O Espírito de João Huss

Paris, 14 de agosto de 1869
A opinião dos homens pode dispersar-se momentaneamente, mas a justiça de Deus, eterna e imutável, sabe recompensar, quando a justiça humana castiga, perdida pela iniquidade e pelo interesse pessoal. Apenas cinco séculos (um segundo na eternidade) se passaram desde o nascimento do obscuro e modesto trabalhador e já a glória humana, à qual ele não se prende mais, substituiu a sentença infamante e a morte ignominiosa, incapazes de abalar a firmeza de suas convicções.
Como és grande, meu Deus, e como é infinita a tua sabedoria! Sob o teu sopro poderoso minha morte tornou-se um instrumento de progresso. A mão que me feriu alcançou, com o mesmo golpe, os terríveis erros seculares de que se encharcou o espírito humano. Minha voz encontrou eco nos corações indignados pela injustiça de meus algozes, e meu sangue, derramado como um orvalho benfazejo sobre um solo generoso, fecundou e desenvolveu nos espíritos adiantados de meu tempo os princípios da eterna verdade. Eles compreenderam, refletiram, analisaram, trabalharam e, sobre bases informes, rudimentares das primeiras crenças liberais, edificaram, na sucessão das eras, doutrinas filosóficas verdadeiramente generosas, profundamente religiosas e eternamente progressivas.
Graças a eles, graças aos seus trabalhos perseverantes, o mundo sabe que João Huss viveu, sofreu e morreu por suas crenças; é muito, meu Deus, para os meus frágeis esforços, e meu espírito reabilitado tem dificuldade em resistir aos sentimentos de reconhecimento e de amor que o arrebatam. Reconhecer que se enganaram ao me condenar, era justiça; as homenagens e os testemunhos de simpatia com que me glorificam são excessivos para os meus fracos méritos.
O Espírito humano tem caminhado desde que o fogo consumiu meu corpo. Uma chama não mais destrutiva, mas regeneradora, abarca a Humanidade; seu contato purifica, seu calor faz crescer e vivifica. Nesse foco benfazejo vêm reanimar-se todos os feridos pela dor, todos os torturados pela provação da dúvida e da incredulidade. O sofredor se afasta consolado e forte; o indeciso, o incrédulo e o desesperado, cheios de ardor, de firmeza e de convicção, vêm engrossar o exército ativo e fecundo das falanges emancipadoras do futuro.
Aos que me pediam uma retratação, respondi que só renunciaria às minhas crenças diante de uma doutrina mais completa, mais satisfatória, mais verdadeira. Pois bem! Desde esse tempo meu Espírito se engrandeceu; encontrei algo melhor do que havia conquistado e, fiel aos meus princípios, repeli sucessivamente o que minhas antigas convicções tinham de errôneo, para acolher as verdades novas, mais largas, mais consentâneas com a ideia que eu fazia da natureza e dos atributos de Deus. Espírito, progredi no espaço; voltando à Terra, progredi também. Hoje, voltando novamente à pátria das almas, estou na fila da frente ao lado de todos os que, sob este ou aquele nome, marcham sincera e ativamente para a verdade e se dedicam, de coração e de espírito, ao desenvolvimento progressivo do espírito humano.
Obrigado a todos os que reverenciam em minha personalidade terrestre a memória de um defensor da verdade; obrigado, sobretudo, aos que sabem que, acima do homem há o Espírito, libertado pela morte dos entraves materiais, a inteligência livre que trabalha em acordo com as inteligências exiladas, a alma que gravita incessantemente para o centro de atração de todas as criações: o infinito, Deus!
João Huss

