Paulo de Tarso II

…Logo, porém, que se fizeram ao mar alto, rumo a Fênix, um furacão imprevisto caiu de súbito. De nada valeram providências improvisadas.
Decorridos catorze dias de cerração e tormenta, o barco alexandrino atingiu a Ilha de Malta. Os presos que sabiam nadar atiraram-se à água corajosamente; os demais se agarravam ao botes improvisados, buscando a praia.
Os naturais da Ilha, bem como os poucos romanos que lá residiam a serviço da administração, acolheram os náufragos com simpatia; mas por numerosos, não havia acomodação para todos. Frio intenso enregelava os mais resistentes. Paulo, todavia, dando mostras do seu valor e experiência em afrontar intempéries, tratou de dar o exemplo aos mais abatidos, para que se fizesse fogo, sem demora. Grandes fogueiras foram acesas rapidamente , mas, quando o Apóstolo atirava um feixe de ramos secos à labareda crepitante, uma víbora cravou-lhe nas mãos os dentes venenosos. O ex-rabino susteve-a no ar com gesto sereno, até que ela caísse nas chamas, com estupefação geral.
Lucas e Timóteo aproximaram-se aflitos. O chefe da coorte e alguns amigos estavam desolados. É que os naturais da Ilha, observando o fato, davam alarme, asseverando que o réptil era dos mais venenosos da região, e que as vítimas não sobreviviam mais do que horas.
Os indígenas, impressionados, afastavam-se discretamente. Outros, assustadiços, afirmavam:
– Este homem deve ser um grande criminoso, pois, salvando-se das ondas bravias, veio encontrar aqui o castigo dos deuses. Não eram poucos os que aguardavam a morte do Apóstolo; ele, no entanto, aquecendo-se como lhe era possível, observava a expressão fisionômica de cada um e orava com fervor. Diante do prognóstico dos nativos da Ilha, Timóteo aproximou-se, mais intimamente, e buscou cientificá-lo do que diziam a seu respeito.
O ex-rabino sorriu e murmurou:
– Não te impressiones. As opiniões do vulgo são muito inconsistentes, disso tenho experiência própria. Estejamos atentos aos nossos deveres, porque a ignorância sempre está pronta a transitar da maldição ao elogio e vice-versa. É bem possível que daqui a algumas horas me considerem um deus. Com efeito, quando viram que ele não acusara nem mesmo a mais leve impressão de dor, os indígenas passaram a observá-lo com entidade sobrenatural. Já que se mantivera indene ao veneno da víbora, não poderia ser um homem comum, antes algum enviado do Olimpo, a que todos deveriam obedecer.

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