A criança

A criança
A criança

Se nos propomos a edificar o futuro com o Cristo de Deus é necessário auxiliar a criança.
Se desejamos solucionar os problemas do mundo, de maneira definitiva, é indispensável ajudar a criança.
Se buscamos sustentar a dignidade humana, abolindo a perturbação e imunizando o povo contra as calamidades da delinquência, é preciso proteger a criança.
Se anelamos a construção da Era Nova, na qual as criaturas entrelacem as mãos na verdadeira fraternidade, em bases de serviço e sublimação espiritual, é imprescindível socorrer a criança.
Entretanto, convenhamos que os grandes malfeitores da Terra, os fazedores de guerras e os verdugos das nações, via de regra, foram crianças primorosamente resguardadas contra quaisquer provações na infância.
E ainda hoje os jovens transviados habitualmente procedem de climas domésticos em que a abastança material não lhes proporcionou ensejo a qualquer disciplina pelo conforto excessivo.
Urge, pois, não amparar a criança, mas educar a criança e induzi-la ao esforço de construção do Mundo Melhor.

Francisco Cândido Xavier/Batuíra – da obra Despertador – Junho/Julho de 1976.

Toques espirituais maturidade e consciência

Não espere a compreensão dos outros, seja você mesmo essa compreensão.
Não espere ser feliz pela presença de alguém amado na sua vida; seja feliz só porque você existe, independentemente de qualquer um.
Não espere que um salvador celeste venha salvar sua alma, apenas evolua e cresça, para você ser salvo de sua própria ignorância.
Não espere o perdão de alguém, seja você esse perdão.
Não espere que alguém se desculpe de você, seja você essa desculpa.
Não espere que a morte surja para provar que você vive além dela; use o discernimento e saiba disso agora!
Não espere a vida passar para que você passe sem compreender coisa nenhuma.
Cada momento é importante, cada vida é importante, e cada coisa que se aprende é importante; por isso é muito importante viver e valorizar essa existência atual, que tem de ser a melhor de todas as existências, independentemente de vidas anteriores.
O que você possa ter sido lá atrás já passou…
Se você foi Hitler ou Buda não interessa!
O que interessa é essa vida e que você seja feliz aqui e agora, sem jamais depender de algo (ou de alguém) fora de si mesmo.
E toda transformação que você quiser que ocorra, seja você mesmo essa transformação, sem lugar de procurar pedir essa transformação fora de si mesmo, dos outros, do mundo ou do que quer que seja.
O que quer que aconteça na sua vida, seja lá o que for: a chegada de alguém ou sua partida, não dependa disso para que seu discernimento se acenda.
Independentemente de quem chega ou de quem parte, é você que está aí dentro e, ao longo da eternidade, você estará acompanhado por si mesmo, o tempo todo.
Então, se amanhã, ou em outras vidas, você quiser estar bem acompanhado, comece a crescer agora, para que você seja boa companhia  de você mesmo para sempre.

Autoria atribuída a Kuan Yin

Nossa casa

A mente é a casa viva onde cada um de nós reside, segundo as nossas próprias concepções.
A imaginação é o arquiteto de nosso verdadeiro domicílio.
Se julgarmos que o ouro precisa erigir-se em material único, adequado à nossa construção, cedo sofremos a ventania destruidora ou enregelante da ambição e da inveja, do remorso e do tédio, que costuma envolver a fortuna, em seu castelo de imprevidência.
Se supusermos que o poder humano deve ser o agasalho exclusivo de nosso espírito, somos apressadamente defrontados pela desilusão que, habitualmente, assinala a fronte das criaturas enganadas pelos desvarios da autoridade.
Se encontrarmos alegria na crítica ou na leviandade, naturalmente nos demoramos em cárceres de perturbação e maledicência.
Moramos, em espírito, onde projetamos o pensamento.
Respiramos o bem ou o mal, de acordo com as nossas preferências na vida.
Na Terra, muitas vezes temos a máscara física emoldurada em honrarias e esplendores, conservando-nos intimamente em deploráveis cubículos de padecimentos e trevas.
Só o trabalho incessante no bem pode oferecer-nos a milagrosa química do amor para a sublimação do lar interno.
Por isso mesmo, disse Jesus:- “meu Pai trabalha até hoje e eu trabalho também.”
Idealizemos mais luz para o caminho.
Abracemos o serviço infatigável aos semelhantes e a nossa experiência, de alicerces na Terra, culminará, feliz e vitoriosa, nos esplendores do Céu.

