Manoel Batista Cepelos, poeta paulista, nasceu em Cotia, estado de São Paulo, em 1872 e desencarnou no Rio de Janeiro, em 1915, atribuindo-se a suicídio o encontro do seu corpo entre pedras de uma rocha, na rua Pedro Américo. Esta versão parece confirmar-se agora nestes sonetos. Olavo Bilac, ao prefaciar-lhe Os Bandeirantes, exalta-lhe o gênio criador espontâneo, original e simples.
Sonetos
Eu fui pedir à Natureza, um dia,
Que me desse um consolo a tantas dores;
Desalentado e triste, pressenti-a
Cansada e triste como os sofredores.
Encaminhei-me à porta da Agonia,
Corroído por chagas interiores,
Buscando a morte que me aparecia
Como o termo anelado aos dissabores,
Desvendando esse trágico segredo
Que a alma decifra, pávida de medo,
Com ansiedade e temores dos galés…
Mas ah! que atroz remorso me persegue!
Choro, soluço, clamo e ele me segue
Nesse abismo que se abre ante os meus pés.
II
Ninguém ouve na Terra esse lamento
Da minha dor imensa, incompreendida,
Nas pavorosas trevas desta vida
Em que eu julgava achar o Esquecimento.
Tenebrosa, essa noite indefinida,
Cheia de tempestade e sofrimento,
No país do Pavor e do Tormento
Onde chora a minh’alma enceguecida.
Onde o não-ser, a paz calma e serena,
Que me traria o bálsamo a esta pena
Interminável, rude, dolorosa?
Ninguém! Uma só voz não me responde!
Sinto somente a treva que me esconde
Na vastidão da noite tormentosa…
III
Sirva-vos de escarmento a dor que trago
Na minh’alma infeliz e sofredora,
Este padecimento com que pago
O desvio da estrada salvadora.
Aqui somente ampara-me esse vago
Pressentimento de uma nova aurora,
Quando terei os bens, o brando afago
Da Luz, que está na dor depuradora.
Agora, sim! depois de tantos anos
De tormentos, em meio aos desenganos,
Espero o sol de novas alvoradas
De existências de pranto e de miséria,
Para beber no cálix da matéria
As essências das dores renegadas!
Batista Cepelos (Espírito)