Caráter da Revelação Espírita 2

25. Toda a doutrina do Cristo se funda no caráter que Ele atribui à Divindade. Com um Deus imparcial, soberanamente justo, bom e misericordioso, Ele fez do amor de Deus e da caridade para com o próximo a condição expressa da salvação, dizendo: Amai a Deus sobre todas as coisas e o vosso próximo como a vós mesmos; nisto estão toda a lei e os profetas; não existe outra lei. Sobre esta crença, assentou o princípio da igualdade dos homens perante Deus e o da fraternidade universal. Mas era possível amar o Deus de Moisés? Não; só se podia temê-lo.
A revelação dos verdadeiros atributos da Divindade, juntamente com a da imortalidade da alma e da vida futura, modificava profundamente as relações mútuas dos homens, impunha-lhes novas obrigações, fazia-os encarar a vida presente sob outro aspecto e tinha, por isso mesmo, de reagir contra os costumes e as relações sociais. É esse incontestavelmente, por suas consequências, o ponto principal da revelação do Cristo, cuja importância não foi compreendida suficientemente e, é lamentável dizer, é também o ponto de que a humanidade mais se tem afastado, que mais tem ignorado na interpretação dos seus ensinos.
26. Entretanto, o Cristo acrescenta: “Muitas das coisas que vos digo ainda não as podeis compreender, e muitas outras eu teria a dizer, que não compreenderíeis; é por isso que vos falo por parábolas; mais tarde, porém, enviar-vos-ei o Consolador, o Espírito de Verdade, que restabelecerá todas as coisas e vo-las explicará todas.” (João, 14: 16; Mateus, 17.) Se, pois, o Cristo não disse tudo quanto poderia dizer, é que julgou conveniente deixar certas verdades na sombra até que os homens estivessem em condição de compreendê-las. Como Ele próprio o confessou, seu ensino era incompleto, visto anunciar a vinda daquele que deveria completá-lo; previra, pois, que suas palavras seriam desprezadas ou mal interpretadas, e que os homens se desviariam do seu ensino; em suma, que desfariam o que Ele fez, uma vez que todas as coisas hão de ser restabelecidas. Ora, só se restabelece aquilo que foi desfeito.
27. Por que Ele chama de Consolador ao novo messias? Este nome, significativo e sem ambiguidade, encerra toda uma revelação. Assim, Ele previra que os homens teriam necessidade de consolações, o que implica a insuficiência daquelas que eles achariam na crença que iam fundar. Talvez nunca o Cristo fosse tão claro, tão explícito como nestas últimas palavras, às quais poucas pessoas deram a devida atenção, provavelmente porque evitaram esclarecê-las e aprofundar-lhes o sentido profético.
28. Se o Cristo não pôde desenvolver o seu ensino de maneira completa, é que faltavam aos homens conhecimentos que eles só podiam adquirir com o tempo e sem os quais não o compreenderiam; há muitas coisas que teriam parecido absurdas no estado dos conhecimentos de então.
Completar o seu ensino deve entender-se no sentido de explicar e desenvolver, e não no de juntar-lhe verdades novas, porque tudo nele se encontra em estado de germe, faltando-lhe somente a chave para se apreender o sentido de suas palavras.
29. Mas quem se arroga o direito de interpretar as Escrituras Sagradas? Quem tem esse direito? Quem possui as luzes necessárias senão os teólogos? Quem o ousa?
Primeiro, a Ciência, que não pede permissão a ninguém para dar a conhecer as leis da natureza e que salta sobre os erros e os preconceitos. Quem tem esse direito? Neste século de emancipação intelectual e de liberdade de consciência, o direito de exame pertence a todos, e as Escrituras não são mais a arca santa na qual ninguém se atreveria a tocar com a ponta do dedo sem correr o risco de ser fulminado.
Quanto às luzes especiais necessárias, sem contestar as dos teólogos, por mais esclarecidos que fossem os da Idade Média e, em particular, os Pais da Igreja, eles, contudo, ainda não eram esclarecidos o bastante para não condenarem, como heresia, o movimento da Terra e a crença nos antípodas.
