evangelho segundo o Espiritismo, “Introdução”, item II, e Revista Espírita, de abril de 1864, pág. 99: “Autoridade da Doutrina Espírita; comprovação universal do ensino dos Espíritos”.
55. Um último caráter da revelação espírita, a ressaltar das próprias condições em que ela se produz, é que, apoiando-se em fatos, tem que ser, e não pode deixar de ser, essencialmente progressiva, como todas as ciências de observação. Por sua essência, ela contrai aliança com a Ciência que, sendo a exposição das leis da natureza, com relação a certa ordem de fatos, não pode ser contrária à vontade de Deus, autor daquelas Leis. As descobertas que a Ciência realiza, longe de o rebaixarem, glorificam a Deus; apenas destroem o que os homens edificaram sobre as falsas ideias que formaram de Deus.
O Espiritismo, pois, estabelece como princípio absoluto somente o que se acha evidentemente demonstrado, ou o que ressalta logicamente da observação. Interessando-se a todos os ramos da economia social, aos quais dá o apoio das suas próprias descobertas, assimilará sempre todas as doutrinas progressivas, de qualquer ordem que elas sejam, desde que hajam assumido o estado de verdades práticas e abandonado o domínio da utopia, sem o que ele se suicidaria. Deixando de ser o que é, mentiria à sua origem e ao seu fim providencial. Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.
Observação: Diante de declarações tão nítidas e tão categóricas quais as que se contêm neste capítulo, caem por terra todas as alegações de tendências ao absolutismo e à autocracia dos princípios, bem como todas as falsas assimilações que algumas pessoas prevenidas ou mal informadas emprestam à doutrina. Não são novas, aliás, estas declarações; as temos repetido muitíssimas vezes nos nossos escritos, para que nenhuma dúvida persista a tal respeito. Elas, ao demais, assinalam o verdadeiro papel que nos cabe, único que ambicionamos: o de mero trabalhador.
56. Qual a utilidade da doutrina moral dos Espíritos, visto que não é outra senão a do Cristo? O homem precisa de uma revelação? Não pode achar em si próprio tudo o que lhe é necessário para bem se conduzir na vida?
Do ponto de vista moral, é fora de dúvida que Deus outorgou ao homem um guia, que é a sua consciência, a dizer-lhe: “Não façais aos outros o que não gostaríeis que eles vos fizessem.” Certamente a moral natural está inscrita no coração dos homens, porém, todos saberão lê-la nesse livro? Nunca lhe desprezaram os sábios preceitos? Que fizeram da moral do Cristo? Como a praticam aqueles mesmos que a ensinam? Não se terá tornado letra morta, bela teoria, boa para os outros e não para si?
Reprovareis que um pai repita a seus filhos dez vezes, cem vezes as mesmas instruções, desde que eles não as sigam? Por que Deus faria menos do que um pai de família? Por que não enviaria, de vez em quando, mensageiros especiais aos homens, para lhes lembrar dos deveres e reconduzi-los ao bom caminho, quando deste se afastam? Por que não abrir os olhos da inteligência aos que os trazem fechados, assim como os homens mais adiantados enviam missionários aos selvagens e aos bárbaros?
A moral que os Espíritos ensinam é a do Cristo, em virtude de não haver outra melhor. Mas, então, de que serve o ensino deles, se apenas repetem o que já sabemos? Outro tanto se poderia dizer da moral do Cristo, ensinada quinhentos anos antes por Sócrates e Platão em termos quase idênticos. O mesmo se poderia dizer também de todos os moralistas, que nada mais fazem do que repetir a mesma moral em todos os tons e sob todas as formas. Pois bem! Os Espíritos vêm, muito simplesmente, aumentar o número dos moralistas, com a diferença de que, manifestando-se por toda parte, tanto se fazem ouvir na choupana como no palácio, tanto pelos ignorantes como pelos instruídos.
O que o ensino dos Espíritos acrescenta à moral do Cristo é o conhecimento dos princípios que regem as relações entre os mortos e os vivos, princípios que completam as noções vagas que se tinham da alma, de seu passado e de seu futuro, dando por sanção à doutrina cristã as próprias leis da natureza. Com o auxílio das novas luzes que o Espiritismo e os Espíritos trouxeram, o homem compreende a solidariedade que religa todos os seres; a caridade e a fraternidade se tornam uma necessidade social; ele faz por convicção o que fazia unicamente por dever, e o faz melhor. Somente quando praticarem a moral do Cristo os homens poderão dizer que não precisam de moralistas encarnados ou desencarnados. Ora, nessa época, Deus não lhos enviará mais nenhum.
