A morte de Estevão

Lapidação de Estevão
APEDREJAMENTO DE ESTEVÃO

Apesar das atividades intensas, o moço de Tarso não deixara de comparecer pontualmente em casa de Zacarias, onde, no coração de Abigail, encontrava o necessário repouso. Se as lutas em Jerusalém consumiam-lhe as forças, perto da mulher amada parecia recobrá-las, no doce encantamento com que esperava a realização das mais caras esperanças.
Tinha a impressão de que o mundo era um campo de batalha, no qual lhe cabia combater pela lei de Deus; todavia, como o Eterno era justo e generoso, concedera-lhe, na dedicação da sua eleita, um pouso de consolação.
Abigail era o seu mundo sentimental. As lutas de cada dia, as providências rigorosas que lhe impunha o cargo, a rigidez com que de veria tratar as questões confiadas ao seu foro, eram transvazadas no coração da noiva, cheio de amor, de piedade e justiça. Ela acolhia-lhe as ideias com atenção afetuosa, parecia temperá-las na ternura da alma fraterna, restituindo-as ao noivo amado em forma de sugestões carinhosas e justas.
Saulo habituara-se a esse precioso intercâmbio de cada dia. Quando lhe faltavam ao coração os brandos consolos da estrada de Jope, sentia-se perturbado pelos próprios sentimentos enérgicos e impulsivos. Abigail corrigia-lhe o espírito. Aparava as arestas do seu caráter violento e rude, cooperava para que se atenuasse o rigor das decisões autoritárias.
Horas a fio o jovem tarsense embevecia-se a ouvi-la, como se os seus sentimentos de bondade fossem alimento suave par a sua alma, que os raciocínios rígidos do mundo costumavam rescaldar. Ele, que não experimentara as aventuras galantes do tempo, cioso de conservar pura a consciência em face da Lei, descobrira na criatura eleita a personificação de todos os sonhos de sua mocidade esperançosa.
Na noite seguinte à memorável sessão do Sinédrio, Saulo de Tarso, abandonando todas as preocupações de ordem imediata, buscou mais ansioso a residência de Zacarias. As fadigas do dia abalavam-lhe as forças. Queria vencer rapidamente a distância, absorver-se no afeto da noiva, olvidar as preocupações que lhe ardiam na mente trabalhada pelos mais desencontrados raciocínios.
A noite já desdobrava o manto de luar sobre a Natureza, quando o jovem doutor transpôs o umbral, surpreendendo a generosa família com uma saudação delicada e afetuosa.
A presença da noiva propiciava-lhe um bálsamo de suave refrigério ao coração. Em breves momentos, parecia reconfortar-se. Tomado de bom humor, agora que as energias interiores descansavam em brandas carícias, narrou entusiasticamente os últimos sucessos. Zacarias, como observador fiel da Lei, dava-lhe razões de sobejo no caso das deliberações assumidas. A personalidade de Estevão foi discutida minuciosamente, O ex-discípulo de Gamaliel, naturalmente, esclareceu o assunto a seu modo, retratando o pregador do “Caminho” como homem inteligente e, por isso mesmo, perigoso, em virtude das ideias revolucionárias que o seu verbo fluente propagava.
Abigail e Ruth escutavam silenciosas, enquanto os dois mantinham a palestra animada.
A certa altura, atenta a uma observação direta de Saulo, a jovem murmurou:
— Mas não haveria um meio de modificar, ao menos, a pena arbitrada?
— Que desejarias que fizéssemos? — disse o moço com ênfase. — Não é pouco havermos libertado os três cabeças mais em evidência, levando-se em conta o atrevimento de suas estranhas prédicas. Quanto a Estevão, tudo se fez para que voltasse ao aprisco, como descendente direto das tribos de Israel.
Entretanto, a rebeldia foi a sua condenação. Insultou-me publicamente no Sinédrio, espezinhou nossos princípios mais sagrados, criticou as figuras mais representativas do farisaísmo, com ilustrações mentirosas e ingratas.
E concluía:
— De mim para comigo, estou satisfeito. Considero o apedrejamento esperado um dos feitos de mais importância para o futuro da minha carreira.
Atestará meu zelo na defesa do nosso patrimônio mais estimável. Precisamos considerar que Israel, nos dias mais sombrios, preferiu a emancipação religiosa à independência política. Poderíamos, porventura, expor nossos valores morais mais preciosos à influência deprimente de um aventureiro qualquer?
O jovem procurou mudar o curso da conversação, enquanto Ruth mandava servir uma taça de vinho reconfortante.
Antes de partir, o moço tarsense convidou a noiva ao passeio habitual.
Nessa noite, a Natureza parecia enfeitar-se de maravilhas. O luar, que destacava todas as flores em tons pálidos, estava saturado de perfumes deliciosos. Os dois, de mãos enlaçadas, no banco rústico, contemplavam o quadro embevecidamente. Saulo experimentava suave conforto.
Desafogava-se. Se Jerusalém lhe obscurecia a mente num torvelinho de preocupações, aquela mansão singela da estrada de Jope parecia descarregá-lo de todos os desgostos, prodigalizando-lhe ao espírito enorme potencial de consolação.
— Agora, minha querida, tudo está pronto — dizia solícito. — De hoje a seis dias Dalila virá buscar-te pessoalmente. Conhecerás a cidade e os meus amigos honrarão em tua alma generosa a minha feliz escolha. Estás satisfeita?
— Muito — murmurava ela com ternura.
— Já organizamos vasto programa recreativo. Quero levar-te a Jericó, onde pessoas de nossas relações nos esperam com imensa alegria. Em Jerusalém far-te-ei conhecer todos os edifícios mais importantes. Ficarás deslumbrada com o Templo e com os tesouros ali encerrados pela dedicação religiosa de nossa raça. Verás a torre dos romanos. Meus conterrâneos que frequentam a Sinagoga dos cilícios querem oferecer-te valioso mimo.
Abigail extasiava-se, ouvindo-o discorrer. Aquele moço impulsivo e rude a olhos estranhos, mas afetuoso e sensível na intimidade, era justamente o seu ideal, o homem esperado pela sua alma carinhosa.
— Ninguém poderá oferecer-me um presente mais precioso que o enviado por Deus à minha existência, com o teu coração leal e generoso — murmurou a jovem num franco sorriso.