Mesmo sem ir tão longe, os teólogos dos nossos dias não lançaram anátema à teoria dos períodos de formação da Terra?
Os homens só puderam explicar as Escrituras com o auxílio do que sabiam, das noções falsas e incompletas que tinham sobre as leis da natureza, mais tarde reveladas pela Ciência. Eis por que os próprios teólogos, de muito boa-fé, se enganaram sobre o sentido de certas palavras e fatos do Evangelho. Querendo a todo custo encontrar nele a confirmação de uma ideia preconcebida, giraram sempre no mesmo círculo, sem abandonar o seu ponto de vista, de modo que só viam o que queriam ver. Por mais instruídos que fossem eles não podiam compreender as causas dependentes de leis que lhes eram desconhecidas.
Quem, porém, julgará interpretações diversas e muitas vezes contraditórias, dadas fora do campo da Teologia? O futuro, a lógica e o bom senso. Os homens, cada vez mais esclarecidos, à medida que novos fatos e novas leis se forem revelando, saberão separar da realidade os sistemas utópicos.
Ora, as ciências tornam conhecidas algumas leis; o Espiritismo revela outras; todas são indispensáveis à compreensão dos textos sagrados de todas as religiões, desde Confúcio e Buda até o Cristianismo. Quanto à Teologia, essa não poderá judiciosamente alegar contradições da Ciência, visto como também ela nem sempre está de acordo consigo mesma.
30. O Espiritismo, partindo das próprias palavras do Cristo, como este partiu das de Moisés, é consequência direta da sua doutrina. À ideia vaga da vida futura, acrescenta a revelação da existência do mundo invisível que nos rodeia e povoa o espaço, e com isso precisa a crença, dá-lhe um corpo, uma consistência, uma realidade à ideia. Define os laços que unem a alma ao corpo e levanta o véu que ocultava aos homens os mistérios do nascimento e da morte. Pelo Espiritismo, o homem sabe de onde vem, para onde vai, por que está na Terra, por que sofre temporariamente e vê por toda parte a Justiça de Deus. Sabe que a alma progride incessantemente, através de uma série de existências sucessivas, até atingir o grau de perfeição que a aproxima de Deus. Sabe que todas as almas, tendo um mesmo ponto de origem, são criadas iguais, com a mesma aptidão para progredir, em virtude do seu livre-arbítrio; que todas são da mesma essência e que não há diferença entre elas, senão quanto ao progresso realizado; que todas têm o mesmo destino e alcançarão o mesmo fim, mais ou menos rapidamente, conforme seu trabalho e boa vontade.
Sabe que não há criaturas deserdadas, nem mais favorecidas umas do que outras; que Deus não privilegiou a criação de nenhuma delas, nem dispensou quem quer que fosse do trabalho imposto às outras para progredirem; que não há seres perpetuamente votados ao mal e ao sofrimento; que os que se designam pelo nome de demônios são Espíritos ainda atrasados e imperfeitos, que praticam o mal no Espaço, como o praticavam na Terra, mas que se adiantarão e aperfeiçoarão; que os anjos ou Espíritos puros não são seres à parte na Criação, mas Espíritos que chegaram à meta depois de terem palmilhado a estrada do progresso; que, desse modo, não há criações múltiplas, nem diferentes categorias entre os seres inteligentes, mas que toda a Criação resulta da grande lei de unidade que rege o universo e que todos os seres gravitam para um fim comum, que é a perfeição, sem que uns sejam favorecidos à custa de outros, visto serem todos filhos das suas próprias obras.
31. Pelas relações que agora pode estabelecer com aqueles que deixaram a Terra, o homem possui não só a prova material da existência e da individualidade da alma, como também compreende a solidariedade que liga os vivos aos mortos deste mundo, e os deste mundo aos dos outros planetas. Conhece a situação deles no mundo dos Espíritos, acompanha-os em suas migrações, testemunha suas alegrias e penas; sabe por que são felizes ou infelizes e a sorte que lhes está reservada, conforme o bem ou o mal que fizeram. Essas relações iniciam o homem na vida futura, que ele pode observar em todas as suas fases, em todas as suas peripécias; o futuro já não é uma vaga esperança, mas um fato positivo, uma certeza matemática.