57. Uma das questões mais importantes, entre as propostas no começo deste capítulo, é a seguinte: que autoridade tem a revelação espírita, uma vez que emana de seres de limitadas luzes e que não são infalíveis? A objeção seria procedente se essa revelação consistisse apenas no ensino dos Espíritos, se deles exclusivamente devêssemos recebê-la e houvéssemos de aceitá-la de olhos fechados. Perde, porém, todo o valor, desde que o homem concorra para a revelação com o seu raciocínio e o seu julgamento; desde que os Espíritos se limitam a pôr o homem no caminho das deduções que ele pode tirar da observação dos fatos. Ora, as manifestações, nas suas inumeráveis modalidades, são fatos que o homem estuda para lhes deduzir a lei, auxiliado nesse trabalho por Espíritos de todas as categorias que, assim, são mais colaboradores seus do que reveladores, no sentido usual do termo. Ele lhe submete os dizeres ao controle da lógica e do bom senso, beneficiando-se, dessa maneira, dos conhecimentos especiais de que os Espíritos dispõem pela posição em que se acham, mas sem abdicar do uso da própria razão.
Não sendo os Espíritos senão as almas dos homens, comunicando-nos com eles não saímos da condição de humanidade, circunstância capital a considerar-se. Os homens de gênio, que foram condutores da humanidade, vieram do mundo dos Espíritos e para lá voltaram ao deixarem a Terra.
Considerando-se que os Espíritos podem comunicar-se com os homens, esses mesmos gênios podem dar-lhes instruções sob a forma espiritual, como o fizeram sob a forma corpórea. Podem instruir-nos depois de terem morrido, tal qual faziam quando vivos; apenas são invisíveis, em vez de serem visíveis, sendo essa a única diferença. A experiência e o saber de que dispõem não devem ser menores do que antes e, se a palavra deles, como homens, tinha autoridade, não há razão para tê-la menos somente pelo fato de estarem no mundo dos Espíritos.
58. Todavia, não são apenas os Espíritos superiores que se manifestam, mas igualmente os de todas as categorias, e era preciso que assim acontecesse para nos iniciarmos no que respeita ao verdadeiro caráter do mundo espiritual, no-lo mostrando em todas as suas faces. Daí resulta serem mais íntimas as relações entre o mundo visível e o mundo invisível, e mais evidente a conexão entre os dois. Vemos assim mais claramente de onde viemos e para onde vamos. Tal é o objetivo essencial das manifestações.
Todos os Espíritos, pois, seja qual for o grau de elevação em que se encontrem nos ensinam alguma coisa; cabe, porém, a nós, visto que eles são mais ou menos esclarecidos, discernir o que há de bom ou de mau no que nos digam e tirar, do ensino que nos deem, o proveito possível. Ora, todos, quaisquer que sejam, nos podem ensinar ou revelar coisas que ignoramos e que sem eles nunca saberíamos.
59. Incontestavelmente, os grandes Espíritos encarnados são individualidades poderosas, mas de ação restrita e de lenta propagação. Viesse um só deles hoje, embora fosse Elias ou Moisés, Sócrates ou Platão, revelar aos homens as condições do mundo espiritual, quem provaria a veracidade de suas asserções, nesta época de ceticismo? Não o tomariam por sonhador ou utopista? Mesmo que fosse verdade absoluta o que dissesse, séculos e mais séculos escoariam antes que as massas humanas lhe aceitassem as ideias. Deus, em sua sabedoria, não quis que assim acontecesse; quis que o ensino fosse dado pelos próprios Espíritos, e não por encarnados, a fim de que os primeiros convencessem estes últimos da sua existência, e quis que isso ocorresse por toda a Terra simultaneamente, quer para que o ensino se propagasse com maior rapidez, quer para que, coincidindo em toda parte, constituísse uma prova de verdade, tendo assim cada um o meio de convencer-se a si próprio.
60. Os Espíritos não se manifestam para libertar o homem do estudo e das pesquisas, nem para lhe transmitirem uma ciência pronta. Com relação ao que o homem pode descobrir por si mesmo, eles o deixam entregue às suas próprias forças. É o que sabem hoje perfeitamente os espíritas.
