Comentários sobre os Messias do Espiritismo

Tendo-nos sido endereçadas várias perguntas, a respeito das comunicações sobre os messias, publicadas no último número da Revista, julgamos dever completá-las por alguns desenvolvimentos que delas farão compreender melhor o sentido e a importância:
1° A primeira dessas comunicações, trazendo a recomendação de mantê-la em segredo até nova ordem, embora a mesma coisa fosse ensinada em diferentes regiões, senão quanto à forma e às circunstâncias do detalhe, pelo menos pelo fundo da ideia, se nos perguntou se os Espíritos, de um consentimento geral, tinham reconhecido a urgência desta publicação, o que teria um significado de uma certa gravidade.
A opinião da maioria dos Espíritos é um controle poderoso para o valor dos princípios da Doutrina, mas que não exclui o do julgamento e da razão, dos quais todos os Espíritos sérios recomendam, sem cessar, fazer uso. Quando o ensino se generaliza espontaneamente sobre uma questão num sentido determinado, é um indício certo de que essa questão chegou a seu tempo; mas a oportunidade, no caso de que se trata, não é uma questão de princípio, e não acreditamos dever esperar o aviso da maioria para esta publicação, desde que a utilidade disto nos foi demonstrada. Haveria puerilidade em crer que, fazendo abnegação de nossa iniciativa, não obedeceríamos, como instrumento passivo, senão a um pensamento que se nos impunha.
A ideia da vida de um ou de vários messias era quase geral, mas encarada sob pontos de vista mais ou menos errôneos, em consequência de detalhes contidos em certas comunicações, e de uma assimilação, muito literal, da parte de alguns, com as palavras do Evangelho sobre o mesmo assunto. Esses erros poderiam ter inconvenientes materiais cujos sintomas já se faziam sentir, importava, pois, não deixá-los se acreditarem; foi porque julgamos útil fazer conhecer o verdadeiro sentido no qual essa previsão era entendida pela maioria dos Espíritos, retificando assim, pelo ensino geral, o que o ensino isolado poderia ter de parcialmente defeituoso.
2° Foi dito que os messias do Espiritismo, vindo depois de sua constituição, seus papeis não seriam senão secundários, e perguntou-se se estava bem ali o caráter dos messias.
Aquele que Deus encarrega de uma missão pode vir com utilidade quando o objeto da missão já se realizou? Não seria como se o Cristo tivesse vindo depois do estabelecimento do cristianismo, ou como se o arquiteto encarregado da construção de uma casa chegasse quando a casa estivesse edificada?
A revelação espírita deveria se cumprir condições diferentes de suas mais velhas, porque as condições da Humanidade não são mais as mesmas. Sem retornar sobre o que foi dito a respeito dos caracteres desta revelação, lembramos que em lugar de ser individual, ela deveria ser coletiva, e inteiramente, ao mesmo tempo, o produto do ensino dos Espíritos e do trabalho inteligente do homem; ela não deveria ser localizada, mas tomar raiz simultaneamente sobre todos os pontos do globo. Esse trabalho se cumpre sob a direção dos grandes Espíritos que receberam missão de presidirá regeneração da Humanidade. Se não cooperam na obra como encarnados, não lhe dirigem menos os trabalhos como Espíritos, assim como disto vimos a prova. Seu papel de messias não é, pois, apagado, uma vez que o cumprem antes de sua encarnação, e não é senão maior.
Sua ação, como Espíritos, é mesmo mais eficaz, porque podem estendê-la por toda parte, ao passo que, como encarnados, ela é necessariamente circunscrita. Hoje eles fazem, como Espíritos, o que o Cristo fazia como homem: ensinam, mas pelos milhares de vozes da mediunidade; em seguida virão fazer, como homens, o que o Cristo não pôde fazer: instalar sua doutrina.
