Rumo ao deserto

Cidade de PalmiraEm Palmira, procurou por Ezequias, irmão de Gamaliel, que o recebeu com muita simpatia, informando que o ex-rabino encontrava-se em uma cabana de sua propriedade, à sombra de algumas tamareiras, num dos muitos oásis próximos.
O ex-rabino notou que Gamaliel apresentava sintomas de profundo abatimento. Foi com infinito júbilo que o apertou, afetuosamente, nos braços, osculando-lhe, amoroso, as mãos encarquilhadas e trêmulas.
Depois dos preâmbulos afetuosos, o moço tarsense relatou ao mestre venerando as graças recebidas às porta de Damasco. O velhinho ouviu-lhe a narrativa com indizível espanto; nos olhos vivos e serenos, rorejavam lágrimas de emoção, que não chegavam a cair. Aquela prova enchia-o de profundo consolo. Não havia aceitado, em vão, aquele Cristo sábio e amoroso, incompreendido dos colegas. Ao término da exposição, Saulo de Tarso tinha o olhar velado em pranto. O bondoso ancião abraçou-o, comovido, atraindo-o ao coração.
-Saulo, meu filho – disse exultante –, bem sabia que me não enganava a respeito do Salvador, que tão profundamente me falou à velhice exausta, através da luz espiritual do seu Evangelho de redenção. Jesus dignou-se estender as mãos amorosas ao teu espírito dedicado. A visão de Damasco bastará para a consagração de tua existência inteira ao amor do Messias. É verdade que muito trabalhaste pela Lei de Moisés, sem hesitar na adoção de medidas extremas, na sua defesa. Entretanto, é chegado o momento de trabalhares por quem é maior que Moisés. -Sinto-me, porém, grandemente desorientado e confundido – murmurou o jovem de Tarso, cheio de confiança. Desde a ocorrência noto que estou sendo objeto de singulares e radicais transformações. Obediente ao meu feitio absolutamente sincero, quis começar meu esforço pelo Cristo em Damasco, e, no entanto, recebi dos nossos amigos, dali, as maiores manifestações de desprezo e ridículo, que muito me fizeram sofrer. Repentinamente, vi-me sem companheiros, sem ninguém. Alguns componentes do “Caminho” consolaram minha alma abatida com as suas expressões de fraternidade, mas não foram bastantes para ressarcir as amargas desilusões experimentadas. O próprio Sadoc, que na infância, foi pupilo de meu pai, cobriu-me de recriminações e zombarias. Desejei voltar a Jerusalém, mas, através do quadro da sinagoga de Damasco, compreendi o que me esperava em grande escala junto às autoridades do Sinédrio e do Templo. Naturalmente, a profissão de rabino não me poderá interessar o espírito sincero, porque, de outro modo, seria mentir a mim mesmo. Sem trabalho, sem dinheiro, acho-me num labirinto de questões insolúveis, sem o auxílio de um coração mais experiente que o meu. Resolvi, então, demandar o deserto e procurar-vos para o socorro necessário. Olhos firmes, embora iluminados de intensa ternura, o generoso velhinho acariciou-lhe as mãos e começou a falar:
-Examinemos tuas dúvidas, de maneira particular, a fim de estudarmos uma solução adequada a todos os problemas, à luz dos ensinamentos que hoje nos iluminam.
-Falas do desprezo experimentado na sinagoga de Damasco; mas os exemplos são claros e convincentes. Também eu, atualmente, sou considerado como louco pacífico, no ambiente dos meus. Em Jerusalém, viste Simão Pedro vilipendiado por amar os pobres de Deus e dar-lhes acolhida; viste Estevão morrer sob pedradas e que mais? O próprio Cristo, redentor dos homens, não se furtou aos martírios de uma cruz infamante, entre malfeitores condenados pela justiça do mundo. A lição do Mestre é grande demais para que seus discípulos estejam a espera de dominações políticas ou de altas expressões financeiras, em seu nome. Se Ele que era puro, e inimitável, por excelência, andou entre sofrimentos e incompreensões, neste mundo, não é justo aguardemos repouso e vida fácil em nossa miserável condição de pecadores.
-A respeito das dificuldades que dizes experimentar, depois dos sucessos de Damasco – prosseguia Gamaliel serenamente –, nada mais justo e natural a meus olhos experimentados nos problemas do mundo. Nossos avós, antes de receber o maná do céu, atravessaram tempos sombrios de miséria, escravidão e sofrimento. Moisés jamais encontraria na rocha estéril a fonte de água viva. E talvez ainda não tenhas meditado melhor nas revelações da Terra Prometida. Que região seria essa, se, guardando a compreensão mais vasta de Deus, descobrimos em todos os pontos do mundo mananciais de sua proteção? Há tamareiras, frondosas e amigas, medrando nos areais ardentes. Essas árvores generosas não transformam o próprio deserto em caminhos abençoados, cheios de pão divino para matar nossa fome? Nas minhas reflexões solitárias, cheguei à conclusão de que a Terra Prometida pelas divinas revelações é o Evangelho do Cristo Jesus. E a meditação nos sugere comparações mais profundas. Quando nossos ascendentes mais corajosos trabalhavam por conquistar a região privilegiada, numerosas pessoas tentavam desanimar os mais pertinazes, asseverando que o terreno era inóspito, que os ares eram insalubres e portadores de febres mortais, que os habitantes eram intratáveis, devoradores de carne humana; mas Josué e Caleb, num esforço heróico, penetraram a terra desconhecida, venceram os primeiros obstáculos e voltaram dizendo que dentro da região manavam leite e mel. Não temos aí um símbolo perfeito? A