Em Jerusalém

Velha Jerusalém
Jerusalém, localizada em um planalto nas montanhas da Judeia entre o Mediterrâneo e o mar Morto, é uma das cidades mais antigas do mundo.

Depois de contemplar angustiadamente o cadáver paterno, o jovem hebreu acompanhou a irmã, de olhar ansioso, até a porta de acesso a um dos vastos corredores da prisão. Jamais experimentara tão profunda emoção. Ao cérebro atormentado acudiam-lhe os conselhos maternos, quando asseverava que a criatura, acima de tudo, devia amar a Deus. Jamais conhecera lágrimas tão amargas como aquelas que lhe fluíam em torrente, do coração dilacerado.
Como reaver a coragem e reorganizar o caminho? Desejou, num relance, romper as algemas, aproximar-se do pai inanimado, afagar-lhe os cabelos brancos e, simultaneamente, abrir todas as portas, correr no encalço de Abigail, tomá-la nos braços para nunca mais se apartarem nas estradas da vida. Debalde se estorceu no tronco do martírio, porque, em retribuição aos esforços, somente o sangue manava mais copioso das feridas abertas.
Singultos dolorosos abalavam-lhe o peito, a cuja altura a túnica se fizera em rubros frangalhos. Abismado em si mesmo, finalmente foi recolhido a um a cela úmida, onde, por trinta dias, mergulhou o pensamento em profundas cogitações.
Ao fim de um mês, as feridas estavam cicatrizadas e um dos prepostos de Licínio julgou chegado o momento de o encaminhar a uma das galeras do tráfego comercial, onde se encontrava o questor, interessado em assuntos lucrativos.
O moço hebreu perdera o viço róseo das faces e o tom ingênuo da fisionomia carinhosa e alegre. A rude experiência dera-lhe uma expressão dolorosa e sombria. Vagava-lhe no semblante indefinível tristeza e na fronte apontavam rugas precoces, nunciativas de velhice prematura; nos olhos, porém, a mesma serenidade doce, oriunda da íntima confiança em Deus.
Como outros descendentes da sua raça, sofrera o sacrifício pungente; todavia, guardara a fé, como a auréola divina dos que sabem verdadeiramente agir e esperar. O autor dos Provérbios recomendara, como imprescindível, a serenidade da alma em todas as flutuações da vida humana, porque dela procedem as fontes mais puras da existência e Jeziel guardara o coração. Órfão de pai e mãe, cativo de verdugos cruéis, saberia conservar o tesouro da esperança e procuraria a irmã, até aos confins do mundo, se um dia conseguisse, de novo, o beijo da liberdade na fronte escravizada.
Seguido de perto por sentinelas impiedosas, qual se fora um vagabundo vulgar, cruzou as ruas de Corinto até o porto, onde o internaram no porão infecto de uma galera adornada com o símbolo das águias dominadoras.
Reduzido à mísera condição de condenado a trabalhos perpétuos, enfrentou a nova situação cheio de confiança e humildade. Foi com admiração que o feitor Lisipo anotou-lhe a boa conduta e o esforço nobre e generoso.
Habituado a lidar com malfeitores e criaturas sem escrúpulos, que, não raro, requeriam a disciplina do chicote, surpreendeu-se ao reconhecer no moço hebreu a disposição sincera de quem se entregava ao sacrifício, sem rebeldias e sem baixeza.
Manejando os remos pesados com absoluta serenidade, como quem se dava a uma tarefa habitual, sentia o suor abundante inundar-lhe a face juvenil, relembrando, comovido, os dias laboriosos da sua charrua amiga. Em breve, o feitor reconhecia nele um servo digno de estima e consideração, que soubera impor-se aos próprios companheiros com o prestígio da natural bondade que lhe transbordava da alma.
— Ai de nós! — exclamou um colega desalentado.
— São raros os que resistem a estes remos malditos, por mais de quatro meses!…
— Mas todo o serviço é de Deus, amigo — respondeu Jeziel altamente inspirado —, e desde que aqui nos encontramos em atividade honesta e de consciência tranquila, devemos guardar a convicção de servos do Criador, trabalhando em suas obras.
Para todas as complicações da nova modalidade de sua existência, tinha uma fórmula conciliatória, harmonizando os ânimos mais exaltados. O feitor surpreendia-se com a delicadeza do seu trato e capacidade de trabalho, que se aliavam aos mais altos valores da educação religiosa recebida no lar.
No bojo escuro da embarcação, sua firmeza de fé não se modificara. Dividia o tempo entre os labores rudes e as sagradas meditações. A todos os pensamentos, sobrelevava a saudade do ninho familiar, com a esperança de rever a irmã algum dia, por mais que se lhe dilatasse o cativeiro.
De Corinto, a grande embarcação aproara em Cefalônia e Nicópolis, de onde deveria regressar aos portos da linha de Chipre, depois de ligeira passagem pela costa da Palestina, consoante o itinerário organizado para aproveitar o tempo seco e tendo em vista que o inverno paralisava toda a navegação.
