Nascido na ilha de São Miguel, nos Açores, em 1842, e desencarnado por suicídio, em 1891. É vulto eminente e destacado nas letras portuguesas, caracterizando-se pelo seu espírito filosófico.
Ciência ínfima
Onde o grande caminho soberano
Da Ciência que abriu a nova era,
Investigando a entranha da monera,
A desvendar-se no capricho insano?
Ciência que se elevou à estratosfera
E devassou os fundos do oceano,
Fomentando o princípio desumano
Da ambição onde a força prolifera…
Ciência de ostentação, arma de efeito,
Longe da Luz, da Paz e do Direito,
Num caminho infeliz, sombrio e inverso;
Sob o alarme guerreiro, formidando,
Eis que a Terra te acusa, soluçando,
Como a Grande Mendiga do Universo!…
Rainha do Céu
Excelsa e sereníssima Senhora,
Que sois toda Bondade e Complacência,
Que espalhais os eflúvios da Clemência
Em caminhos liriais feitos de aurora!…
Amparai o que anseia, luta e chora,
No labirinto amargo da existência.
Sede a nossa divina providência
E a nossa proteção de cada hora.
Oh! Anjo Tutelar da Humanidade.
Que espargis alegria e claridade
Sobre o mundo de trevas e gemidos;
Vosso amor, que enche os céus ilimitados,
É a luz dos tristes e dos desterrados,
Esperança dos pobres desvalidos!…
À morte
Ó Morte, eu te adorei, como se foras
O Fim da sinuosa e negra estrada,
Onde habitasse a eterna paz do Nada
Às agonias desconsoladoras.
Eras tu a visão idolatrada
Que sorria na dor das minhas horas,
Visão de tristes faces cismadoras,
Nos crepes do Silêncio amortalhada.
Busquei-te, eu que trazia a alma já morta,
Escorraçada no padecimento,
Batendo alucinado à tua porta;
E escancaraste a porta escura e fria,
Por onde penetrei no Sofrimento,
Numa senda mais triste e mais sombria.
Depois da morte
Apenas dor no mundo inteiro eu via,
E tanto a vi, amarga e inconsolável,
Que num véu de tristeza impenetrável
Multiplicava as dores que eu sofria.
Se vislumbrava o riso da alegria
Fora dessa amargura inalterável
Esse prazer só era decifrável
Sob a ilusão da eterna fantasia.
Ao meu olhar de triste e de descrente,
Olhar de pensador amargurado,
Só existia a dor, ela somente.
O gozo era a mentira dum momento,
Os prazeres, o engano imaginado
Para aumentar a mágoa e o sofrimento.
II
Misantropo da ciência enganadora,
Trazia em mim o anseio irresistível
De conhecer o Deus indefinível,
Que era na dor, visão consoladora.
Não o via e, no entanto, em toda hora,
Nesse anelo cruciante e intraduzível,
Podia ver, sentindo o Incognoscível
E a sua onisciência criadora.
Mas a insídia do orgulho e da descrença
Guiava-me a existência desolada,
Recamada de dor profunda e intensa;
Pela voz da vaidade, então, eu cria
Achar na morte a escuridão do Nada,
Nas vastidões da terra úmida e fria.
III
Depois de extravagâncias de teoria,
No seio dessa ciência tão volúvel,
Sobre o problema trágico, insolúvel,
De ver o Deus de Amor, de quem descria,
Morri, reconhecendo, todavia,
Que a morte era um enigma solúvel,
Ela era o laço eterno e indissolúvel,
Que liga o Céu à Terra tão sombria!
E por estas regiões onde eu julgava
Habitar a inconsciência e a mesma treva
Que tanta vez os olhos me cegava,
Vim, gemendo, encontrar as luzes puras
Da verdade brilhante, que se eleva,
Iluminando todas as alturas.
Soneto
Quisera crer, na Terra, que existisse
Esta vida que agora estou vivendo,
E nunca encontraria abismo horrendo,
De amargoso penar que se me abrisse.
