A Visão de Deus

31. Se Deus está em toda parte, por que não o vemos? Vê-lo-emos quando deixarmos a Terra? Tais as questões que se formulam todos os dias.
A primeira é fácil de responder. Nossos órgãos materiais têm percepções limitadas que os tornam inaptos à visão de certas coisas, mesmo materiais. Assim é que alguns fluidos nos fogem totalmente à nossa visão e aos instrumentos de análise, entretanto, nem por isso duvidamos da existência deles. Vemos os efeitos da peste, mas não vemos o fluido que a transporta; vemos os corpos em movimento sob a influência da força de gravitação, mas não vemos essa força.
Kardec se serviu dos conhecimentos científicos da época em que escreveu este livro, quando ainda era ignorado o agente etiológico da peste bubônica, conhecida na Idade Média como peste negra, o que só veio a ocorrer mais tarde, em 1894. N. T.
32. Os nossos órgãos materiais não podem perceber as coisas de essência espiritual. Só podemos ver os Espíritos e as coisas do mundo imaterial com a visão espiritual. Apenas a nossa alma, portanto, pode ter a percepção de Deus. Será que ela o vê logo após a morte? A esse respeito, só as comunicações de além-túmulo nos podem instruir. Por meio delas ficamos sabendo que a visão de Deus constitui privilégio das almas mais depuradas e que bem poucas, ao deixarem o envoltório terrestre, possuem o grau de desmaterialização necessária para tal efeito. Uma comparação vulgar tornará facilmente compreensível essa condição.
33. Uma pessoa que se ache no fundo de um vale, envolvido por densa bruma, não vê o Sol. Entretanto, pela luz difusa, percebe a claridade do Sol. Se resolve subir a montanha, à medida que for ascendendo, o nevoeiro se irá dissipando cada vez mais e a luz se torna cada vez mais viva. Contudo, ainda não verá o Sol. Só depois que se haja elevado acima da camada brumosa e chegado a um ponto em que o ar esteja perfeitamente límpido, ela contemplará o astro em todo o seu esplendor.
Dá-se a mesma coisa com a alma. O envoltório perispirítico, embora nos seja invisível e impalpável é, com relação a ela, verdadeira matéria, ainda grosseira demais para certas percepções. Esse envoltório se espiritualiza à medida que a alma se eleva em moralidade. As imperfeições da alma são quais camadas nevoentas que lhe obscurecem a visão. Cada imperfeição de que ela se desfaz é uma mácula a menos; todavia, só depois de se haver depurado completamente é que goza da plenitude das suas faculdades.
34. Sendo Deus a essência divina por excelência, não pode ser percebido em todo o seu esplendor senão pelos Espíritos que atingiram o mais alto grau de desmaterialização. Pelo fato de não verem a Deus, não se segue que os Espíritos imperfeitos estejam mais distantes dele do que os outros, visto que, como todos os seres da natureza, estão mergulhados no fluido divino, do mesmo modo que nós o estamos na luz. O que ocorre é que as imperfeições daqueles Espíritos são quais vapores que os impedem de vê-lo. Quando o nevoeiro se dissipar, o verão resplandecer. Para isso, não lhes é preciso subir, nem procurá-lo nas profundezas do infinito. Desimpedida a visão espiritual das manchas morais que a obscureciam, eles o verão de todo lugar onde se achem, mesmo da Terra, porque Deus está em toda parte.
35. O Espírito só se depura com o tempo, sendo as diversas encarnações o alambique em cujo fundo deixa, de cada vez, algumas impurezas. Ao abandonar o seu envoltório corpóreo, os Espíritos não se despojam instantaneamente de suas imperfeições, razão por que, depois da morte, não veem a Deus mais do que o viam quando vivos; mas, à medida que se depuram, têm dele uma intuição mais clara; se não o veem, compreendem-no melhor, pois a luz é menos difusa. Quando, pois, alguns Espíritos dizem que Deus lhes proíbe que respondam a uma pergunta, não é que Deus lhes tenha aparecido ou dirigido a palavra para lhes ordenar ou proibir isto ou aquilo. Não; é que eles o sentem; recebem os eflúvios do seu pensamento, como sucede conosco em relação aos Espíritos que nos envolvem em seus fluidos, embora não os vejamos.
36. Nenhum homem, portanto, pode ver a Deus com os olhos da carne. Se essa graça fosse concedida a alguns, só o seria no estado de êxtase, quando a alma se acha tão desprendida dos laços da matéria que torna possível o fato durante a encarnação. Tal privilégio, aliás, pertenceria exclusivamente a almas de escol, encarnadas em missão, e não em expiação.
Mas como os Espíritos da mais elevada categoria resplandecem de ofuscante brilho, pode acontecer que Espíritos menos elevados, encarnados ou desencarnados, maravilhados com o esplendor de que aqueles se mostram cercados, suponham ver o próprio Deus. É como quem vê um ministro e o toma por seu soberano.
37. Sob que aparência Deus se apresenta aos que se tornam dignos de vê-lo? Será sob uma forma qualquer? Sob uma figura humana ou como um foco resplandecente de luz? A linguagem humana é impotente para descrevê-lo, porque não existe para nós nenhum ponto de comparação que nos possa dar uma ideia de tal fato. Somos quais cegos de nascença a quem procurassem inutilmente fazer que compreendessem o brilho do Sol. O nosso vocabulário é limitado às nossas necessidades e ao círculo das nossas ideias; a dos selvagens não poderia descrever as maravilhas da civilização; a dos povos mais civilizados é extremamente pobre para descrever os esplendores dos céus; a nossa inteligência muito restrita para compreendê-los, e a nossa vista, fraca demais, ficaria deslumbrada.

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