Ao Encontro do Mestre

Às vésperas da partida em busca da gentilidade espanhola, eis que o Apóstolo recebe uma carta comovente de Simão Pedro. O ex-pescador de Cafarnaum escrevia-lhe de Corinto, avisando sua próxima chegada à cidade imperial. A missiva era afetuosa e enternecedora, cheia de confidências amargas e tristes. Pedro confiava ao amigo suas derradeiras desilusões na Ásia e mostrava-se-lhe vivamente interessado pelo que lhe sucedera em Roma. Ignorando que o ex-rabino fora restituído à liberdade, procurava confortá-lo fraternalmente. Também ele, Simão, deliberara exilar-se junto dos irmãos da metrópole imperial, esperando ser útil ao amigo, em quaisquer circunstâncias. Ainda no mesmo documento íntimo, rogava aproveitasse o portador para comunicar aos confrades romanos o propósito de se demorar algum tempo entre eles.
O convertido de Damasco leu e releu a mensagem amiga, altamente sensibilizado.
Pelo emissário, irmão da igreja de Corinto, foi avisado de que o venerando Apóstolo de Jerusalém chegaria ao porto de Ostia dentro de dez dias, mais ou menos.
Não hesitou um momento. Lançou mão de todos os meios ao seu alcance, preveniu os íntimos e preparou uma casa modesta, onde Pedro pudesse alojar-se com a família. Criou o melhor ambiente para a recepção do respeitável companheiro. Valendo-se do argumento de sua próxima excursão à Espanha, dispensava as dádivas dos amigos, indicando-lhes as necessidades de Simão, para que nada lhe faltasse. Transportou quanto possuía, em objetos de uso doméstico, do singelo aposento que alugara junto à Porta Lavernal para a casinha destinada a Simão, próximo dos cemitérios israelitas da Via Apia.
Esse exemplo de cooperação foi altamente apreciado por todos. Os irmãos mais humildes fizeram questão de oferecer pequeninas utilidades ao Apóstolo venerando que chegaria desprovido.
Informado de que a embarcação entrava no porto, o ex-rabino largou-se pressurosamente para Ostia. Lucas e Timóteo, sempre em sua companhia, junto de outros cooperadores devotados, o amparavam nos pequenos acidentes do caminho, dando-lhe o braço, aqui e ali.
Não fora possível organizar uma recepção mais ostensiva. A perseguição surda aos adeptos do Nazareno apertava o cerco por todos os lados. Os últimos conselheiros honestos do Imperador estavam desaparecendo. Roma assombrava-se com a enormidade e quantidade de crimes que se repetiam diariamente. Nobres figuras do patriciado e do povo eram vítimas de atentados cruéis. Atmosfera de terror dominava todas as atividades políticas e, no cômputo dessas calamidades, os cristãos eram os mais rudemente castigados, em vista da atitude hostil de quantos se acomodavam com os velhos deuses e se regalavam com os prazeres de uma existência dissoluta e fácil. Os seguidores de Jesus eram acusados e responsabilizados por quaisquer dificuldades que sobrevinham. Se caía uma tempestade mais forte, devia-se o fenômeno aos adeptos da nova doutrina. Se o inverno era mais rigoroso, a acusação pesava sobre eles, porquanto ninguém como os discípulos do Crucificado haviam desprezado tanto os santuários da crença antiga, abominando os favores e os sacrifícios aos numes tutelares. A partir do reinado de Cláudio, espalhavam-se lendas torpes a respeito das práticas cristãs. A fantasia do povo, ávido das distribuições de trigo nas grandes festas do circo, imaginava situações inexistentes, gerando conceitos extravagantes e absurdos, com relação aos crentes do Evangelho. Por isso mesmo, desde o ano de 58, os cristãos pacíficos eram levados ao Circo como escravos revolucionários ou rebeldes, que deveriam desaparecer. A opressão agravava-se dia a dia. Os romanos mais ou menos ilustres, pelo nome ou pela situação financeira, que simpatizavam com a doutrina do Cristo, continuavam indenes de públicos vexames; mas os pobres, os operários, os filhos da plebe, eram levados ao martírio, às centenas. Assim, os amigos do Evangelho não prepararam nenhuma homenagem pública à chegada de Simão Pedro. Ao invés, procuraram dar ao fato um cunho todo íntimo, de maneira a não despertar represálias dos esbirros da situação.
Paulo de Tarso estendeu os braços ao velho amigo de Jerusalém, tomado de alegria. Simão trouxera a esposa e os filhos, além de João. Sua palavra generosa estava cheia de novidades para o Apóstolo do gentilismo. Em poucos minutos, ficou sabendo da morte de Tiago e das novas torturas infligidas pelo Sinédrio à igreja de Jerusalém. O velho pescador contava as últimas peripécias da sua sorte, bem-humorado. Comentava os testemunhos mais pesados com um sorriso nos lábios e intercalava toda a narrativa de louvores a Deus. Depois de reportar-se às lutas que empenhara em muitas e repetidas peregrinações, contava ao ex-rabino que se refugiara alguns dias em Éfeso, junto de João, sendo acompanhado pelo filho de Zebedeu até Corinto, onde resolveram demandar a capital do Império. Paulo, por sua vez, relatou as tarefas recebidas de Jesus, nos últimos anos, e era de ver-se o otimismo e a coragem desses homens que, inflamados do espírito messiânico e amoroso do Mestre, comentavam as desilusões e as dores do mundo como láureas da vida.
Depois das suaves alegrias do reencontro, o grupo se encaminhou discretamente para a casinha reservada a Simão Pedro e sua família.
O ex-pescador, sentindo a excelência da acolhida carinhosa, não encontrava palavras para traduzir os júbilos d’alma. Como Paulo quando chegou a Pouzzoles, tinha a impressão de estar num mundo diferente daquele em que vivera até então.
Com a sua chegada, recrudesceram os serviços apostólicos, mas o pregador do gentilismo não abandonou a ideia de ir à Espanha. Alegando que Pedro o substituiria com vantagem, deliberou embarcar no dia prefixado, num pequeno navio que se destinava à costa gaulesa. Não valeram amistosos protestos, nem mesmo a Insistência de Simão para que adiasse a viagem.
Acompanhado de Lucas, Timóteo e Demas, o velho advogado dos gentios partiu ao amanhecer de um dia lindo, cheio de projetos generosos.
A missão visitou parte das Gálias, dirigindo-se ao território espanhol, demorando-se mais na região de Tortosa. Em toda parte, a palavra e feitos do Apóstolo ganhavam novos corações para o Cristo, multiplicando os serviços do Evangelho e renovando as esperanças populares, à luz do Reino de Deus.
Em Roma, todavia, a situação prosseguia cada vez mais grave. Com a perversidade de Tigelino à frente da Prefeitura dos Pretorianos, acentuara-se o terror entre os discípulos de Jesus. Faltava somente um édito em que os cidadãos romanos, simpatizantes do Evangelho, fossem condenados publicamente, porque os libertos, os descendentes de outros povos e os filhos da plebe já enchiam as prisões.
Simão Pedro, como figura de relevo do movimento, não tinha descanso.
Não obstante a fadiga natural da senectude, procurava atender a todas as necessidades emergentes. Seu espírito poderoso sobrepunha-se a todas as vicissitudes e desempenhava os mínimos deveres com devotamento máximo à causa da Verdade. Assistia os doentes, pregava nas catacumbas, percorria longas distâncias, sempre animoso e satisfeito. Os cristãos do mundo inteiro jamais poderão esquecer aquela falange de abnegados que os precedeu nos primeiros testemunhos da fé, afrontando situações dolorosas e injustas, regando com sangue e lágrimas a sementeira do Cristo, abraçando-se mutuamente confortados nas horas mais negras da história do Evangelho, nos espetáculos hediondos do circo, nas preces de aflição que se elevavam dos cemitérios abandonados.
Tigelino, grande inimigo dos prosélitos do Nazareno, buscava agravar a situação por todos os meios ao alcance da sua autoridade odiosa e perversa.
O filho de Zebedeu preparava-se para regressar à Ásia, quando um grupo de esbirros dos perseguidores o colheu em pregação carinhosa e inspirada, na qual se despedia dos confrades de Roma, com exortações de tocante reconhecimento a Jesus. Apesar das atenciosas explicações, João foi preso e esbordoado impiedosamente. E, com ele, dezenas de irmãos foram trancafiados nos cárceres imundos do Esquilino.
Pedro recebeu a notícia dolorosamente surpreendido. Conhecia a extensão dos trabalhos que aguardavam na Ásia o companheiro generoso e rogou ao Senhor não o abandonasse, a fim de obter absolvição justa. Como proceder em tão difíceis circunstâncias? Recorreu às relações prestigiosas que a cidade lhe oferecia. Entretanto, seus afeiçoados eram igualmente pobres de influência política nos gabinetes administrativos da época. Os cristãos de posição financeira mais destacada não ousavam enfrentar a onda avassaladora, de perseguição e tirania. O antigo chefe da igreja de Jerusalém não desanimou.
Precisava libertar o amigo, concorrendo, para isso, com todo o potencial de energia, na esfera de suas possibilidades.