Desde então, a morte nada mais tem de aterrador, por lhe ser a libertação, a porta da verdadeira vida.
32. Pelo estudo da situação dos Espíritos, o homem sabe que a felicidade e a infelicidade na vida espiritual são inerentes ao grau de perfeição e de imperfeição; que cada um sofre as consequências diretas e naturais de suas faltas ou, por outra, que é punido no que pecou; que essas consequências duram tanto quanto a causa que as produziu; que, por conseguinte, o culpado sofreria eternamente se persistisse sempre no mal, mas que o sofrimento cessa com o arrependimento e a reparação. Ora, como depende de cada qual o seu aperfeiçoamento, todos podem, em virtude do livre-arbítrio, prolongar ou abreviar seus sofrimentos, como o doente sofre, pelos seus excessos, enquanto não lhes põe termo.
33. Se a razão repele, como incompatível com a bondade de Deus, a ideia das penas irremissíveis, perpétuas e absolutas, muitas vezes infligidas por uma única falta; a dos suplícios do inferno, que não podem ser minorados nem sequer pelo arrependimento mais ardente e mais sincero, a mesma razão se inclina diante dessa justiça distributiva e imparcial, que leva tudo em conta, que nunca fecha a porta ao arrependimento e estende constantemente a mão ao náufrago, em vez de empurrá-lo para o abismo.
34. A pluralidade das existências, cujo princípio o Cristo estabeleceu no Evangelho sem, todavia, defini-lo como a muitos outros, é uma das leis mais importantes reveladas pelo Espiritismo, visto demonstrar a sua realidade e a necessidade para o progresso. Com esta lei, o homem explica todas as aparentes anomalias da vida humana; as diferenças de posição social; as mortes prematuras que, sem a reencarnação, tornariam inúteis para a alma as vidas de curta duração; a desigualdade de aptidões intelectuais e morais, pela ancianidade do Espírito que mais ou menos aprendeu ou progrediu, e que traz, ao renascer, o que adquiriu em suas existências anteriores. (Item 5).
35. Com a doutrina da criação da alma no instante do nascimento, cai-se no sistema das criações privilegiadas; os homens são estranhos uns aos outros e nada os liga; os laços de família são puramente carnais; não são de nenhum modo solidários com um passado em que não existiam. Com a doutrina do nada após a morte, todas as relações cessam com a vida e, assim, os seres humanos não são solidários no futuro. Pela reencarnação, são solidários no passado e no futuro e, como as suas relações se perpetuam, tanto no mundo espiritual como no corpóreo, a fraternidade tem por base as próprias leis da natureza; o bem tem um objetivo, e o mal, consequências inevitáveis.
36. Com a reencarnação, desaparecem os preconceitos de raças e de castas, pois o mesmo Espírito pode tornar a nascer rico ou pobre, capitalista ou proletário, chefe ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher. De todos os argumentos invocados contra a injustiça da servidão e da escravidão, contra a sujeição da mulher à lei do mais forte, nenhum há que prime, em lógica, ao fato material da reencarnação. Se, pois, a reencarnação firma numa Lei da natureza o princípio da fraternidade universal, também firma na mesma lei o da igualdade dos direitos sociais e, por conseguinte, o da liberdade.
37. Tirai ao homem o Espírito livre e independente, sobrevivente à matéria, e fareis dele uma simples máquina organizada, sem finalidade nem responsabilidade, sem outro freio além da lei civil e pronta para ser explorada como um animal inteligente. Nada esperando depois da morte, faz de tudo para aumentar os gozos do presente; se sofre, só tem a perspectiva do desespero e o nada como refúgio. Com a certeza do futuro, com a convicção de encontrar novamente aqueles a quem amou e com o temor de tornar a ver aqueles a quem ofendeu, todas as suas ideias mudam. Ainda que o Espiritismo só servisse para libertar o homem da dúvida quanto à vida futura, já teria feito mais pelo seu aperfeiçoamento moral do que todas as leis disciplinares, que o detêm algumas vezes, mas que não o transformam.