Afeito ao trabalho, não lhe foi difícil adaptar-se à pesada faina de carga e descarga do material transportado, à manobra dos remos implacáveis e à assistência aos poucos passageiros, sempre que lhe requisitavam préstimos, sob o olhar vigilante de Lisipo.
Voltando de Cefalônia, a galera recebeu um passageiro ilustre. Era o jovem romano Sérgio Paulo, que se dirigia para a cidade de Citium, em comissão de natureza política. Com destino ao porto de Nea-Pafos, onde alguns amigos o esperavam, o moço patrício se constituiu, desde logo, entre todos, alvo de grandes atenções. Dada a importância do seu nome e o caráter oficial da missão a ele cometida, o comandante Sérvio Carbo lhe reservou as melhores acomodações.
Sérgio Paulo, entretanto, muito antes de aportarem novamente em Corinto, onde a embarcação deveria permanecer alguns dias, em prosseguimento da rota prefixada, adoeceu com febre alta, abrindo-se-lhe o corpo em chagas purulentas. Comentava-se, à sorrelfa, que nas cercanias de Cefalônia grassava uma peste desconhecida. O médico de bordo não conseguiu explicar a enfermidade e os amigos do enfermo começaram a retrair-se com indisfarçável escrúpulo. Ao fim de três dias, o jovem romano achava-se quase abandonado, O comandante, preocupado, por sua vez, com a própria situação e receoso por si mesmo, chamou Lisipo, pedindo-lhe que indicasse um escravo, dos mais educados e maneirosos, capaz de incumbir-se de toda a assistência ao passageiro ilustre, O feitor designou Jeziel, incontinenti, e, na mesma tarde, o moço hebreu penetrou no camarote do enfermo, com o mesmo espírito de serenidade que costumava testemunhar nas situações mais díspares e arriscadas.
Sérgio Paulo tinha o leito em desalinho. Não raro, levantava-se de súbito, no auge da febre que o fazia delirar, pronunciando palavras desconexas e agravando, com o movimento dos braços, as chagas que sangravam em todo o corpo.
— Quem és tu? — perguntou o doente em delírio, logo que enxergou a figura silenciosa e humilde do jovem de Corinto.
— Chamo-me Jeziel, o escravo que vos vem servir. E a partir daquele momento, consagrou-se ao enfermo com todas as reservas da sua afetividade.
Com a permissão dos amigos de Sérgio, utilizou todos os recursos de que podia dispor a bordo, imitando a medicação aprendida no lar. Dias seguidos e longas noites, velou à cabeceira do ilustre romano, com devotamento e boa vontade. Banhos, essências e pomadas eram manipulados e aplicados com extrema dedicação, como se estivesse a tratar um parente íntimo e muito caro.
Nas horas mais críticas da enfermidade dolorosa, falava-lhe de Deus, recitava trechos antigos dos profetas, que trazia de cor, cumulando-o de consolações e carinho fraternal.
Sérgio Paulo compreendeu a gravidade do mal que afastara os amigos mais caros e, no convívio daqueles dias, afeiçoou-se ao enfermeiro humilde e bom. Depois de alguns dias em que Jeziel conquistara plenamente a sua admiração e o seu reconhecimento, pelos atos de inexcedível bondade, o doente entrou em rápida convalescença, com manifestações de geral alegria.
E contudo, na véspera de regressar ao porão abafado, o jovem cativo apresentou os primeiros sintomas da moléstia desconhecida que grassava em Cefalônia.
Após entender-se com alguns subordinados de categoria, o comandante chamou a atenção do patrício, já quase restabelecido, e lhe pediu aprovação para o projeto de lançar o jovem ao mar.
— Será preferível envenenar os peixes, antes que afrontar o perigo do contágio e arriscar tantas vidas preciosas — esclarecia Sérvio Carbo com malicioso sorriso.
O patrício refletiu um instante e reclamou a presença de Lisipo, entrando os três a tratar do assunto.
— Qual a situação do rapaz? — perguntou o romano com interesse.
O feitor passou a esclarecer que o jovem hebreu lhe viera com outros homens capturados por Licínio Minucio, por ocasião dos últimos distúrbios da Acaia. Lisipo, que simpatizava extremamente com o moço de Corinto, procurou pintar com fidelidade a correção da sua conduta, suas maneiras distintas, a benéfica influência moral que ele exercia sobre os companheiros muitas vezes desesperados e insubmissos.
Depois de longas considerações, Sérgio ponderou com profunda nobreza:
— Não posso admitir que Jeziel seja atirado ao mar com a minha aquiescência. Devo a esse escravo uma dedicação que equivale à minha própria vida. Conheço Licínio e, se necessário, poderei esclarecê-lo mais tarde sobre esta minha atitude. Não duvido que a peste de Cefalônia esteja trabalhando o seu organismo e, por isso mesmo, é que lhes peço a cooperação necessária, a fim de que esse jovem fique liberto para sempre.
— Mas isso é impossível… — exclamou Sérvio reticenciosamente.
— Por que não? — revidou o romano. — Em que dia atingiremos o porto de Jope?