Comentário de Allan Kardec

Paris, 17 de agosto de 1869
Analisando, através das eras, a história da Humanidade, o filósofo e o pensador logo reconhecem, na origem e no desenvolvimento das civilizações, uma gradação sensível e contínua.
– De um conjunto homogêneo e bárbaro surge, em primeiro lugar, uma inteligência isolada, desconhecida e perseguida, mas que, não obstante, faz época e serve de baliza, de ponto de referência para o futuro.
– A tribo, ou se quiserdes, a nação, o Universo avança em idade e as balizas se multiplicam, semeando aqui e ali os princípios de verdade e de justiça que serão a partilha das gerações que chegam. Essas balizas esparsas são os precursores; eles semeiam uma ideia, desenvolvem-na durante sua vida terrena, vigiam-na e a protegem no estado de Espírito, e voltam periodicamente através dos séculos para trazerem seu concurso e sua atividade ao seu desenvolvimento.
Tal foi João Huss e tantos outros precursores da filosofia espírita.
Semearam, laboraram e fizeram a primeira colheita; depois voltaram para semear ainda, esperando que o futuro e a intervenção providencial viessem fecundar sua obra.
Feliz aquele que, do alto do espaço, pode contemplar as diversas etapas percorridas e os trabalhos realizados por amor à verdade e à justiça; o passado não lhe dá senão satisfação, e se suas tentativas foram incompletas e improdutivas no presente, se a perseguição e a ingratidão por vezes ainda vêm perturbar a sua tranquilidade, ele pressente as alegrias que lhe reserva o futuro.
Glória na Terra e nos espaços a todos os que consagraram a existência inteira ao desenvolvimento do espírito humano. Os séculos futuros os veneram e os mundos superiores lhes reservam a recompensa devida aos benfeitores da Humanidade.
João Huss encontrou no Espiritismo uma crença mais completa, mais satisfatória que suas doutrinas e o aceitou sem restrição. – Como ele, eu disse aos meus adversários e contraditores: “Fazei algo de melhor e me reunirei a vós.”
O progresso é a eterna lei dos mundos, mas jamais seremos ultrapassados por ele, porque, do mesmo modo que João Huss, sempre aceitaremos como nossos os princípios novos, lógicos e verdadeiros que cabe ao futuro nos revelar.
Allan Kardec

Homenagens a João Huss

“Seguem-se trinta assinaturas de membros do comitê, advogados, literatos, industriais.
“O apelo dos patriotas boêmios não poderia deixar de suscitar viva simpatia entre os amigos da liberdade.
“Um jornal de Praga tivera a desastrada ideia de propor uma petição ao futuro concílio para pedir a revisão do processo de João Huss. O Jornal Norodni Listy refutou com vigor esta estranha proposição, dizendo que a revisão se efetuara perante o tribunal da civilização e da História, que julga os papas e os concílios.
“A nação boêmia, acrescenta o Norodni, perseguiu esta revisão com a espada na mão, em cem batalhas, no dia seguinte mesmo da morte de João Huss.”
“A Folha Tcheca tem razão: João Huss não precisa ser reabilitado, assim como Joana d’Arc não precisa ser canonizada pelos sucessores dos bispos e doutores que os queimaram.
Por nosso lado, vimos juntar às homenagens prestadas à memória de João Huss o nosso testemunho de simpatia e de respeito pelos princípios de liberdade religiosa, de tolerância e de solidariedade que ele popularizou em vida. Esse espírito eminente, esse inovador convicto, tem direito à primeira fila entre os precursores da nossa consoladora filosofia. Como tantos outros, tinha a sua missão providencial, que realizou até o martírio, e sua morte, como sua vida, foi um dos mais eloquentes protestos contra a crença num Deus mesquinho e cruel, bem como aos ensinos rotineiros, que deviam ceder ante o despertar do espírito humano e o exame aprofundado das leis naturais.
Como todos os inovadores, João Huss foi incompreendido e perseguido; ele vinha corrigir abusos, modificar crenças que não mais podiam satisfazer às aspirações de sua época.