revelação divina deve referir-se a uma região bendita, cujo clima espiritual seja feito de paz e luz. Adaptarmos ao Evangelho é descobrir outro país, cuja grandeza se perde no infinito da alma. A nosso lado permanecem aqueles que tudo fazem por nos desanimar na empresa conquistada. Acusam a lição do Cristo de criminosa e revolucionaria, enxergam no seu exemplo intuitos de desorganização e morte; qualificam um apóstolo, como Simão Pedro, de pescador presunçoso e ignorante; mas pensando naquela estupenda serenidade com que Estevão entregou a alma a Deus, vi nele a figura do companheiro corajoso e digno, que voltava das lições do “Caminho”, para nos afirmar que na Terra do Evangelho há fontes do leite da sabedoria e do mel do amor divino. É preciso, pois, marchar sem repouso e sem contar os obstáculos da viagem. Procuremos a mansão infinita que nos seduz o coração. -Alegas tua estranheza com a mudança de profissão e a falta de dinheiro para as necessidades mais imediatas. É preciso convir que estás ainda muito moço. Podes multiplicar as energias com o adestramento de tuas forças e penetrar o terreno das aspirações do Salvador, a nosso respeito. Para isso, é indispensável simplificar a vida, recomeçar a luta. Que aprendeste na infância, antes da posição conquistada? – perguntou o ancião previdente. -Consoante os costumes da nossa raça, meu pai mandou-me aprender o ofício de tecelão, como sabeis.
-Não podias receber das mãos paternas dádiva mais generosa – acrescentou Gamaliel com um sorriso sereno – , teu pai foi previdente, como todos os chefes de família do povo de Deus, procurando afeiçoar tuas mãos ao trabalho, antes que o cérebro se povoasse de muitas idéias. Está escrito que devemos comer o pão com o suor do rosto. O trabalho é o movimento sagrado da vida. -Mas que fazer? – tornou Saulo preocupado. O antigo mestre refletiu um instante e acrescentou:
-Sabes que as zonas do deserto são grandes mercados dos artigos de couro. O serviço de transportes depende inteiramente dos tecelões mais hábeis e dedicados. Assim o compreendendo, meu irmão estabeleceu diversas tendas de trabalho nos oásis mais distantes, para atender às necessidades do seu comércio. Conversarei com Ezequias a teu respeito. Não direi que se trata de um grande chefe de Jerusalém, que pretende exilar-se por algum tempo, não pelo receio de envergonhar teu nome e tua origem, mas por julgar útil que proves a humildade e a solidão, no teu novo caminho. As considerações convencionais poderiam perturbar-te, agora que necessitas exterminar o “homem velho” a golpes de sacrifício e disciplina. -Compreendo e obedeço em meu próprio benefício – murmurou Saulo com atenção. -Aliás, Jesus exemplificou tudo isso, permanecendo em nosso meio, sem que o percebêssemos.
O moço tarsense pôs-se a meditar na elevação dos alvitres recebidos. Iniciaria uma existência nova. Tomaria o tear com humildade. Alegrava-se, ao recordar que o Mestre não desdenhara, por sua vez, o banco de carpinteiro. O deserto lhe proporcionaria consolação, trabalho, silêncio. Ganharia não mais o dinheiro fácil da admiração indevida, mas os recursos necessários à existência, com o subido valor dos obstáculos vencidos. Gamaliel tinha razão. Não era lícito rogar o favor dos homens quando Deus lhe havia feito o maior de todos os favores, iluminando-lhe a consciência para sempre. É verdade que em Jerusalém havia sido cruel verdugo, mas contava apenas trinta anos. Buscaria conciliar-se com todos a quem havia ofendido no seu rigorismo sectário. Sentia-se jovem, trabalharia para Jesus enquanto lhe restassem energias.
A palavra carinhosa do ancião veio arrancá-lo das profundas cismas.
-Tens o Evangelho? – perguntou o velhinho com bondoso interesse. Saulo mostrou-lhe a parte fragmentária que trazia, explicando-lhe o trabalho que teve, em Damasco, para copiá-la dos manuscritos do generoso pregador que curara a cegueira repentina. Gamaliel examinou-a com atenção e, depois de concentrar-se longo tempo, acrescentou:
-Tenho uma cópia integral das anotações de Levi, cobrador de impostos em Cafarnaum, que se fez Apóstolo do Messias, lembrança generosa de Simão Pedro à minha pobre amizade. Levarás contigo as páginas escritas na igreja do “Caminho”, como fiéis companheiras do teu novo trabalho. Cheguei ao fim da carreira, devo esperar a morte do corpo. Se hei de abandonar a dádiva de Pedro a pessoas que não lhe podem reconhecer o valor que lhe atribuímos, é justo entregá-la a um amigo fiel, que pode ajuizar do seu caráter sagrado. Além disso, temo que os adeptos de Jesus te não possam compreender de pronto, quando regressares à cidade santa. Terás, então, esta lembrança para te apresentares em meu nome. Aquele tom profético impressionava o moço tarsense, que baixou a cabeça, de olhos úmidos…
Daí a três dias, Saulo despedia-se do mestre, debaixo de profunda comoção.
No dia imediato, os serviçais de Ezequias, ladeando a extensa fila de camelos resignados, deixavam-no com vultosa carga de couros, na companhia de Áquila e sua mulher, no grande oásis que florescia em pleno deserto.
Após três anos consecutivos, de estudo e meditações, em companhia do casal, também seguidores de Jesus, Saulo de Tarso voltava a Damasco, resistente como um beduíno e totalmente transformado.

Novamente em Damasco

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