— Amanhã, à noitinha.
— Pois bem; espero que vocês não se oponham aos meus planos, e tão logo alcancemos o porto, levarei Jeziel num bote até as margens, pretextando o ensejo de exercício muscular, que preciso recomeçar. Aí, então, lhe daremos liberdade. É um feito que se me impõe, em obediência aos meus princípios.
— Mas, senhor… — obtemperou o comandante indeciso.
— Não aceito quaisquer restrições, mesmo porque Licínio Minucio é um velho camarada de meu pai.
E continuou, depois de refletir um momento:
— Não ias atirar o rapaz ao fundo do mar?
— Sim.
— Pois fase constar nos teus apontamentos que o escravo Jeziel, atacado de mal desconhecido, contraído em Cefalônia, foi sepultado no mar, antes que a peste contagiasse os tripulantes e passageiros. Para que o rapaz não se comprometa, instruí-lo-ei a respeito, dando-lhe umas tantas ordens terminantes. Além disso, noto-o bastante enfraquecido para resistir com êxito às crises culminantes da moléstia ainda em começo. Quem poderá garantir que ele resistirá? Quem sabe morrerá ao abandono, no segundo minuto de liberdade? O comandante e o feitor trocaram um olhar inteligente, de implícito acordo mútuo.
Depois de longa pausa, Sérvio concordou, dando-se por vencido: — Está bem, seja.
O moço patrício estendeu a mão aos dois e murmurou:
— Por este obséquio ao meu dever de consciência, poderão sempre dispor em mim de um amigo.
Daí a instantes, Sérgio acercou-se do jovem, semiadormecido junto do seu camarote e já tomado da febre em começo de explosão, dirigindo-lhe a palavra com delicadeza e bondade:
— Jeziel, desejarias voltar à liberdade?
— Oh! senhor, exclamou o jovem reanimando o organismo com um raio de esperança.
— Quero compensar a dedicação que me dispensaste nos longos dias da minha enfermidade.
— Sou vosso escravo, senhor. Nada me deveis.
Ambos falavam o grego e, refletindo subitamente na situação de futuro, o patrício interrogou:
— Sabes o idioma comum da Palestina?
— Sou filho de israelitas, que me ensinaram a língua materna nos mais verdes anos.
— Então, não te será difícil recomeçar a vida nessa província.
E medindo as palavras, como se temesse alguma surpresa contrária aos seus projetos, acentuou:
— Jeziel, não ignoras que te encontras enfermo, talvez tão gravemente quanto eu, há alguns dias. O comandante, atento à possibilidade de um contágio geral, dada a presença de numerosos homens a bordo, pretendia lançar-te ao mar; contudo, amanhã de tarde chegaremos a Jope e hei de valer-me dessa circunstância para devolver-te à vida livre. Não desconheces, todavia, que, assim procedendo, estou a infringir certas determinações importantes que regem os interesses de meus compatriotas, e é justo pedir-te sigilo do meu feito.
— Sim, senhor — respondeu o rapaz extremamente abatido, tentando com dificuldade coordenar as ideias.
— Sei que dentro em pouco a enfermidade assumirá graves proporções, prosseguiu o benfeitor. Dar-te-ei a liberdade, mas só o teu Deus poderá conceder-te a vida. Entretanto, caso te restabeleças, deverás ser um novo homem, com um nome diferente. Não desejo ser inculpado de traidor dos meus próprios amigos e devo contar com a tua cooperação.
— Obedecer-vos-ei em tudo, senhor.
Sérgio lançou-lhe um olhar generoso e terminou:
— Tomarei todas as providências. Dar-te-ei algum dinheiro para atenderes as primeiras necessidades e vestirás uma de minhas velhas túnicas; mas, tão logo seja possível, vai-te de Jope para o interior da província. O porto está sempre cheio de marinheiros romanos, curiosos e maleficentes.
O enfermo fez um gesto de agradecimento, enquanto Sérgio se retirava para atender ao chamado de alguns amigos.
No dia imediato, à hora esperada, o casario palestinense estava à vista. E quando luziam os primeiros astros da noite, pequeno batel aproximava-se de local silencioso das margens, tripulado por dois homens cujos vultos se perdiam na sombra. Derradeiras palavras de bom conselho e despedida, e o moço hebreu osculou, comovidamente, a destra do benfeitor, que voltou à galera apressado, de consciência tranquila.
Mal não dera os primeiros passos, Jeziel sentou-se premido pelas dores gerais que lhe tomavam todo o corpo e pelo abatimento natural, consequente à febre que o consumia. Ideias confusas dançavam-lhe no cérebro. Queria pensar na ventura da libertação; desejava fixar a imagem da irmã, que haveria de procurar no primeiro ensejo; mas estranho torpor infirmava-lhe as faculdades, acarretando-lhe sonolência invencível. Olhou, indiferente, as estrelas que povoavam a noite refrescada pelas brisas marinhas. Reparou que havia movimento nas casas próximas, mas deixou-se, ficar inerte no matagal a que se recolhera, junto da praia. Pesadelos estranhos dominaram-lhe o repouso físico, enquanto o vento lhe acariciava a fronte febril.