— Ganhei muito mais — tornava o doutor de Tarso recebendo a joia rara do teu afeto, que enriquecerá toda a minha vida. Às vezes, Abigail — continuava com o entusiasmo próprio da juventude sonhadora —, no meu idealismo de vitórias para Jerusalém sobre as grandes cidades do mundo, penso chegar à velhice como um triunfador cheio de tradições de sabedoria e de glória. Desde que te encontrei, aumentou-se-me a fé no destino; consolidei minhas esperanças, terei teu concurso na tarefa imensa que se desdobra a meus olhos. Os romanos outorgam aos triunfadores uma coroa triunfal de louros e rosas. Se um dia Jerusalém me conceder a sua coroa triunfal, não a cingirei em minha fronte, para só deixá-la a teus pés como tributo de amor eterno e único.
Ainda hoje — prosseguiu Saulo confiante no futuro —, Gamaliel notificou-me que vai afastar-se breve do Sinédrio, para que eu lhe suceda no prestigioso cargo. Aí tens, querida, nossa primeira vitória de maiores proporções. Tão logo Dalila volte de Tarso, poderemos marcar o dia jubiloso das núpcias. Presumo que, em te tendo sempre a meu lado, corrigirei meus impulsos, a tarefa ser-me-á mais leve, a existência mais fácil e mais ditosa. O lar é uma bênção. E nós teremos esse lar.
— Nunca me senti tão venturosa — exclamou a jovem, com lágrimas de alegria.
Ele acariciou-lhe as mãos e, como desejava que ela compartilhasse dos seus sentimentos mais íntimos, acrescentou:
— Chegarás conosco à cidade, justamente na véspera da morte do pregador revolucionário. O ato, como de justiça, obedecerá ao cerimonial estabelecido pelos nossos costumes e eu pretendo que assistas a ele em minha companhia.
— Mas, por quê? — perguntou ela estremecendo ligeiramente.
— Porque lá encontraremos nossos amigos mais eminentes e desejo valer-me da oportunidade para apresentar-te, indiretamente, a todos eles.
— Não haveria um meio de me poupares a esse espetáculo? — insistiu timidamente. — A morte de meu pai, no suplício, diante da soldadesca brutal, jamais me saiu da mente.
Saulo não dissimulou a contrariedade e respondeu:
— Porventura não estarás compreendendo? O caso de Estevão é muito diferente. Trata-se de um homem sem significação para nós outros, que se arvorou em reformador sedicioso e insolente. Sua personalidade representa, de fato, a continuidade do desrespeito e do insulto à Lei de Moisés, iniciados em movimento de vastas proporções por um carpinteiro alucinado, de Nazaré.
Achas, então, que se não deve punir o ladrão que assalta uma residência? Não merecerão castigo os que blasfemam no santuário do Eterno?
A jovem, compreendendo que desagradaria ao noivo se lhe demonstrasse divergência de opinião, acrescentou:
— Vejo que tens muita razão. Não devo discutir os teus conceitos, sábios e justos. Aliás, tenho mesmo a intenção de conquistar a amizade dos teus amigos do Sinédrio, pois não perco a esperança de sua proteção para o caso de Jeziel, logo que se ofereça uma oportunidade para novas pesquisas na Acaia. Mas ouve, Saulo: se permitires, irei quando a cerimônia estiver a findar. Está dito?
Notando a boa vontade conciliatória, o moço tarsense abriu o semblante num belo sorriso de satisfação.
— Sim, ficamos de acordo. Espero, porém, que assistas a tudo com serenidade, segura de que eu só poderia tomar encargos justos e decisões estimáveis no cumprimento do dever. É lamentável que o prisioneiro se haja mostrado recalcitrante a ponto de me compelir a providências extremas. No entanto, podes crer que tudo fiz por evitar o derradeiro recurso.
Empreguei todos os processos conciliatórios para dissuadi-lo de tão perigosas ilusões, mas sua conduta foi de tal modo irritante que toda transigência se tornou praticamente impossível.
Trocaram-se ainda, por longo tempo, impressões afetuosas que a noite amiga guardava, solicitamente, sob o manto luminoso das estrelas. Eram juras cariciosas de um amor imortal, ante a bênção de Deus, tomada como objeto mais alto de seus santificados pensamentos, projetos e esperanças de futuro.
Era tarde quando Saulo se despediu, regressando a Jerusalém, de alma feliz.
Daí a dias, Abigail, em companhia do noivo e da irmã, demandou a cidade, cujo perfil interessante apresentava novos quadros para os seus olhos. A casa de Dalila, na mesma noite de sua chegada, encheu-se de amigos que iam levar à escolhida de Saulo a homenagem da sua admiração; e a jovem de Corinto a todos seduzia por seus dotes naturais, aliados à sólida e bem cuidada formação de espírito. Sua palavra, cheia de ternura, parecia distanciar-se profundamente das futilidades que caracterizavam a mocidade da época. Sabia aplicar os mais delicados conceitos, no trato de todos os assuntos a que era convocada, tirando formosas ilações da Lei e dos Escritos Sagrados, para definir a posição da mulher em face dos mais íntimos deveres na vida familiar.
O doutor de Tarso sentia-se orgulhoso, ao notar a admiração geral em torno de sua personalidade vibrante e carinhosa. Abigail, sintetizando o seu maior ideal, enchia-lhe o coração de maravilhosas promessas. A surpresa dos amigos, que o felicitavam com o olhar, punha-lhe na alma ardente um júbilo novo.
O dia seguinte rompeu claro e lindo. Ao sol rútilo de Jerusalém, Saulo despediu-se da noiva amada, por atender, ainda cedo, aos trabalhos do Sinédrio.
— Então, até logo, no Templo — disse carinhosamente.
— No Templo? — perguntou Dalila admirada, abraçando-se a Abigail.
— Sim — explicou solícito —, Abigail assistirá à parte final da punição de Estevão.
— Mas como? — interrogou ainda a jovem senhora. — Mulheres na cerimônia?
— A lapidação se dará nas proximidades do altar dos holocaustos e não nos átrios sagrados — esclareceu. A meu ver, não haverá impedimento de representações femininas, e ainda que isso constitua resolução de última hora, a critério dos sacerdotes, a medida não poderá atingir decisão pessoal de minha parte e eu desejo que Abigail participe do meu primeiro triunfo na defesa dos nossos princípios soberanos.
Ambas sorriram, venturosas, observando-lhe as disposições excelentes.
— Em último recurso, Saulo — disse Abigail num gesto de tranquilidade e ternura —, não deixes de oferecer ao condenado uma derradeira oportunidade para salvar-se da morte.
Após dois meses de cárcere, é possível que tenha refundido os sentimentos mais profundos. Pergunta-lhe, mais uma vez, se insiste em insultar a Lei.