Compreendendo a timidez natural dos romanos simpatizantes do Cristo, buscou reunir apressadamente uma assembleia de amigos íntimos, para examinar o caso.
No meio dos debates alguém se lembrou de Paulo.
O Apóstolo dos gentios dispunha na capital do Império de grande número de afeiçoados eminentes. No caso da sua absolvição, a providência partira do círculo dileto de Popéia Sabina. Muitos militares colaboradores de Afrânius Búrrus eram seus admiradores. Acácio Domício, que dispunha de valiosos empenhos junto dos pretorianos, era seu amigo dedicado e incondicional.
Ninguém melhor que o ex-tecelão de Tarso poderia incumbir-se da delicada missão de salvar o prisioneiro. Não se ria razoável pedir sua ajuda?
Comentava-se o caráter urgente da medida, mesmo porque, numerosos cristãos morriam todos os dias na prisão do Esquilino, vítimas das queimaduras de azeite fervente. Tigelino e alguns comparsas da administração criminosa distraíam-se com os suplícios das vítimas. O azeite era lançado aos infelizes no poste do martírio. Outras vezes, os prisioneiros maniatados eram mergulhados em grandes barris de água em ebulição. O Prefeito dos Pretorianos exigia que os correligionários assistissem ao suplício, para escarmento geral. Os encarcerados acompanhavam as tristes operações, banhados em pranto silencioso. Verificada a morte da vítima, um soldado se encarregava de lançar as vísceras aos peixes famintos, nos tanques vastos das prisões odiosas. Dada a situação geral, apavorante, poder-se-ia contar com a intervenção de Paulo?
A Espanha ficava muito distante. Era possível que a sua vinda não aproveitasse ao caso pessoal de João. Pedro, porém, considerou a oportunidade do recurso e advertiu que seguiriam trabalhando a favor do filho de Zebedeu. Nada impedia, porém, de recorrer desde logo para o prestígio de Paulo, ainda porque a situação piorava de instante a instante. Aquele ano de 64 começara com terríveis perspectivas. Não se podia dispensar um homem enérgico e resoluto à frente dos interesses da causa.
Dado este parecer do venerando Apóstolo de Jerusalém, a assembleia concordou com a medida aventada. Um irmão que se tornara devotado cooperador de Paulo, em Roma, foi mandado à Espanha, com urgência. Esse emissário era Crescêncio, que saiu de Óstia, com enorme ansiedade, levando a missiva de Simão.
O Apóstolo dos gentios, depois de muito peregrinar, demorava-se em Tortosa, onde conseguira reunir grande número de colaboradores devotados a Jesus. Suas atividades apostólicas continuavam ativas, conquanto atenuadas, em virtude do cansaço físico. O movimento das epístolas diminuira, mas não se interrompera de todo. Atendendo à necessidade das igrejas do Oriente, Timóteo partira da Espanha para a Ásia, carregado de cartas e recomendações amigas.
Em torno do Apóstolo agrupara-se novo contingente de cooperadores diligentes e sinceros. Em todos os recantos, Paulo de Tarso ensinava o trabalho e a renúncia, a paz da consciência e o culto do bem.
Quando planejava novas viagens na companhia de Lucas, eis que surge em Tortosa o mensageiro de Simão.
O ex-rabino lê a carta e resolve regressar à cidade imperial, imediatamente.
Através das linhas afetuosas do velho antigo, entreviu a gravidade dos acontecimentos. Além disso, João necessitava voltar à Ásia. Não ignorava a influência benéfica que ele exercia em Jerusalém.
Em Éfeso, onde a igreja se compunha de elementos judaicos e gentios, o filho de Zebedeu fora sempre um vulto nobre e exemplar, indene de espírito sectarista. Paulo de Tarso passou em revista as necessidades do serviço evangélico entre as comunidades orientais, e concluiu pela urgência do regresso de João, deliberando intervir no assunto sem perda de tempo.
Como de outras vezes, nada valeram as considerações dos amigos, no tocante ao problema de sua saúde. O homem enérgico e decidido, apesar dos cabelos brancos, mantinha o mesmo ânimo resoluto, elevado e firme, que o caracterizara na mocidade distante.
Favorecido pela grande movimentação de barcos, nos princípios de maio de 64, não lhe foi difícil retornar ao porto de Óstia, junto dos companheiros.
Simão Pedro recebeu-o enternecido. Em poucas horas o convertido de Damasco conhecia a situação intolerável criada em Roma pela ação delituosa de Tigelino. João continuava encarcerado, apesar dos recursos levados aos tribunais, O antigo pescador de Cafarnaum, em significativas confidências, revelava ao companheiro que o coração lhe pressagiava novas dores e testemunhos cruciantes. Um sonho profético anunciava-lhe perseguições e provas ásperas. Numa das últimas noites, contemplara um quadro singular, em que uma cruz de proporções gigantescas parecia envolver com sua sombra toda a família dos discípulos do Senhor. Paulo de Tarso ouviu-o, com interesse, manifestando-se de inteiro acordo com os seus pressentimentos.
Apesar dos horizontes carregados, deliberaram uma ação conjunta para libertar o filho de Zebedeu.
Corria o mês de junho.
O ex-rabino desdobrou-se em atividades intensas, procurou Acácio Domício, solicitando a sua intervenção e valimento. Mais ainda: considerando que as providências morosas poderiam redundar num fracasso, auxiliado por amigos eminentes procurou avistar-se com numerosos áulicos da Corte Imperial, chegando à presença de Popéia Sabina, a fim de rogar seus bons ofícios, no caso do filho de Zebedeu. A célebre favorita ouviu-lhe a confidência com enorme surpresa. Aquelas revelações de uma vida eterna, aquela concepção da Divindade assustavam-na. Embora inimiga declarada dos cristãos, dada a simpatia que mantinha pelo judaísmo, Popéia impressionou-se com a figura ascética do Apóstolo e com os argumentos de reforço ao seu pedido. Sem ocultar sua admiração, prometeu atendê-lo, apontando desde logo as providências imediatas.
Paulo retirou-se esperançoso da absolvição do companheiro, porque Sabina prometera libertá-lo dentro de três dias.
Voltando à comunidade, deu ciência aos irmãos da entrevista que tivera com a favorita de Nero; mas, terminada a exposição, notou, algo surpreso, que alguns companheiros reprovavam a sua iniciativa. Pediu, então, que o esclarecessem e justificassem quaisquer dúvidas. Surgiram fracas considerações que ele acolheu com a sua inesgotável serenidade.
Alegava-se que não era louvável dirigir-se a uma cortesã dissoluta, para impetrar um favor. Semelhante proceder afigurava-se defeso a seguidores do Cristo. Popeia era mulher de vida notadamente dissoluta, banqueteava-se nas orgias do Palatino, caracterizava-se por sua luxúria escandalosa. Seria razoável pedir-lhe proteção para os discípulos de Jesus?
Paulo de Tarso aceitou as mofinas arguições com beatífica paciência e objetou, sensatamente:
— Respeito e acato a vossa opinião, mas, antes de tudo, considero necessário libertar João. Fosse eu o prisioneiro e não haveria de julgar o caso tão urgente e tão grave. Estou velho, alquebrado, e, portanto, melhor me fora, e mais útil quiçá, meditar na misericórdia de Jesus, através das grades do cárcere. Mas João está relativamente moço, é forte e dedicado; o Cristianismo da Ásia não pode dispensar-lhe a atividade construtiva, até que outros trabalhadores sejam chamados à semeadura divina. Com referência às vossas dúvidas, porém, cumpre-me aduzir um argumento que requer ponderação. Por que considerais imprópria uma solicitação a Popeia Sabina? Teríeis a mesma ideia, se me dirigisse a Tigelino ou ao próprio imperador? Não serão eles vítimas da mesma prostituição que estigmatiza as favoritas de sua Corte? Se combinasse com um militar embriagado, do Palatino, as providências imprescindíveis à libertação do companheiro, talvez aplaudísseis meu gesto, sem restrições.
Irmãos, é indispensável compreender que a derrocada moral da mulher, quase sempre, vem da prostituição do homem. Concordo em que Popeia não é a figura mais conveniente ao feito, em virtude das inquietações da sua vida; entretanto, é a providência que as circunstâncias indicaram e nós precisamos libertar o devotado discípulo do Senhor. Aliás, procurei valer-me de semelhantes recursos, recordando a exortação do Mestre, na qual recomenda ao homem granjear amigos com as riquezas da iniquidade. (Lucas. Capítulo 16, versículo 9. Nota de Emmanuel.)
Considero que quaisquer relações com o Palatino constituem expressões da fortuna iníqua, mas suponho útil mobilizar os que se conservam “mortos” no pecado para algum ato de caridade e de fé, pelo qual se desliguem dos laços com o passado delituoso, auxiliados pela intercessão de amigos fiéis.
A elucidação do Apóstolo espalhou grande calma em todo o recinto. Em poucas palavras, Paulo de Tarso fizera ver, aos companheiros, transcendentes conclusões de ordem espiritual.
