Voa Além

Não te prendas ao barro, alma erradia…
Célere, ascende à luz, de esfera a esfera,
Foge ao lodo abismal que anseios gera
Paga a ilusão que sofre, chora e expia.

Não vale a glória efêmera do dia:
O gládio do sepulcro dilacera
Toda flor venenosa da quimera
Na haste frágil de imbele fantasia.

Que paixões e vilezas te não domem,
Despreza a sombra que escraviza o homem
A vis grilhões no vale tredo e fundo…

Voa além da miséria que te arrasta,
Porque terás, bem cedo, por madrasta,
A morte horrenda que governa o mundo.

Luiz Guimarães

Ânsia Inútil

Luiz Delfino dos Santos
Luiz Delfino dos Santos

Regressando, encantado, de outras rotas
Em que a vida sublime se retrata,
Quisera repetir a serenata
Dos sóis, marcando sublimadas notas.

Ah! se eu pudesse descrever as frotas
Dos mundos de ouro pelos céus de prata
E o turbilhão da luz que se desata
De resplendentes amplidões remotas!…

Mas, singela e sombria, a lira estala,
Estraçalha-se o plectro da fala,
Embora o anseio que se me agiganta…

E, no incêndio que lavra no meu peito,
Somente encontro inútil verbo estreito
Que me estrangula as cordas da garganta.
Luiz Delfino dos Santos