Emmanuel e Chico Xavier – Do livro: Coragem – C. E. C.

A reflexão
A mente é a sede do governo das sensações.
Acúmulo de problemas sem solução imediata, inquietude, perspectivas de qualquer dificuldade, tudo isto opera certos desequilíbrios inevitáveis.

Arthur Joviano e Chico Xavier Do livro: Pérolas de Sabedoria

Homenagem a um pai ausente

Recebemos de um ouvinte uma homenagem que ele mesmo, carinhosamente, escreveu a seu pai, que hoje habita o outro lado da vida: o mundo espiritual.
Seu pai era mestre de obras. E a mensagem intitula-se: Ao mestre de obras da vida.
Nós, do Momento Espírita, fizemos da mensagem de um filho agradecido, a nossa homenagem a todos os pais da Terra, ausentes ou não.
Diz mais ou menos assim:

…Então eu nasci.
Fui alegria para você. Você viu em mim a continuidade do seu nome.
Você sempre zelou pela minha segurança, buscando pessoas e lugares que pudessem ajudá-lo a me fazer viver…
Eu era seu filho e passei a ser a razão do seu viver. Do seu jeito, você me amou e me deu vida.
Mas não é de mim que quero falar. É de você.
Hoje a homenagem é para você. Estou aqui lembrando de nossos parentes que o admiravam tanto, das pessoas que não o conheceram, meus amigos do serviço, alguns vizinhos, outros conhecidos, todos desejam que você faça uma boa viagem e que nos espere um dia, pois você tomou o ônibus da frente, o próximo talvez seja o nosso…
Você nunca demonstrou, mas se angustiava quando precisava ir trabalhar, viajar, e queria estar comigo para me dar segurança.
Quando estava longe pensava com carinho em mim. Ah! Lembra-se de quando apanhei de você por fazer algo errado? Ui! Como doeu… Chorei naquela época, mas nunca o fiz chorar de vergonha ou tristeza pelas minhas atitudes, pois aprendi com você a ser gente.
Você não falou “eu te amo”, mas tudo, tudo o que você fez para mim provou que você me amava.
Estou lembrando das muitas vezes que sentamos juntos para tomar chimarrão. Tinha que ser no horário que você queria: às nove da manhã e às três da tarde.
Mas como era bom!… Quantas coisas você me contou! Quantas risadas demos juntos…
Também resmungamos juntos dos políticos que estão arruinando o país… Dos salários. Da injusta aposentadoria dos idosos, entre os quais você…
Lembro-me das broncas que levei quando fazia algo errado… Dos causos que você me contava… Dos conselhos que recebi de você… Dos incentivos para as boas ideias…
Às vezes eu não gostava dos seus conselhos mas fazia porque sabia que, de alguma maneira, você estava certo.
Sabe, depois que mamãe se foi, ficamos só nós dois por 9 anos e 5 meses. E como valeu.
Aprendi a confiar em seus conselhos, a respeitar sua autoridade de experiência de vida, a buscar sua opinião antes de fazer algo. E sempre que não o escutei, eu errei.
Mas o que eu mais gostei, foi a liberdade que tive com você. Com a liberdade que você me deu, aprendi a ter responsabilidade. Você me ensinou a viver e a me cuidar no mundo. A assumir minhas atitudes. A errar menos para sofrer menos, e nunca prejudicar alguém.
Aprendi que não se deve viver por viver, mas ajudar as pessoas e fazer um mundo melhor, começando por nós.
Também eu o escutei muitas vezes… Suas histórias de tristezas, desenganos, fatos e pessoas que o fizeram feliz, e outras que o fizeram sofrer…
Lembro-me de como você fazia seu serviço… Os problemas que passou na vida… Você me contou sua vida. E com sua vida aprendi que existem pessoas e fatos que nem sempre nos fazem felizes, mas que precisam ser rapidamente superados porque devemos seguir em frente.
Aliás, seguir em frente foi a coisa mais importante que aprendi com você, porque nunca o vi reclamando de alguma situação, mas, sim, tomando atitudes para modificar e melhorar.
Você sempre me dizia: “Se não der certo aqui, tente ali, mas nunca desista.”
E hoje, pensando em você, quero celebrar a vida. Vida que você teve. Vida que você me deu. Vida que vivemos juntos.
Sabe, pai, fiquei muito triste com a sua viagem. Fiquei me perguntando:
“Com quem vou tomar chimarrão? Para quem vou ler as notícias do jornal, no domingo? E os seus palpites do jogo da esportiva, quem vai fazer? Com quem irei conversar? Para quem vou pedir conselhos? Com quem vou desabafar? E os seus causos, quem vai contar?”
Não vou mais fazer sua barba… Não vamos mais ao restaurante comer aquela carne dura que você não gostava…
Não vou ver mais a sua horta de pepinos, repolho, nem plantar girassóis… As flores que você tanto gostava…
Ao chegar em casa não vou vê-lo sentado na sala ouvindo as notícias pelo rádio ou vendo televisão… Não vou mais receber a sua aposentadoria, contar novidades para você, fazer as compras que me pedia… O pão, o leite, a margarina…
Agora a casa está vazia, sem vida, sem a sua vida …
Mas, até imagino você escutando isto… Talvez tenha vontade de chamar minha atenção, pois iria dizer: “Por que está falando bobagens… Meu tempo já passou… O que você está fazendo do seu tempo?”
Talvez me perguntasse se já pintei a casa… Se já aluguei o ponto comercial… Se já cortei a grama…
Você já fez sua caminhada…
Então, neste momento, em respeito a sua memória, eu afasto a tristeza e qualquer sentimento negativo.
Passo a sentir saudades de você, porque a falta continua…
Agora é a minha hora…
Não sei dizer ao certo se eu vim para lhe fazer feliz ou se fui feliz por ter vindo ao mundo através de você.
E até creio que foi bom para você ter a mim como filho. Mas com toda certeza deste mundo, foi muito melhor ter tido você como pai…