A promessa não falhara. Em três dias o filho de Zebedeu era restituído à liberdade. João estava abatidíssimo. Os maus tratos, a contemplação dos quadros terríveis do cárcere, a expectação angustiosa, haviam-lhe mergulhado o espírito em perplexidades dolorosas.
Pedro regozijava-se, mas o ex-rabino, atento à tensão ambiente, sugeriu o regresso do Apóstolo Galileu à Ásia, sem perda de tempo. A igreja de Éfeso esperava-o. Jerusalém devia contar com a sua colaboração desinteressada e amiga. João não teve tempo para muitas considerações, porque Paulo, como que possuído de amargos pressentimentos, foi ao porto de Óstia para predispor o seu embarque, aproveitando um navio napolitano prestes a largar para Mileto. Colhido pelas providências e impossibilitado de resistir ao resoluto ex-rabino, o filho de Zebedeu embarcou em fins de junho de 64, enquanto os demais amigos permaneceriam em Roma para a boa batalha em prol do Evangelho.
Quanto mais sombrios os horizontes, mais coeso se tornava o grupo dos irmãos na fé, em Cristo Jesus. Multiplicavam-se as reuniões nos cemitérios distantes e abandonados. Naqueles dias de sofrimentos, as pregações pareciam mais belas.
Paulo de Tarso e os cooperadores desdobravam-se em edificações espirituais, quando a cidade foi sacudida, de súbito, por espantoso acontecimento. Na manhã de 16 de julho de 64 irrompeu violento incêndio nas proximidades do Grande Circo, abrangendo toda a região do bairro localizado entre o Célio e o Palatino. O fogo começara em vastos armazéns repletos de material inflamável e propagara-se com rapidez assombrosa. Debalde foram convocados os operários e homens do povo para atenuar-lhe a violência; em vão a turba numerosa e compacta movimentou recursos para aliviar a situação.
As labaredas subiam sempre, alastrando-se com furor, deixando montões de escombros e ruínas. Roma inteira acudia a ver o sinistro espetáculo, já empolgada pelas suas paixões ameaçadoras e terríveis. O fogo, com prodigiosa rapidez, deu volta ao Palatino e invadiu o Velabro. O primeiro dia findava-se com angustiosas perspectivas. O firmamento cobria-se de fumo espesso, iluminando-se grande parte das colinas com o clarão odioso do incêndio terrível. As elegantes construções do Aventino e do Célio pareciam árvores secas de floresta em chamas. Acentuara-se a desolação das vítimas da enorme catástrofe. Tudo ardia nas adjacências do Fórum. Começou o êxodo com infinitas dificuldades. As portas da cidade congestionavam-se de pessoas tomadas de profundo terror. Animais espavoridos corriam ao longo das vias públicas, como acossados por perseguidores invisíveis. Prédios antigos, de sólida construção, ruíam com sinistro estrondo. Todos os habitantes de Roma desejavam distanciar-se da zona comburente.
Ninguém mais se atrevia a atacar a fogueira indômita. O segundo dia apresentou-se com o mesmo espetáculo inesquecível. Os populares desistiram de salvar alguma coisa; contentavam-se em poder enterrar os mortos sem conta, encontrados nos locais de possível acesso. Dezenas de pessoas percorriam as ruas em gargalhadas de horrível acento; a loucura generalizava-se entre as criaturas mais impressionáveis. Macas improvisadas conduziam feridos sem destino certo. Longas procissões invadiam os santuários para salvar as suntuosas imagens dos deuses. Milhares de mulheres acompanhavam a figura impassível dos numes tutelares, em dolorosas súplicas, fazendo votos de penosos sacrifícios, em vozes estentóricas. Homens piedosos apanhavam, no remoinho das multidões estonteadas, as crianças massacradas ou apenas feridas. Toda a zona de acesso a Via Ápia, em direção de Alba Longa, estava entupida de retirantes apressados e desiludidos.
Centenas de mães gritavam pelos filhinhos desaparecidos e, não raro, tomavam-se providências, à pressa, para socorrer as que enlouqueciam. A população em peso desejava abandonar a cidade, ao mesmo tempo. A situação tornara-se perigosa. A turba amotinada atacava as liteiras dos patrícios. Somente os cavaleiros desassombrados conseguiam romper a mole humana, provocando novas blasfêmias e lamentações.
O fogo já havia devorado, quase totalmente, os palacetes nobres e preciosos das Carinas e continuava destroçando os bairros romanos, entre os vales e as colinas, onde a população era muito densa. Durante uma semana, dia e noite, lavrou o fogo destruidor, espalhando desolações e ruínas. Das catorze circunscrições em que se dividia a metrópole imperial, apenas quatro ficaram incólumes. Três eram um aluvião de escombros fumegantes e as outras sete conservavam tão só alguns vestígios dos edifícios mais preciosos.
O imperador estava em Áncio (Antium), quando irrompeu a fogueira por ele mesmo idealizada, pois a verdade é que, desejoso de edificar uma cidade nova com os imensos recursos financeiros que chegavam das províncias tributárias, projetara o incêndio famoso, assim vencendo a oposição do povo, que não desejava a transferência dos santuários.
Além dessa medida de ordem urbanística, o filho de Agripina caracterizava-se, em tudo, pela sua originalidade satânica. Presumindo-se genial artista, não passava de monstruoso histrião, assinalando a sua passagem pela vida pública com crimes indeléveis e odiosos. Não seria interessante apresentar ao mundo uma Roma em chamas? Nenhum espetáculo, a seus olhos, seria inesquecível como esse. Depois das cinzas mortas, reedificaria os bairros destruídos. Seria generoso para com as vítimas da imensa catástrofe. Passaria à história do Império como administrador magnânimo e amigo dos súditos sofredores.
Alimentando tais propósitos, combinou o atentado com os áulicos de sua maior confiança e intimidade, ausentando-se da cidade para não despertar suspeitas no espírito dos políticos mais honestos.
Entretanto, não pudera prever, ele próprio, a extensão da espantosa calamidade. O incêndio tomara proporções indesejáveis. Seus conselheiros menos dignos não puderam pressentir a amplitude do desastre. Arrancado, à pressa, dos seus prazeres criminosos, o imperador chegou a tempo de observar o último dia de fogo, verificando o caráter da medida odiosa.
Dirigindo-se a um dos pontos mais elevados, contemplou o montão de ruínas e sentiu a gravidade da situação. O extermínio da propriedade particular atingira proporções quase infinitas. Não se puderam prever tão dolorosas consequências.
Reconhecendo a irritação justa do povo, Nero procurou falar, em público, esboçando algumas lágrimas na sua profunda capacidade de dissimulação.
Prometeu auxiliar a restauração das casas particulares, declarou que compartilhava do sofrimento geral e que Roma se levantaria novamente sobre os escombros fumegantes, mais imponente e mais bela. Imensa multidão ouvia-lhe a palavra, atenta aos seus mínimos gestos. O imperador na sua mímica teatral assumia atitudes comovedoras. Referia-se aos santuários perdidos, debulhado em pranto. Invocava a proteção dos deuses, a cada frase de maior efeito. A turba sensibilizara-se. Jamais o César se mostrara tão paternalmente comovido. Não seria razoável duvidar das suas promessas e observações.
Em dado instante, a sua palavra vibrou mais patética e expressiva.
Comprometia-se, solenemente, com o povo, a punir inexoravelmente os responsáveis. Procuraria os incendiários, vingaria a desgraça romana sem piedade. Rogava, mesmo, a todos os habitantes da cidade cooperassem com ele, procurando e denunciando os culpados.
Nesse ínterim, quando o verbo imperial se tornara mais significativo, notou-se que a massa popular se agitava estranhamente. Maioria esmagadora irmanava-se, agora, num grito terrível:
—Cristãos às feras! Às feras!
O filho de Agripina encontrara a solução que procurava. Ele que procurava, em vão, no espírito superexcitado, as novas vítimas das suas maquinações execrandas, às quais pudesse atribuir a culpa dos sucessos lamentáveis, viu no brado ameaçador da turba uma resposta às próprias cogitações sinistras.
Nero conhecia o ódio que o vulgo votava aos seguidores humildes do Nazareno. Os discípulos do Evangelho mantinham-se alheios e superiores aos costumes dissolutos e brutais da época. Não frequentavam os circos, afastavam-se dos templos pagãos, não se prosternavam diante dos ídolos nem aplaudiam as tradições políticas do Império. Além disso, pregavam ensinamentos estranhos e pareciam aguardar um novo reino. O grande histrião do Palatino sentiu uma onda de alegria invadir-lhe os olhos míopes e congestos. A escolha do povo romano não poderia ser melhor. Os cristãos deviam ser mesmo os criminosos. Sobre eles deveria cair o gládio vingador.
Trocou um olhar inteligente com Tigelino, como a exprimir que haviam apanhado, ao acaso, a solução imprevista e logo afirmou à massa enfurecida que tomaria providências imediatas para reprimir os abusos e castigar os culpados da catástrofe; finalmente, que o incêndio seria considerado crime de lesa-majestade e sacrilégio, para que os castigos também fossem excepcionais.
O povo aplaudia freneticamente, antegozando as sensações do circo, com esgares de feras e cânticos de martírio.
A nefanda acusação pesou sobre os discípulos de Jesus, como fardo hediondo.