De madrugada, acordou ao contacto de mãos desconhecidas, que lhe revistavam atrevidamente os bolsos da túnica.
Abrindo os olhos, estremunhado, notou que os primeiros clarões da alvorada listravam os horizontes. Um homem de fisionomia sagaz inclinava-se para ele, procurando alguma coisa, com ansiedade que o moço hebreu adivinhou de pronto, convencido de haver topado um desses malfeitores comuns, ávidos da bolsa alheia. Estremeceu e fez um movimento involuntário, observando que o assaltante inesperado alçara a mão direita, empunhando um instrumento, na iminência de exterminar-lhe a vida.
— Não me mates, amigo — balbuciou com voz trêmula.
A essas palavras, ditas comovedoramente, o meliante susteve o golpe homicida.
— Dar-vos-ei todo o dinheiro que possuo — rematou o rapaz com tristeza.
E, vasculhando a algibeira em que guardara o escasso dinheiro que lhe dera o patrício, tudo entregou ao desconhecido, cujos olhos fulguraram de cobiça e prazer. Num relance, aquela fisionomia contrafeita transformava-se no semblante risonho de quem deseja aliviar e socorrer.
— Oh! sois excessivamente generoso! — murmurara, apossando-se da bolsa recheada.
— O dinheiro é sempre bom — disse Jeziel — quando com ele podemos adquirir a simpatia ou a misericórdia dos homens.
O interlocutor fingiu não perceber o alcance filosófico daquelas palavras e asseverou:
– Vossa bondade, entretanto, dispensa o concurso de quaisquer elementos estranhos para a conquista de bons amigos. Eu, por exemplo, dirigia-me agora para o meu trabalho no porto, mas experimentei tanta simpatia pela vossa situação que aqui estou para quanto vos preste.
— Vosso nome?
— Irineu de Crotona, para vos servir — respondeu o interpelado, visivelmente satisfeito com o dinheiro que lhe refertava o bolso.
— Meu amigo — exclamou o rapaz extremamente enfraquecido —, estou enfermo e não conheço esta cidade, de modo a tomar qualquer resolução.
Podeis indicar-me algum albergue ou alguém que me possa prestar a caridade de um asilo?
Irineu esboçou uma fácies de fingida piedade e respondeu:
— Pesa-me nada ter para colocar à disposição de vossas necessidades; e também não sei onde possa existir um abrigo adequado para receber-vos, como se faz preciso. A verdade é que, para a prática do mal, todos estão prontos, mas para fazer o bem…
Depois, concentrando-se por momentos, acrescentou:
— Ah! Agora me lembro!… Conheço umas pessoas que vos podem auxiliar.
São os homens do “Caminho”. (Primitiva designação do Cristianismo. – Nota de Emmanuel.)
Mais algumas palavras e Irineu prontificou-se a conduzi-lo ao conhecido mais próximo, amparando-lhe o corpo enfermo e vacilante.
O sol caricioso da manhã começava a despertar a Natureza com os seus raios quentes e confortadores. Feita a reduzida caminhada por um atalho agreste, sustido pelo meliante arvorado em benfeitor, Jeziel parava à porta de uma casa de aparência humilde. Irineu entrou e de lá regressou com um homem idoso, de semblante agradável, que estendeu a mão, cordialmente, ao moço hebreu, dizendo:
— De onde vens, irmão?
O rapaz admirou-se de tanta afabilidade e delicadeza, num homem a quem via pela primeira vez. Por que lhe dava o título familiar, reservado ao círculo mais íntimo dos que nasciam sob o mesmo te to?
— Por que me chamais irmão, se não me conheceis? — interrogou comovido.
Mas o interpelado, renovando o sorriso generoso, acrescentava:
— Somos todos uma grande família em Cristo Jesus.
Jeziel não compreendeu. Quem seria aquele Jesus? Um novo deus para os que desconheciam a lei? Reconhecendo que a enfermidade não lhe dava ensanchas a cogitações religiosas ou filosóficas, respondeu simples mente:
Deus vos recompense pela generosidade da acolhida. Venho de Cefalônia, tendo adoecido gravemente em viagem, e assim é que, neste estado, recorro a vossa caridade.
— Efraim — disse Irineu dirigindo-se ao dono da casa —, nosso amigo tem febre e o seu estado geral requer cuidados. Você, que é um dos bons homens do “Caminho”, há de acolhê-lo com o coração dedicado aos que sofrem.
Efraim aproximou-se mais do jovem enfermo e observou:
— Não é o primeiro doente de Cefalônia que o Cristo envia à minha porta.
Ainda anteontem, outro aqui surgiu com o corpo crivado de feridas de mau caráter. Aliás, conhecendo a gravidade do caso, pretendo logo à tarde levá-lo para Jerusalém.
— Mas, é necessário ir tão longe? — perguntou Irineu com certo espanto.
— Somente lá, temos maior número de cooperadores — esclareceu com humildade.