Revista Espírita, setembro de 1869

Precursores do Espiritismo – João Huss

Lemos no Siècle de 11 de julho de 1869:
Os quinhentos anos de João Huss
“Recentemente os jornais da Boêmia publicaram o seguinte apelo:
“Neste ano comemora-se o 500º aniversário de nascimento do grande reformador, do patriota e do sábio mestre João Huss. Esta data impõe, sobretudo ao povo boêmio, o dever de rememorar solenemente a época em que surgiu, em seu seio, o homem que tomara como objetivo de vida defender a liberdade de pensamento. Foi por esta ideia que ele viveu e sofreu; foi por esta ideia que ele morreu.
“Seu nascimento fez luzir a aurora da liberdade no horizonte do nosso país; suas obras espargiram a luz no mundo e, por sua morte na fogueira, a verdade recebeu o seu batismo de fogo!
“Estamos convictos de que temos não só as simpatias dos boêmios e dos eslavos, mas ainda a dos povos esclarecidos, e os convidamos a festejar a lembrança deste grande espírito, que teve a coragem de sustentar sua convicção diante de um mundo escravo dos preconceitos e que, ao eletrizar o povo boêmio, o tornou capaz de uma luta heroica que ficará gravada na História.
“Os séculos se escoaram; o progresso se realizou, as centelhas produziram chamas; a verdade penetrou milhões de corações. A luta prossegue, a nação pela qual o mártir imortal se sacrificou ainda não deixou o campo de batalha sobre o qual o havia chamado a palavra do mestre.
“Conjuramos todos os admiradores de João Huss a se reunirem em Praga, a fim de colherem, na lembrança dos sofrimentos do grande mártir, novas forças por meio de novos esforços.
“Será em Praga, no dia 4 de setembro próximo, e no dia 6, em Hussinecz, onde ele nasceu, que celebraremos a memória de João Huss.
“Nesses dias todos os patriotas virão atestar que a nação boêmia ainda honra o heroico campeão de seus direitos, e que jamais esquecerá o herói que a elevou à altura das ideias que são ainda o farol para o qual marcha a Humanidade!
“Nosso apelo também se dirige a todos os que, fora da Boêmia, amam a verdade e honram os que morreram por ela. Que venham a nós, e que todas as nações civilizadas se unam para, conosco, aclamarem o nome imperecível de João Huss!
“O presidente do comitê.”
Dr. Sladkowsky

Revista Espírita, setembro de 1869

A poltrona dos Antepassados

Foi-nos dito que, na casa de um escritor e poeta de grande renome, existe um uso que parecerá estranho a quem não seja Espírita. Na mesa da família há sempre uma poltrona vazia; essa cadeira é fechada por um cadeado, e nela ninguém se senta: é o lugar dos antepassados, dos avós e dos amigos que deixaram este mundo; está aí como um respeitoso testemunho de afeto, uma piedosa lembrança, um chamado à sua presença, e para dizer que vivem sempre no espírito dos sobreviventes.
A pessoa que nos citou este fato, como o tendo de boa fonte, acrescenta:
“Os Espíritas repelem com razão as coisas de pura forma; mas se há uma que possam adotar sem derrogar seus princípios, sem contradita, é esta.”
Seguramente, está aí um pensamento que jamais nascerá no cérebro de um materialista; ele não só atesta a ideia espiritualista, mas é eminentemente Espírita, e não nos surpreende de nenhum modo da parte de um homem que, sem arvorar abertamente a bandeira do Espiritismo, muitas vezes afirmou a sua crença nas verdades fundamentais que dele decorrem.
Há, nesse uso, alguma coisa de tocante, de patriarcal, e que impõe o respeito.
Quem, com efeito, ousaria pô-la em ridículo? Esta não é uma dessas fórmulas estéreis que nada dizem à alma: é a expressão de um sentimento que parte do coração, o sinal sensível do laço que une os presentes aos ausentes. Nessa cadeira, vazia em aparência, mas que o pensamento ocupa, está toda uma profissão de fé, e além disto, todo um ensinamento para os grandes, tanto quanto para os pequenos. Para as crianças, é uma eloquente lição, embora muda; e que não falta de deixar salutares impressões. Aqueles que forem educados nessas ideias jamais serão incrédulos, porque, mais tarde, a razão virá confirmar as crenças nas quais terão sido embalados.
A ideia da presença, ao seu redor, de seus avós ou de pessoas veneradas, será para eles um freio mais poderoso do que o medo do diabo.

Revista Espírita, setembro de 1868

Leia a História de Valéria, onde o Chico diz que no seu quarto tem sempre uma cadeira vazia, onde ele pede para os Espíritos sentarem.