Redação do Momento Espírita, a partir de texto em homenagem a Félix Bieniacheski, desencarnado, de autoria de Francisco Bieniacheski

Agradeçamos

Sabemos que a nossa mente, para evoluir, sofre processos de transformação por vezes violentos e rudes, qual acontece à terra
necessitada de amanho para produzir.
Nos círculos da natureza, observamos o arado, vergastando o solo e ferindo-o, e se a grande massa rochosa aparece, de improviso, impedindo o esforço do lavrador, notamos que a dinamite comparece, estilhaçando os obstáculos…
Assim também a nossa inteligência não se modifica sem a visitação da dificuldade.
A lâmina dos problemas inquietantes como que nos tortura, dia-a-dia, constrangendo-nos à compreensão mais justa da vida e se o endurecimento espiritual é a nota de nossas reações, ante a passagem da máquina renovadora do sofrimento, surgem os impactos diretos da provação sobre a nossa experiência pessoal, desintegrando-nos antigas cristalizações no egoísmo e no orgulho.
Ofereçamos o coração do Divino Cultivador que é Jesus.
Digne-se o Mestre Divino fazer de nossa existência o que lhe aprouver.
Os golpes sublimes da Vontade Superior sobre os nossos desejos serão recursos do máximo proveito para o nosso próprio futuro.
Se a dor nos procura, em forma de incompreensão do meio ou na máscara de tristes desilusões terrestres, abençoemo-la, acentuando a nossa fé viva em Nosso Senhor e continuemos servindo o próximo, na medida de nossas possibilidades, porque a dor é realmente a Sábia Instrutora, capaz de elevar-nos da Terra para os Céus.

Chico Xavier/Meimei

Do Livro: Sentinelas da alma.