O moço tarsense enviou-lhe um olhar satisfeito e reconhecido, jubiloso por verificar tanta grandeza de coração, e acentuou:
—Assim farei.
Nesse dia, desde muito cedo, o mais alto Tribunal de Israel apresentava desusado movimento. A execução do pregador do “Caminho” constituía objeto de largos comentários. Sobretudo os fariseus faziam questão de todos os informes. Ninguém queria perder o angustioso espetáculo. A igreja modesta de Simão Pedro, entretanto, não ousou aproximar-se para qualquer indagação.
Saulo, como perseguidor declarado e usando das prerrogativas da investidura legal, mandara anunciar que nenhum adepto do “Caminho” poderia assistir à execução a efetivar-se num dos grandes pátios do santuário. Longas filas de soldados foram dispostas na grande praça, para dispersar quaisquer grupos de mendigos que se formassem com intuitos desconhecidos e, desde as primeiras horas da manhã, numerosos pedintes de Jerusalém eram corridos das imediações a golpes de chanfalho.
Depois do meio-dia, autoridades e curiosos reuniam-se, ávidos de sensação, no recinto do Sinédrio, em abafado vozerio. Aguardava-se o sentenciado, que chegou, finalmente, cercado de escolta armada, como se fora um malfeitor comum.
Estevão apresentava-se bastante desfigurado, embora o semblante não traísse a peculiar serenidade. O passo tardio, o cansaço extremo, as equimoses das mãos e dos pés, patenteavam os pesados tormentos físicos que lhe eram infligidos à sombra do calabouço. A barba crescida alterava-lhe o aspecto fisionômico, todavia, os olhos tinham a mesma fulgurância de cristalina bondade.
Em meio da curiosidade geral, Saulo de Tarso o encarou satisfeito.
Estevão pagaria, afinal, as incompreensões e os insultos.
No instante aprazado, o doutor inflexível fez a leitura do libelo. Antes, porém, de pronunciar a sentença última, fiel ao que prometera, mandou que os soldados empurrassem o condenado até a sua tribuna. Enfrentando o pregador do Evangelho, sem qualquer expressão de piedade, interrogou com aspereza:
— Estarias disposto, agora, a jurar contra o carpinteiro Nazareno? Lembra-te que é a última oportunidade de conservares a vida.
Tais palavras, pronunciadas mecanicamente, soaram de modo estranho aos ouvidos do moço de Corinto, que as recebeu, na alma sensível e generosa, como novos dardos de ironia.
— Não insulteis o Salvador! — disse o arauto do Cristo, com desassombro.
— Nada no mundo me fará renunciar à sua tutela divina! Morrer por Jesus significa uma glória, quando sabemos que ele se imolou na cruz pela Humanidade inteira!
Mas, uma torrente de impropérios cortava-lhe a palavra.
— Basta! Apedrejemo-lo quanto antes! Morte ao imundo! Abaixo o feiticeiro! Blasfemo!… Caluniador!
A gritaria tomava proporções assustadoras. Alguns fariseus mais irritados, burlando os guardas, aproximaram-se de Estevão tentando arrastá-lo sem compaixão. Entretanto, ao primeiro puxão na gola rota, um pedaço da túnica rafada ficava-lhes nas mãos. Foi necessário a intervenção da força armada para que o moço de Corinto não fosse estraçalhado, ali mesmo, pela multidão furiosa e delirante. Saulo, em altas vozes, ordenou a intervenção dos soldados.
Queria a execução do discípulo do Evangelho, mas, com todo o cerimonial previsto.
Estevão tinha agora o rosto enrubescido, envergonhado. Seminu, foi auxiliado por um legionário romano a recompor os sobejos da veste em frangalhos, acima dos rins, para não ficar inteiramente nu. Com a mão trêmula, pelos maus tratos recebidos, procurava limpar a saliva que os mais exaltados lhe haviam esputado em pleno rosto. Forte pancada no ombro causava-lhe intensa dor no braço todo. Compreendeu que lhe chegavam os últimos instantes de vida. A humilhação doía-lhe fundo. Mas recordou as descrições de Simão a respeito de Jesus, no derradeiro transe. Em frente de Herodes Antipas, o Cristo sofrera dos israelitas idênticas ironias. Fora açoitado, ridicularizado, ferido. Quase nu, suportara todos os agravos sem uma queixa, sem uma expressão menos digna. Ele que amara os infelizes, que trabalhara por fundar uma doutrina de concórdia e de amor para todos os homens, que abençoara os mais desgraçados e os acolhera com carinho, recebera o galardão da cruz em suplícios imensuráveis. E Estevão pensou: — “Quem sou eu e quem era o Cristo”? Essa íntima interrogação propiciava-lhe certo consolo. O Príncipe da Paz fora arrastado pelas ruas de Jerusalém, sob o escárnio das maiores injúrias, e era o Messias esperado, o Ungido de Deus!
Por que, sendo ele homem falível, portador de numerosas fraquezas, haveria de hesitar no momento do testemunho? E, com o pranto a escorrer-lhe no rosto lacerado, escutava a voz cariciosa do Mestre no coração:
“Todo aquele que desejar participar do meu reino, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga os meus passos”. Era preciso negar-se para aceitar o sacrifício proveitoso. Ao fim de todos os martírios, deveria encontrar o amor glorioso de Jesus, com a beleza da sua ternura imortal.
O pregador humilhado e ferido recordou o passado de trabalhos e esperanças.
Parecia-lhe rever a infância saudosa, na qual o zelo materno lhe incutira os fundamentos da fé confortadora; depois, as nobres aspirações da mocidade, a dedicação paterna, o amor da irmãzinha que as circunstâncias do destino lhe haviam arrebatado. Ao pensar em Abigail, experimentou certa angústia no coração. Agora, que deveria enfrentar a morte, desejava revê-la para as últimas recomendações. Relembrou a derradeira noite em que haviam permutado tantas impressões de ternura, tantas promessas fraternais, na lôbrega prisão de Corinto.
Apesar dos movimentos renovadores da fé, de cujos trabalhos compartilhava ativamente em Jerusalém, jamais pudera esquecer o dever de procurá-la, fosse onde fosse. Enquanto em derredor se multiplicavam impropérios no turbilhão de gritos e ameaças revoltantes, o sentenciado chorava com as suas recordações. Socorrendo-se das promessas do Cristo no Evangelho, experimentava brando alívio. A ideia de que a irmãzinha ficaria no mundo, entregue a Jesus, suavizava-lhe as angústias do coração.