A instalação de uma doutrina chamada a regenerar o mundo não pode ser a obra de um dia, e a vida de um homem não bastaria para isto. É preciso, primeiro, elaborar os princípios, ou querendo-se, confeccionar o instrumento; depois desobstruir o terreno dos obstáculos e pôr as primeiras bases. Que fariam esses Espíritos sobre a Terra durante o trabalho, de alguma sorte material, da desobstrução? Sua vida se perderia na luta. Eles virão, com mais utilidade, quando a obra estiver elaborada e o terreno preparado; a eles, então, incumbirá colocar a última demão ao edifício e consolidá-lo; em uma palavra, fazer frutificar a árvore que tiver sido plantada. Mas, à espera disto, não estão inativos: dirigem os trabalhadores; a encarnação não será, pois, senão uma fase de sua missão. Só o Espiritismo poderia fazer compreender a cooperação dos Espíritos da erraticidade a uma obra terrestre.
3° Perguntou-se, além disso, se não haveria temor de que o anúncio desses messias não tentaria os ambiciosos, que se dariam pretensas missões, e realizariam esta predição: Haverá falsos cristos e falsos profetas?
A isto a resposta é muito simples; ela está inteiramente no capítulo XXI de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Lendo esse capítulo, ver-se-á que o papel dos falsos cristos não é tão fácil quanto se poderia supor, porque é aqui o caso de dizer que o hábito não faz o monge. Em todos os tempos, houve intrigantes que quiseram se fazer passar por aquilo que não eram; sem dúvida, eles podem imitar a forma exterior; mas, quando se trata de justificar o fundo, sucede com eles como ao asno, vestido com a pele do leão.
O bom senso diz que Deus não pode escolher seus messias entre os Espíritos vulgares, mas entre aqueles que são capazes de cumprir seus desígnios. Aquele que pretendesse ter recebido tal favor, deveria, pois, justificá-lo pela eminência de suas capacidades e de suas virtudes, e sua presunção seria o primeiro desmentido dado a essas mesmas virtudes. Que se diria de um mau poeta que se desse pelo príncipe dos poetas? Dar-se por cristo ou messias seria dizer-se o homem mais virtuoso do universo, e não se é virtuoso quando não se é modesto.
Simula-se, é verdade, a virtude pela hipocrisia; mas é uma coisa que desafia toda imitação: é o gênio, porque ele deve se afirmar por obras positivas; quanto à virtude de exibição, é uma comédia que não se pode desempenhar por muito tempo sem se trair. No primeiro lugar das qualidades morais que distinguem o verdadeiro missionário de Deus, é preciso colocar a humildade sincera, o devotamento sem limites e sem pensamento dissimulado, o desinteresse material e moral absoluto, a abnegação da personalidade, virtudes pelas quais não brilham nem os ambiciosos, nem os charlatães, que procuram antes de tudo a glória ou o proveito. Eles podem ter inteligência; e ela lhes é necessária para vencer pela intriga; mas não é essa inteligência que coloca o homem acima da Humanidade terrestre. Se o Cristo voltasse a se encarnar sobre a Terra, nela viria com todas as suas virtudes. Se, pois, alguém se desse por ele, deveria igualá-lo em tudo; uma única qualidade a menos bastaria para revelar a impostura.
Do mesmo modo que se reconhece a qualidade da árvore pelo seu fruto, reconhecem-se os verdadeiros messias pela qualidade de suas obras, e não pelas suas pretensões. Não serão eles que se proclamarão, porque talvez eles mesmos se ignoram; vários estiveram sobre a Terra, sem terem sido reconhecidos; é vendo o que foram e o que fizeram que os homens dirão, como disseram do Cristo: Aquele deve ser um messias.
Há cem pedras de toque para reconhecer os messias e os profetas de contrabando. A definição do caráter daqueles que são verdadeiros é antes feita para desencorajar os falsificadores do que para excitá-los a desempenhar um papel que não têm força para cumprir, e não lhes valeria senão dissabores. É, ao mesmo tempo, dar àqueles que tentassem abusar dos meios de evitar serem vítimas de seu embuste.
4° Algumas pessoas pareceram temer que a qualificação de messias não derramasse sobre a Doutrina Espírita um verniz de misticismo.