Ouvindo o que diziam e considerando a necessidade de ausentar-se do porto em obediência às recomendações do patrício que se lhe mostrara tão amigo, restituindo-o à liberdade, Jeziel dirigiu-se a Efraim num apelo humilde e triste:
— Por quem sois! levai-me para Jerusalém convosco, por piedade!…
O interpelado, evidenciando natural bondade, anuiu sem maior estranheza:
— Irás comigo.
Abandonado por Irineu aos cuidados de Efraim, o doente recebeu carinhos de um verdadeiro amigo. Não fosse a febre e teria travado com o irmão um conhecimento mais íntimo, procurando conhecer minuciosamente os nobres princípios que o levaram a estender-lhe a mão protetora. Contudo, mal conseguiu manter-se de pensamento vigilante sobre si mesmo, a fim de elucidar as suas interrogações carinhosas, medicando-se convenientemente.
Ao crepúsculo, aproveitando a frescura da noite, uma carroça, cuidadosamente velada por um toldo de pano barato, saía de Jope com destino a Jerusalém.
Caminhando cuidadoso para não esfalfar a pobre alimária, Efraim transportava os dois enfermos à cidade próxima, buscando os recursos indispensáveis. Descansando aqui e ali, somente na manhã seguinte o veículo parou à porta de um casarão de grandes proporções, aliás paupérrimo em sua feição exterior. Um rapaz de semblante alegre veio atender ao recém-vindo, que o interpelou com intimidade:
—Urias, poderás dizer-me se Simão Pedro está?
—Está, Sim.
—Poderás chamá-lo em meu nome?
—Vou já.
Acompanhado de Tiago, irmão de Levi, Simão apareceu e recebeu o visitante com efusivas demonstrações de carinho. Efraim esclareceu o motivo da sua presença. Dois desamparados do mundo requeriam auxílio urgente.
—Mas é quase impossível – atalhou Tiago. – Estamos com quarenta e nove doentes acamados.
Pedro esboçou um sorriso generoso e obtemperou:
—Ora, Tiago, se estivéssemos pescando, seria justo nos eximíssemos desse ou daquele dever que exorbitasse a esfera das obrigações inadiáveis de cada dia, junto da família, cuja organização vem de Deus; mas agora o Mestre nos legou o trabalho de assistência a todos os seus filhos, no sofrimento.
Presentemente, nosso tempo se destina a isso; vejamos, pois, o que é possível fazer.
E o bondoso Apóstolo adiantou-se para acolher os dois infelizes.
Desde que viera do Tiberíades para Jerusalém, Simão transformara-se em célula central de grande movimento humanitarista. Os filósofos do mundo sempre pontificaram de cátedras confortáveis, mas nunca desceram ao plano da ação pessoal, ao lado dos mais infortunados da sorte. Jesus renovara, com exemplos divinos, todo o sistema de pregação da virtude.
Chamando a si os aflitos e os enfermos, inaugurara no mundo a fórmula da verdadeira benemerência social.
As primeiras organizações de assistência ergueram-se com o esforço dos apóstolos, ao influxo amoroso das lições do Mestre.
Era por esse motivo que a residência de Pedro, doação de vários amigos do “Caminho”, regurgitava de enfermos e desvalidos sem esperança. Eram velhos a exibirem úlceras asquerosas, procedentes de Cesareia; loucos que chegavam das regiões mais longínquas, conduzidos por parentes ansiosos de alívio; crianças paralíticas, da Idumeia, nos braços maternais, todos atraídos pela fama do profeta nazareno, que ressuscitava os próprios mortos e sabia restituir tranquilidade aos corações mais infortunados do mundo.
Natural era que nem todos se curassem, o que obrigava o velho pescador a agasalhar consigo todos os necessitados, com carinho de um pai.
Recolhendo-se ali, com a família, era auxiliado particularmente por Tiago, filho de Alfeu, e por João; mas, em breve, Filipe e suas filhas instalavam-se igualmente em Jerusalém, cooperando no grande esforço fraternal.
Tamanho o movimento de necessitados de toda sorte, que há muito Simão não mais podia entregar-se a outro mister, no concernente à pregação da Boa Nova do Reino. A dilatação desses misteres vinculara o antigo discípulo aos maiores núcleos do judaísmo dominante. Obrigado a valer-se do socorro dos elementos mais notáveis da cidade, Pedro sentia-se cada vez mais escravo dos seus amigos benfeitores e dos seus pobres beneficiados, acorridos de toda parte, em grau de recurso supremo ao seu espírito de discípulo abnegado e sincero.
Atendendo às solicitações confiantes de Efraim, providenciou para que ambos os enfermos fossem instalados na sua casa pobre.
Jeziel ocupou leito asseado e singelo, em estado de completa inconsciência, no delírio da febre que o prostrava. Suas palavras desconexas, entretanto, revelavam tão exato conhecimento dos textos sagrados, que Pedro e João se interessaram de modo especial por aquele jovem de faces macilentas e tristes. Mormente Simão, passava longas horas entretido em ouvi-lo, anotando-lhe os conceitos profundos, embora filhos da exaltação febril.