Andei cego, porém, e sem que visse
Meu próprio bem na dor que ia sofrendo;
Desvairado, ao sepulcro fui descendo,
Sem que a Paz almejada conseguisse.
Da morte a paz busquei, como se fora
Apossar-me do eterno esquecimento,
Ao viver da minh’alma sofredora;
E em vez de imperturbáveis quietitudes,
Encontrei os Remorsos e o Tormento,
Recrudescendo as minhas dores rudes.
O Remorso
Quando fugi da dor, fugindo ao mundo,
Divisei aos meus pés, de mim diante,
A medonha figura de gigante
Do Remorso, de olhar grave e profundo.
Era de ouvir-lhe o grito gemebundo,
Sua voz cavernosa e soluçante!…
Aproximei-me dele, suplicante,
Dizendo-lhe, cansado e moribundo: –
“Que fazes ao meu lado, corvo horrendo,
Se enlouqueci no meu degredo estranho,
Acordando-me em lágrimas, gemendo?”
Ele riu-se e clamou para meus ais:
“Companheiro na dor, eu te acompanho,
Nunca mais te abandono! Nunca mais!”
Soneto
Mais se me afunda a chaga da amargura
Quando reflexiono, quando penso
No mar humano, encapelado e imenso,
Onde se perde a luz em noite escura…
Nesse abismo de trevas a bênção pura,
Do espírito de amor ao mal imenso,
Sente o assédio do mal. É o contrassenso
Da luz unida à lama que a tortura.
Mais se me aumenta a chaga dolorida,
Escutando o soluço cavernoso
Da pobre Humanidade escravizada;
Sentindo o horror que nasce dessa vida,
Que se vive no abismo tenebroso,
Cheio do pranto da alma encarcerada!
Deus
Quem, senão Deus, criou obra tamanha,
O espaço e o tempo, as amplidões e as eras,
Onde se agitam turbilhões de esferas,
Que a luz, a excelsa luz, aquece e banha?
Quem, senão ele fez a esfinge estranha
No segredo inviolável das moneras,
No coração dos homens e das feras,
No coração do mar e da montanha!
Deus!… somente o Eterno, o Impenetrável,
Poderia criar o imensurável
E o Universo infinito criaria!…
Suprema paz, intérmina piedade,
E que habita na eterna claridade
Das torrentes da Luz e da Harmonia!
Consolai
Se eu pudesse, diria eternamente,
Aos flagelados e desiludidos,
Que sobre a Terra os grandes bens perdidos
São a posse da luz resplandecente.
A dor mais rude, a mágoa mais pungente,
Os soluços, os prantos, os gemidos,
Entre as almas são louros repartidos
Muito longe da Terra impenitente.
Oh! Se eu pudesse, iria em altos brados
Libertar corações escravizados
Sob o guante de enigmas profundos!
Mas, dizei-lhes, ó vós que estais na Terra,
Que a luz espiritual da dor encerra
A ventura imortal dos outros mundos!
Crença
Minha vida de dor e de procela
Que se extinguiu na tempestade imensa,
Despedaçou-se à falta dessa crença,
Que as grandes luzes místicas revela.
E estraçalhei-me como alguém que sela
Com o supremo infortúnio a dor intensa,
Desvairado de angústia e de descrença,
Dentro da vida sem compreendê-la.
Ah! Crer! Bem que, na Terra, não possui,
Quando entre conjeturas me perdi,
De tão pequena dor fazendo alarde…
Crença! Luminosíssima riqueza
Que enche a vida de paz e de beleza,
Mas que chega no mundo muito tarde.
Não choreis
Não choreis os que vão em liberdade
Buscar no Espaço o luminoso leito
Da paz, distante do caminho estreito
Desse mundo de dor e de orfandade.
O pranto é a flor de aromas da saudade,
Que perfuma e crucia o vosso peito,
Mas, transformai-o em gozo alto e perfeito,
Em santa e esperançosa claridade.