Apelo à Mocidade

Apelo à Mocidade Espírita Cristã

Mocidade – o espiritismo –
Mensagem de luz ao povo –
Descortina um mundo novo,
Guardado na tua mão,
Combate as sombras do abismo,
Exalta o amor que te elevas
Desata os grilhões de trevas
Da moderna escravidão.

Ausculta o horror do orbe aflito!
Nos campos de toda terra,
Vagueia o dragão da guerra
Em tremenda saturnal…
Vem das angústias do Egito,
Dos tormentos da Caldeia,
Empanando o sol da ideia,
Brandindo clava infernal.

O chamejante estandarte,
Ergueu sobre a Assíria forte
Espalhando em toda parte,
Incêndio devastador,
Trouxe à Pérsia – ruína e morte.
Da Grécia – extinguiu a vida,
Deixando Roma caída
Num lago de sangue e dor.

Mas, além do mostro hirsuto
Que nos recorda a caverna,
A ignorância governa
Prostíbulos e canhões.
A preguiça vive em luto,
Ódio torvo prevalece
Nos males de toda espécie
Enlouquecendo milhões,

Negro vício multiforme
Que de púrpura se veste,
Atormenta, mais que a peste,
Mendigos, ministros, reis…
Mas a verdade não dorme
E abrindo sulco profundo,
Desdobrará sobre o mundo
Novos tempos, novas leis.

Juventude – a nova era
Já resplende no horizonte,
Move os braços, ergue a fronte
No serviço varonil!…
Ama, crê, trabalha e espera,
Proclama a Fé que te invade,
Cantando a Fraternidade
Ao claro céu do Brasil.

Soldados do Cristo augusto –
Tercemos armas da crença –
Detendo por recompensa
O divino dom de amar.
O Salvador, brando e justo,
Para as glórias do porvir,
Elege a senha – servir!
E manda a vida – marchar!

Sigamos, vanguarda afora
De coração descoberto,
Contemplando de mais perto
A fonte de eterna luz!
Acendamos nova aurora
Na noite que envolve o templo
Seguindo o sublime exemplo
Do Mestre Sábio da Cruz.

Combatem do nosso lado
Sem fuzis conquistadores,
Espíritos benfeitores
Buscando a paz de amanhã…
Ei-los – voltam ao passado!
São mil gênios sobre-humanos,
Choraram trezentos anos,
Nos circos da fé cristã.

Trazem fúlgidas bandeiras,
Entoam hinos felizes,
Bendizendo cicatrizes,
– Santificados heróis!…
Atravessaram fogueiras,
Serviram a Deus, de rastros,
Volvem hoje de outros astros
– Sóis brilhando noutros sóis!

Castro Alves

Psicografada por Francisco Cândido Xavier
em reunião da Mocidade Espírita Maria João de Deus,
em Belo Horizonte. De “O Verbo Moço”, n.23 de Abril de 1951.

 

Lenda Egípicia

Ante as portas livres de acesso ao trabalho cristão e ao conhecimento salutar que André Luiz vai desvendando, recordemos, prazerosamente, a antiga lenda egípcia do peixinho vermelho:

peixe-vermelho
Peixinho vermelho

No centro de formoso jardim, havia grande lago, adornado de ladrilhos azul-turquesa.
Alimentado por diminuto canal de pedra, escoava suas águas, do outro lado, através de grade muito estreita.
Nesse reduto acolhedor, vivia toda uma comunidade de peixes, a se refestelarem, nédios e satisfeitos, em complicadas locas, frescas e sombrias. Elegeram um dos concidadãos, de barbatanas, para os encargos de rei, e, ali viviam, plenamente despreocupados, entre a gula e a preguiça.
Junto deles, porém, havia um peixinho vermelho, menosprezado de todos. Não conseguia pescar a mais leve larva, nem se refugiar nos nichos barrentos.
Os outros, vorazes e gorduchos, arrebatavam para si todas as formas larvárias e ocupavam, displicentes, todos os lugares consagrados ao descanso.
O peixinho vermelho que nadasse e sofresse. Por isso mesmo, era visto em correria constante, perseguido pela canícula ou atormentado de fome.
Não encontrando pouso no vastíssimo domicílio, o pobrezinho não dispunha de tempo para muito lazer, e começou a estudar com bastante interesse.
Fez o inventário de todos os ladrilhos que enfeitavam as bordas do poço, arrolou todos os buracos nele existentes e sabia, com precisão, onde se reuniria maior massa de lama por ocasião de aguaceiros.
Depois de muito tempo, à custa de longas perquirições, encontrou a grade do escoadouro.
À frente da imprevista oportunidade de aventura benéfica, refletiu consigo:
– “Não será melhor pesquisar a vida e conhecer outros rumos”?
Optou pela mudança.
Apesar de macérrimo pela abstenção completa de qualquer conforto, perdeu várias escamas, com grade sofrimento, a fim de atravessar a passagem estreitíssima.
Pronunciando votos renovadores, avançou, otimista, pelo rego d’água, encantado com as novas paisagens, ricas de flores e sol que o defrontavam, e seguiu,
embriagado de esperança…
Em breve, alcançou grande rio e fez inúmeros conhecimentos. Encontrou peixes de muitas famílias diferentes, que com ele simpatizaram, instruindo-o quanto aos percalços da marcha e descortinando-lhe mais fácil roteiro.
Embevecido, contemplou nas margens, homens e animais, embarcações e pontes, palácios e veículos, cabanas e arvoredo. Habituado com o pouco, vivia com extrema simplicidade, jamais perdendo a leveza e a agilidade naturais.
Conseguiu, desse modo, atingir o oceano, ébrio de novidade e sedento de estudo.
De início, porém, fascinado pela paixão de observar, aproximou-se de uma baleia, para quem toda água do lago em vivera não seria mais que diminuta ração; impressionado com o espetáculo, abeirou-se dela mais que devia e foi tragado com os elementos que lhe constituíam a primeira refeição diária.
Em apuros, o peixinho aflito orou ao Deus dos Peixes, rogando proteção no bojo do monstro e, não obstante as trevas em que pedia salvamento, sua prece foi ouvida, porque o valente cetáceo começou a soluçar e vomitou, restituindo-o às correntes marinhas.
O pequeno viajante, agradecido e feliz, procurou companhias simpáticas e aprendeu a evitar os perigos e tentações.
Plenamente transformado em suas concepções do mundo passou a reparar as infinitas riquezas da vida. Encontrou plantas luminosas, animais estranhos, estrelas móveis e flores diferentes, no seio das águas. Sobretudo, descobriu a existência de muitos peixinhos, estudiosos e delgados tanto quanto ele, junto dos quais se sentia maravilhosamente feliz.
Vivia, agora, sorridente e calmo, no Palácio de Coral que elegera, com centenas de amigos, para residência ditosa, quando, ao se referir ao seu começo laborioso, veio a saber que somente no mar as criaturas aquáticas dispunham de mais sólida garantia, de vez que, quando o estio se fizesse mais arrasador, as águas de outra altitude continuariam a correr para o oceano.
O peixinho pensou, pensou… e sentindo imensa compaixão daqueles com quem convivera na infância, deliberou consagrar-se à obra do progresso e salvação deles.
Não seria justo regressar e anunciar-lhes a verdade? Não seria nobre ampará-los, prestando-lhes a tempo valiosas informações?
Não hesitou.
Fortalecido pela generosidade de irmãos benfeitores que com ele viviam no Palácio de Coral, empreendeu comprida viagem de volta.
Tornou ao rio, do rio dirigiu-se aos regatos e dos regatos se encaminhou para os pequenos canais que o conduziram ao primitivo lar.