Decorridas duas semanas exaustivas, Jeziel melhorou, rearmonizando as próprias faculdades para melhor analisar e sentir a nova situação. Afeiçoara-se a Pedro, como um filho afetuoso ao legítimo pai. Notando-lhe o carinho, de leito em leito, de necessitado a necessitado, o moço hebreu experimentava deliciosa e íntima surpresa, O ex-pescador de Cafarnaum, relativamente moço ainda, era o exemplo vivo da renúncia fraterna.
Tão logo convalescente, Jeziel foi transferido a ambiente mais calmo, à sombra amena de vetustas tamareiras que circundavam a velha casa.
Entre ambos estabelecera-se, desde os primeiros dias, a corrente magnética das grandes atrações afetivas.
Nessa manhã, as observações amáveis sucediam-se e, não obstante a justa curiosidade que lhe pairava n’alma, a respeito do interessante hóspede, Simão ainda não tinha logrado o ensejo de um intercâmbio de ideias, mais íntimo, de maneira a sondar-lhe os pensamentos, inteirando-se dos seus sentimentos e da sua origem. Ao sopro generoso da aragem matinal, sob as árvores frondosas, o Apóstolo criou ânimo e, a certa altura, depois de distrair o convalescente com alguns ditos afetuosos, buscou penetrar-lhe o mistério, cuidadosamente:
— Amigo — disse com jovial sorriso —, agora que Deus te restituiu a saúde preciosa, regozijo-me por havermos recebido tua visita em nossa casa. Nosso júbilo é sincero, pois que, nos mínimos detalhes da tua permanência entre nós, revelaste a condição espiritual de filho legítimo dos lares organizados com Deus, pelo conhecimento que tens dos textos sagrados. E tanto me impressionei com as tuas referências a Isaías, quando deliravas com febre alta, que desejaria saber de que tribo descendes.
Jeziel compreendeu que aquele amigo sincero, antes irmão carinhoso nas horas mais críticas da enfermidade, desejava conhecê-lo melhor, identificá-lo íntima e profundamente, com delicada argúcia psicológica. Achou justo e considerou que não devia desprezar o amparo de um coração verdadeiramente fraterno, para o acendramento das próprias energias espirituais.
— Meu pai era filho dos arredores de Sebaste e descendia da tribo de Issacar — esclareceu, atencioso.
— E era tão altamente dedicado ao estudo de Isaías?
— Estudava sinceramente todo o Testamento, sem preferências, talvez, de ordem particular. A mim, porém, Isaías sempre me impressionou profundamente pela beleza das promessas divinas de que foi portador, anunciando-nos o Messias, sobre cuja vinda tenho meditado desde a infância.
Simão Pedro esboçou um sorriso de viva satisfação e disse:
— Mas, não sabes que o Messias já veio?
Jeziel teve um brusco sobressalto na cadeira improvisada.
— Que dizeis? — inquiriu ansioso.
— Nunca ouviste falar em Jesus de Nazaré?
Embora recordasse vagamente as palavras ouvidas de Efraim, declarou:
— Nunca!
— Pois o profeta nazareno já nos trouxe a mensagem de Deus para todos os séculos.
E Simão Pedro, olhos acesos na chama luminosa dos que se sentem felizes ao recordar um tempo venturoso, falou-lhe da exemplificação do Senhor, traçando uma perfeita biografia verbal do Mestre sublime.
Em traços de forte colorido, lembrou os dias em que o hospedava no seu tugúrio à margem do Genesaré, as excursões pelas aldeias vizinhas, as viagens de barca, de Cafarnaum aos sítios marginais do lago. Era de se lhe ver a emoção intraduzível da voz, a alegria interior com que rememorava os feitos e prédicas junto ao lago marulhoso, acariciado pelo vento, a poesia e a suavidade dos crepúsculos vespertinos. A imaginação viva do Apóstolo sabia tecer comentários judiciosos e brilhantes ao evocar um leproso curado, um cego que recuperara a vista, uma criancinha doente e prestes restabelecida.
Jeziel bebia-lhe as palavras, inteiramente empolgado, como se houvesse encontrado um mundo novo. A mensagem da Boa Nova penetrava-lhe o espírito desencantado, como um bálsamo suave. Quando Simão parecia prestes a terminar a narrativa, não pôde conter se e perguntou:
— E o Messias? Onde está o Messias?
— Há mais de um ano — exclamou o Apóstolo apagando a vivacidade com a lembrança triste — foi crucificado aqui mesmo em Jerusalém, entre os ladrões.
Em seguida, passou a enumerar os martírios pungentes, as dolorosas ingratidões de que o Mestre fora vítima, os ensinos derradeiros e a gloriosa ressurreição do terceiro dia. Depois, falou dos primeiros dias do apostolado, dos acontecimentos do Pentecostes e das últimas aparições do Senhor, no cenário sempre saudoso da Galileia distante.
