Parábola dos talentos e das minas

A Parábola dos Talentos tem a mesma significação que as das Minas. Aquela narrada por Mateus, e esta por Lucas, exprimem perfeitamente os deveres que nos assistem material, moral e espiritualmente.
Todos somos filhos de Deus. O Pai das Almas reparte com todos igualmente os seus dons: a uns dá mais, a outros dá menos, sempre de acordo com a capacidade de cada um. A uns dá o dinheiro, a outros a sabedoria, a outros dons os espirituais, e, finalmente, a outros concede todas essas dádivas reunidas.
De modo que um tem cinco talentos, outro dois, outro um; ou então um tem dez minas, outro cinco, outro duas.
Não há privilégios nem exclusões para o Senhor; e se cada qual, cônscio do que possui e compenetrado de seus deveres agisse de acordo com os preceitos da Lei Divina, estamos certos de que ninguém teria razão de se queixar da sorte ou de clamar contra a má situação em que a maioria se diz achar.
Não existe um só indivíduo no mundo que não seja depositário de um talento ou de duas minas. Ainda mesmo aqueles que se julgam miseráveis e mendigam a caridade pública, se perscrutarem as suas aptidões, o que trazem oculto nos recônditos de sua alma, verão que não são tão desgraçados como se julgam.
Todos trazem, a este mundo, talentos e minas para garantir não só o estado presente, como sua situação futura, porque o mundo não é mais que uma estância onde viemos fazer aquisições, provisões para construir e abastecermos a nossa morada futura.
Olhai o mendigo que passa andrajoso e sujo, procurai detê-lo por momentos, inquiri da sua vida, instigai-o a falar, pesquisai suas qualidades e seus defeitos, penetrai no recesso de seu coração e de seu cérebro; estudai-o física, moral e espiritualmente; fazei a sua psicologia, e tereis ocasião de ver nessa figura esquálida, monótona e por vezes repelente, qualidades superiores às de muitos homens que se ufanam nas praças, assim como vereis nele dons adormecidos, semelhantes às minas escondidas na terra ou ao talento atado a um lenço!
E se assim acontece com o mendigo, o miserável, o andrajoso, com maior soma de razões a parábola tem aplicação aos grandes, aos poderosos, aos doutos, aos sacerdotes que justamente por se intitularem guias dos povos, são merecedores de maior soma de açoites.
Na época em que o Senhor das Minas e dos Talentos veio exigir dos servos a primeira prestação de contas, só foram considerados servos maus os que haviam recebido o mínimo de minas e de talentos, pois os que os haviam recebido em maior número prestaram boas contas. Mas se o Senhor viesse agora a nos pedir conta da nova emissão de dólares, minas, talentos que espalhou pelo mundo, é certo que aconteceria justamente o contrário, porque não vemos o trabalho nem o negócio dos que receberam dois, cinco, dez minas e talentos!
Ainda mais, está a parecer-nos que o próprio capital, que pelos servos maus de outrora foi restituído do lenço ou desenterrado, nem este apareceria, pois a época é de bancarrota e de falência fraudulenta.
De fato, há dois mil anos o Supremo Senhor enviou ao mundo seu filho dileto e seu representante, cuja doutrina sábia, consoladora e ungida de amor é a única capaz de salvar a Humanidade; e o que observamos por toda parte?
Na esfera religiosa, como na esfera científica o dolo, a má fé, a deturpação da Verdade!
O brado das guerras de 1914 a 1939, com as suas consequências, levou a orfandade aos lares, cidades foram devastadas e a imoralidade assentou sua cátedra em toda a parte, banindo das almas os princípios de fraternidade que o Cristo nos legou.
E onde estão os subsídios e os subsidiados; os servos, os talentos e as minas legados no Evangelho às gerações?
Esses servos indolentes, cheios de preconceitos e temores humanos, por haverem ocultado os substanciosos ditames que lhes foram doados, para com esse capital ganharem meios de se elevarem, passarão por penosa existência de expiação e de trevas até que, mais humildes, mais submissos à vontade divina, recebam novo talento, com o qual possam começar a preparar o seu bem-estar futuro.
