A teoria, tanto quanto a prática espírita, apresenta, aos leigos e inscientes, aspectos e modismos inéditos, imprevistos, bizarros, surpreendentes.
Nos domínios da mediunidade, então, o reservatório de surpresas parece inesgotável e desconcerta e surpreende até os observadores mais argutos e avisados.
Se fôssemos minudenciar, escarificar o assunto até as mais profundas raízes, poderíamos concluir que o comércio de encarnados e desencarnados, velho quanto o mundo, se indicia mais ou menos latente ou ostensivo, em todos os atos e feitos da Humanidade.
Inspirações, ideias súbitas ou pervicazes (persistentes), sonhos, premonições e atos havidos por espontâneos e propriamente naturais, radicam muito e mais na influenciação dos Espíritos que nos cercam – por força e derivativo da mesma lei de afinidade incoercível no plano físico, quanto no psíquico – do que a muitos poderia parecer.
E assim como se não desloca nem se precipita, isoladamente, um átomo no concerto sideral dos mundos infinitos, assim também não há pensamento, ideia, sentimento, isolados no conceito consciencial dos seres inteligentes, que atualizam e vivificam o pensamento divino, em ascese indefinida – semper ascendens…
É o que fazia dizer a Luísa Michel: “um ser que morre, uma folha que cai, um mundo que desaparece, não são, nas harmonias eternas, mais que um silêncio necessário a um ritmo que não conhecemos ainda”.
Mas, não daí a concluir que a criatura humana se reduza à condição de autômato, sem vontade e sem arbítrio, porque nada a revelia da Lei se verifica; Francisco Cândido Xavier – Parnaso de Além-túmulo e no jogo dessa atuação constante, o ascendente dos desencarnados não vai além das lindes (limites) assinadas pela Providência; não ultrapassa, jamais, a capacidade receptiva do percipiente, seja para o bem, seja para o mal.
Não é, contudo, desse mediunismo sutil, intrínseco, consubstancial à natureza humana, que importa tratar aqui.
Nem remontaríamos aos filões da História para considerar-lhe a identidade aos tempos da Índia, do Egito, da Grécia, das Gálias e de Roma, em trânsito para a Idade Média, na qual os médiuns eram imolados ao mais estúpido dos fanatismos – o religioso.
Hoje, fogueira e potro foram substituídos pela difamação, pelo ridículo alvar, pago em boa espécie monetária, ou ainda pelo cerco caviloso e interditório de quaisquer vantagens sociais.
A luta tornou-se incruenta, mas, nem por isso, menos áspera e porfiosa.
Afirma-se que a mediunidade é fonte de mercantilismo: entretanto, nenhum grande médium, que o saibamos, chegou a acumular fortuna e rendimentos.
Muitos, pelo contrário, como o sr. Home, Slade, Eusápia e d’Espérance, morreram paupérrimos e, o que mais é, tendo a panejar-lhes a memória o labéu de charlatães.
Mas houvesse de fato esse mercantilismo e nunca se justificaria, senão por abusivo e espúrio, de vez que a Doutrina o não autoriza, sequer por hipótese.
Porque, na verdade, assim se escreve a História e o maior dos médiuns, o Médium de Deus, só escapou ao estigma da posteridade pela porta escusa do concílio de Niceia, numa divinização acomodatícia e rendosa ao formigamento parasitário e onímodo dos Constantinos, que, ainda hoje, lhe exploram os feitos e o nome augusto, com bulas políticas de vulpina retórica, factícios pruridos de grosseira mistificação, em bonsolatrias de cimento armado.
Entretanto, como a confirmar a tradição “os Santos Apóstolos foram, em sua maioria, humildes pescadores” – e não só a tradição como a sentença de que os últimos seriam os primeiros –, não veem hoje os vexilários da Verdade trazê-la aos magnatas da Terra, aos príncipes dos sacerdotes, escribas e fariseus hodiernos, disputantes à compita da magnífica carapuça a eles talhada e ajustada de vinte séculos, no capítulo 23 de Mateus.