Jeziel tinha as pupilas úmidas. Aquelas revelações sensibilizavam-lhe o coração, como se houvesse conhecido o profeta de Nazaré. E, ligando o perfil deste aos textos que retinha de cor, enunciou, quase em voz alta, como se falasse consigo mesmo:
— “Levantar-se-á como um arbusto verde, na ingratidão de um solo árido…
Carregado de opróbrios e abandonado dos homens.
Coberto de ignomínias não merecerá consideração.
Será ele quem carregará o fardo pesado de nossas culpas e sofrimentos, tomando sobre si todas as nossas dores.
Parecerá um homem vergado sob a cólera de Deus…
Humilhado e ferido deixar-se-á conduzir como um cordeiro, mas, desde o instante em que oferecer sua vida, os interesses do Eterno hão de prosperar nas suas mãos. (Do Capítulo 53, de Isaías).
Simão, admirado de tanto conhecimento dos sagrados textos, terminou dizendo:
— Vou buscar-te os textos novos. São as anotações de Levi (Mateus) sobre o Messias redivivo.
E, em breves minutos, o Apóstolo lhe punha nas mãos os pergaminhos do Evangelho. Jeziel não leu; devorou. Assinalou, em voz alta, uma a uma, todas as passagens da narrativa, seguido pela atenção de Pedro intimamente satisfeito.
Terminada a rápida análise, o jovem advertiu:
– Encontrei o tesouro da vida, preciso examiná-lo com mais vagar, quero saturar-me da sua luz, pois aqui pressinto a chave dos enigmas humanos.
Quase em lágrimas, leu o Sermão da Montanha, secundado pelas comovedoras lembranças de Pedro. Em seguida, ambos passaram a comparar os ensinamentos do Cristo com as profecias que o anunciavam.
O jovem hebreu estava comovidíssmo e queria conhecer os mínimos episódios da vida do Mestre. Simão procurava satisfazê-lo, edificado e satisfeito.
O generoso amigo de Jesus, tão incompreendido em Jerusalém, experimentava uma alegria orgulhosa por haver encontrado um jovem que se entusiasmava com os exemplos e ensinamentos do Mestre incomparável.
— Desde que dei acordo de mim em vossa casa —disse Jeziel, — verifiquei que participais de princípios que me não são conhecidos. Tanta preocupação em amparar os desfavorecidos da sorte representa uma lição nova para minha alma. Os doentes que vos abençoam, qual o faço agora, são tutelados desse Cristo que eu não tive a ventura de conhecer.
— O Mestre amparava a todos os sofredores e nos recomendou que o mesmo fizéssemos em seu nome, esclareceu o Apóstolo enfaticamente.
— De acordo com as instruções do Levítico — disse Jeziel —, toda cidade deve possuir, longe de suas portas, um vale, destinado aos leprosos e pessoas consideradas imundas; entretanto, Jesus nos deu um lar no coração daqueles que o seguem.
— O Cristo nos trouxe a mensagem do amor — explicou Pedro —, completou a Lei de Moisés, inaugurando um novo ensinamento. A Lei Antiga é justiça, mas o Evangelho é amor.
Enquanto o código do passado preceituava o “olho por olho, dente por dente”, o Messias ensinou que devemos “perdoar setenta vezes sete vezes” e que se alguém quiser tirar-nos a túnica devemos dar-lhe também a capa.
Jeziel sensibilizou-se e chorou. Aquele Cristo amoroso e bom, suspenso na cruz da ignomínia humana, era a personificação de todos os heroísmos do mundo. Como se aliviava ao analisá-lo! Sentia-se bem por não haver reagido contra o despotismo de que fora vítima. Cristo era o Filho de Deus e não desdenhara o sofrimento. Seu cálice transbordara e Pedro lhe fazia sentir que, nos instantes mais acerbos, aquele Mestre desconhecido e humilde, no mundo, sabia transmitir a lição da coragem, da renúncia e da vida. Como exemplo do seu amor, ali estava aquele homem simples e carinhoso, que lhe chamava irmão, que o acolhia como pai dedicado. O rapaz lembrou seus últimos dias em Corinto e chorou longamente. Foi aí que, abrindo o coração, tomou as mãos de Pedro e contou-lhe toda a sua tragédia, sem nada omitir e rogando-lhe conselhos.
Finalizando a narrativa, acrescentou comovido:
—Revelaste-me a luz do mundo; perdoai, pois, se vos revelo meus sofrimentos, que devem ser justos. Tendes no coração as claridades da palavra do Salvador e haveis de inspirar minha pobre vida.
O Apóstolo abraçou-o e murmurou:
— Julgo prudente guardares o anonimato, pois Jerusalém regurgita de romanos e não seria justo comprometer o generoso amigo que te restituiu à liberdade. Teu caso, entretanto, não é novo, meu amigo. Estou nesta cidade há quase um ano, e, por estes leitos singelos, têm passado as mais singulares criaturas. Eu, que era um paupérrimo pescador, tenho adquirido ampla experiência do mundo, nestes poucos meses! A estas portas têm batido homens esfarrapados, que foram políticos importantes; mulheres leprosas, que foram quase rainhas!