Comentários sobre os Messias do Espiritismo

Tendo-nos sido endereçadas várias perguntas, a respeito das comunicações sobre os messias, publicadas no último número da Revista, julgamos dever completá-las por alguns desenvolvimentos que delas farão compreender melhor o sentido e a importância:
1° A primeira dessas comunicações, trazendo a recomendação de mantê-la em segredo até nova ordem, embora a mesma coisa fosse ensinada em diferentes regiões, senão quanto à forma e às circunstâncias do detalhe, pelo menos pelo fundo da ideia, se nos perguntou se os Espíritos, de um consentimento geral, tinham reconhecido a urgência desta publicação, o que teria um significado de uma certa gravidade.
A opinião da maioria dos Espíritos é um controle poderoso para o valor dos princípios da Doutrina, mas que não exclui o do julgamento e da razão, dos quais todos os Espíritos sérios recomendam, sem cessar, fazer uso. Quando o ensino se generaliza espontaneamente sobre uma questão num sentido determinado, é um indício certo de que essa questão chegou a seu tempo; mas a oportunidade, no caso de que se trata, não é uma questão de princípio, e não acreditamos dever esperar o aviso da maioria para esta publicação, desde que a utilidade disto nos foi demonstrada. Haveria puerilidade em crer que, fazendo abnegação de nossa iniciativa, não obedeceríamos, como instrumento passivo, senão a um pensamento que se nos impunha.
A ideia da vida de um ou de vários messias era quase geral, mas encarada sob pontos de vista mais ou menos errôneos, em consequência de detalhes contidos em certas comunicações, e de uma assimilação, muito literal, da parte de alguns, com as palavras do Evangelho sobre o mesmo assunto. Esses erros poderiam ter inconvenientes materiais cujos sintomas já se faziam sentir, importava, pois, não deixá-los se acreditarem; foi porque julgamos útil fazer conhecer o verdadeiro sentido no qual essa previsão era entendida pela maioria dos Espíritos, retificando assim, pelo ensino geral, o que o ensino isolado poderia ter de parcialmente defeituoso.
2° Foi dito que os messias do Espiritismo, vindo depois de sua constituição, seus papeis não seriam senão secundários, e perguntou-se se estava bem ali o caráter dos messias.
Aquele que Deus encarrega de uma missão pode vir com utilidade quando o objeto da missão já se realizou? Não seria como se o Cristo tivesse vindo depois do estabelecimento do cristianismo, ou como se o arquiteto encarregado da construção de uma casa chegasse quando a casa estivesse edificada?
A revelação espírita deveria se cumprir condições diferentes de suas mais velhas, porque as condições da Humanidade não são mais as mesmas. Sem retornar sobre o que foi dito a respeito dos caracteres desta revelação, lembramos que em lugar de ser individual, ela deveria ser coletiva, e inteiramente, ao mesmo tempo, o produto do ensino dos Espíritos e do trabalho inteligente do homem; ela não deveria ser localizada, mas tomar raiz simultaneamente sobre todos os pontos do globo. Esse trabalho se cumpre sob a direção dos grandes Espíritos que receberam missão de presidirá regeneração da Humanidade. Se não cooperam na obra como encarnados, não lhe dirigem menos os trabalhos como Espíritos, assim como disto vimos a prova. Seu papel de messias não é, pois, apagado, uma vez que o cumprem antes de sua encarnação, e não é senão maior.
Sua ação, como Espíritos, é mesmo mais eficaz, porque podem estendê-la por toda parte, ao passo que, como encarnados, ela é necessariamente circunscrita. Hoje eles fazem, como Espíritos, o que o Cristo fazia como homem: ensinam, mas pelos milhares de vozes da mediunidade; em seguida virão fazer, como homens, o que o Cristo não pôde fazer: instalar sua doutrina.
A instalação de uma doutrina chamada a regenerar o mundo não pode ser a obra de um dia, e a vida de um homem não bastaria para isto. É preciso, primeiro, elaborar os princípios, ou querendo-se, confeccionar o instrumento; depois desobstruir o terreno dos obstáculos e pôr as primeiras bases. Que fariam esses Espíritos sobre a Terra durante o trabalho, de alguma sorte material, da desobstrução? Sua vida se perderia na luta. Eles virão, com mais utilidade, quando a obra estiver elaborada e o terreno preparado; a eles, então, incumbirá colocar a última demão ao edifício e consolidá-lo; em uma palavra, fazer frutificar a árvore que tiver sido plantada. Mas, à espera disto, não estão inativos: dirigem os trabalhadores; a encarnação não será, pois, senão uma fase de sua missão. Só o Espiritismo poderia fazer compreender a cooperação dos Espíritos da erraticidade a uma obra terrestre.
3° Perguntou-se, além disso, se não haveria temor de que o anúncio desses messias não tentaria os ambiciosos, que se dariam pretensas missões, e realizariam esta predição: Haverá falsos cristos e falsos profetas?
A isto a resposta é muito simples; ela está inteiramente no capítulo XXI de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Lendo esse capítulo, ver-se-á que o papel dos falsos cristos não é tão fácil quanto se poderia supor, porque é aqui o caso de dizer que o hábito não faz o monge. Em todos os tempos, houve intrigantes que quiseram se fazer passar por aquilo que não eram; sem dúvida, eles podem imitar a forma exterior; mas, quando se trata de justificar o fundo, sucede com eles como ao asno, vestido com a pele do leão.