As primeiras prisões realizaram-se como flagelo maldito. Numerosas famílias refugiaram-se nos cemitérios e nos arredores da cidade meio destruída, receosas dos algozes implacáveis. Praticava-se toda a espécie de abusos. Jovens indefesas eram entregues, nos cárceres, ao instinto feroz de soldados sem entranhas. Anciães respeitáveis conduzidos à enxovia, sob algemas e pancadas. Os filhos arrancados do colo maternal, entre lágrimas e apelos comovedores. Tempestade sinistra caíra sobre os seguidores do Crucificado, que se submetiam a punições injustas, de olhos postos no céu.
De nada valeram, para Nero, as ponderações dos patrícios ilustres, que ainda cultivavam as tradições de prudência e honestidade. Quantos se aproximavam da autoridade imperial, com a valiosa contribuição de alvitres justos, eram declarados suspeitos, agravando a situação.
O filho de Agripina e seus áulicos imediatos deliberaram que se oferecesse ao povo o primeiro espetáculo no princípio de agosto de 64, como positiva demonstração das providências oficiais, contra os supostos autores do nefando atentado. As demais vítimas, isto é, todos os prisioneiros que chegassem ao cárcere, depois da festa inicial, serviriam de ornamento aos futuros regozijos, à medida que a cidade pudesse recompor-se com as novas construções em perspectiva. Para isso, determinara-se a reedificação imediata do Grande Circo. Antes de atender às próprias necessidades da Corte, o imperador desejava as simpatias do povo ignorante e sofredor, alimentando o que pudesse satisfazer seus estranhos caprichos.
A primeira carnificina, destinada a distrair o ânimo popular, foi levada a efeito em jardins imensos, na parte que permanecera imune da destruição, por entre orgias indecorosas, de que participaram a plebe e a grande fração do patriciado que se entregara à dissolução e ao desregramento. A festividade prolongou-se por noites sucessivas, sob a claridade de esplêndida iluminação e o ritmo harmonioso de numerosas orquestras, que inundavam o ar de melodias enternecedoras. Nos lagos artificiais deslizavam barcos graciosos, artisticamente iluminados. No seio da paisagem, favorecida pelas sombras da noite, que as tochas poderosas não conseguiam afastar de todo, repastava-se a devassidão em jogo franco. Ao Lado das expressões festivas, enfileiravam-se as do martírio dos pobres condenados. Os cristãos eram entregues ao povo para o castigo que ele julgasse mais justo. Para isso, com intervalos regulares, os jardins estavam cheios de cruzes, de postes, de açoites e numerosos instrumentos outros de flagelação. Havia guardas imperiais para auxiliarem as atividades punitivas. Em fogueiras preparadas, encontravam-se água e azeite fervente, bem como pontas de ferro em brasa, para os que desejassem aplicá-las.
Os gemidos e soluços dos desgraçados casavam-se ironicamente com as notas harmoniosas dos alaúdes. Uns expiravam entre lágrimas e preces, aos apupos do povo; outros, entregavam-se estoicamente ao martírio, contemplando o céu alto e estrelado.
A linguagem mais forte será pobre para traduzir as dores imensas da grei cristã, naqueles dias angustiosos. Não obstante os tormentos inenarráveis, os seguidores fiéis de Jesus revelaram o poder da fé àquela sociedade perversa e decadente, afrontando as torturas que lhes cabiam. Interrogados nos tribunais, em momento tão trágico, declaravam abertamente sua confiança em Cristo Jesus, aceitando os sofrimentos com humildade, por amor ao seu nome.
Aquele heroísmo parecia acirrar, ainda mais, os ânimos da multidão animalizada.
Inventavam-se novos gêneros de suplício. A perversidade apresentava, diariamente, números novos em sua venenosa facúndia. Mas os cristãos pareciam possuídos de energias diferentes das conhecidas nos campos de batalhas sanguinolentas. A paciência invencível, a fé poderosa, a capacidade moral de resistência, assombravam os mais afoitos. Não foram poucos os que se entregaram ao sacrifício, cantando. Muita vez, diante de tanta coragem, os verdugos improvisados temeram o misterioso poder triunfante da morte.
Terminada a chacina de agosto, com grande entusiasmo popular, continuou a perseguição sem tréguas, para que não faltasse o contingente de vítimas nos espetáculos periódicos, oferecidos ao povo em regozijo pela reconstrução da cidade.
Diante das torturas e da carnificina, o coração de Paulo de Tarso sangrava de dor. A tormenta operava confusão em todos os setores. Os cristãos do Oriente, em sua maioria, trabalhavam por desertar do campo da luta, forçados por circunstâncias imperiosas da vida particular. O velho Apóstolo, entretanto, unindo-se a Pedro, reprovava essa atitude. À exceção de Lucas, todos os cooperadores diretos, conhecidos desde a Ásia, haviam regressado. O ex-tecelão, todavia, fazendo causa comum com os desamparados, fez questão de assisti-los no transe inaudito. As igrejas domésticas estavam silenciosas. Fechados os grandes salões alugados na Suburra para as pregações da doutrina.
Restava aos seguidores do Mestre apenas um meio de se entreverem e se reconfortarem na prece e nas lágrimas comuns: eram as reuniões nas catacumbas abandonadas. E a verdade é que não poupavam sacrifícios para acorrer a esses lugares tristes e ermos. Era nesses cemitérios esquecidos que encontravam o conforto fraternal, para o momento trágico que os visitava. Ali oravam, comentavam as luminosas lições do Mestre e hauriam novas forças para os testemunhos impendentes.
Amparando-se em Lucas, Paulo de Tarso enfrentava o frio da noite, as sombras espessas, os caminhos ásperos. Enquanto Simão Pedro cogitava de atender a outros setores, o ex-rabino encaminhava-se aos antigos sepulcros, levando aos irmãos aflitos a inspiração do Mestre Divino, que lhe borbulhava na alma ardente. Muitas vezes as pregações se realizavam alta madrugada, quando soberano silêncio dominava a Natureza. Centenas de discípulos escutavam a palavra luminosa do velho Apóstolo dos gentios, experimentando o poderoso influxo da sua fé. Nesses recintos sagrados, o convertido de Damasco associava-se aos cânticos que se misturavam de prantos dolorosos.
O espírito santificado de Jesus, nesses momentos, parecia pairar na fronte daqueles mártires anônimos, infundindo-lhes esperanças divinas.
Dois meses haviam decorrido, após a festa hedionda, e o movimento das prisões aumentava dia a dia. Esperavam-se grandes comemorações. Alguns edifícios nobres do Palatino, reconstruídos em linhas sóbrias e elegantes, reclamavam homenagens dos poderes públicos. As obras de reedificação do Grande Circo estavam adiantadíssimas. Era imprescindível programar festejos condignos. Para esse fim, os cárceres estavam repletos.
Não faltariam figurantes para as cenas trágicas. Projetavam-se naumaquias (espetáculo romano) pitorescas, bem como caçadas humanas no circo, em cuja arena seriam igualmente representadas peças famosas de sabor mitológico.
Os cristãos oravam, sofriam, esperavam.
Certa noite, Paulo dirigia aos irmãos a palavra afetuosa, no comentário do Evangelho de Jesus. Seus conceitos pareciam, mais que nunca, divinamente inspirados. As brisas da madrugada penetravam a caverna mortuária, que se iluminava de algumas tochas bruxuleantes. O recinto estava repleto de mulheres e crianças, ao lado de muitos homens embuçados.
Depois da pregação comovedora, ouvida por todos, com os olhos molhados de lágrimas, o ex-tecelão de Tarso perolava solícito:
— Sim, irmãos, Deus é mais belo nos dias trágicos. Quando as sombras ameaçam o caminho, a luz é mais preciosa e mais pura. Nestes dias de sofrimento e morte, quando a mentira destronou a verdade e a virtude foi substituída pelo crime, lembremos Jesus no madeiro infamante. A cruz tem, para nós outros, uma divina mensagem. Não desdenhemos o testemunho sagrado, quando o Mestre, não obstante imáculo, só alcançou neste mundo batalhas silenciosas e sofrimentos indefiníveis. Fortaleçamo-nos na ideia de que seu reino ainda não é deste mundo. Alcemos o espírito à esfera do seu amor imortal. A cidade dos cristãos não está na Terra; ela não poderia ser a Jerusalém que crucificou o Enviado Divino, nem a Roma que se compraz em derramar o sangue dos mártires. Neste mundo, estamos em uma frente de combate incruento, trabalhando pelo triunfo eterno da paz do Senhor. Não esperemos, portanto, repousar no lugar do trabalho e dos testemunhos vivos.
Da cidade indestrutível da nossa fé, Jesus nos contempla e balsamiza o coração. Caminhemos ao seu encontro, através dos suplícios e das perplexidades dolorosas. Ele ascendeu ao Pai, do cimo do Calvário; nós lhe seguiremos as pegadas, aceitando com humildade os sofrimentos que, por seu amor, nos forem reservados…
O auditório parecia extático, ouvindo as palavras proféticas do Apóstolo.