38. Sem a preexistência da alma, a doutrina do pecado original não somente seria inconciliável com a Justiça de Deus, como tornaria todos os homens responsáveis pela falta de um só; seria um contrassenso, e tanto menos justificável porque, segundo essa doutrina, a alma não existia na época em que se pretende fazer remontar a sua responsabilidade. Com a preexistência o homem traz, ao renascer, o germe das suas imperfeições, dos defeitos de que não se corrigiu e que se traduzem pelos instintos naturais e pelos pendores para tal ou qual vício. É esse o seu verdadeiro pecado original cujas consequências ele sofre naturalmente, mas com a diferença capital de que sofre a pena das suas próprias faltas, e não a pena das faltas cometidas por outrem. Contudo, existe ainda outra diferença, ao mesmo tempo consoladora, animadora e soberanamente equitativa, segundo a qual cada existência lhe oferece os meios de progredir e de se redimir pela reparação, quer despojando-se de alguma imperfeição, quer adquirindo novos conhecimentos, até que, suficientemente depurado, o homem não mais necessite da vida corpórea e possa viver exclusivamente a vida espiritual, eterna e bem-aventurada.
Pela mesma razão, aquele que progrediu moralmente traz, ao renascer, qualidades naturais, como o que progrediu intelectualmente traz ideias inatas. Identificado com o bem, pratica-o sem esforço, sem cálculo e, por assim dizer, sem pensar. Aquele que é obrigado a combater as suas más tendências vive ainda em luta; o primeiro já venceu, o segundo está prestes a vencer. Existe, pois, a virtude original, como existe o saber original, e o pecado ou, antes, o vício original.
39. O Espiritismo experimental estudou as propriedades dos fluidos espirituais e a ação deles sobre a matéria. Demonstrou a existência do perispírito, suspeitado desde a Antiguidade por Paulo sob o nome de corpo espiritual, isto é, corpo fluídico da alma, após a destruição do corpo tangível.
Sabe-se hoje que esse envoltório é inseparável da alma, forma um dos elementos constitutivos do ser humano, é o veículo da transmissão do pensamento e, durante a vida do corpo, serve de laço entre o Espírito e a matéria.
O perispírito representa importantíssimo papel no organismo e numa porção de afecções que se ligam à Fisiologia, assim como à Psicologia.
40. O estudo das propriedades do perispírito, dos fluidos espirituais e dos atributos fisiológicos da alma abre novos horizontes à Ciência e dá a solução de uma série de fenômenos incompreendidos até agora, por falta de conhecimento da lei que os rege; fenômenos, aliás, negados pelo materialismo, por se prenderem à espiritualidade e, qualificados como milagres ou sortilégios por outras crenças. Tais são, entre outros, o fenômeno da dupla vista, da visão à distância, do sonambulismo natural e artificial, dos efeitos psíquicos da catalepsia e da letargia, da presciência, dos pressentimentos, das aparições, das transfigurações, da transmissão do pensamento, da fascinação, das curas instantâneas, das obsessões e possessões, etc.
Demonstrando que esses fenômenos repousam em leis naturais, como os fenômenos elétricos, e em que condições normais se podem reproduzir, o Espiritismo destrói o império do maravilhoso e do sobrenatural e, por conseguinte, a fonte da maior parte das superstições. Se ele leva à crença na possibilidade de certas coisas consideradas por alguns como quiméricas, também impede que se creia em muitas outras, comprovando a sua impossibilidade e irracionalidade.