E que diremos dos tartufos, dos mercenários, dos trapaceiros, dos ladravazes que unidos em coro impediam e impedem o domínio da Lei de Deus, trancando os Céus, não entrando e ainda impedindo a entrada aos que desejam conhecê-lo? Que diremos dos que, semeando o ódio e a dissensão ao alarido de sinos, de foguetes e de fanfarra, fazem doutrina pessoal, substituindo o Criador pela criatura, e disseminam a fé dos concílios em vez da fé nos Preceitos do Cristo?! Que diremos dos submissos, dos subservientes que, tendo ideias espíritas e estando convencidos de que o Espiritismo é a única doutrina capaz de nos iniciar no Caminho da Perfeição, ou por medo dos maiorais, ou por medo do ridículo, negam a sua fé, traem a sua consciência, escondem os seus sentimentos?!
Não terá o Senhor direito de ordenar aos servos: conservai mortos esses suicidas, que se aniquilaram a si próprios; deixai-os no túmulo da descrença que eles próprios cavaram?!
Todos somos filhos de Deus: o Pai reparte igualmente suas dádivas entre todos os seus filhos; faz levantar o Sol para bons e maus e descer as chuvas para justos e injustos; mas exige que essas dádivas sejam acrescentadas por todos. Os que obedecem a Seus preceitos têm o mérito de suas obras; os que desobedecem, o demérito, e são responsáveis pela falta de observância de seus sagrados deveres.
O dinheiro não nos foi dado para volúpias nem a sabedoria para estufar; assim como os dons espirituais não nos foram concedidos senão para serem proveitosos à Fé, à Esperança e à Caridade.
Mais servos houvesse e mais subsídios lhes fossem concedidos, ainda não bastariam para mal empregarem o seu tempo, esbanjando a fortuna que lhes fora concedida, a eles, meros depositários, e da qual terão de prestar severas contas.
Tratando, pois, de dons talentos materiais e morais e de servos dotados com este gênero de subsídio, não é preciso nos estendermos em maiores considerações. O livro do mundo está aberto e todos podem nele ler o que se passa.
Encaremos agora as parábolas sob o ponto de vista espírita.
Elas dirigem-se justamente àqueles que tiveram a felicidade de receber os talentos e as minas dos conhecimentos espíritas!
Ora, é muito sabido que estes conhecimentos quando bem entendidos e bem aplicados, são uma fonte perene de felicidade, e, ao contrário, quando mal-entendidos e mal aplicados, são como que setas de remorsos cravadas nas consciências desviadas do bem e da verdade.
Aqueles que recebem a Doutrina e ainda os dons espirituais, e os aplicam em proveito próprio e alheio, com o fim especial de tornar conhecida a Palavra de Deus, são os que receberam 2 e 5 talentos, 5 e 10 minas; à última hora do trabalho, quando chamados ao ajuste de contas, lhes será dito: Servos bons e diligentes! Fostes fiéis no pouco, também o sereis no muito; confiar-vos-ei o muito; entrai no gozo do vosso Senhor. Ou então: Servo bom, porque foste fiel no pouco, terás autoridade sobre dez cidades, sobre cinco cidades, de acordo, cada um, com os talentos e as minas que recebeu.
Aqueles que recebem a Doutrina e os dons espirituais e não os observam, ou os aplicam mal, prejudicando a Causa que deviam zelar, são semelhantes aos que enterraram o talento e as minas.
A estes dirá o Senhor: Dizíeis que o Senhor é exigente e cioso, e, em vez de, ao menos, pordes o talento ou as minas a render juros num banco, os escondestes ou os esbanjastes, pois, pela vossa boca eu vos julgarei; entregai imediatamente as minas e os talentos aos que têm dez e cinco, porque a todo o que tem dar-se-lhe-á e terá em abundância, e, ao que não tem, até o que tem ser-lhe-á tirado.

Cairbar Schutel, do livro Parábolas e Ensinos de Jesus, 1ª Edição – 1928.

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