Reconhecimento e gratidão

Reconhecimento e gratidão são as duas expansões da alma humana, que assinalam muito bem o estado moral de cada indivíduo.
O reconhecimento é o testemunho da genuinidade de uma coisa, de um fato, de uma pessoa.
O reconhecimento é princípio inteligente que nos aproxima da verdade.
Como ato de discernimento, o reconhecimento pode dar lugar ao bom ou mau juízo que façamos de um objeto ou de uma pessoa.
Como virtude moral, o reconhecimento é o princípio da gratidão, onde aquele chega a seu mais elevado cimo, a gratidão começa a sua espiral que se eleva ao infinito.
O reconhecimento que é discernimento espiritual obedece sempre ao estado de espírito do julgador.
O reconhecimento, como produto do benefício, é a confissão do bem, pelo bem que o bem nos fez.
A gratidão grava a ideia do bem e mantém, pelo autor do benefício, vivo sentimento de carinho.
O reconhecimento lembra a ideia do benefício. A gratidão aviva a lembrança do benfeitor.
O reconhecimento é um movimento de inteligência, variável, como variável é a inteligência em cada ser humano.
A gratidão é uma confirmação da razão, sancionada por gesto do coração.
Há reconhecimento e há gratidão; onde aquele para, por não poder continuar o seu caminho, a gratidão começa num sulco de luz, a ascensão para a Eternidade.
Não há virtude mais nobre e, por isso mesmo, mais rara que a gratidão. Ela nos conduz pelo amor e nos eleva a Deus.
Muitas são as almas reconhecidas, mas poucas são as que têm gratidão.
Dos dez leprosos curados em terras da Palestina, só um voltou a dar graças ao Senhor. De todos os restabelecidos pelo Senhor não se contam, talvez, três que lhe seguissem os passos. De todos os que ouviram dos melodiosos lábios a Palavra de Salvação, insignificante foi o número dos agradecidos; inúmeros foram os que reconheceram o Verbo de Deus, e muito maior em número foram os que, apesar de O reconhecerem, repudiaram a sua Palavra.
Padres, doutores, rabinos, escribas, fariseus, governadores e césares, depois que reconheceram o Poder do Verbo Divino, é que resolveram crucificar o Inocente!
E aquele mesmo que depois de haver mostrado o seu reconhecimento na mais alta expressão de inteligência, 1ava as mãos ao derramamento de sangue e acede ao sacrifício da vítima, porque não tem coragem de ser grato.
O mundo está cheio de reconhecidos, mas vazio de gratidão.
De oitenta e quatro discípulos que seguiam o Mestre Nazareno, setenta e dois abandonaram-no em meio do caminho dando motivo à pergunta do Humilde Galileu aos outros doze: E vós também não quereis retirar-vos? Ao que respondeu Pedro: Para quem havemos nós de ir, Senhor? Tu tens Palavras de Vida Eterna!
O reconhecimento incita o interesse; a gratidão reveste o amor.
Marta e Lázaro são reconhecidos, mas só Maria tem gratidão: Venit mulier habens alabastrum unguenti nardi spicati pretiosi et fracto alasbastro, effudit super ejus – uma mulher com um frasco de fino perfume de nardo ungiu-O. (Marcos, XIV, 3.)
Nicodemos, movido pelo reconhecimento, vai ao encontro de Jesus, mas como não tem gratidão, espera a noite para se aproximar do Filho de Deus: Nicodemos hic venit ad Jesum nocte – Nicodemos veio a Jesus à noite. (João, 111, 1-2.)
No reconhecimento só age o interesse.
Na gratidão é o amor que fala.
Para guarda do sepulcro, Herodes envia milícia; Madalena leva flores e perfumes.
O reconhecimento é o princípio inteligente que nos aproxima da Verdade; a gratidão é um dever que a ela nos alia.
Na vida particular, como na vida social, há reconhecimento e gratidão, mas aquele, quando lustrado pela nobreza de caráter, é o princípio em que germinam as graças que nos dão a pureza de sentimento.
O reconhecimento é, finalmente, para a gratidão, o que a bolota é para o carvalho.
Assim como aquela só se transforma em árvore por força do tempo e poder dos elementos, o reconhecimento só se caracteriza em gratidão depois de um cultivo acurado da lei do Amor lembrada pelo Cristo e de uma evolução proveitosa do Espírito nos ciclos ascendentes da Verdade.

Cairbar Schutel, do livro Parábolas e Ensinos de Jesus, 1ª Edição – 1928.

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