41. Longe de negar ou destruir o Evangelho, o Espiritismo vem, ao contrário, confirmar, explicar e desenvolver, pelas novas leis da natureza que ele revela. Tudo quanto o Cristo disse e fez; elucida os pontos obscuros do ensino cristão, de tal sorte que aqueles para quem eram ininteligíveis certas partes do Evangelho, ou pareciam inadmissíveis, as compreendem e admitem, sem dificuldade, com o auxílio desta doutrina, veem melhor o seu alcance e podem distinguir entre a realidade e a alegoria; o Cristo lhes parece maior: já não é simplesmente um filósofo, mas um Messias divino.
42. Além disso, se considerar-se o poder moralizador do Espiritismo, pela finalidade que confere a todas as ações da vida, por tornar quase tangíveis as consequências do bem e do mal, pela força moral, a coragem e as consolações que dá nas aflições, mediante inalterável confiança no futuro, pela ideia de ter, cada um, perto de si os seres a quem amou, a certeza de revê-los, a possibilidade de conversar com eles; enfim, pela certeza de que tudo quanto se fez, quanto se adquiriu em inteligência, sabedoria, moralidade, até a última hora da vida, não fica perdido, que tudo aproveita ao adiantamento do Espírito, reconhece-se que o Espiritismo realiza todas as promessas do Cristo a respeito do Consolador anunciado. Ora, como é o Espírito de Verdade que preside ao grande movimento regenerador, a promessa do seu advento se acha por essa forma cumprida, porque, de fato, é ele o verdadeiro Consolador.
Observação: Muitos pais deploram a morte prematura dos filhos, para cuja educação fizeram grandes sacrifícios, e dizem consigo mesmos que tudo foi pura perda. À luz do Espiritismo, porém, não lamentam esses sacrifícios e estariam prontos a fazê-los, mesmo tendo a certeza de que veriam morrer seus filhos, porque sabem que se estes não a aproveitam na vida presente, essa educação servirá, primeiro que tudo, para o seu adiantamento espiritual e, mais, que serão aquisições novas para outra existência e que, quando voltarem a este mundo, terão um patrimônio intelectual que os tornara mais aptos a adquirirem novos conhecimentos. Tais são essas crianças que trazem, ao nascer, ideias inatas que sabem, por assim dizer, sem precisarem aprender.
Se os pais não têm a satisfação imediata de ver os filhos aproveitarem da educação que lhes deram, a gozarão certamente mais tarde, quer como espíritos, quer como homens. Talvez sejam eles de novo os pais desses mesmos filhos, que se apontam como afortunadamente dotados pela natureza e que devem as suas aptidões a uma educação precedente; assim também, se os filhos se desviam para o mal, pela negligência dos pais, estes podem vir a sofrer mais tarde desgostos e pesares que àqueles suscitarão em nova existência. (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V, nº 21; “Mortes prematuras”.)

43. Se a estes resultados adicionarmos a rapidez prodigiosa da propagação do Espiritismo, apesar de tudo quanto têm feito para abatê-lo, não se poderá negar que a sua vinda seja providencial, visto que ele triunfa de todas as forças e de toda a má vontade dos homens. A facilidade com que é aceito por tão grande número de pessoas, sem constrangimento, apenas pelo poder da ideia, prova que ele corresponde a uma necessidade, qual a de crer o homem em alguma coisa para encher o vácuo aberto pela incredulidade e que, portanto, veio no momento preciso.
44. Os aflitos de toda sorte são em grande número. Não é, pois, de admirar que tanta gente acolha uma doutrina que consola, de preferência às que desesperam, porque aos deserdados, mais que aos felizes do mundo, é que o Espiritismo se dirige. O doente vê chegar o médico com maior satisfação do que aquele que está bem de saúde; ora, os aflitos são os doentes e o Consolador é o médico.
Vós, que combateis o Espiritismo, se quereis que o abandonemos para vos seguir, dai-nos mais e melhor do que ele; curai com maior segurança as feridas da alma. Dai mais consolações, mais satisfações ao coração e esperanças mais legítimas, maiores certezas; fazei do futuro um quadro mais racional, mais sedutor; porém, não julgueis vencê-lo com a perspectiva do nada, com a alternativa das chamas do inferno ou com a inútil contemplação perpétua.