Em contacto com a história de tantos castelos desmoronados, no jogo das vaidades mundanas, agora reconheço que as almas necessitam do Cristo, acima de tudo.
Essas explicações singulares constituíam conforto para Jeziel, que interrogou agradecido:
— E achais que vos poderia servir em alguma coisa? Eu, que era cativo dos homens, desejaria escravizar-me ao Salvador, que soube viver e morrer por todos nós.
— Serás meu filho, doravante — exclamou Simão num transporte de júbilo.
— E já que preciso reformar-me em Cristo, como me chamarei? — perguntou Jeziel com olhos fulgurantes de alegria.
O Apóstolo refletiu algum tempo e falou:
— Para que não te esqueças da Acaia, onde o Senhor se dignou de buscar-te para o seu ministério divino, eu te batizarei no credo novo com o nome grego de Estevão.
Consolidaram-se ainda mais os laços de simpatia que os aproximavam desde o primeiro instante, e o moço jamais olvidaria aquele encontro com o Cristo, à sombra das tamareiras aureoladas de luz.
Durante um mês, Jeziel, agora conhecido por Estevão, absorveu-se no estudo de toda a exemplificação e ensinos do Mestre que não chegara a conhecer de modo direto.
A casa dos apóstolos, em Jerusalém, apresentava um movimento de socorro aos necessitados cada vez maior, requerendo vasto coeficiente de carinho e dedicação. Eram loucos a chegarem de todas as províncias, anciães abandonados, crianças esquálidas e famintas. Não só isso. À hora habitual das refeições, extensas filas de mendigos comuns imploravam a esmola da sopa.
Acumulando as tarefas com ingente sacrifício, João e Pedro, com o concurso dos companheiros, haviam construído um pavilhão modesto, destinado aos serviços da igreja, cuja fundação iniciavam para difundir as mensagens da Boa Nova. A assistência aos pobres, entretanto, não dava tréguas ao labor das ideias evangélicas. Foi quando João considerou irrazoável que os discípulos diretos do Senhor menosprezassem a sementeira da palavra divina e despendessem todas as possibilidades de tempo no serviço do refeitório e das enfermarias, visto que, dia a dia, multiplicava o número de doentes e infelizes que recorriam aos seguidores de Jesus como a última esperança para os seus casos particulares. Havia enfermos que batiam à porta, benfeitores da nova instituição que requeriam situações especiais para os seus protegidos, amigos que reclamavam providências a favor dos órfãos e das viúvas.
Na primeira reunião da igreja humilde, Simão Pedro pediu, então, nomeassem sete auxiliares para o serviço das enfermarias e dos refeitórios, resolução que foi aprovada com geral aprazimento. Entre os sete irmãos escolhidos, Estevão foi designado com a simpatia de todos.
Começou para o jovem de Corinto uma vida nova. Aquelas mesmas virtudes espirituais que iluminavam a sua personalidade e que tanto haviam contribuído para a cura do patrício, que o restituíra à liberdade, difundiam entre os doentes e indigentes de Jerusalém os mais santos consolos. Grande parte dos enfermos, recolhidos ao casarão dos discípulos, recobraram a saúde.
Velhos desalentados encontravam bom ânimo sob a influência da sua palavra inspirada na fonte divina do Evangelho. Mães aflitas buscavam-lhe o conselho seguro; mulheres do povo, esgotadas pelo trabalho e angústias da vida, ansiosas de paz e consolação, disputavam o conforto da sua presença carinhosa e fraterna.
Simão Pedro não cabia em si de contente, em face das vitórias do filho espiritual. Os necessitados tinham a impressão de haver recebido um novo arauto de Deus para alívio de suas dores.
Em pouco tempo, Estevão tornou-se famoso em Jerusalém, pelos seus feitos quase miraculosos. Considerado como escolhido do Cristo, sua ação resoluta e sincera arregimentara, em poucos meses, as mais vastas conquistas para o Evangelho do amor e do perdão. Seu nobre esforço não se limitava à tarefa de mitigar a fome dos desvalidos. Entre os Apóstolos galileus, sua palavra resplandecia nas pregações da igreja, iluminada pela fé ardente e pura.
Quando quase todos os companheiros, a pretexto de não ferirem velhos princípios estabelecidos, deixavam de ampliar os comentários públicos para além das considerações agradáveis ao judaísmo dominante, Estevão apresentava à multidão, desassombradamente, o Salvador do mundo na glória das novas revelações divinas, indiferente às lutas que provocaria, comentando a vida do Mestre com o seu verbo inflamado de luz. Os próprios discípulos surpreendiam-se com a magia das suas profundas inspirações. Alma temperada na forja sublime do sofrimento, sua pregação estava cheia de lágrimas e alegrias, de apelos e aspirações.
Em poucos meses, seu nome era aureolado de uma veneração surpreendente. E, ao fim do dia, quando chegavam as orações da noite, o moço de Corinto, ao lado de Pedro e João, falava das suas visões e das suas esperanças, cheio do espírito daquele Mestre adorável, que, através do seu Evangelho, lhe semeara no coração as estrelas abençoadas de um júbilo infinito.

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