Mal não saíra de suas dolorosas reminiscências, ouviu a voz imperiosa de Saulo dirigindo-se aos guardas:
— Algemai-o novamente, tudo está consumado, sigamos para o átrio.
O discípulo de Simão Pedro, estendendo os pulsos para receber as algemas, sofreu pancadas tão fortes de um soldado inescrupuloso, que dos pulsos feridos começou a jorrar muito sangue.
Estevão, porém, não fez o menor gesto de resistência. De quando em quando, levantava os olhos como se implorasse os recursos do Céu para os seus minutos supremos. Não obstante os apupos e as chagas que o dilaceravam, experimentava uma paz espiritual desconhecida. Todos aqueles sofrimentos do cerimonial eram pelo Cristo. Aquela hora era a sua oportunidade divina. O Mestre de Nazaré havia convocado o seu coração fiel ao público testemunho dos valores espirituais da sua gloriosa doutrina.
Confiante, raciocinava: — “Se o Messias aceitara a morte infamante do Calvário para salvar todos os homens, não seria uma honra dar a vida por Ele?
“Seu coração, sempre ávido de dar testemunho ao Senhor, desde que lhe conhecera o Evangelho de redenção, não deveria rejubilar-se com o ensejo de oferecer-lhe a própria vida? Entretanto, a ordem de caminhar arrancou-o dos mais elevados pensamentos.
O generoso pregador do “Caminho” hesitava nos passos cambaleantes, mas tinha sereno e firme o olhar, revelando desassombro nos derradeiros lances do testemunho.
Naquelas primeiras horas da tarde, o sol de Jerusalém era um braseiro ardente. Não obstante o calor insuportável, a massa deslocou-se com profundo interesse. Tratava-se do primeiro processo concernente às atividades do “Caminho”, após a morte do seu fundador. Destacando-se de todas as correntes judaicas ali presentes, em penhor de prestígio à Lei de Moisés, os fariseus faziam grande alarde do feito. Ladeando o condenado, faziam questão de atirar-lhe em rosto as mais pesadas injúrias.
Ele, porém, embora evidenciasse profunda tristeza, caminhava seminu, sereno, imperturbável.
A sala de reuniões do Sinédrio não distava muito do átrio do Templo, onde se realizaria a macabra cerimônia. Apenas alguns metros e a caminhada terminava, justamente no local onde se erguia o enorme altar dos holocaustos.
Tudo estava preparado a caráter, como Saulo deixara perceber em seus propósitos.
Ao fundo do pátio espaçoso, Estevão foi atado a um tronco, para que o apedrejamento se efetuasse na hora precisa.
Os executores seriam os representantes das diversas sinagogas da cidade, de vez que era função honrosa atribuída a quantos estivessem em condições de operar na defesa de Moisés e de seus princípios. Cada sinagoga indicara o seu delegado e, ao iniciar a cerimônia, como chefe do movimento, Saulo recebia um por um, junto da vítima, guardando nas mãos, de acordo com a pragmática, os mantos brilhantes, enfeitados de púrpura.
Mais uma ordem do moço tarsense e a execução começou entre gargalhadas. Cada verdugo mirava friamente o ponto preferido, esforçando-se para tirar maior partido.
Risos gerais seguiam-se a cada golpe.
Poupemos-lhe a cabeça – dizia um dos mais exaltados, – a fim de que o espetáculo não perca a intensidade e o interesse.
Cada expressão do judaísmo acompanhava o verdugo indicado pelos maiorais da sinagoga, com atenção e entusiasmo, aos berros de Morra o traidor! O feiticeiro!
— Fere no coração, em nome dos cilícios! – exclamava alguém, do meio da turba.
— Separa-lhe a perna pelos idumeus! – secundava outra voz impudente.
Mais ou menos afastado da turba, seguindo de perto os movimentos do condenado, Saulo de Tarso apreciava a vibração popular, satisfeito e confortado. De qualquer maneira, a morte do pregador do Cristo representava o seu primeiro grande triunfo na conquista das atenções de Jerusalém e de suas prestigiosas corporações políticas. Naquela hora em que focalizava tantas aclamações do povo de sua raça, orgulhava-se com a decisão que o levara a perseguir o “Caminho”, sem consideração e sem tréguas. Aquela tranquilidade de Estevão, no entanto, não deixava de o impressionar bem no imo do coração voluntarioso e inflexível. Onde poderia ele haurir tal serenidade? Sob as pedras que o alvejavam, aqueles olhos encaravam os algozes sem pestanejar, sem revelar temor nem turbação!
De fato, amarrado de joelhos ao tronco do suplício, o moço de Corinto guardava impressionante característica de paz nos olhos translúcidos, de onde as lágrimas silenciosas corriam abundantes, O peito descoberto era uma chaga sangrenta. As vestes esfrangalhadas colavam-se ao corpo, empastadas de suor e sangue.
O mártir do “Caminho” sentia-se amparado por forças poderosas e intangíveis. A cada novo golpe, sentia recrudescer os padecimentos infinitos que lhe azorragavam o corpo macerado, mas, no íntimo, guardava a impressão de uma lenidade sublime. O coração batia descompassadamente. O tórax estava coberto de feridas profundas, as costelas fraturadas.
Nesta hora suprema, recordava os mínimos laços de fé que o prendiam a uma vida mais alta. Lembrou todas as orações prediletas da infância. Fazia o possível por fixar na retina o quadro da morte do pai supliciado e incompreendido. Intimamente, repetia o Salmo 23 de David, qual o fazia junto da irmã, nas situações que pareciam insuperáveis. “O Senhor é meu pastor. Nada me faltará”… As expressões dos Escritos Sagrados, como as promessas do Cristo no Evangelho, estavam-lhe no âmago do coração. O corpo quebrantava-se no tormento, mas o espírito estava tranquilo e esperançoso.
Agora, tinha a impressão de que duas mãos cariciosas passavam de leve sobre as chagas doloridas, proporcionando-lhe branda sensação de alívio. Sem qualquer receio, percebeu que lhe havia chegado o suor da agonia.
Dedicados amigos, do plano espiritual, rodeavam o mártir nos seus minutos supremos.