Entre as lajes frias e impassíveis, os irmãos na fé sentiam-se mais unidos entre si. Em todos os olhares cintilava a certeza da vitória espiritual. Naquelas expressões de dor e de esperança havia o tácito compromisso de seguir o Crucificado até ao seu Reino de Luz.
O orador fizera uma pausa, sentindo-se dominado por estranhas comoções.
Nesse instante inesquecível, um magote de guardas rompeu afoito no recinto. O centurião Volúmnio, à testa da patrulha armada, fazia intimações em alta voz, enquanto os crentes pacíficos estarreciam surpresos.
— Em nome de César! Bradava o preposto imperial, exultando de contentamento. E ordenando aos soldados que fechassem o círculo em torno dos cristãos indefesos, continuava gritando de modo espetacular. E que ninguém fuja! Quem o tentar, morre como um cão!
Apoiando-se a forte cajado, pois, nessa noite não tivera a companhia de Lucas, Paulo, ereto, evidenciando sua energia moral, exclamou firmemente:
— E quem vos disse que fugiríamos? Ignorais, porventura, que os cristãos conhecem o Mestre a quem servem? Sois emissários de um príncipe do mundo, que estes sepulcros esperam; mas nós somos trabalhadores do Salvador magnânimo e imortal!…
Volúmnio fitou-o surpreso. Quem seria aquele velho, cheio de energia e combatividade?
Apesar da admiração que lhe inspirava, o centurião manifestou seu desagrado num sorriso de ironia. Medindo o ex-rabino de alto a baixo, com olhar de profundo desprezo, acrescentou:
— Atentem bem no que aqui dizem e fazem…
E depois de uma gargalhada, dirigiu-se a Paulo com insolência:
— Como ousas afrontar a autoridade de Augusto? Devem existir, de fato, diferenças singulares entre o imperador e o crucificado de Jerusalém. Não sei onde estaria seu poder de salvação para deixar suas vítimas ao abandono, no fundo dos cárceres ou nos postes do martírio…
Essas palavras eram pontilhadas de mordaz ironia, mas o Apóstolo respondeu com a mesma nobreza de Convicção:
— Enganai-vos, centurião! As diferenças são apreciáveis!… É que vós obedeceis a um infeliz e odiento perseguidor e nós trabalhamos por um salvador que ama e perdoa. Os administradores romanos, impensadamente, poderão inventar crueldades; mas Jesus nunca cessará de nutrir a fonte das bênçãos!..
A resposta produzira grande sensação no auditório. Os cristãos pareciam mais calmos e confiantes, os soldados não ocultavam a enorme impressão que os dominava. O centurião, embora reconhecendo o desassombro daquele espírito varonil, não queria parecer fraco aos olhos dos subalternos e exclamou irritado:
— Vamos, Lucílio: três bastonadas neste velho atrevido.
O nomeado avançou para o Apóstolo, impassível. Ante a admiração silenciosa dos presentes, o bastão zuniu no ar, bateu em cheio no rosto do Apóstolo que, nem por isso, se alterou. As três pancadas foram rápidas; no entanto, um filete de sangue lhe escorria da face dilacerada.
O ex-rabino, a quem haviam tomado o cajado de apoio, mantinha-se de pé com certa dificuldade, mas sem trair o bom ânimo que lhe caracterizava a alma enérgica. Fixou os verdugos com firmeza e sentenciou:
— Não podeis ferir senão o corpo. Podereis amarrar-me de pés e mãos; quebrar-me a cabeça, mas as minhas convicções são intangíveis, inacessíveis aos vossos processos de perseguição.
Diante de tanta serenidade, Volúmnio quase recuou aterrado. Não podia compreender aquela energia moral que se lhe deparava aos olhos cheios de espanto. Começava a acreditar que os cristãos, desprotegidos e anônimos, retinham um poder que a sua inteligência não lograva atingir. Impressionando-se com semelhante resistência organizou, à pressa, as filas dos pobres perseguidos, que, humildes, obedeciam sem vacilar. O velho Apóstolo tarsense tomou lugar entre os prisioneiros sem trair o mínimo gesto de enfado ou rebeldia.
Observando atentamente a conduta dos guardas, exclamou, quando se deslocava o bloco de vítimas e verdugos, ao primeiro contacto com o relento frio da madrugada:
— Exigimos o máximo respeito para com as mulheres e crianças!… Ninguém ousou responder à observação, articulada em tom grave de advertência. O próprio Volúmnio parecia obedecer inconscientemente às admoestações daquele homem de fé poderosa e invencível.
O grupo marchou em silêncio, atravessando as estradas desertas, chegando à Prisão Mamertina quando listravam o horizonte os primeiros clarões da aurora.
Atirados, previamente, num pátio escuro, até serem alojados individualmente nas divisões gradeadas e infectas, os discípulos do Senhor aproveitaram esses rápidos momentos para conforto mútuo, para trocarem ideias e conselhos edificantes.
Paulo de Tarso, todavia, não descansou. Solicitou audiência ao administrador da prisão, prerrogativa conferida ao seu título de cidadania romana, sendo prestes atendido. Expôs sua doutrina sem rebuços e, impressionando a autoridade com seu verbo fluente e sedutor, encareceu as providências atinentes ao seu caso, pedindo a presença de vários amigos como Acácio Domício e outros, para deporem no concernente à sua conduta e antecedentes honestos. O administrador vacilava na resolução a tomar. Tinha ordens terminantes de recolher ao cárcere todos os componentes de assembleias que se filiassem à crença perseguida e execrada. No entanto, as determinações de ordem superior continham certas restrições, no sentido de preservar, de algum modo, os “humiliores” aos quais a Corte oferecia recursos de liberdade, caso prestassem juramento a Júpiter, abjurando o Cristo Jesus. (Humiliores eram as pessoas de condição humilde sem qualquer título de dignidade social. Nota de Emmanuel).
Examinando os títulos de Paulo e conhecendo, através de seus informes verbais, as prestigiosas relações de que podia dispor nos círculos romanos, o chefe da Prisão Mamertina resolveu consultar Acácio Domício, sobre as providências cabíveis no caso.
Chamado ao estudo da questão, o amigo do Apóstolo compareceu solícito, procurando falar com o prisioneiro, depois de longa entrevista com o diretor da prisão.
Domício explicou ao benfeitor que a situação era muito grave; que o Prefeito dos Pretorianos estava investido de plenos poderes para dirigir a campanha como melhor entendesse; que toda a prudência era indispensável e que, como último recurso, só restava um apelo à magnanimidade do imperador, perante o qual o Apóstolo devia comparecer para defender-se pessoalmente, caso fosse deferida a petição apresentada a César naquele mesmo dia.
Ouvindo essas ponderações, o ex-rabino recordou que uma noite, em meio à tempestade, entre a Grécia e a Ilha de Malta, ouvira a voz profética de um mensageiro de Jesus, que lhe anunciava o comparecimento perante César, sem esclarecer os motivos do evento. Não seria aquele o momento previsto?
Milhares de irmãos estavam presos ou em extrema desolação.
Acusados de incendiários, não haviam encontrado uma voz firme e resoluta que lhes advogasse a causa com o preciso desassombro. Percebia em Acácio a preocupação pela sua liberdade, mas, por trás das insinuações delicadas, havia um convite discreto para que ocultasse a sua fé perante o imperador, na hipótese de ser admitido à real entrevista.
Compreendia os receios do amigo, mas, intimamente, desejava alcançar a audiência de Nero, a fim de esclarecê-lo quanto aos sublimes princípios do Cristianismo. Constituir-se-ia advogado dos irmãos perseguidos e desditosos.
Afrontaria de face a tirania ovante (triunfante), clamaria pela retificação do seu ato injusto.
Se fosse novamente preso, voltaria ao cárcere com a consciência edificada no cumprimento de um sagrado dever.
Depois de rápida meditação sobre a conveniência do recurso que lhe parecia providencial, insistiu com Domício para que o patrocinasse com os empenhos ao seu alcance.
O amigo do Apóstolo multiplicou atividades pessoais para alcançar os fins em vista.
Valendo-se do prestígio de todos os que viviam em condições de subalternidade junto do imperador, conseguiu a desejada audiência para que Paulo de Tarso se defendesse, como convinha, no apelo direto à autoridade de Augusto.
No dia aprazado, foi conduzido entre guardas, à presença de Nero, que o recebeu curioso num vasto salão onde costumava reunir os favoritos ociosos da sua Corte criminosa e excêntrica. Interessava-lhe a personalidade do ex-rabino. Queria conhecer o homem que mobilizara grande número de seus íntimos para apoiar-lhe o recurso. A presença do Apóstolo dos gentios causou-lhe enorme decepção. Que valor poderia ter aquele velho insignificante e franzino? Ao lado de Tigelino e de outros conselheiros perversos, fixou ironicamente a figura de Paulo. Era incrível tamanho interesse em torno de uma criatura tão vulgar. Quando se dispunha a recambiá-lo à prisão sem lhe ouvir o apelo, um dos áulicos lembrou que seria conveniente facultar-lhe a palavra, para que se lhe aferisse a indigência mental. Nero, que jamais perdia ocasião de ostentar suas presunções artísticas, considerou o alvitre bem-apresentado e ordenou ao prisioneiro que falasse à vontade.