Chega um dia em que o Espírito descansa
Das aflições, angústias e cansaços,
Dos aguilhões das dores absolutas:
Feliz de quem, na Crença e na Esperança,
Procura a luz sublime dos espaços,
Buscando a paz depois das grandes lutas.
Mão divina
A luz da mão divina sempre desce,
Misericordiosa e compassiva,
Sobre as dores da pobre alma cativa,
Que está nas sendas lúcidas da Prece.
Se a amargura das lágrimas se aviva,
Se o tormento da vida recrudesce,
Aguardai a abundância da outra messe
De venturas, que é da alma rediviva.
Confiando, esperai a Providência
Com os sentimentos puros, diamantinos,
Lendo os artigos ríspidos da Lei!
Os filhos da Piedade e da Paciência
Encontrarão nos páramos divinos
A paz e as luzes que eu não alcancei.
Almas sofredoras
Passam na Terra como as ventanias,
Ou como agigantadas nebulosas
Provindas de cavernas misteriosas,
Essas compactas legiões sombrias;
Turbas de almas escravas de agonias,
Com que andei entre queixas dolorosas,
Ao palmilhar estradas escabrosas,
Entre as noites mais lúgubres e frias!
Oh! visões de martírios que apavoram,
Miseráveis Espíritos que choram,
Sob os grilhões de rude sofrimento!
Orai por eles, bons trabalhadores
Que estais colhendo sobre a Terra as flores
De um doce e temporário esquecimento.
Supremo engano
Vê-se da Terra o Céu, em toda a vida,
Como um vergel azul de lírios brancos,
Onde mora a ventura, e em cujos flancos
Repousa a grande mágoa adormecida.
Céu! Quanta vez minh’alma entristecida
Anteviu tua paz, sob os arrancos,
Sob os golpes da dor, rijos e francos,
Na escuridão espessa e indefinida!
Não sonhei com teus deuses venturosos,
Com teus grandes olimpos majestosos,
Cheios de vida e de infinitos bens…
Antegozei, somente, em minhas dores,
A paz livre de trevas e pavores,
Do imperturbável nada que não tens!
Incognoscível
Para o Infinito, Deus não representa
A personalidade humanizada,
Pelos seres terrenos inventada,
Cheia, às vezes, de cólera violenta.
Deus não castiga o ser e nem o isenta
Da dor, que traz a alma lacerada
Nos pelourinhos negros de uma estrada
De provação, de angústia e de tormenta.
Tudo fala de Deus nesse desterro
Da Terra, orbe da lágrima e do erro,
Que entre anseios e angústias conheci!
Mas, quanto o vão mortal inda se engana,
Que em sua triste condição humana
Fez a essência de Deus igual a si!
Fatalidade
Crê-se na Morte o Nada, e, todavia,
A Morte é a própria Vida ativa e intensa,
Fim de toda a amargura da descrença,
Onde a grande certeza principia.
O meu erro, no mundo da Agonia,
Foi crer demais na angústia e na doença
Da alma que luta e sofre, chora e pensa,
Nos labirintos da Filosofia…
E no meio de todas as canseiras
Cheguei, enfim, às dores derradeiras
Que as tormentas de lágrimas desatam!…
Nunca, na Terra, a crença se realiza,
Porque em tudo, no mundo, o homem divisa
A figura das dúvidas que matam.
Estranho concerto
Clamou o Orgulho ao homem: – Goza a vida!
E fere, brasonado cavaleiro,
Coroado de folhas de loureiro,
Quem vai de alma gemente e consumida…
Veio a Vaidade e disse: – A toda brida!
Dominarás, além, no mundo inteiro,
Cavalga o tempo e corre ao teu roteiro
De soberana glória indefinida!…
Mas a Verdade, sobre a humana furna,
Gritou-lhe, angustiada, em voz soturna:
– Insensato! Aonde vais, sem Deus, sem norte?
E impeliu, sem detença e sem barulho,
Cavaleiro e corcel, vaidade e orgulho,
Aos tenebrosos pântanos da Morte.
Antero de Quental (Espírito).