No auge das dores físicas, como se houvesse transposto infinitos abismos de percepção, o moço de Corinto notou que alguma coisa se lhe havia rasgado na alma ansiosa. Seus olhos pareciam mergulhar em quadros gloriosos de outra vida. A legião de emissários de Jesus, que o cercava carinhosamente, figurou-se-lhe a corte celestial. No caminho de luz desdobrado à sua frente, reconheceu que alguém se aproximava abrindo-lhe os braços generosos. Pelas descrições que ouvira de Pedro, percebeu que contemplava o próprio Mestre em toda a resplendência de suas glórias divinas. Saulo observou que os olhos do condenado estavam estáticos e fulgurantes. Foi quando o herói cristão, movendo os lábios, exclamou em alta voz:
— Eis que vejo os céus abertos e o Cristo ressuscitado na grandeza de Deus!…
Viram, então, que duas mulheres jovens aproximavam-se do perseguidor com gestos íntimos. Dalila entregou Abigail ao irmão, despedindo-se logo para atender ao chamado de outra amiga. A noiva terna cingia uma túnica à moda grega, que mais lhe realçava o formoso rosto. Fosse pela dolorosa cena em curso, ou pela presença da mulher amada, percebia-se que Saulo estava um tanto perplexo e sensibilizado. Dir-se-ia que a coragem indomável de Estevão o levara a considerar a tranquilidade desconhecida que deveria reinar no espírito do mártir.
Em face da gritaria que a rodeava e notando a miserável situação da vítima, a jovem mal pôde conter um grito de espanto. Que homem era aquele, atado ao tronco do suplício? Aquele peito arfante, empastado de sangue, aqueles cabelos, aquele rosto pálido que a barba crescida desfigurava, não seriam de seu irmão? Ah! como falar das ansiedades imensas na surpresa imprevista de um minuto? Abigail tremia. Seus olhos aflitos acompanhavam os menores movimentos do herói, que parecia indiferente, no êxtase que o absorvia. Embalde Saulo chamava-lhe a atenção, discretamente, de modo a poupá-la de penosas impressões. A moça parecia nada ver além do sentenciado a esvair-se no sangue do martírio. Lembrava-se agora…
Em se afastando do calabouço, depois da morte do pai, foi assim mesmo que deixara Jeziel na posição do suplício. O tronco execrável, as algemas impiedosas e o pobrezinho de joelhos! Tinha ímpetos de atirar se à frente dos algozes, esclarecer a situação, saber a identidade daquele homem.
Nesse instante, ignorando-se alvo de tão singular atenção, o pregador do “Caminho” saiu de sua impressionante imobilidade. Vendo que Jesus contemplava, melancolicamente, a figura do doutor de Tarso, como a lamentar seus condenáveis desvios, o discípulo de Simão experimentou pelo verdugo sincera amizade no coração. Ele conhecia o Cristo e Saulo não.
Assomado de fraternidade real e querendo defender o perseguidor, exclamou de modo impressionante:
— Senhor, não lhe imputes este pecado!…
Isso dito, voltou os olhos para fixá-los no verdugo, amorosamente. Eis, porém, que divisou junto dele a figura da irmã, trajada como nos dias de júbilo, na casa paterna. Era ela, a irmãzinha amada, por cujo afeto tantas vezes lhe palpitara o coração, de saudade e de esperança. Como explicar sua presença?
Quem sabe havia sido também levada ao reino do Mestre e regressava com ele, em espírito, para trazer-lhe as boas-vindas, de um mundo melhor? Quis bradar sua alegria infinita, atraí-la, ouvir-lhe a voz nos cânticos de David, morrer embalado pelo seu carinho; mas a garganta já não timbrava. A emoção dominara-o na hora extrema. Sentiu que o Mestre de Nazaré acariciava-lhe a fronte, onde a última pedrada abrira uma flor-de-sangue. Ouvia, muito longe, vozes argentinas que cantavam hinos de amor sobre os gloriosos motivos do Sermão da Montanha. Incapaz de resistir por mais tempo ao suplício, o discípulo do Evangelho sentia-se desfalecer.
Escutando as expressões do condenado e recebendo-lhe o olhar fulgurante e límpido, Abigail não pôde dissimular a angustiosa surpresa.
— Saulo! Saulo!… É meu irmão – exclamou aterradamente.
— Que dizes? — gaguejou baixinho o doutor de Tarso arregalando os olhos. – Não pode ser! Enlouqueceste?
— Não, não, é ele; é ele! — repetia tomada de extrema palidez.
— É Jeziel – insistia Abigail assombrada, – querido; concede-me um minuto, deixa-me falar ao moribundo apenas um minuto.
— Impossível! – replicou o moço, contrafeito.
— Saulo, pela Lei de Moisés, pelo amor de nossos pais, atende – exclamava torcendo as mãos.
O ex-discípulo de Gamaliel não acreditava na possibilidade de semelhante coincidência.
Além do mais, havia a diferença do nome. Convinha esclarecer esse ponto, antes de tudo.
Certo, a falsa impressão de Abigail se desfaria ao primeiro contacto direto com o agonizante. Sua índole, sensível e afetuosa, justificava o que a seu ver era um absurdo.
Conjugando essas reflexões de um segundo, falou à noiva, com austeridade:
— Irei contigo identificar o moribundo, mas, até que o possamos fazer, cala as tuas impressões. Nem uma palavra, ouviste? É necessário não esquecer a respeitabilidade do local em que te encontras!
Logo após, chamava um funcionário de alta categoria, secamente:
— Manda levar o cadáver para o gabinete dos sacerdotes.
— Senhor – respondeu o outro respeitoso, – o condenado ainda não está morto.
— Não importa, vai assim mesmo, pois arrancar-lhe-ei a confissão do arrependimento na hora extrema.
A determinação foi cumprida sem mais demora, enquanto Saulo mandava servir, de modo geral, aos amigos e admiradores, várias ânforas de vinho delicioso, por comemorarem o seu primeiro triunfo. Depois, cenho carregado, apreensivo, esgueirou-se quase sorrateiramente até a sala reservada aos sacerdotes de Jerusalém, em companhia da noiva.
Atravessando os grupos que o saudavam com frenéticas aclamações, o moço tarsense parecia alheado de si mesmo. Conduzia Abigail pelo braço, delicadamente, mas não lhe dirigia palavra. A surpresa emudecera-o. E se Estevão fosse, de fato, aquele Jeziel que aguardavam com tamanha ansiedade? Absorvidos em angustiosas reflexões, penetraram na câmara solitária. O jovem doutor ordenou a retirada dos auxiliares, fechou cuidadosamente a porta.
Abigail aproximou-se do irmão ensanguentado, com infinita ternura. E, como se sentisse chamado à vida por uma força poderosa e invencível, ambos notaram que a vítima movia a cabeça sangrenta. Evidenciando o penoso esforço da derradeira agonia, Estevão murmurou:
— Abigail!…
Aquela voz era quase um sopro, mas o olhar estava calmo, límpido.