O bom senso diz que Deus não pode escolher seus messias entre os Espíritos vulgares, mas entre aqueles que são capazes de cumprir seus desígnios. Aquele que pretendesse ter recebido tal favor, deveria, pois, justificá-lo pela eminência de suas capacidades e de suas virtudes, e sua presunção seria o primeiro desmentido dado a essas mesmas virtudes. Que se diria de um mau poeta que se desse pelo príncipe dos poetas? Dar-se por cristo ou messias seria dizer-se o homem mais virtuoso do universo, e não se é virtuoso quando não se é modesto.
Simula-se, é verdade, a virtude pela hipocrisia; mas é uma coisa que desafia toda imitação: é o gênio, porque ele deve se afirmar por obras positivas; quanto à virtude de exibição, é uma comédia que não se pode desempenhar por muito tempo sem se trair. No primeiro lugar das qualidades morais que distinguem o verdadeiro missionário de Deus, é preciso colocar a humildade sincera, o devotamento sem limites e sem pensamento dissimulado, o desinteresse material e moral absoluto, a abnegação da personalidade, virtudes pelas quais não brilham nem os ambiciosos, nem os charlatães, que procuram antes de tudo a glória ou o proveito. Eles podem ter inteligência; e ela lhes é necessária para vencer pela intriga; mas não é essa inteligência que coloca o homem acima da Humanidade terrestre. Se o Cristo voltasse a se encarnar sobre a Terra, nela viria com todas as suas virtudes. Se, pois, alguém se desse por ele, deveria igualá-lo em tudo; uma única qualidade a menos bastaria para revelar a impostura.
Do mesmo modo que se reconhece a qualidade da árvore pelo seu fruto, reconhecem-se os verdadeiros messias pela qualidade de suas obras, e não pelas suas pretensões. Não serão eles que se proclamarão, porque talvez eles mesmos se ignoram; vários estiveram sobre a Terra, sem terem sido reconhecidos; é vendo o que foram e o que fizeram que os homens dirão, como disseram do Cristo: Aquele deve ser um messias.
Há cem pedras de toque para reconhecer os messias e os profetas de contrabando. A definição do caráter daqueles que são verdadeiros é antes feita para desencorajar os falsificadores do que para excitá-los a desempenhar um papel que não têm força para cumprir, e não lhes valeria senão dissabores. É, ao mesmo tempo, dar àqueles que tentassem abusar dos meios de evitar serem vítimas de seu embuste.
4° Algumas pessoas pareceram temer que a qualificação de messias não derramasse sobre a Doutrina Espírita um verniz de misticismo.
Para quem conhece a Doutrina, ela é, de um canto ao outro, um protesto contra o misticismo, uma vez que tende a conduzir todas as crenças para o terreno positivo das leis da Natureza. Mas, entre aqueles que não a conhecem, há pessoas para as quais tudo o que sai da Humanidade tangível é místico; para elas, adorar a Deus, orar, crer na Providência é ser místico. Não temos que nos preocupar com a sua opinião.
A palavra messias é empregada, pelo Espiritismo, em sua acepção literal de mensageiro, enviado, abstração feita da ideia de redenção e de mistério particular, aos cultos cristãos. O Espiritismo não tem que discutir esses dogmas que não são de sua alçada; ele diz o sentido no qual emprega esta palavra para evitar todo equívoco, deixando a cada um crer segundo sua consciência, que não procura perturbar.
Para o Espiritismo, pois, todo o Espírito encarnado tendo em vista cumprir uma missão especial junto à Humanidade, é um messias, na acepção geral da palavra, quer dizer, um missionário ou enviado, com esta diferença, no entanto, de que a palavra messias implica mais particularmente a ideia de uma missão direta da divindade, e, em consequência, a da superioridade do Espírito e da importância de sua missão; de onde se segue que há uma distinção a fazer entre os messias, propriamente ditos, e os Espíritos simples missionários. O que os distingue é que, para uns, a missão é ainda uma prova, porque podem nela falir, ao passo que para os outros é um atributo de sua superioridade.
Do ponto de vista da vida corpórea, os messias entram na categoria de encarnações comuns de Espíritos, e a palavra não tem nenhum caráter de misticidade.
Todas as grandes épocas de renovação viram aparecer messias encarregados de dar o impulso ao movimento regenerador e de dirigi-lo. A época atual, sendo a de uma dessas maiores transformações da Humanidade, terá também seus messias que já a presidem como Espíritos, e acabarão suas missões como encarnados. Sua vinda não será marcada por nenhum prodígio, e Deus, para fazê-los reconhecer, não perturbará a ordem das leis da Natureza.
Nenhum sinal extraordinário aparecerá no céu nem na Terra, e não serão vistos descendo das nuvens, acompanhados dos anjos. Eles nascerão, viverão e morrerão como o comum dos homens, e suas mortes não serão anunciadas ao mundo nem por tremores de terra, nem pelo escurecimento do sol; nenhum sinal exterior os distinguira, não mais do que o Cristo não foi distinguido dos outros homens durante sua vida. Nada, pois, os assinalará à atenção pública senão a grandeza de suas obras, a sublimidade de suas virtudes, e a parte ativa e fecunda que tomarão na fundação da nova ordem de coisas. A antiguidade pagã deles fez deuses; a história os colocará no Panteão dos grandes homens, dos homens de gênio, mas, sobretudo, entre os homens de bem, cuja posteridade honrará a memória.