Para quem conhece a Doutrina, ela é, de um canto ao outro, um protesto contra o misticismo, uma vez que tende a conduzir todas as crenças para o terreno positivo das leis da Natureza. Mas, entre aqueles que não a conhecem, há pessoas para as quais tudo o que sai da Humanidade tangível é místico; para elas, adorar a Deus, orar, crer na Providência é ser místico. Não temos que nos preocupar com a sua opinião.
A palavra messias é empregada, pelo Espiritismo, em sua acepção literal de mensageiro, enviado, abstração feita da ideia de redenção e de mistério particular, aos cultos cristãos. O Espiritismo não tem que discutir esses dogmas que não são de sua alçada; ele diz o sentido no qual emprega esta palavra para evitar todo equívoco, deixando a cada um crer segundo sua consciência, que não procura perturbar.
Para o Espiritismo, pois, todo o Espírito encarnado tendo em vista cumprir uma missão especial junto à Humanidade, é um messias, na acepção geral da palavra, quer dizer, um missionário ou enviado, com esta diferença, no entanto, de que a palavra messias implica mais particularmente a ideia de uma missão direta da divindade, e, em consequência, a da superioridade do Espírito e da importância de sua missão; de onde se segue que há uma distinção a fazer entre os messias, propriamente ditos, e os Espíritos simples missionários. O que os distingue é que, para uns, a missão é ainda uma prova, porque podem nela falir, ao passo que para os outros é um atributo de sua superioridade.
Do ponto de vista da vida corpórea, os messias entram na categoria de encarnações comuns de Espíritos, e a palavra não tem nenhum caráter de misticidade.
Todas as grandes épocas de renovação viram aparecer messias encarregados de dar o impulso ao movimento regenerador e de dirigi-lo. A época atual, sendo a de uma dessas maiores transformações da Humanidade, terá também seus messias que já a presidem como Espíritos, e acabarão suas missões como encarnados. Sua vinda não será marcada por nenhum prodígio, e Deus, para fazê-los reconhecer, não perturbará a ordem das leis da Natureza.
Nenhum sinal extraordinário aparecerá no céu nem na Terra, e não serão vistos descendo das nuvens, acompanhados dos anjos. Eles nascerão, viverão e morrerão como o comum dos homens, e suas mortes não serão anunciadas ao mundo nem por tremores de terra, nem pelo escurecimento do sol; nenhum sinal exterior os distinguira, não mais do que o Cristo não foi distinguido dos outros homens durante sua vida. Nada, pois, os assinalará à atenção pública senão a grandeza de suas obras, a sublimidade de suas virtudes, e a parte ativa e fecunda que tomarão na fundação da nova ordem de coisas. A antiguidade pagã deles fez deuses; a história os colocará no Panteão dos grandes homens, dos homens de gênio, mas, sobretudo, entre os homens de bem, cuja posteridade honrará a memória.
Tais serão os messias do Espiritismo; grandes homens entre os homens, grandes Espíritos entre os Espíritos, eles marcarão sua passagem por prodígios da inteligência e da virtude, que atestam a verdadeira superioridade, bem mais do que a produção de efeitos materiais que qualquer um pode realizar. Este quadro um pouco prosaico fará, talvez, caírem algumas ilusões; mas será assim que as coisas se passarão, muito naturalmente, e os resultados não serão menos importantes, por isto, por não estar cercado das formas ideais e um tanto maravilhosas, das quais certas imaginações gostam de cercá-los.
Dissemos os messias, porque, com efeito, as previsões dos Espíritos anunciam que haverá vários deles, e que nada tem de admirar segundo o sentido dado a essa palavra, e em razão da grandeza da tarefa, uma vez que se trata, não do adiantamento de um povo ou de uma raça, mas da regeneração da Humanidade inteira. Quantos deles haverá? Uns dizem três, outros mais, o que prova que a coisa está nos segredos de Deus. Um deles terá a supremacia? É ainda o que pouco importa e o que seria mesmo perigoso saber antecipadamente.