Ao contrário, esses esculcas do Além parece preferirem os operários modestos, modestos e rústicos, rústicos e bons, como tão sutilmente os define o Eça em magistral mensagem:
“Tipos originais, mãos calosas que se entregam aos rudes trabalhos braçais, a fazerem a literatura do além-túmulo; homens a que Tartufo chama bruxos e Esculápio qualifica de basbaques, mistificadores, ou simples casos patológicos a estudar…”
É verdade tudo isso; mas, convenhamos, também o é para maior glória de Deus.
Não ignoramos que homens de alta cultura e renome científico têm versado o assunto, investigado, perquirido e proclamado a verdade, acima e além das conveniências e preconceitos políticos, científicos, religiosos. Nomeá-los aqui, seria fastidioso quanto inútil.
O vulgo que não lê, ou que lê pela cartilha do Sr. vigário nos conselhos privados da família beata, não deitaria os seráficos olhares a estas páginas e seguiria, clamoroso ou contente, de qualquer forma inconsciente, – infinitus stultorum numerus (número infinito de tolos) – a derrota do seu calvário, no melhor dos mundos, à Pangloss.
O outro, o vulgo que lê e compreende, mas para o qual o magister dixit (o professor disse) é a melhor fórmula de concessão e acomodação consigo mesmo, estômago e vísceras em função, sofra a quem sofrer, doa a quem doer – esse, bazofiando ciência em gestos largos de animalidade superior, se estas linhas chegasse a ler, haveria de esboçar aquele sorriso fino e bom que Bonnemére não sabia definir se seria de Voltaire, ou do mais refinado dos idiotas…
Adiante, pois, na tarefa nada espartana de apresentar esta prova opima das esmolas de luz que nos chegam em revoada de graças, a encher-nos o coração de alvissareiras esperanças.
Quem quiser certezas maiores, explanações técnicas e eruditas do fenômeno em apreço, que as procure no livro “Do País da Luz”, obra similar, editada há uma vintena de anos. Psicografada pelo médium português Fernando de Lacerda, e que fez, nas rodas profanas de Lisboa, o mais ruidoso sucesso.
Nessa obra, o ilustre Dr. Sousa Couto, em magistral prefácio, esgotou o assunto ao encará-lo sob todos os prismas de uma severa crítica, para concluir pela transcendência do fenômeno, rebelde a todos os métodos de classificação científica e, sem embargo, realíssimo em sua especificidade.
Pois, a nosso ver, maior é o mérito, por mais opulenta a polpa mediúnica, desta obra.
É que lá em “Do País da Luz”, avulta a prosa, com exceções; ao passo que aqui desborda o verso, mais original, mais difícil, mais precioso como índice de autenticidade autoral.
Lá, as mensagens características são exclusivas de escritores lusos, únicas que podem, a rigor, identificar pelo estilo os seus autores.
As de Napoleão I, Teresa de Jesus, etc., são incontestavelmente belas no fundo e na forma, mas não características de tais entidades.
Aqui, pelo contrário, não só concorrem poetas brasileiros e portugueses, como retinem cristalinas e contrastantes as mais variadas formas literárias, como a facilitarem de conjunto a identificação de cada um.
Romantismo, Condoreirismo, Parnasianismo, Simbolismo, aí se ostentam em louçanias de sons e de cores, para afirmar não mais subjetiva, mas objetivamente, a sobrevivência dos seus intérpretes.
É ler Casimiro e reviver Primaveras; é recitar Castro Alves e sentir Espumas flutuantes; é declamar Junqueiro e lembrar a Morte de Dom João; é frasear Augusto dos Anjos e evocar Eu.
Senão, vejamos:
Oh! Que clarão dentro d’alma.
Constantemente cismando.
O pensamento sonhando
E o coração a cantar,
Na delicada harmonia
Que nascia da beleza,
Do verde da Natureza,
Do verde do lindo mar!