Ouvindo-lhe a expressão vacilante e arrastada, o jovem tarsense recuou tomado de espanto. Que significava tudo aquilo? Não poderia duvidar. A vítima de sua perseguição implacável era o irmão bem-amado da mulher escolhida.
Que mecanismo do destino engendrara semelhante situação, que lhe havia de amargurar toda a vida? Onde estava Deus, que não o inspirara no dédalo de circunstâncias que o levaram até aquele irremediável, cruel desfecho? Sentiu-se possuído de um pesar sem limites. Ele, que elegera Abigail o anjo tutelar da existência, seria obrigado a renunciar a esse amor para sempre. O orgulho de homem não lhe permitiria desposar a irmã do suposto inimigo, confessado e julgado reles criminoso. Aturdido, deixou-se ali ficar, como se força incoercível o chumbasse ao solo, transformando-o em objeto de insuportáveis ironias.
— Jeziel! – exclamou Abigail osculando e regando de lágrimas a fronte do moribundo – como te vejo eu!… Parece que o suplício te durou desde o dia em que nos separamos!… E soluçava…
— Estou bem… – disse o discípulo de Jesus, fazendo o possível por mover a destra quebrada e deixando perceber o desejo de acariciar-lhe os cabelos, como nos dias da meninice e da primeira juventude. – Não chores!… Eu estou com o Cristo!…
— Quem é o Cristo? – murmurou a jovem – Por que te chamam Estevão?
Como te modificaram assim?
— Jesus… é o nosso Salvador… – explicava o agonizante, no propósito de não perder os minutos que se escoavam céleres. – E, agora, chamam-me Estevão… porque um romano generoso me libertou… mas pediu… absoluto segredo. Perdoa-me… Foi por gratidão que obedeci ao conselho. Ninguém será reconhecido a Deus se não mostrar agradecimento aos homens…
Vendo que a irmã prosseguia em soluços, continuou:
— Sei que vou morrer… mas a alma é imortal.. Sinto deixar te… quando mal torno a ver-te, mas hei de ajudar-te do lugar em que estiver.
— Ouve, Jeziel – exclamou a irmã num desabafo, – que te ensinou esse Jesus para te levar a um fim tão doloroso? Quem assim abandona um servo leal, não será antes um senhor cruel?
O moribundo pareceu admoestá-la com o olhar.
— Não penses dessa maneira – prosseguiu com dificuldade. – Jesus é justo e misericordioso… prometeu estar conosco até a consumação dos séculos… mais tarde compreenderás; a mim, ensinou-me amar os próprios verdugos…
Ela abraçava-o, carinhosa, desfeita em lágrimas abundantes. Depois de uma pausa em que a vítima se revelava nos derradeiros instantes da vida material, viu-se que Estevão se agitava em esforços supremos.
— Com quem te deixarei?
— Este é meu noivo – esclareceu a jovem apontando o moço de Tarso, que parecia petrificado.
O moribundo contemplou-o sem ódio e acentuou:
— Cristo os abençoe… Não tenho no teu noivo um inimigo, tenho um irmão… Saulo deve ser bom e generoso; defendeu Moisés até ao fim… Quando conhecer a Jesus, servi-lo-á com o mesmo fervor… Sê para ele a companheira amorosa e fiel…
Mas a voz do pregador do “Caminho” estava agora rouca e quase imperceptível. Nas vascas da morte, contemplava Abigail fraternalmente enternecido.
Ouvindo-lhe as últimas frases, o doutor de Tarso fizera-se lívido. Queria ser odiado, maldito. A compaixão de Estevão, fruto de uma paz que ele, Saulo, jamais conhecera no fastígio das posições mundanas, impressionava-o fundamente. Entretanto, sem saber por quê, a resignação e a doçura do agonizante assaltavam-lhe o coração enrijecido. Trabalhava, porém, intimamente, para não se comover com a cena dolorosa. Não se dobraria por uma questão de sentimentalismo. Abominaria aquele Cristo, que parecia requisitá-lo em toda parte, a ponto de colocar-se entre ele e a mulher adorada.
O cérebro atormentado do futuro rabino suportava a pressão de mil fogos.
Desprezara o orgulho de família e elegera Abigail para companheira de lutas, embora lhe não conhecesse os ascendentes familiares. Amava-a pelos laços da alma, descobrira no seu delicado coração feminino tudo quanto havia sonhado nas cogitações de ordem temporal. Ela sintetizava as suas esperanças de moço; era o penhor do seu destino, representava a resposta de Deus aos apelos da sua juventude idealista. Agora, abrira-se entre ambos um abismo. Irmã de Estevão! Ninguém ousara afrontar-lhe a autoridade na vida, a não ser aquele ardoroso pregador do “Caminho”, cujas ideias jamais se poderiam casar com as suas. Detestava aquele rapaz apaixonado pelo ideal exótico de um carpinteiro, e tinha culminado nos propósitos de vingança. Se desposasse Abigail, jamais seriam felizes. Ele seria o verdugo, ela a vítima.
Além disso, sua família, aferrada ao rigorismo das velhas tradições, não poderia tolerar a união, depois de conhecidas as circunstâncias.
Levou as mãos ao peito, dominado por angustioso desalento.
Em pranto, Abigail acompanhava a agonia dolorosa do irmão, cujos derradeiros minutos se escoavam lentamente. Penosa emoção apossara-se de todas as suas energias. Na dor que a dilacerava nas fibras mais sensíveis, parecia não ver o noivo que lhe seguia os menores movimentos, entre surpreso e estarrecido. Com muito cuidado, a jovem sustinha a fronte do moribundo, depois de haver sentado para conchegá-lo carinhosamente.
Observando que o irmão lhe lançava o último olhar, exclamou angustiada:
— Jeziel, não te vás… Fica conosco! Nunca mais nos separaremos!…
Ele, quase a expirar, ciciava:
— A morte não separa… os que se amam…
E, como se houvera lembrado algo de muito grato ao coração, arregalou os olhos desmesuradamente, numa expressão de imenso júbilo:
— Como no Salmo… de David… – dizia arrastadamente – podemos… dizer… que o amor… e a misericórdia… seguiram… todos os dias… de nossa vida… ((Salmo 23, de David.)
A jovem escutava-lhe as derradeiras palavras, comovidíssima. Enxugava-lhe o suor sanguinolento do rosto, que se iluminava de uma serenidade superior.