Ladeado por dois guardas, o inspirado pregador do Evangelho levantou a fronte cheia de nobreza, fitou César e os companheiros do seu séquito leviano e começou resoluto:
— Imperador dos romanos, compreendo a grandeza desta hora em que vos falo, apelando para os vossos sentimentos de generosidade e justiça. Não me dirijo, aqui, a um homem falível, a uma personalidade humana, simplesmente, mas ao administrador que deve ser consciencioso e justo, ao maior dos príncipes do mundo e que, antes de tomar o cetro e a coroa de um Império imenso, deve considerar-se o pai magnânimo de milhões de criaturas!
As palavras do velho Apóstolo ecoavam no recinto com o caráter de uma profunda revelação. O imperador fixava-o, admirado e enternecido. Seu temperamento caprichoso era sensível às referências pessoais, onde predominassem as imagens brilhantes. Percebendo que se impunha ao reduzido auditório, o convertido de Damasco prosseguiu mais corajoso:
— Confiando em vossa longanimidade, pleiteei esta hora inesquecível, a fim de apelar para o vosso coração, não somente por mim, mas por milhares de homens, mulheres e crianças, que padecem nos cárceres ou sucumbem nos circos do martírio. Falo, aqui, em nome dessa multidão incontável de sofredores, perseguida com requintes de crueldade por favoritos de vossa Corte, que deveria ser constituída de homens íntegros e humanitários.
Acaso não chegarão aos vossos ouvidos os lamentos angustiosos da viuvez, da velhice e da orfandade? Oh! Augusto imperante do trono de Cláudio, sabei que uma onda de perversidade e de crimes odiosos varre os bairros da cidade imperial, arrancando soluços dolorosos aos vossos tutelados miserandos! Ao lado da vossa atividade governamental, por certo, rastejam víboras venenosas que é necessário extirpar, a bem da tranquilidade e do trabalho honesto do vosso povo. Esses cooperadores perversos desviam vossos esforços do caminho reto, espalham terror entre as classes desfavorecidas da sorte, ameaçam os mais infelizes! São eles os acusadores dos prosélitos de uma doutrina de amor e redenção. Não acrediteis no embuste dos seus conselhos que ressumam crueldade. Ninguém trabalhou, talvez, quanto os cristãos, no socorro às vítimas do incêndio voraginoso. Enquanto os patrícios ilustres fugiam de Roma desolada, enquanto os mais tímidos se recolhiam aos lugares mais abrigados de perigo, os discípulos de Jesus percorriam os quarteirões em chamas, aliviando as vítimas infortunadas.
Alguns imolaram a vida ao altruísmo dignificador.
E por fim, vede, os trabalhadores sinceros do Cristo foram recompensados com a pecha de autores do crime hediondo, de caluniadores sem entranhas.
Acaso não vos doeu a consciência ao endossardes tão infames alegações, à revelia de uma sindicância imparcial e rigorosa? No esfervilhar das calúnias, não vi surgir uma voz que vos esclarecesse. Admito que participais, certamente, de tão trágicas ilusões, porque não creio no desvirtuamento da vossa autoridade reservada às melhores resoluções em favor do Império. É por isso – imperador dos romanos! – que, reconhecendo o grandioso poder enfeixado em vossas mãos, ouso levantar minha voz para esclarecer-vos.
Atentai para a extensão gloriosa de vossos deveres. Não vos entregueis à sanha de políticos inconscientes e cruéis. Lembrai-vos de que, numa vida mais elevada que esta, ser-vos-ão pedidas contas de vossa conduta nos atos públicos. Não alimenteis a pretensão de que vosso cetro seja eterno. Sois mandatário de um Senhor poderoso, que reside nos Céus. Para vos convencerdes da singularidade de semelhante situação, volvei um olhar, apenas, ao passado brumoso. Onde os vossos antecessores? Em vossos palácios faustosos perambularam guerreiros triunfantes, reis improvisados, herdeiros vaidosos de suas tradições. Onde estão eles? A História nos conta que chegaram ao trono com os aplausos delirantes das multidões. Vinham soberbos, ostentando magnificências nos carros do triunfo, decretando a morte dos inimigos, adornando-se com os despojos sangrentos das vítimas.
Entretanto, bastou um sopro para que resvalassem do esplendor do trono para a escuridão do sepulcro. Uns partiram pelas consequências fatais dos próprios excessos destruidores; outros assassinados pelos filhos da revolta e do desespero. Recordando semelhante situação, não desejo transformar o culto da vida em culto da morte, mas demonstrar que a fortuna suprema do homem é a paz da consciência pelo dever cumprido.
Por todas essas razões, apelo para a vossa magnanimidade, não só por mim como por todos os correligionários que gemem à sombra dos cárceres, esperando o gládio da morte.
Observando-se longa pausa no verbo eloquente do orador, podia ver-se a estranha sensação que a sua palavra havia causado. Nero estava lívido.
Tigelino, profundamente irritado, procurava um recurso para insinuar-se com alguma observação menos digna, a respeito do postulante. As raras cortesãs presentes não disfarçavam a indizível comoção que lhes abalara o sistema nervoso. Os amigos do Prefeito dos Pretorianos mostravam-se indignados, rubros de cólera. Depois de ouvir um áulico, o imperador ordenou que o apelante se conservasse em silêncio, até que tomasse as primeiras deliberações.
Estavam todos surpreendidos. Não se podia esperar de um velho franzino e doente tamanho poder de persuasão, um desassombro que raiava pela loucura, segundo as noções do patriciado. Por muito menos, velhos e probos conselheiros da Corte haviam alcançado o exílio ou a sentença de morte.
O filho de Agripina parecia abalado. Não mais assentava no olho a impertinente esmeralda, à guisa de monóculo. Tinha a impressão de haver escutado sinistros vaticínios.
Entregava-se, automaticamente, aos seus gestos característicos, quando impressionado e nervoso. As advertências do Apóstolo penetravam-lhe o coração, suas palavras pareciam ecoar-lhe nos ouvidos para sempre. Tigelino percebeu a delicadeza da situação e aproximou-se.
— Divino, exclamou o Prefeito dos Pretorianos em atitude servil, a voz quase imperceptível, se quiserdes, o atrevido poderá morrer aqui mesmo, ainda hoje!
— Não, não, redarguiu Nero comovido, este homem é dos mais perigosos que tenho encontrado. Ninguém, como ele, ousou comentar a presente situação nestes termos.
Vejo, por detrás da sua palavra, muitos vultos talvez eminentes, que, conjugando valores, poderiam fazer-me grande mal.
— Concordo, disse o outro hesitante, em voz muito baixa.
— Assim, pois, continuou o imperador prudentemente, é preciso parecer magnânimo e sagaz. Dar-lhe-ei o perdão, por agora, recomendando que não se afaste da cidade, até que se esclareça de todo a situação dos seguidores do Cristianismo…
Tigelino escutava com um sorriso ansioso, enquanto o filho de Agripina rematava em voz sumida:
— Mas vigiarás seus menores passos, mantê-lo-ás em custódia oculta, e quando vier a festividade da reconstrução do Grande Circo, aproveitaremos a oportunidade para despachá-lo a lugar distante, onde deverá desaparecer para sempre.
O odioso Prefeito sorriu e acentuou:
— Ninguém resolveria melhor o intrincado problema.
Terminada a breve conversação, imperceptível aos demais, Nero declarou, com enorme surpresa dos palacianos, conceder ao apelante a liberdade que pleiteava em sua primeira defesa, mas reservava o ato de absolvição para quando se apurasse definitivamente a responsabilidade dos cristãos. Destarte, o defensor do Cristianismo poderia permanecer em Roma, à vontade, submetendo-se, contudo, ao compromisso de não se ausentar da sede do Império, até que seu caso pessoal fosse bastantemente esclarecido, O Prefeito dos Pretorianos lavrou a sentença em pergaminho. Paulo de Tarso, por sua vez, estava confortado e radiante.
O caviloso monarca pareceu-lhe menos mau, digno de amizade e reconhecimento. Sentia-se possuído de grande alegria, por isso que os resultados da sua primeira defesa eram de molde a proporcionar nova esperança aos seus irmãos na fé.
Paulo retornou ao cárcere, ficando o administrador notificado das últimas disposições a seu respeito. Só então lhe deram liberdade.
Assaz esperançado, procurou os amigos; mas, por toda parte, só encontrava desoladoras notícias. A maioria dos colaboradores mais íntimos e prestimosos havia desaparecido, presos ou mortos. Muitos haviam debandado temerosos do extremo sacrifício. Por fim, sempre teve a satisfação de reencontrar Lucas. O piedoso médico informou-o dos acontecimentos dolorosos e trágicos que se repetiam, diariamente. Ignorando que um guarda o seguia de longe, para lhe situar a nova residência, Paulo, acompanhado do amigo, atingiu uma casa pobre nas proximidades da Porta Capena.
Necessitando repousar e fortalecer o corpo debilitado, o velho pregador procurou dois generosos irmãos, que o receberam com imensa alegria. Trata-se de Lino e Cláudia, dedicados servidores de Jesus.