45. A primeira revelação teve a sua personificação em Moisés, a segunda no Cristo, mas a terceira não tem indivíduo algum a personificá-la.
As duas primeiras foram individuais, a terceira foi coletiva; aí está um caráter essencial de grande importância. Ela é coletiva no sentido de não ser feita ou dada como privilégio a pessoa alguma; ninguém, por conseguinte, pode arrogar-se como seu profeta exclusivo. Foi espalhada simultaneamente por sobre toda a Terra, a milhões de pessoas, de todas as idades e condições, desde a mais baixa até a mais alta da escala, conforme esta predição registrada pelo autor dos Atos dos Apóstolos: “Nos últimos tempos, disse o Senhor, derramarei do meu espírito sobre toda a carne; os vossos filhos e filhas profetizarão, vossos jovens terão visões e vossos velhos sonharão.” (Atos, 2: 17 e 18.) Ela não proveio de nenhum culto especial, a fim de servir um dia a todos de ponto de ligação.
Nota de Kardec: O nosso papel pessoal, no grande movimento de ideias que se prepara pelo Espiritismo e que começa a operar-se, é o de um observador atento, que estuda os fatos para lhes descobrir a causa e tirar-lhes as consequências. Confrontamos todos os que nos têm sido possível reunir, comparamos e comentamos as instruções dadas pelos Espíritos em todos os pontos do globo e depois coordenamos metodicamente o conjunto; em suma, estudamos e demos ao público o fruto das nossas indagações, sem atribuirmos aos nossos trabalhos valor maior do que o de uma obra filosófica deduzida da observação e da experiência, sem nunca nos considerarmos chefe da doutrina, nem procurarmos impor as nossas ideias a quem quer que seja. Publicando-as, usamos de um direito comum e aqueles que as aceitaram o fizeram livremente. Se essas ideias acharam numerosas simpatias, é porque tiveram a vantagem de corresponder às aspirações de avultado número de criaturas, mas disso não colhemos vaidade alguma, dado que a sua origem não nos pertence. O nosso maior mérito é a perseverança e a dedicação à causa que abraçamos. Em tudo isso, fizemos o que outro qualquer poderia ter feito como nós, razão pela qual nunca tivemos a pretensão de nos julgarmos profeta ou messias, nem, ainda menos, de nos apresentarmos como tal.
46. As duas primeiras revelações, sendo fruto do ensino pessoal, ficaram forçosamente localizadas, isto é, apareceram num só ponto, em torno do qual a ideia se propagou pouco a pouco; mas foram precisos muitos séculos para que atingissem as extremidades do mundo, sem mesmo o invadirem completamente. A terceira tem isto de particular: não sendo personificada em um só indivíduo, surgiu simultaneamente em milhares de pontos diferentes, que se tornaram centros ou focos de irradiação. Multiplicando-se esses centros, seus raios se reúnem pouco a pouco, como os círculos formados por uma imensidade de pedras lançadas na água, de tal sorte que, em dado tempo, acabarão por cobrir toda a superfície do globo.
Essa é uma das causas da rápida propagação da Doutrina Espírita. Se ela tivesse surgido num só ponto, se fosse obra exclusiva de um homem, teria formado seitas em torno dela e talvez decorresse meio século sem que atingisse os limites do país onde começara, ao passo que, após dez anos, já fincou balizas de um polo a outro.
47. Essa circunstância, verdadeiro fenômeno na história das doutrinas, lhe dá força excepcional e irresistível poder de ação. De fato, se a perseguirem num ponto, em determinado país, será materialmente impossível que a persigam em toda parte e em todos os países. Em contraposição a um lugar onde lhe dificultem a marcha, haverá mil outros em que florescerá.