É Casimiro…
Há mistérios peregrinos
No mistério dos destinos
Que nos mandam renascer;
Da luz do Criador nascemos.
Múltiplas vidas vivemos,
Para a mesma luz volver.
É Castro Alves…
Pairava na amplidão estranho resplendor.
A Natureza inteira em lúcida poesia
Repousava, feliz, nas preces da harmonia!…
Era o festim do amor,
No firmamento em luz,
Que celebrava
A grandeza de uma alma que voltava
Ao redil de Jesus.
É Junqueiro…
Descansa, agora vibrião das ruínas.
Esquece o verme, as carnes, os estrumes.
Retempera-te em meio dos perfumes
Cantando à luz das amplidões divinas.
É Augusto dos Anjos.
E todos, todos os mais, aí estão vivos, ardentes, inconfundíveis na modulação de suas liras encantadas e decantadas.
E na prosa – exceto a Fernando de Lacerda, cujo estilo não temos elementos para identificar – o mesmo traço de originalidade personalíssima se impõe.
Duvidamos que o mais solerte plumitivo, o mais intelectual dos nossos literatos consiga imitar, sequer, ainda que premeditadamente, esta produção.
E isto o dizemos porque o médium Xavier, um quase adolescente, sem lastro, portanto, de grande cultura e treino poético, recebe-a de jacto, e mais – quando de alguns autores não conhece uma estrofe!
É extraordinário, será maravilhoso, mas é a verdade nua e crua; verdade que, qual a Luz, não pode ficar debaixo do alqueire.
Foi por assim pensarmos que conseguimos vencer a relutância do médium em sua natural modéstia para lançar ao público, em geral, e aos confrades, em particular, esta obra mediúnica, que, certo estamos, ficará como baliza fulgurante, na história a tracejar do Espiritismo em nossa pátria.
Mas, perguntarão: – quem é Francisco Cândido Xavier? Será um rapaz culto, um bacharel formado, um acadêmico, um rotulado desses que por ai vão felicitando a Família, a Pátria e a Humanidade?
Nada disso.
O médium polígrafo Xavier é um rapaz de 21 anos, um quase adolescente, nascido ali assim em Pedro Leopoldo, pequeno rincão do Estado de Minas. Filho de pais pobres, não pôde ir além do curso primário dessa pedagogia incipiente e rotineira, que faz do mestre-escola, em tese, um galopim eleitoral e não vai, também em tese, muito além das quatro operações e da leitura corrida, com borrifos de catecismo católico, de contrapeso.
Órfão de mãe aos 5 anos, o pai infenso a literatices e, ao demais, premido pelo ganha-pão, é bem de ver-se que não teve, que não podia ter o estímulo ambiente, nem uma problemática hereditariedade, nem um, nem dez cireneus que o conduzissem por tortuosos e torturantes labirintos de acesso aos altanados paços do Olimpo para o idílico convívio de Caliope e Polímnia.
Tudo isso é o próprio médium quem no-lo diz, em linguagem eloquente, porque simples como a própria alma cedo esfolhada de sonhos e ilusões, para não pretender colimar renomes literários.
Ao lhe formularmos um questionário que nos habilitasse a pôr de plano estes detalhes essenciais – de vez que, em obra deste quilate o que se impõe não é a apresentação dos operários, mas da ferramenta por eles utilizada, tanto quanto do seu manuseio; e não querendo, por outro lado, endossar um fenômeno cuja ascendência sobejamente conhecemos para não refusar, mas, cujo flagrante não presenciamos – ele, o médium, veio “candidamente” ao nosso encontro com “Palavras Minhas”, nas quais estereotipa a sua figura moral, tanto quanto retrata as impressões psicofísicas que lhe causa o fenômeno.
Nós mesmo vimos, certa vez, em São Paulo, o médium Mirabelli cobrir dezoito laudas de papel almaço, no exíguo tempo de 13 minutos marcados a relógio, enquanto conosco discreteava em idioma diverso da mensagem escrita.