O Apóstolo dos gentios instalou-se no lar pobre, com a obrigação de comparecer à Prisão Mamertina, de três em três dias, até que se aclarasse a situação, de modo definitivo.
Não obstante o consolo de que se sentia possuído, o venerável amigo do gentilismo experimentava singulares presságios. Surpreendia-se a refletir no coroamento da carreira apostólica como se nada mais lhe restasse senão morrer por Jesus. Combatia tais pensamentos, no propósito de continuar propugnando pela difusão dos ensinamentos evangélicos. Não mais pôde encaminhar-se à pregação das catacumbas, dada a prostração física, mas, valia-se da colaboração afetuosa e dedicada de Lucas para as epístolas que julgava necessárias. Nessas, inclui-se a derradeira carta que escreveu a Timóteo, aproveitando dois amigos que partiam para a Ásia. Paulo escreve esse último documento ao discípulo muito amado, tomando-se de singulares emoções que lhe enchem os olhos de lágrimas abundantes. Sua alma generosa deseja confiar ao filho de Eunice as últimas disposições, mas luta consigo mesmo, de modo a não se dar por vencido.
O ex-rabino, ao traçar conceitos afetuosos, sente-se qual discípulo chamado a esferas mais altas, sem poder furtar-se à condição de homem que não deseja capitular na luta. Ao mesmo tempo em que confia a Timóteo a convicção de haver terminado a carreira, pede-lhe que envie a ampla capa de couro deixada em Trôade, em casa de Carpo, visto necessitar de agasalho para o corpo abatido. Enquanto lhe envia as últimas impressões cheias de prudência e carinho, roga os seus bons ofícios para que João Marcos venha à sede do Império, a fim de auxiliá-lo no serviço apostólico.
Quando a mão trêmula e rugosa escreve melancolicamente:
— “Só Lucas está comigo”. (2ª Epístola a Timóteo. Capítulo 4, versículo 11. Nota de Emmanuel), O convertido de Damasco interrompe-se para chorar sobre os pergaminhos. Nesse instante, porém, sente afagar-lhe a fronte um como flabelo (leque) de asas que adejassem de leve. Brando conforto lhe invade o coração amoroso e intrépido. Nesse ponto da carta, recobra novo ânimo e volta a demonstrar decisão de luta, terminando com as recomendações atinentes às necessidades da vida material e aos seus labores evangélicos.
Paulo de Tarso, entretanto, entrega a missiva a Lucas para expedi-la, sem conseguir disfarçar os seus lúgubres pressentimentos. Em vão, o carinhoso médico e devotado amigo procura desfazer aquelas apreensões. Debalde Lino e Cláudia tentam distraí-lo.
Embora não abandonasse os trabalhos condizentes com a nova situação, o velho Apóstolo mergulhou-se em profundas meditações, das quais apenas se forrava para atender às necessidades triviais.
Efetivamente, decorridas algumas semanas após a carta a Timóteo, um grupo armado visitou a residência de Lino, depois de meia-noite, na véspera das grandes festividades com que a administração pública desejava assinalar a reconstrução do Grande Circo. O dono da casa, a esposa e Paulo de Tarso foram presos, escapando Lucas pelo fato de pernoitar em outra parte. As três vítimas foram conduzidas a um cárcere do monte Esquilino, dando provas de poderosa fé em face do martírio que começava.
O Apóstolo foi atirado a uma cela escura e incomunicável, Os próprios soldados se intimidavam da sua coragem. Ao despedir-se de Lino e sua mulher, enquanto esta se desfazia em lágrimas, o valoroso pregador abraçava-os dizendo:
— Tenhamos coragem. Esta deve ser a última vez em que nos saudamos com os olhos materiais; mas havemos de avistar-nos no reino do Cristo. O poder tirânico de César não atinge senão o corpo miserável…
Em virtude de ordem expressa de Tigelino, o prisioneiro ficou insulado de todos os companheiros.
Na escuridão do cárcere, que mais se assemelhava a uma cova úmida, deu um balanço retrospectivo em todas as atividades de sua vida, entregando-se a Jesus, inteiramente confiado na sua divina misericórdia. Desejou sinceramente permanecer junto dos irmãos que, por certo, se destinavam aos espetáculos nefandos do dia imediato, esperando com eles comungar a hóstia dos martírios, quando chegasse a hora extrema.
Não pôde dormir, a considerar as horas transcorridas desde o momento da prisão, e concluiu que o dia do sacrifício estaria iminente. Nem uma réstia de Luz penetrava o cubículo infecto e acanhado. Percebia, somente, vagos rumores longínquos, que lhe davam ideia da aglomeração popular nas vias públicas. As horas passaram em expectativas que pareciam intermináveis. Depois de angustioso cansaço, conseguiu algumas horas de sono. Acordou, mais tarde, já incapacitado de calcular as horas decorridas. Tinha sede e fome, mas orou com fervor, sentindo que fluíam brandas consolações para sua alma, das fontes da providência invisível. No fundo, estava preocupado com a situação dos companheiros. Um guarda o informara de que enorme contingente de cristãos seria levado ao circo e ele sofria por não ter sido chamado a perecer com os irmãos, na arena do martírio, por amor a Jesus. Mergulhado nessas reflexões, não tardou a sentir que alguém abria, cautelosamente, a porta da enxovia. Conduzido ao exterior, o ex-rabino defrontou seis homens armados que o aguardavam junto de um veículo de regulares proporções. Ao longe, no horizonte pontilhado de estrelas, delineavam-se os tons maravilhosos da madrugada próxima.
O Apóstolo, silencioso, obedeceu à escolta. Ataram-lhe as mãos calejadas, brutalmente, com grosseiras cordas. Um vigilante noturno, visivelmente embriagado, aproximou-se e escarrou-lhe na face. O ex-rabino recordou os sofrimentos de Jesus e recebeu o insulto sem revelar o mínimo gesto de amor-próprio ofendido.
Mais uma ordem, tomou lugar no veículo, junto dos seis homens armados que o observavam, admirados de tanta serenidade e coragem.
Os cavalos trotaram lépidos como se quisessem atenuar a friagem úmida da manhã.
Chegados aos cemitérios que se enfileiravam ao longo da Via Apia, as sombras noturnas se desfaziam quase completamente, auspiciando um dia de sol radioso.
O militar que chefiava a escolta mandou parar o carro e, fazendo descer o prisioneiro, disse-lhe hesitante:
— O Prefeito dos Pretorianos, por sentença de César, ordenou que fosseis sacrificado no dia imediato ao da morte dos cristãos votados às comemorações do circo, realizadas ontem. Deveis saber, portanto, que estais vivendo os últimos minutos.
Calmo, olhos brilhantes e mãos amarradas, Paulo de Tarso, mudo até então, exclamou, surpreendendo os verdugos com a sua majestosa serenidade:
— Ciente da tarefa criminosa que vos incumbe desempenhar… Os discípulos de Jesus não temem os algozes que só lhes podem aniquilar o corpo. Não julgueis que vossa espada possa eliminar-me a vida, de vez que, vivendo estes fugazes minutos em corpo carnal, isso significa que vou penetrar, sem mais demora, nos tabernáculos da vida eterna, com o meu Senhor Jesus Cristo, o mesmo que vos tomará contas, tanto quanto a Nero e Tigelino…
A patrulha sinistra estarrecia de assombro. Aquela energia moral, no momento supremo, era de molde a abalar os mais fortes. Percebendo a surpresa geral e cioso do seu mandato, o chefe da escolta tomou a iniciativa do sacrifício. Os demais companheiros pareciam desorientados, nervosos, trêmulos. O inflexível preposto de Tigelino, porém, ordenou ao prisioneiro que desse vinte passos à frente. Paulo de Tarso caminhou serenamente, embora, no íntimo, se recomendasse a Jesus, compreendendo a necessidade de amparo espiritual para o testemunho supremo.
Ao chegar ao local indicado, o sequaz de Tigelino desembainhou a espada, mas, nesse instante, tremeu-lhe a mão, fixando a vítima, e falou-lhe em tom quase imperceptível:
— Lastimo ter sido designado para este feito e intimamente não posso deixar de lamentar-vos…
Paulo de Tarso, erguendo a fronte quanto lhe era possível, respondeu sem hesitar:
— Não sou digno de lástima. Tende antes compaixão de vós mesmo, porquanto morro cumprindo deveres sagrados, em função de vida eterna; enquanto que vós ainda não podeis fugir às obrigações grosseiras da vida transitória. Chorai por vós, sim, porque eu partirei buscando o Senhor da Paz e da Verdade, que dá vida ao mundo; ao passo que vós, terminada vossa tarefa de sangue, tereis de voltar à hedionda convivência dos mandantes de crimes tenebrosos da vossa época!…
O algoz continuava a fitá-lo com assombro e Paulo, notando a tremura com que ele empunhava a espada, concitou resoluto:
—Não tremais!… Cumpri vosso dever até ao fim! Um golpe violento fendeu-lhe a garganta, seccionando quase inteiramente a velha cabeça que se nevara aos sofrimentos do mundo.