Tais serão os messias do Espiritismo; grandes homens entre os homens, grandes Espíritos entre os Espíritos, eles marcarão sua passagem por prodígios da inteligência e da virtude, que atestam a verdadeira superioridade, bem mais do que a produção de efeitos materiais que qualquer um pode realizar. Este quadro um pouco prosaico fará, talvez, caírem algumas ilusões; mas será assim que as coisas se passarão, muito naturalmente, e os resultados não serão menos importantes, por isto, por não estar cercado das formas ideais e um tanto maravilhosas, das quais certas imaginações gostam de cercá-los.
Dissemos os messias, porque, com efeito, as previsões dos Espíritos anunciam que haverá vários deles, e que nada tem de admirar segundo o sentido dado a essa palavra, e em razão da grandeza da tarefa, uma vez que se trata, não do adiantamento de um povo ou de uma raça, mas da regeneração da Humanidade inteira. Quantos deles haverá? Uns dizem três, outros mais, o que prova que a coisa está nos segredos de Deus. Um deles terá a supremacia? É ainda o que pouco importa e o que seria mesmo perigoso saber antecipadamente.
A vinda do Messias, como fato geral, foi anunciada, porque era útil que dela se estivesse prevenido; é uma garantia do futuro e um motivo de tranquilidade, mas as individualidades não devem se revelar senão por seus atos. Se alguém deve proteger a infância de um deles, o fará inconscientemente, como para qualquer um; assisti-lo-á e o protegerá por pura caridade, sem para isto ser solicitado por um sentimento de orgulho, do qual não poderia, talvez, se defender, que se introduziria, com seu desconhecimento, em seu coração, e o faria perder o fruto de sua ação; seu devotamento não seria, talvez, tão desinteressado moralmente quanto ele mesmo pensasse.
A segurança do predestinado exige, além disso, que seja coberto com um véu impenetrável, porque ele terá seus Herodes; ora um segredo jamais é mais bem guardado do que quando não é conhecido de ninguém. Ninguém, pois, deve conhecer sua família, nem o lugar de seu nascimento, e os próprios Espíritos vulgares não o sabem. Nenhum anjo virá anunciar sua vinda à sua mãe, porque ela não deve fazer diferença entre ele e os outros filhos; os magos não virão adorá-lo em seu berço e oferecer-lhe o ouro e o incenso, porque ele não deve ser saudado senão quando tiver dado suas provas. Será protegido pelos invisíveis encarregados de velarem por ele, e conduzido à porta onde deve bater e o senhor da casa não conhecerá aquele que receberá em seu lar.
Falando do novo Messias, Jesus disse: Se alguém vos disser:
O Cristo está aqui ou está ali, não vades ali, porque ele ali não estará.
É preciso, pois, desconfiar das falsas indicações que têm por objetivo enganar tendo em vista fazê-lo procurar onde não está. Uma vez que não é permitido, aos Espíritos, revelar o que deve ficar em segredo, toda a comunicação circunstanciada sobre este ponto deve ser tida por suspeita, como uma prova para aquele que a recebe.
Pouco importa, pois, o número dos messias; só Deus sabe o que é necessário; mas, o que é indubitável, é que ao lado dos messias, propriamente ditos, os Espíritos superiores, em número ilimitado se encarnarão, ou já estão encarnados, com missões especiais para secundá-los. Ele surgirá em todas as classes, em todas as posições sociais, em todas as seitas e entre todos os povos; haverá deles nas ciências, nas artes, na literatura, na política, nos chefes de estado, enfim, por toda a parte onde sua influência poderá ser útil para a difusão das ideias novas, e às reformas que lhes serão a consequência. A autoridade de sua palavra será tanto maior quanto ela estiver fundada sobre a estima e a consideração das quais estiverem cercados.
Mas, dir-se-á, nessa multidão de missionários de todas as classes, como distinguires messias? Que importa que sejam distinguidos ou não! Eles não vêm na Terra para nela se fazer adorar, nem para receberem as homenagens dos homens. Eles não levarão, pois, nenhum sinal sobre a fronte; mas do mesmo modo que pela obra se reconhece o obreiro, dir-se-á depois de sua partida: Aquele que fez mais bem deve ser o maior.
Sendo o Espiritismo o principal elemento regenerador, importava que um instrumento estivesse pronto quando viessem aqueles que deverão deles se servir. É o trabalho que se realiza neste momento e que os precede um pouco; mas é preciso que a grade tenha passado antes sobre a terra para purgá-la das ervas parasitas que abafam o bom grão.
Será o século vinte, sobretudo, que poderá ser chamado o século dos messias.
Então, a antiga geração terá desaparecido, e a nova estará em toda a sua força; a Humanidade isenta de suas convulsões, formada de elementos novos e regenerados, entrará definitivamente e pacificamente na fase do progresso moral, que deve elevar a Terra na hierarquia dos mundos.