Ainda mais: se a ferirem num indivíduo, não poderão feri-la nos Espíritos, que são a fonte de que ela promana. Ora, como os Espíritos estão em toda parte e existirão sempre se, por um acaso impossível, conseguissem sufocar a Doutrina Espírita em todo o globo, ela reapareceria pouco tempo depois, porque repousa sobre um fato que está na natureza e não se podem suprimir as leis da natureza. Eis aí o de que devem convencer-se aqueles que sonham com o aniquilamento do Espiritismo. (Revista Espírita, fevereiro de 1865: Perpetuidade do Espiritismo.)
48. Entretanto, em virtude da disseminação dos centros, estes poderiam ainda permanecer, por muito tempo, isolados uns dos outros ou confinados em países longínquos, como sucede com alguns deles. Faltava entre eles uma ligação que os pusesse em comunhão de ideias com seus irmãos em crença, informando-os do que se fazia em outro lugar. Esse traço de união, que na Antiguidade teria faltado ao Espiritismo, hoje existe nas publicações que vão a toda parte, condensando, sob uma forma única, concisa e metódica, o ensino dado universalmente sob formas múltiplas e nas diversas línguas.
49. As duas primeiras revelações só podiam resultar de um ensino direto. Como os homens não estivessem ainda bastante adiantados a fim de concorrerem para a sua elaboração, elas tinham que ser impostas pela fé, sob a autoridade da palavra do Mestre. Contudo, notam-se entre as duas bem sensível diferença, devida ao progresso dos costumes e das ideias, embora feitas ao mesmo povo e no mesmo meio, mas com dezoito séculos de intervalo. A doutrina de Moisés é absoluta, despótica; não admite discussão e se impõe ao povo pela força. A de Jesus é essencialmente conselheira; é livremente aceita e só se impõe pela persuasão; foi controvertida desde o tempo do seu fundador, que não desdenhava de discutir com os seus adversários.
50. A Terceira Revelação, vinda numa época de emancipação e de maturidade intelectual, em que a inteligência, já desenvolvida, não se conforma em representar um papel meramente passivo, em que o homem nada aceita às cegas, mas, ao contrário, quer ver aonde o conduzem, quer saber o porquê e o como de cada coisa, tinha ela que ser ao mesmo tempo o produto de um ensino e o fruto do trabalho, da pesquisa e do livre-exame.
Os Espíritos só ensinam o que é preciso para guiar o homem no caminho da verdade, mas se abstêm de revelar o que ele pode descobrir por si mesmo, deixando-lhe o cuidado de discutir, verificar e submeter tudo ao crivo da razão, deixando mesmo, muitas vezes, que adquira experiência à própria custa. Os Espíritos fornecem-lhe o princípio, os materiais, cabendo a ele aproveitá-los e pô-los em prática. (Item 15.)
51. Tendo sido os elementos da revelação espírita ministrados simultaneamente em muitos pontos, a homens de todas as condições sociais e de diversos graus de instrução, é claro que as observações não podiam ser feitas em toda parte com o mesmo resultado; que as consequências a tirar, a dedução das leis que regem esta ordem de fenômenos, em suma, a conclusão sobre a qual haviam de firmarem-se as ideias não podiam sair senão do conjunto e da correlação dos fatos. Ora, cada centro isolado, circunscrito dentro de um círculo restrito, não vendo na maioria das vezes mais que uma ordem particular de fatos, não raro contraditórios na aparência, geralmente lidando com a mesma categoria de Espíritos e, além disso, embaraçados por influências locais e pelo espírito de partido, se achava na impossibilidade material de abranger o conjunto e, por isso mesmo, incapaz de conjugar as observações isoladas a um princípio comum. Apreciando, cada qual, os fatos sob o ponto de vista dos seus conhecimentos e crenças anteriores, ou da opinião particular dos Espíritos que se manifestam, bem cedo teriam surgido tantas teorias e sistemas quantos fossem os centros, todos incompletos por falta de elementos de comparação e exame. Numa palavra, cada um se teria imobilizado na sua revelação parcial, julgando possuir toda a verdade, ignorando que em cem outros lugares se obtinha mais e melhor.

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