Paulo de Tarso caiu redondamente, sem articular uma palavra. O corpo alquebrado embolou-se no solo, como um despojo horrendo e inútil. O sangue jorrava em golfões nas últimas contrações da agonia rápida, enquanto a expedição regressava penosamente, muda, dentro da luz matinal e triunfante.
O valoroso discípulo do Evangelho sentia a angústia das derradeiras repercussões físicas; mas, aos poucos, experimentava uma sensação branda de alívio reparador. Mãos carinhosas e solicitas pareciam tocá-lo de leve, como se arrancassem, tão só nesse contacto divino, as terríveis impressões dos seus amargurosos padecimentos. Tomado de surpresa, verificou que o transportavam a local distante e pensou que amigos generosos desejavam assisti-lo, em lugar mais conveniente, para que lhe não faltasse a doce consolação da morte tranquila.
Depois de alguns minutos as dores haviam desaparecido por completo.
Guardando a impressão de permanecer à sombra de alguma árvore frondosa e amiga, experimentava a carícia das brisas matinais que passavam em lufadas frescas. Tentou levantar-se, abrir os olhos, identificar a paisagem. Impossível!
Sentia-se fraco, qual convalescente de moléstia prolongada e gravíssima.
Reuniu as energias mentais, como lhe foi possível, e orou, suplicando a Jesus permitisse o esclarecimento de sua alma, naquela nova situação.
Sobretudo, a falta de visão deixava-o submerso em angustiosa expectativa.
Recordou os dias de Damasco, quando a cegueira lhe invadira os olhos de pecador, ofuscados pela luz gloriosa do Mestre. Lembrou o carinho fraternal de Ananias e chorou ao influxo daquelas singulares reminiscências. Depois de grande esforço, conseguiu levantar-se e refletiu que o homem precisava servir a Deus, ainda que tateasse em densas trevas.
Foi ai que ouviu passos de alguém que se aproximava de leve. Ocorreu-lhe subitamente o dia inesquecível em que fora visitado pelo emissário do Cristo, na pensão de Judas.
— Quem sois? – perguntou como o fizera outrora, naquele lance inolvidável.
—Irmão Paulo… – começou a dizer o recém-chegado.
Mas o Apóstolo dos gentios, identificando aquela voz bem-amada, interrompeu-lhe a palavra, bradando com júbilo inexprimível: – Ananias!… Ananias!…
E caiu de joelhos, em pranto convulsivo.
— Sim, sou eu — disse a veneranda entidade pousando a mão luminosa na sua fronte; — um dia Jesus mandou que te restituísse a visão, para que pudesses conhecer o caminho áspero dos seus discípulos e hoje, Paulo, concedeu-me a dita de abrir-te os olhos para a contemplação da vida eterna.
Levanta-te! Já venceste os últimos inimigos, alcançaste a coroa da vida, atingiste novos planos da Redenção!…
O Apóstolo levantou-se afogado em lágrimas de jubilosa gratidão, enquanto Ananias, pousando a destra nos seus olhos apagados, exclamou com carinho:
— Vê, novamente, em nome de Jesus!… Desde a revelação de Damasco, dedicaste os olhos ao serviço do Cristo! Contempla, agora, as belezas da vida eterna, para que possamos partir ao encontro do Mestre amado!…
Então, o devotado trabalhador do Evangelho reconheceu as maravilhas que Deus reserva aos seus cooperadores no mundo cheio de sombras.
Tomado de espanto, identificou a paisagem que o rodeava. Não longe estavam as catacumbas da Via Apia. Misteriosas forças o haviam afastado do quadro triste em que se decompunham os despojos sangrentos. Sentiu-se jovem e feliz. Compreendia, agora, a grandeza do corpo espiritual no ambiente estranho aos organismos da Terra. Suas mãos estavam sem rugas, a epiderme sem cicatrizes. Tinha a impressão de haver sorvido um misterioso elixir de juventude. Uma túnica de alvura resplandecente envolvia-o em graciosas ondulações. Mal despertava do seu deslumbramento, quando alguém lhe bateu levemente no ombro: Era Gamaliel que lhe trazia um ósculo fraternal. Paulo de Tarso sentiu-se o mais ditoso dos seres. Abraçando-se ao velho mestre e a Ananias, num só gesto de ternura, exclamava entre lágrimas:
— Só Jesus me poderia conceder alegria igual.
Mal não acabara de o dizer, começaram a chegar velhos companheiros de lutas terrenas, amigos de outros tempos, irmãos desvelados que lhe vinham trazer as boas-vindas, ao transpor os umbrais da eternidade. Os deslumbramentos do Apóstolo sucediam-se ininterruptos. Como se ficassem em Roma, à sua espera, todos os mártires das festividades da véspera chegaram cantando, nas proximidades das catacumbas. Todos queriam abraçar o generoso discípulo, oscular-lhe as mãos. Nesse ínterim, dando a impressão de nascer em maravilhosas fontes do mais além, ouviu-se uma cariciosa melodia acompanhada de vozes argentinas, que deviam ser angélicas. Surpreendido com a beleza da composição, intraduzível na linguagem humana, Paulo ouvia o venerando amigo de Damasco, que explicava solícito:
—Este é o hino dos prisioneiros libertados!…
Observando-lhe a intensa comoção, Ananias perguntou qual o seu primeiro desejo na esfera dos redimidos. Paulo de Tarso, intimamente, recordou Abigail e os anelos sagrados do coração, como aconteceria a qualquer ser humano; mas, integrado no ministério divino, que manda esquecer os caprichos mais singelos, e sem trair a gratidão à misericórdia do Cristo, respondeu comovidamente:
— Meu primeiro desejo seria rever Jerusalém, onde pratiquei tantos males e, ali, orar a Jesus, para ofertar-lhe o meu agradecimento.
Tão depressa o disse e a luminosa assembleia se punha em movimento.
Assombrado com o poder da volitação, Paulo observava que as distâncias nada representavam agora para as suas possibilidades espirituais.
De mais alto continuavam fluindo harmonias de sublimada beleza. Eram hinos que exaltavam a ventura dos trabalhadores triunfantes, e a misericórdia das bênçãos do Todo Poderoso.
Paulo desejava imprimir à divina excursão o sabor de suas reminiscências.
Para esse fim, o grupo seguiu ao longo da Via Apia até Arícia, de onde se desviou em direção a Pouzzoles, em cuja igreja se deteve em preces, por alguns minutos de ventura inigualável. Daí a caravana espiritual demandou a Ilha de Malta. Transportando-se em seguida para o Peloponeso, onde Paulo se extasiou na contemplação de Corinto, dando curso a recordações carinhosas e doces. Inflamados de entusiasmo fraternal, os componentes da caravana acompanhavam o valoroso discípulo no caminho das sagradas lembranças que lhe vibravam no coração. Atenas, Tessalônica, Filipes, Neápolis, Trôade e Éfeso foram pontos nos quais o Apóstolo estacionara, demoradamente, orando com lágrimas de gratidão ao Altíssimo.
Atravessadas as zonas da Panfília e da Cilícia, entraram na Palestina, tomados de júbilo e sagrado respeito. Em todos os caminhos incorporavam-se emissários e trabalhadores do Cristo. Paulo não conseguia avaliar a alegria da chegada a Jerusalém, sob o prodigioso azul do crepúsculo.
Obedecendo ao alvitre de Ananias, reuniram-se no cimo do Calvário e ali cantaram hinos de esperanças e de luz.
Lembrando os erros do passado amarguroso, Paulo de Tarso ajoelhou-se e elevou a Jesus fervorosa súplica. Os companheiros remidos recolheram-se em êxtase, enquanto ele, transfigurado, em pranto, procurava exprimir a mensagem de gratidão ao Divino Mestre.
Desenhou-se então, na tela do Infinito, um quadro de beleza singular.
Como se houvesse rasgado a imensurável umbela azul, surgiu na amplidão do espaço uma senda luminosa e três vultos que se aproximavam radiantes. O Mestre estava no centro, conservando Estevão à direita e Abigail ao lado do coração. Deslumbrado, arrebatado, o Apóstolo apenas pôde estender os braços, porque a voz lhe fugia no auge da comoção. Lágrimas abundantes perolavam-lhe o rosto também transfigurado. Abigail e Estevão adiantaram-se.
Ela tomou-lhe delicadamente as mãos num assomo de ternura, enquanto Estevão o abraçava com efusão.
Paulo quis lançar-se nos braços dos dois irmãos de Corinto, beijar-lhes as mãos no seu arroubo de ventura, mas, qual a criança dócil que tudo devesse ao Mestre dedicado e bom, procurou o olhar de Jesus, para sentir-lhe a aprovação.
O Mestre sorriu, indulgente e carinhoso, e falou:
— Sim, Paulo, sê feliz! Vem, agora, a meus braços, pois é da vontade de meu Pai que os verdugos e os mártires se reúnam, para sempre, no meu reino!…
E assim unidos, ditosos, os fiéis trabalhadores do Evangelho da redenção seguiram as pegadas do Cristo, em demanda às esferas da Verdade e da Luz…
Lá em baixo, Jerusalém contemplava embevecida, o dilúculo vespertino, esperando o luar que não tardaria com os primeiros clarões…

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