A vinda do Messias, como fato geral, foi anunciada, porque era útil que dela se estivesse prevenido; é uma garantia do futuro e um motivo de tranquilidade, mas as individualidades não devem se revelar senão por seus atos. Se alguém deve proteger a infância de um deles, o fará inconscientemente, como para qualquer um; assisti-lo-á e o protegerá por pura caridade, sem para isto ser solicitado por um sentimento de orgulho, do qual não poderia, talvez, se defender, que se introduziria, com seu desconhecimento, em seu coração, e o faria perder o fruto de sua ação; seu devotamento não seria, talvez, tão desinteressado moralmente quanto ele mesmo pensasse.
A segurança do predestinado exige, além disso, que seja coberto com um véu impenetrável, porque ele terá seus Herodes; ora um segredo jamais é mais bem guardado do que quando não é conhecido de ninguém. Ninguém, pois, deve conhecer sua família, nem o lugar de seu nascimento, e os próprios Espíritos vulgares não o sabem. Nenhum anjo virá anunciar sua vinda à sua mãe, porque ela não deve fazer diferença entre ele e os outros filhos; os magos não virão adorá-lo em seu berço e oferecer-lhe o ouro e o incenso, porque ele não deve ser saudado senão quando tiver dado suas provas. Será protegido pelos invisíveis encarregados de velarem por ele, e conduzido à porta onde deve bater e o senhor da casa não conhecerá aquele que receberá em seu lar.
Falando do novo Messias, Jesus disse: Se alguém vos disser:
O Cristo está aqui ou está ali, não vades ali, porque ele ali não estará.
É preciso, pois, desconfiar das falsas indicações que têm por objetivo enganar tendo em vista fazê-lo procurar onde não está. Uma vez que não é permitido, aos Espíritos, revelar o que deve ficar em segredo, toda a comunicação circunstanciada sobre este ponto deve ser tida por suspeita, como uma prova para aquele que a recebe.
Pouco importa, pois, o número dos messias; só Deus sabe o que é necessário; mas, o que é indubitável, é que ao lado dos messias, propriamente ditos, os Espíritos superiores, em número ilimitado se encarnarão, ou já estão encarnados, com missões especiais para secundá-los. Ele surgirá em todas as classes, em todas as posições sociais, em todas as seitas e entre todos os povos; haverá deles nas ciências, nas artes, na literatura, na política, nos chefes de estado, enfim, por toda a parte onde sua influência poderá ser útil para a difusão das ideias novas, e às reformas que lhes serão a consequência. A autoridade de sua palavra será tanto maior quanto ela estiver fundada sobre a estima e a consideração das quais estiverem cercados.
Mas, dir-se-á, nessa multidão de missionários de todas as classes, como distinguires messias? Que importa que sejam distinguidos ou não! Eles não vêm na Terra para nela se fazer adorar, nem para receberem as homenagens dos homens. Eles não levarão, pois, nenhum sinal sobre a fronte; mas do mesmo modo que pela obra se reconhece o obreiro, dir-se-á depois de sua partida: Aquele que fez mais bem deve ser o maior.
Sendo o Espiritismo o principal elemento regenerador, importava que um instrumento estivesse pronto quando viessem aqueles que deverão deles se servir. É o trabalho que se realiza neste momento e que os precede um pouco; mas é preciso que a grade tenha passado antes sobre a terra para purgá-la das ervas parasitas que abafam o bom grão.
Será o século vinte, sobretudo, que poderá ser chamado o século dos messias.
Então, a antiga geração terá desaparecido, e a nova estará em toda a sua força; a Humanidade isenta de suas convulsões, formada de elementos novos e regenerados, entrará definitivamente e pacificamente na fase do progresso moral, que deve elevar a Terra na hierarquia dos mundos.

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Por Jose Valim

Meu nome é José Valim, tenho 80 anos, e o meu objetivo é a divulgação da Doutrina Espírita Cristã.

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