— Abigail… – murmurava ainda como num sopro, – vou-me em paz…
Quisera ouvir-te na prece… dos aflitos e agonizantes…
Ela recordou os últimos momentos do suplício do genitor, no dia inesquecível da separação nos calabouços de Corinto. De relance, compreendeu que, ali, outras forças se encontravam em jogo. Não mais Licínio Minucio e os sequazes cruéis, mas o próprio noivo transformado em verdugo, por um terrível engano. Afagou com mais carinho a cabeça sangrenta.
Conchegou o moribundo ao coração como se fosse uma adorável criança.
Então, embora rígido e inquebrantável na aparência, Saulo de Tarso observou, mais nitidamente, o quadro que nunca mais lhe sairia da imaginação.
Guardando o moribundo no regaço fraterno, a jovem elevou o olhar para o alto, mostrando as lágrimas que lhe caíam pungentes. Não cantava, mas a oração lhe saía dos lábios como a súplica natural do seu espírito a um pai amoroso que estivesse invisível:
Senhor Deus, pai dos que chora,
Dos tristes, dos oprimidos,
Fortaleza dos vencidos,
Consolo de toda a dor,
Embora a miséria amarga
Dos prantos de nosso erro,
Deste mundo de desterro,
Clamamos por vosso amor!
Nas aflições do caminho,
Na noite mais tormentosa,
Vossa fonte generosa
É o bem que não secará…
Sois, em tudo, a luz eterna
Da alegria e da bonança
Nossa porta de esperança
Que nunca se fechará.
Quando tudo nos despreza
No mundo da iniquidade
Quando vem a tempestade
Sobre as flores da ilusão!
Ó Pai, sois a luz divina,
O cântico da certeza,
Vencendo toda aspereza,
Vencendo toda aflição.
No dia da nossa morte,
No abandono ou no tormento,
Trazei-nos o esquecimento
Da sombra, da dor, do mal…
Que nos últimos instantes,
Sintamos a luz da vida
Renovada e redimida
Na paz ditosa e imortal.
Terminada a prece, Abigail tinha o rosto orvalhado de pranto. Sob a carícia suave de suas mãos, Jeziel aquietara-se. Palidez de neve caracterizava-lhe a face cadavérica, aliada à profunda serenidade fisionômica. Saulo compreendeu que ele estava morto. E enquanto a jovem de Corinto se levantava, cuidadosamente, como se o cadáver do irmão requisitasse toda a ternura do seu espírito bondoso, o moço tarsense aproximou-se de cenho carregado e falou com austeridade:
— Abigail, tudo está consumado e tudo terminou, também, entre nós.
A pobre criatura voltou-se com assombro. Então não lhe bastavam os golpes recebidos? Seria possível que o noivo amado não tivesse uma palavra de conciliação generosa naquela hora difícil da sua vida? Receberia a humilhação mais fria com a morte de Jeziel e ainda por cima o abandono?
Consternada por tudo que viera encontrar em Jerusalém, entendeu que precisava utilizar todas as energias, para não cair nas provas ríspidas que lhe haviam sido reservadas. E viu logo que, no orgulho de Saulo, não encontraria consolação. Num momento, chegou às mais latas conclusões, quanto ao papel que lhe competia em tão embaraçosas conjunturas. Sem recorrer à sensibilidade feminina, cobrou ânimo e falou com dignidade e nobreza:
— Tudo terminado entre nós, por quê? O sofrimento não deveria escorraçar o amor sincero.
— Não me compreendes? – replicou o orgulhoso rapaz… – Nossa união tornou-se inexequível. Não poderei desposar a irmã de um inimigo de maldita memória, para mim. Fui infeliz escolhendo esta ocasião para tua visita a Jerusalém. Sinto-me envergonhado não só diante da mulher com quem nunca mais poderei unir-me pelo matrimônio, como perante os parentes e amigos, pela situação amarga que as circunstâncias interpuseram no meu caminho…
Abigail estava pálida e penosamente surpreendida.
— Saulo… Saulo… não te envergonhes perante meu coração. Jeziel morreu estimando-te.
Seu cadáver escuta-nos – acentuava com doloroso acento. – Não posso obrigar-te a desposar-me, mas não transformes nossa afeição em ódio surdo…
Sê meu amigo!… Ser-te-ei eternamente grata pelos meses de ventura que me deste. Voltarei amanhã para casa de Ruth… Não te envergonharás de mim! A ninguém direi que Jeziel era meu irmão, nem mesmo a Zacarias! Não quero que algum amigo nosso te considere um carrasco.
Observando-a naquela generosidade humilde, o moço de Tarso teve ímpetos de estreitá-la ao coração, como se o fizera a uma criança. Quis avançar, apertá-la contra o peito, cobrir-lhe de beijos a fronte bondosa e inocente.
Súbito, porém, vieram-lhe à mente os seus títulos e atribuições; via Jerusalém revoltada, tisnando-lhe a reputação de amargas ironias. O futuro rabino não poderia ser vencido; o doutor da Lei rígida, e implacável, devia sufocar o homem para sempre.
Mostrando-se impassível, replicou em tom áspero:
— Aceito o teu silêncio em torno das lamentáveis ocorrências deste dia; voltarás amanhã para casa de Ruth, mas não deves esperar a continuação das minhas visitas, nem mesmo por cortesia injustificável, porque, na sinceridade dos de nossa raça, os que não são amigos são inimigos.
A irmã de Jeziel recebia aquelas explicações com espanto profundo.
— Então, abandonas-me inteiramente, assim? – perguntou entre lágrimas.
— Não estás desamparada – murmurou inflexivelmente, – tens os teus amigos da estrada de Jope.
— Mas, afinal, por que odiaste tanto a meu irmão? Ele foi sempre bondoso. Em Corinto nunca ofendeu a ninguém.
Era pregador do malfadado carpinteiro de Nazaré – esclareceu, contrafeito e ríspido, – além disso, humilhou-se diante da cidade inteira.
Abigail, compelida pela severidade das respostas, calou-se inteiramente.
Que poder teria o Nazareno para atrair tantas dedicações e provocar tantos ódios? Até ali, não se interessara pela figura do famoso carpinteiro, que morrera na cruz, como malfeitor; mas o irmão lhe dissera ter encontrado nele o Messias. Para seduzir um caráter cristalino, como Jeziel, o Cristo não poderia ser um homem vulgar. Lembrava o passado do irmão para considerar que, no caso da rebeldia paterna, conseguira manter-se acima dos próprios laços do sangue para admoestar o genitor, amorosamente. Se tivera forças para analisar os atos paternos com o preciso discernimento, era preciso que aquele Jesus fosse muito grande, para que a ele se consagrasse, oferecendo-lhe a própria vida ao recobrar a liberdade. Jeziel, a seu ver, não se enganaria.