Há tempos a experiência tem demonstrado ser errôneo atribuir-se aos Espíritos todo o saber e toda a sabedoria e que bastaria dirigir-se ao primeiro Espírito que se apresente para conhecer todas as coisas. Saídos da humanidade, os Espíritos constituem uma de suas faces. Assim como na Terra, no plano invisível também há os superiores e os vulgares; muitos deles, pois, do ponto de vista científico e filosófico, sabem menos do que certos homens; eles dizem o que sabem, nem mais, nem menos. Do mesmo modo ocorre com os homens, os Espíritos mais adiantados podem instruir-nos sobre maior quantidade de coisas, dar-nos opiniões mais judiciosas, do que os atrasados. Pedir conselhos aos Espíritos não é entrar em entendimento com potências sobrenaturais; é tratar com seus iguais, com aqueles mesmos a quem o homem se dirigiria neste mundo: a seus parentes, a seus amigos ou a indivíduos mais esclarecidos do que ele. Disto é que importa que todos se convençam e é o que ignoram os que, não tendo estudado o Espiritismo, fazem ideia completamente falsa da natureza do mundo dos Espíritos e das relações com o além-túmulo.
61. Qual, portanto, a utilidade dessas manifestações ou, se o preferirem, dessa revelação, uma vez que os Espíritos não sabem mais do que nós ou não nos dizem tudo o que sabem? Primeiramente, como já dissemos, eles se abstêm de nos dar o que podemos adquirir pelo trabalho; em segundo lugar, há coisas cuja revelação não lhes é permitida, porque o grau do nosso adiantamento não as comporta. Afora isto, as condições da nova existência em que se acham lhes dilatam o círculo das percepções: eles veem o que não viam na Terra; libertos dos entraves da matéria, isentos dos cuidados da vida corpórea, julgam as coisas de um ponto de vista mais elevado e, por isso mesmo, mais justo; a perspicácia de que gozam abrange mais vasto horizonte; compreendem seus erros, retificam suas ideias e se desembaraçam dos preconceitos humanos.
É nisto que consiste a superioridade dos Espíritos com relação à humanidade corpórea e daí vem que seus conselhos, segundo o grau de adiantamento que alcançaram, são mais judiciosos e desinteressados do que os dos encarnados. O meio em que se encontram lhes permite, além disso, iniciar-nos nas coisas relativas à vida futura, coisas que ignoramos e que não podemos aprender no meio em que estamos. Até agora, o homem apenas formulara hipóteses sobre o futuro, sendo tal a razão por que suas crenças a esse respeito se fracionaram em tão numerosos e divergentes sistemas, desde o niilismo até as concepções fantásticas do inferno e do paraíso.
Hoje, são as testemunhas oculares, os próprios atores da vida de além-túmulo que nos vêm dizer em que se tornaram e só eles o podiam fazer.
Suas manifestações, conseguintemente, serviram para dar-nos a conhecer o mundo invisível que nos rodeia e do qual nem suspeitávamos e só esse conhecimento seria de capital importância, supondo-se que os Espíritos nada mais nos pudessem ensinar.
Quando em viagem por um país que não conheçais, recusareis as informações do mais humilde camponês que encontrardes? Deixareis de interrogá-lo sobre as condições das estradas simplesmente por ser ele um camponês? Certamente não esperareis obter, por seu intermédio, esclarecimentos de grande alcance, mas, de acordo com o que ele é na sua esfera, poderá, sobre alguns pontos, vos ensinar melhor do que um homem instruído que não conheça o país. Tirareis das suas indicações deduções que ele próprio não tiraria, sem que por isso deixe de ser um instrumento útil às vossas observações, embora apenas servisse para vos informar acerca dos costumes dos camponeses. Dá-se a mesma coisa no que concerne às nossas relações com os Espíritos, entre os quais o menos qualificado pode servir para nos ensinar alguma coisa.
62. Uma comparação vulgar tornará ainda mais compreensível a situação. Um navio carregado de emigrantes parte para destino longínquo.
Leva homens de todas as condições, parentes e amigos dos que ficam. Vem-se a saber que esse navio naufragou. Nenhum vestígio resta dele, nenhuma notícia chega sobre a sua sorte. Acredita-se que todos os passageiros tenham perecido e o luto penetra em todas as suas famílias. Entretanto, a tripulação inteira e os passageiros, sem faltar um único homem, foram ter a uma terra desconhecida, abundante e fértil, onde todos passam a viver felizes, sob um céu clemente. Ninguém, todavia, sabe disso. Ora, um belo dia, outro navio aporta a essa terra e lá encontra os náufragos, sãos e salvos.