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Clélie Duplantier – Os Messias do Espiritismo

A sociedade em geral, ou, melhor dizendo, a reunião de seres, tanto encarnados quanto desencarnados, que compõem a população flutuante de um mundo, em uma palavra, uma Humanidade, não é outra senão uma grande criança coletiva que, como todo ser dotado de vida, passa por todas as fases que se sucedem em cada um, desde o nascimento até a idade mais avançada; e, do mesmo modo que o desenvolvimento do indivíduo é acompanhado de certas perturbações físicas e intelectuais que incumbem, mais particularmente, em certos períodos da vida, a Humanidade tem suas doenças de crescimento, seus transtornos morais e intelectuais.
É a uma dessas grandes épocas, que terminam um período e que começam outro, a que vos é dado assistir. Participando, ao mesmo tempo, das coisas do passado e as do futuro, aos sistemas que se desmoronam e às verdades que se fundem, tende cuidado, meus amigos, de vos colocar ao lado da solidez, do progresso e da lógica, se não quereis ser arrastados à deriva; e abandonar os palácios suntuosos quanto à aparência, mas vacilantes pela base, e que enterrarão logo sob suas ruínas os infelizes bastante insensatos para não querer sair deles, apesar das advertências de toda natureza que lhes são prodigalizadas.
Todas as frontes se entristecem e a calma aparente, que julgais gozar, não serve senão para acumular um maior número de elementos destruidores.
Algumas vezes, a tempestade que destrói o fruto dos suores de um ano é precedida de precursores que permitem tomar as precauções necessárias para evitar, tanto quanto possível, a devastação. Desta vez, isso não será assim. O céu ensombrado parecerá clarear; as nuvens fugirão; depois, de repente, todos os furores por muito tempo comprimidos desencadear-se-ão com uma violência estranha.
Infelizes daqueles que não tiverem preparado um abrigo! Infelizes dos fanfarrões que irão ao perigo com o braço desarmado e o peito descoberto! Infelizes daqueles que afrontarão o perigo com a taça à mão! Que decepção terrível os espera! A taça presa em sua mão não chegará aos seus lábios, que serão feridos!
À obra, pois, Espíritas, e não vos esqueçais de que devereis ser todo prudência e todo previdência. Tendes um escudo, sabei dele servir-vos; uma âncora de salvação, não a negligencieis.
Clélie Duplantier, Paris 1867