Esbelto e satisfeito como sempre, pela vida de estudo e serviço a que se devotava, varou a grade e procurou, ansiosamente, os velhos companheiros.
Estimulado pela proeza de amor que efetuava, supôs que o seu regresso causasse surpresa e entusiasmo gerais. -Certo, a coletividade inteira lhe celebraria o feito, mas depressa verificou que ninguém se mexia. Todos os peixes continuavam pesados e ociosos, repimpados nos mesmos ninhos lodacentos, protegidos por flores de lótus, de onde saiam apenas para disputar larvas, moscas ou minhocas desprezíveis.
Gritou que voltara a casa, mas não houve quem lhe prestasse atenção, porquanto ninguém, ali, havia dado pela ausência dele.
Ridicularizado, procurou, então, o rei de guelras enormes e comunicou-lhe a reveladora aventura.
O soberano, algo entorpecido pela mania de grandeza, reuniu o povo e permitiu que o mensageiro explicasse.
O benfeitor desprezado, valendo-se do ensejo, esclareceu, com ênfase, que havia outro mundo líquido, glorioso e sem fim. Aquele poço era uma insignificância que podia desaparecer de momento para outro. Além do escoadouro próximo, desdobravam-se outra vida e outra experiência. Lá fora, corriam regatos ornados de flores, rios caudalosos repletos de seres diferentes, e, por fim, o mar, onde a vida parece cada vez mais rica e mais surpreendente. Descreveu o serviço de tainhas e salmões, de trutas e esqualos. Deu notícias do peixe-lua, do peixe-coelho e do galo-do-mar.
Contou que vira o céu repleto de astros sublimes e que descobrira árvores gigantescas, barcos imensos, cidades praieiras, monstros temíveis, jardins submersos, estrelas do oceano e ofereceu-se para conduzi-los ao Palácio de Coral, onde viveriam todos, prósperos e tranqüilos. Finalmente, os informou de que semelhante felicidade, porém, tinha igualmente seu preço. Deveriam todos emagrecer, convenientemente, abstendo-se de devorar tanta larva e tanto verme nas locas escuras e aprendendo a trabalhar e estudar tanto quanto era necessário à venturosa jornada.
Assim que terminou, gargalhadas estridentes coroaram-lhe a preleção.
Ninguém acreditou nele.
Alguns oradores tomaram a palavra e afirmaram, solenes, que o peixinho vermelho delirava, que outra vida além do poço era francamente impossível, que aquela história de riachos, rios e oceanos era mera fantasia de cérebro demente e alguns chegaram a declarar que falavam em nome do Deus dos Peixes, que trazia os olhos voltados unicamente para eles.
O Soberano da comunidade, para melhor ironizar o peixinho, dirigiu-se em companhia dele até à grade de escoamento, e, tentando, de longe, a travessia, exclamou, borbulhante:
– “Não vês que não cabe aqui nem uma só de minhas barbatanas? Grande tolo!
Vai-te daqui! Não perturbes o bem-estar…
Nosso lago é o centro do Universo…
Ninguém possui vida igual à nossa”.
Expulso a golpes de sarcasmo, o peixinho realizou a viagem de retorno e instalou-se, em definitivo, no Palácio de Coral, aguardando o tempo.
Depois de alguns anos, apareceu pavorosa e devastadora seca.
As águas desceram de nível e o poço onde viviam os peixes pachorrentos e vaidosos esvaziou-se, compelindo a comunidade inteira a perecer, atolada na lama”…
O esforço de André Luiz, buscando acender luz nas trevas, é semelhante à missão do peixinho vermelho.
Encantado com as descobertas do caminho infinito, realizadas depois de muitos conflitos no sofrimento, volve aos recôncavos da Crosta Terrestre, anunciando aos antigos companheiros que, além dos cubículos sem que se movimentam, resplandece outra vida, mais intensa e mais bela, exigindo, porém, acurado aprimoramento individual para a travessia da estreita passagem, de acesso às claridades da sublimação.
Fala, informa, prepara…
Há, contudo, muitos peixes humanos que sorriem e passam, entre a mordacidade e a indiferença, procurando locas passageiras ou pleiteando larvas temporárias.
Esperam um paraíso gratuito com milagrosos deslumbramentos depois da morte do corpo.
Mas, sem André Luiz e sem nós, humildes servidores de boa vontade, para todos os caminheiros da vida humana pronunciou o Pastor Divino as indeléveis palavras: – “A cada um será dado de acordo com as suas obras”.

Emmanuel
Extraído do livro “Libertação”
Chico Xavier/André Luiz

Senda de paz