É um fato. Do seu mecanismo intrínseco e extrínseco, porém, nada nos disse o médium.
Agora, diz-nos este que também as produções são recebidas de jacto.
Não há ideação prévia, não há encadeamento de raciocínios, fixação de imagens.
É tudo inesperado, explosivo, torrencial!
Do que escreve e sabe que está escrevendo, também sabe que não pensou e não seria capaz de escrever.
Há vocábulos de étimo que desconhece; há fatos e recursos de hermenêutica. figuras de retórica, que ignora; teorias científicas, doutrinas, concepções filosóficas das quais nunca ouviu falar, de autores também ignorados e jamais lidos!
Como explicar, como definir e transfixar a captação, a realização essencial do fenômeno?
Só o médium poderia fazê-lo, e isso ele o faz a seguir, de maneira impressionante, e de modo a satisfazer aos familiares da Doutrina.
Aos outros, aos cépticos, fica-lhes a liberdade de conjeturar, para melhor explicar, sem contudo negar, porque o fato aí está na plenitude de sua realidade, e um fato, por mais insólito que seja, vale sempre por mil e uma teorias, que nada explicam, antes complicam…
Como nota final aos argos da crítica, Catões e Zoilos de compasso e metro, faisqueiros de nugas e nicas, na volúpia de escandir quand même, diremos que, encarregado de apresentar esta obra, não nos dispusemos a escoimá-la de possíveis defeitos de técnica, não só por nos falecer autoridade e competência, como por julgar que tal ousio seria uma profanação.
Trata-se, precipuamente, de um trabalho de identificação autoral, e de entidades hoje mais lúcidas e respeitáveis do que porventura o foram aqui na Terra.
Tal como no-lo deram, esse trabalho melhor corresponde à sua finalidade altíssima, e o que a legítima ética doutrinária aponta é que quaisquer lacunas, ou taliscas, devem ser atribuídas ou irrogadas ao possivelmente precário aparelhamento de transmissão, ou a fatores outros, em suma, que mal podemos imaginar e que, no entanto, racional e logicamente devem existir, mais sutis e delicados do que esses que, amiúde, ocorrem na telepatia, na radiofonia, em tudo, enfim, que participa do meio físico contingente.
Que os arautos da Boa Nova aqui escalonados, por vindos de tão alto, nos perdoem a vacuidade e a insulsice destas linhas e que os leitores de boa vontade as desprezem como inúteis, para só apreçarem a obra que ora lhes apresentamos, na pauta evangélica que diz: – A árvore se conhece pelo fruto.
M. Quintão
M. Quintão (MANUEL Justiniano de Freitas QUINTÃO, nascido em 28 de maio de 1874, na Estação de Quirino, Marquês de Valença, RJ, e desencarnado em 16 de dezembro de 1954, no Rio de Janeiro. Foi guarda-livros, depois de lutar com imensas dificuldades, como jovem sem recursos financeiros, nas posições mais modestas do comércio. Chefe de família numerosíssima, estudioso incansável, conseguiu, como autodidata, invejável cultura humanística. Foi jornalista. Ingressou na FEB em 1903, integrando-lhe o quadro social por 44 anos. Médium curador e espírita militante durante mais de meio século, exerceu cargos na Diretoria da Federação Espírita Brasileira ao longo de vários decênios, inclusive a Presidência nos anos 1915, 1918. 1919 e 1929. Como membro do Grupo Ismael, foi sempre dos mais assíduos e proficientes no estudo do Evangelho de Jesus. Traduziu diversos livros espíritas e publicou alguns de sua autoria, muito apreciados, dentre eles “Cinzas do meu Cinzeiro” (coletânea de trabalhos publicados no “Reformador”) e “O Cristo de Deus”, este último editado pela FEB. Em 1939, escreveu notas autobiográficas endereçadas ao Reformador, para serem publicadas após a sua desencarnação; estão estampadas na edição de janeiro de 1955). (Nota do Editor.)
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