A auspiciosa notícia se espalha com a rapidez do relâmpago. Exclamam todos: “Os nossos amigos não estão perdidos!” E rendem graças a Deus.
Não podem ver-se uns aos outros, mas correspondem-se; permutam demonstrações de afeto e assim a alegria substitui a tristeza.
Tal a imagem da vida terrena e da vida de além-túmulo, antes e depois da revelação moderna. A última, semelhante ao segundo navio, nos traz a boa-nova da sobrevivência dos que nos são caros e a certeza de que um dia nos reuniremos a eles. Deixa de existir a dúvida sobre a sorte deles e a nossa. O desânimo se desfaz diante da esperança.
Outros resultados fecundam essa revelação. Achando madura a humanidade para penetrar o mistério do seu destino e contemplar a sangue-frio novas maravilhas, Deus permitiu que fosse erguido o véu que ocultava o mundo invisível ao mundo visível. As manifestações nada têm de extra-humanas; é a humanidade espiritual que vem conversar com a humanidade corpórea e dizer-lhe:
Nós existimos, logo, o nada não existe; eis o que somos e o que sereis; o futuro vos pertence, como a nós. Caminhais nas trevas, vimos clarear-vos o caminho e traçar-vos o roteiro; andais ao acaso, vimos apontar-vos a meta. A vida terrena era tudo para vós, porque nada víeis além dela; vimos dizer-vos, mostrando a vida espiritual: a vida terrestre nada é.
A vossa visão se detinha no túmulo, nós vos desvendamos, para além deste, um esplêndido horizonte. Não sabíeis por que sofreis na Terra; agora, no sofrimento, vedes a Justiça de Deus. O bem não produzia nenhum fruto aparente para o futuro; doravante, ele terá uma finalidade e constituirá uma necessidade; a fraternidade, que não passava de bela teoria, assenta agora numa Lei da natureza. Sob o domínio da crença de que tudo se acaba com a vida, a imensidade é o vácuo, o egoísmo reina soberano entre vós e a vossa palavra de ordem é: “Cada um por si”. Com a certeza do futuro, os espaços infinitos se povoam ao infinito, em parte alguma há o vazio e a solidão; a solidariedade liga todos os seres, aquém e além da tumba. É o reino da caridade, sob a divisa: “Um por todos e todos por um”. Enfim, ao termo da vida dizíeis eterno adeus aos que vos são caros; agora simplesmente direis: “Até breve”!
Tais são, em resumo, os resultados da revelação nova, que veio encher o vácuo que a incredulidade havia cavado, levantar os ânimos abatidos pela dúvida ou pela perspectiva do nada e dar a todas as coisas uma razão de ser. Esse resultado carecerá de importância apenas porque os Espíritos não vêm resolver os problemas da Ciência, dar saber aos ignorantes e meios aos preguiçosos para se enriquecerem sem trabalho? Entretanto, os frutos que o homem deve colher da nova revelação não dizem respeito tão só à vida futura. Ele os saboreará na Terra, pela transformação que estas novas crenças hão de necessariamente operar no seu caráter, nos seus gostos, nas suas tendências e, por conseguinte, nos hábitos e nas relações sociais. Pondo fim ao reino do egoísmo, do orgulho e da incredulidade, elas preparam o do bem, que é o reino de Deus, anunciado pelo Cristo.
Nota de Kardec: A anteposição do artigo à palavra Cristo (do grego khristós, ungido), empregado em sentido absoluto, é mais correta, considerando-se que essa palavra não é o nome do Messias de Nazaré, mas uma qualidade tomada substantivamente. Dir-se-á, pois: Jesus era Cristo; era o Cristo anunciado; a morte do Cristo e não de Cristo, ao passo que se diz: a morte de Jesus e não do Jesus. Em Jesus Cristo, as duas palavras reunidas formam um só nome próprio. É pela mesma razão que se diz: o Buda; Gautama conquistou a dignidade de Buda por suas virtudes e austeridades. Diz-se: a vida do Buda, do mesmo modo que se diz: o exército do faraó e não de faraó; Henrique IV era rei; o título de rei; a morte do rei e não de rei.

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Senda de paz

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