Conhecendo-lhe a índole, do berço, não era possível que se deixasse iludir em suas convicções religiosas. Sentia-se, agora, atraída para aquele Jesus desconhecido e odiado injustamente. Ele ensinara o irmão a bem-querer os próprios verdugos. Que lhe não reservaria, pois, ao seu coração sedento de carinho e de paz? As últimas palavras de Jeziel exerciam sobre ela uma influência profunda.
Abismada em profundas cogitações, notou que Saulo abrira a porta, chamando alguns auxiliares, que se precipitaram por cumprir-lhe as ordens.
Em poucos minutos os despojos de Estevão eram removidos, enquanto amigos numerosos cercavam o jovem par, expansivamente loquazes e satisfeitos.
— Que é isto – perguntou um deles a Abigail, – ao notar-lhe a túnica manchada de sangue.
— O sentenciado era israelita – atalhou o moço tarsense, desejoso de antecipar explicações – e, como tal, amparamo-lo na hora extrema.
Um olhar mais severo deu a entender à jovem quanto devia conter as emoções próprias, longe e acima das ocorrências verídicas.
Daí a minutos, o velho Gamaliel chegava e solicitava ao ex-discípulo alguns momentos de atenção, em particular.
—Saulo disse bondoso, – espero partir na semana próxima para além de Damasco. Vou descansar junto de meu irmão e aproveitar a noite da velhice para meditar e repousar o espírito. Já fiz a necessária notificação no Sinédrio e no Templo, e acredito que, dentro de poucos dias, serás efetivamente provido no meu cargo.
O interpelado fez um ligeiro gesto de agradecimento, cuja frieza mal disfarçava o abatimento que lhe ia na alma.
— Entretanto – prosseguia o generoso rabino, solicitamente tenho um último pedido a fazer-te: É que tenho Simão Pedro em conta de um amigo.
Esta confissão poderá escandalizar-te mas, sinto-me bem ao fazê-la. Acabo de receber sua visita, pedindo a minha interferência para que o cadáver da vítima de hoje seja entregue à igreja do “Caminho”, onde será sepultado com muito amor. Sou o intermediário do pedido e espero não me recuses o obséquio.
— Dizeis “vítima”? – perguntou Saulo admirado.
— A existência de uma vítima pressupõe um algoz e réu; eu não sou verdugo de ninguém. Defendi a Lei até ao fim.
Gamaliel compreendeu a objeção e replicou:
— Não vejas laivo de recriminação nas minhas palavras. Nem a hora, nem o local, tampouco, se prestam a discussões. Mas, para não faltar à sinceridade que em mim sempre conheceste, devo dizer-te, rapidamente, que venho chegando a profundas conclusões a respeito do chamado carpinteiro de Nazaré. Tenho refletido maduramente na sua obra entre nós; todavia, estou velho e alquebrado para iniciar qualquer movimento renovador no seio do judaísmo. Em nossa existência chega uma fase em que não nos é lícito intervir nos problemas coletivos; mas, em qualquer idade, podemos e devemos operar a iluminação ou o aprimoramento de nós mesmos. É o que vou fazer. O deserto, na majestade silenciosa do insulamento, constituiu sempre a sedução dos nossos antepassados. Sairei de Jerusalém, fugirei do escândalo que as minhas novas ideias e atitudes certo provocariam; buscarei a solidão para encontrar a verdade.
Saulo de Tarso estava estupefato. Também Gamaliel parecia sofrer a influenciação de estranhos sortilégios! Sem dúvida, os homens do “Caminho” o enfeitiçaram, desbaratando-lhe as últimas energias… o velho mestre acabara capitulando, numa atitude de consequências imprevisíveis! Ia impugnar, discutir, chamá-lo à realidade, quando o venerando mentor da mocidade farisaica, deixando entrever que percebia as vibrações antagônicas do seu espírito ardoroso, sentenciou:
— Já sei o teor da tua resposta íntima. Julga-me fraco, vencido, e cada qual analisa como pode; mas não me leves ao enfaro das controvérsias. Aqui estou somente para solicitar-te um favor e espero não mo negues. Poderei providenciar para remover os despojos de Estevão imediatamente?
Via-se que o moço de Tarso hesitava, premido por singulares pensamentos.
— Concede, Saulo!… É o último obséquio ao velho amigo!…
— Concedo – disse afinal.
Gamaliel despediu-se com um gesto de sincero reconhecimento.
Novamente rodeado de muitos amigos, que procuravam alegrá-lo, o jovem doutor da Lei revelava-se muito alheio de si mesmo. Debalde erguia a taça das saudações. O olhar vago, cismativo, demonstrava o profundo aleamento em que se engolfara. Os inesperados acontecimentos acarretaram-lhe à mente um turbilhão de pensamentos angustiados. Queria pensar, desejava recolher-se em si mesmo para o exame necessário das novas perspectivas do seu destino, mas, até ao pôr do sol, foi obrigado a manter-se no quadro das convenções sociais, atendendo aos amigos até ao fim.
Alegando necessidade de trocar as vestes ensanguentadas, Abigail retirara-se logo após a entrevista de Gamaliel.
Na casa de Dalila, entretanto, a pobrezinha foi acometida de febre alta, penalizando e alarmando a todos os que lá se encontravam.
Ao cair da noite, Saulo regressava ao lar da irmã, onde lhe comunicaram o estado da enferma.
Resolvido a imprimir novos rumos à sua vida, procurou sufocar a própria emoção para encarar os fatos com a naturalidade possível.
Em lágrimas, a jovem de Corinto pediu que a reconduzissem à casa de Zacarias, receando a marcha da enfermidade. Em vão, Dalila e os parentes procuraram intervir com recursos afetuosos. A súplica de Abigail ao espírito enérgico de Saulo foi exposta comovedoramente e, dentro da severidade que lhe caracterizava as atitudes, o ex-discípulo de Gamaliel tomou todas as providências para satisfazê-la.
E à noitinha, com muito cuidado, modesta carreta saía de Jerusalém pela estrada de Jope.
Ruth recebeu a jovem nos braços, emocionada e aflita. Ela e o marido recordaram, então, que, somente com a morte do pai, Abigail tivera febre tão alta, acompanhada de abatimento tão profundo. De cenho carregado, Saulo os ouvia, esforçando-se por dissimular a emoção. E enquanto os amigos da jovem procuravam assisti-la, carinhosamente, o futuro rabino, sucumbido num bulcão de ideias antagônicas, dirigia-se para Jerusalém, com intenção de não mais voltar a Jope.

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