Revista Espírita, fevereiro de 1868

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O Julgamento Final

Jesus virá sobre as nuvens para julgar os vivos e os mortos. Sim, Deus o enviará, como o envia todos os dias, para dar essa justiça soberana nas planícies imensas do éter.
Ah! Quando São Tiago foi precipitado do alto da torre do templo de Jerusalém, pelos pontífices e pelos fariseus, por ter anunciado, ao povo reunido, essa verdade ensinada pelo Cristo e seus apóstolos, lembrai-vos de que, a essa palavra do justo, a multidão se prosterna exclamando:
Glória a Jesus, filho de Deus, no mais alto dos Céus!
Ele virá sobre as nuvens em terrível reunião plenária: não é para vos dizer, ó Espíritas, que ele venha perpetuamente receber as almas daqueles que entram na erraticidade? Passai à minha direita, diz às suas ovelhas o pastor, vós que bem agistes segundo as vistas de meu Pai, passai à minha direita e subi até ele; quanto a vós que vos deixastes dominar pelas paixões da Terra passai à minha esquerda, estais condenados.
Sim, estais condenados a recomeçar o caminho percorrido, numa nova existência terrestre, até que estejais saciados de matérias e de iniquidades, e que, enfim, tenhais expulsado o impuro que vos domina. Sim, estais condenados; ide e retornai, pois, ao inferno da vida humana, enquanto que vossos irmãos da mão direita vão se lançar para as esferas superiores, de onde as paixões da Terra estão excluídas, até o dia em que entrarão no reino de meu Pai para uma maior purificação.
Sim, Jesus virá julgar os vivos e os mortos; os vivos: os justos, os de sua direita; os mortos: os impuros, os de sua esquerda; e quando as asas empurrarem os justos, a matéria se apoderará ainda dos impuros; e isto, até que estes saiam vencedores dos combates contra a impureza, e se despojem, enfim, para sempre, de suas crisálidas humanas.
Ó Espíritas! Vedes que vossa doutrina é a única que consola, a única que dá a esperança, e não condenando a uma condenação eterna os infelizes que se comportaram mal durante alguns minutos da eternidade; a única, enfim, que prediz o fim verdadeiro da Terra pela elevação gradual dos Espíritos.
Progredi, pois, despojando o velho homem, para entrar na região dos Espíritos amados por Deus.
Erasto, Paris 1861

Revista Espírita, fevereiro de 1868