Perguntas ao Espírito São Vicente de Paulo sobre a Caridade

Permitiríeis que formulássemos algumas perguntas complementares a respeito do que acabastes de dizer?
“Eu o desejo muito; meu objetivo é esclarecer; perguntai o que quiserdes.”

1- Pode-se entender a caridade de duas maneiras: a esmola propriamente dita e o amor aos semelhantes. Quando dissestes que era necessário que o coração se abrisse à súplica do infeliz que nos estendesse a mão, sem questionarmos se não seria fingida a sua miséria, não quisestes falar da caridade do ponto de vista da esmola?
“Sim; somente nesse parágrafo.”

2- Dissestes que era preciso deixar à justiça de Deus a apreciação da falsa miséria. Parece-nos, entretanto, que dar sem discernimento às pessoas que não têm necessidade, ou que poderiam ganhar a vida num trabalho honesto, será estimular o vício e a preguiça. Se os preguiçosos encontrassem a bolsa, dos outros, aberta com muita facilidade, multiplicar-se-iam ao infinito, em prejuízo dos verdadeiros infelizes.
“Podeis discernir os que podem trabalhar e então a caridade vos obriga a fazer tudo para lhes proporcionar trabalho; entretanto, também existem falsos pobres, capazes de simular, com habilidade, misérias que não possuem; é para os tais que se deve deixar a Deus toda a justiça.”

3- Aquele que não pode dar senão um centavo, e que deve escolher entre dois infelizes que lhe pedem, não tem razão de inquirir quem, de fato, tem mais necessidade, ou deve dar sem exame ao primeiro que aparecer?
“Deve dar ao que pareça sofrer mais.”

4- Não se deve considerar também como fazendo parte da caridade o modo por que é feita?
“É sobretudo na maneira de fazer a caridade que está o seu maior mérito; a bondade é sempre o indício de uma bela alma.”

5- Que tipo de mérito concedeis àqueles a quem chamamos de benfeitores de ocasião?
“Só fazem o bem pela metade. Seus benefícios não lhes aproveitam.”

6- Disse Jesus: “Que vossa mão direita não saiba o que faz vossa mão esquerda”. Têm algum mérito aqueles que dão por ostentação?
“Apenas o mérito do orgulho, pelo que serão punidos.”

7- Em sua acepção mais abrangente, a caridade cristã não compreende igualmente a doçura, a benevolência e a indulgência para com as fraquezas dos outros?
“Imitai Jesus; ele vos disse tudo isso. Escutai-o mais que nunca.”

8- A caridade é bem compreendida quando praticada exclusivamente entre pessoas que professam a mesma opinião ou pertencem a um mesmo partido?
“Não. É sobretudo o espírito de seita e de partido que se deve abolir, pois todos os homens são irmãos. É sobre essa questão que concentramos os nossos esforços.”

9- Suponhamos que alguém vê dois homens em perigo, mas não pode salvar senão um. Qual dos dois deverá salvar, considerando-se que um deles é seu amigo e o outro é seu inimigo?
“Deve salvar o amigo, pois este amigo poderia acusá-lo de não gostar dele; quanto ao outro, Deus se encarregará.”

Espírito São Vicente de Paulo.
Revista Espírita, Agosto de 1858.